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01 Jul 2007

Mônica Não Convence

Escrito por 
Mônica não convence. Se aceitou o assédio de um homenzinho vulgar e mentiroso é porque o merece. Pergunta a quem interessar possa: quem recebe dinheiro sujo não deveria devolvê-lo?

Ontem, todo-poderoso presidente do Senado, terceiro sucessor presidencial, em caso de impedimento ou vacância do cargo de presidente da República. Hoje, um pobre diabo emendando uma mentira na outra para preservar seu status. Nada de surpreendente em um país onde quem não mente não se elege. Até aí, estamos dentro da normalidade. Se alguém conhece um deputado ou senador que conseguiu eleger-se sem mentir, favor comunicar-me. Eu não conheço.

Embora o que esteja em jogo sejam as relações escusas com um lobista, o pivô de toda a história é uma infidelidade conjugal. Para manter um relação equilibrada entre Perpétua e a Outra, o todo-poderoso presidente do Senado, ao que tudo indica, pediu socorro a uma empreiteira para pagar os custos da Outra. Tudo isto na surdina, até o dia em que a pensão minguou e a Outra resolveu botar a boca no trombone. Palavra puxa palavra, mentira puxa mentira, e o senador se revelou como mais um dos tantos corruptos que fazem fortuna na política.

A Veja desta semana mostra, em um gráfico arrasador, a evolução do patrimônio do senador. Em 1978, quando deputado federal, era de 26 mil reais e um Wolkswagen. Em 2002, senador reeleito, tem 1,6 milhão de reais, uma casa e um flat em Brasília, um apartamento em Maceió, uma caminhonete Toyota e outra Mitsubishi. No ano seguinte, como líder do PMDB no Senado, seu patrimônio evolui misteriosamente para 6,3 milhões de reais. De repente, não mais que de repente, surgem em suas posses 1278 cabeças de gado. Em 2005, como presidente do Senado, seus bens alcançam a cifra de 9,5 milhões de reais. Em 2006, 9,8 milhões.

No espaço de cinco anos, o senador multiplica por seis suas posses. Em 2007, para justificar a pensão paga à Outra, o senador apresenta uma contabilidade fajuta que só o enreda cada vez mais. É espantoso constatar que a Receita Federal, que intima contribuintes para justificar o recebimento até mesmo de duas ou três mil merrecas não justificadas nas declarações de IR, não tenha observado nada de anormal na evolução miraculosa do patrimônio do senador. Se Renan Calheiros chegou até seus 9,8 milhões impunemente, é porque contava com a cumplicidade do fisco.

Mas isto é o de menos. Vamos à Outra. A tendência da imprensa é ver Mônica Veloso como uma jornalista ingênua que caiu nas manhas de um político ardiloso. Ora, não é bem assim. Jornalista que aceita dinheiro pago por fora como pensão deve pelo menos suspeitar que esse dinheiro é sujo. Mais ainda quando aceita um pacote de cem mil reais em dinheiro vivo. Em entrevista à Folha de São Paulo deste domingo, diz Mônica: "quando você tem um relacionamento com um homem e vocês têm um filho, você não vai ficar questionando se o pagamento de sua pensão é ou não em espécie". Ora, jornalista que recebe cem mil reais em espécie, ou sabe que está recebendo dinheiro ilícito ou não é jornalista. Jornalista pode ser tudo, menos ingênuo. Pode ser até corrupto. Mas ingenuidade não é coisa de quem lida com informação.

Mônica diz ainda que a "sociedade, em geral, tende a recriminar" mulheres com casos extraconjugais. Não é verdade. Isto faz parte dos costumes contemporâneos. Se alguém merece a reprovação pública é a panaca da Perpétua, que aceita passivamente a condição de mulher secundária.

Mônica afirma que amou o peemedebista, "amei, amei muito". E aqui já cabe uma primeira pergunta: pode alguém amar um peemedebista? Se ama, é porque ama a mentira. Diz a moça que os dois nunca procuraram se esconder e que, no início, Renan dizia que estava separado. Ora, bastava que a jornalista fosse às fontes competentes - como se faz em sua profissão - para saber que o senador mentia. Bastaria um telefonema à sua casa. Ou terá achado normal relacionar-se com alguém durante três anos com a condição de jamais chamá-lo em sua própria casa?

"Soit belle et tais-toi", dizem os franceses. Seja bela e cale a boca. É o que melhor teria feito Mônica. Em vez disso, preferiu abrir a boca. Revelou-se como um personagem à altura do pequeno Renan Calheiros. Interrogada sobre sua religião, disse: "Evangélica, batista, da Vale do Amanhecer". Ora, jornalista que dá crédito àquele caldo místico que borbulha na geografia fétida de Brasília não merece crédito algum. E é óbvio que nenhuma crença evangélica vai abençoar relações com senhores casados.

Mônica não convence. Se aceitou o assédio de um homenzinho vulgar e mentiroso é porque o merece. Pergunta a quem interessar possa: quem recebe dinheiro sujo não deveria devolvê-lo?

Ontem, todo-poderoso presidente do Senado, terceiro sucessor presidencial, em caso de impedimento ou vacância do cargo de presidente da República. Hoje, um pobre diabo emendando uma mentira na outra para preservar seu status. Nada de surpreendente em um país onde quem não mente não se elege. Até aí, estamos dentro da normalidade. Se alguém conhece um deputado ou senador que conseguiu eleger-se sem mentir, favor comunicar-me. Eu não conheço.

Embora o que esteja em jogo sejam as relações escusas com um lobista, o pivô de toda a história é uma infidelidade conjugal. Para manter um relação equilibrada entre Perpétua e a Outra, o todo-poderoso presidente do Senado, ao que tudo indica, pediu socorro a uma empreiteira para pagar os custos da Outra. Tudo isto na surdina, até o dia em que a pensão minguou e a Outra resolveu botar a boca no trombone. Palavra puxa palavra, mentira puxa mentira, e o senador se revelou como mais um dos tantos corruptos que fazem fortuna na política.

A Veja desta semana mostra, em um gráfico arrasador, a evolução do patrimônio do senador. Em 1978, quando deputado federal, era de 26 mil reais e um Wolkswagen. Em 2002, senador reeleito, tem 1,6 milhão de reais, uma casa e um flat em Brasília, um apartamento em Maceió, uma caminhonete Toyota e outra Mitsubishi. No ano seguinte, como líder do PMDB no Senado, seu patrimônio evolui misteriosamente para 6,3 milhões de reais. De repente, não mais que de repente, surgem em suas posses 1278 cabeças de gado. Em 2005, como presidente do Senado, seus bens alcançam a cifra de 9,5 milhões de reais. Em 2006, 9,8 milhões.

No espaço de cinco anos, o senador multiplica por seis suas posses. Em 2007, para justificar a pensão paga à Outra, o senador apresenta uma contabilidade fajuta que só o enreda cada vez mais. É espantoso constatar que a Receita Federal, que intima contribuintes para justificar o recebimento até mesmo de duas ou três mil merrecas não justificadas nas declarações de IR, não tenha observado nada de anormal na evolução miraculosa do patrimônio do senador. Se Renan Calheiros chegou até seus 9,8 milhões impunemente, é porque contava com a cumplicidade do fisco.

Mas isto é o de menos. Vamos à Outra. A tendência da imprensa é ver Mônica Veloso como uma jornalista ingênua que caiu nas manhas de um político ardiloso. Ora, não é bem assim. Jornalista que aceita dinheiro pago por fora como pensão deve pelo menos suspeitar que esse dinheiro é sujo. Mais ainda quando aceita um pacote de cem mil reais em dinheiro vivo. Em entrevista à Folha de São Paulo deste domingo, diz Mônica: "quando você tem um relacionamento com um homem e vocês têm um filho, você não vai ficar questionando se o pagamento de sua pensão é ou não em espécie". Ora, jornalista que recebe cem mil reais em espécie, ou sabe que está recebendo dinheiro ilícito ou não é jornalista. Jornalista pode ser tudo, menos ingênuo. Pode ser até corrupto. Mas ingenuidade não é coisa de quem lida com informação.

Mônica diz ainda que a "sociedade, em geral, tende a recriminar" mulheres com casos extraconjugais. Não é verdade. Isto faz parte dos costumes contemporâneos. Se alguém merece a reprovação pública é a panaca da Perpétua, que aceita passivamente a condição de mulher secundária.

Mônica afirma que amou o peemedebista, "amei, amei muito". E aqui já cabe uma primeira pergunta: pode alguém amar um peemedebista? Se ama, é porque ama a mentira. Diz a moça que os dois nunca procuraram se esconder e que, no início, Renan dizia que estava separado. Ora, bastava que a jornalista fosse às fontes competentes - como se faz em sua profissão - para saber que o senador mentia. Bastaria um telefonema à sua casa. Ou terá achado normal relacionar-se com alguém durante três anos com a condição de jamais chamá-lo em sua própria casa?

"Soit belle et tais-toi", dizem os franceses. Seja bela e cale a boca. É o que melhor teria feito Mônica. Em vez disso, preferiu abrir a boca. Revelou-se como um personagem à altura do pequeno Renan Calheiros. Interrogada sobre sua religião, disse: "Evangélica, batista, da Vale do Amanhecer". Ora, jornalista que dá crédito àquele caldo místico que borbulha na geografia fétida de Brasília não merece crédito algum. E é óbvio que nenhuma crença evangélica vai abençoar relações com senhores casados.

Mônica não convence. Se aceitou o assédio de um homenzinho vulgar e mentiroso é porque o merece. Pergunta a quem interessar possa: quem recebe dinheiro sujo não deveria devolvê-lo?

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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