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07 Jul 2007

Os Ateus Estão Chegando

Escrito por 
Ateus, temos leituras divinas pela frente. Mas está faltando ainda a tradução do mais importante deste livros, o de George Minois.
"Como fazer a história de uma atitude negativa?" - pergunta-se George Minois, em Histoire de l’athéisme -. "A história dos que se opõem à... é seguidamente empunhada pelo campo adverso, e tratada com todos os preconceitos de hábito. (...) A dificuldade não é menor na época contemporânea: exceção feita dos movimentos ateus militantes, muito minoritários, como retraçar a história de uma atitude que não parece ter conteúdo positivo? Sonharia alguém, por exemplo, retraçar a história dos que não acreditam nos Ovnis?" Mesmo assim, Minois desenvolve por quase 700 páginas a história dos que se opõem à...
 
Tornei-me ateu lá pelos quinze ou dezesseis anos. Não foi lendo literatura atéia, que praticamente não existia na época. Foi lendo a Bíblia. Não há fé que resista a uma leitura atenta da Bíblia. Pelo menos se o leitor for honesto consigo mesmo. Os escassos autores ateus aos quais tive acesso, fui ler um pouco mais tarde: Nietzsche, Voltaire, Bertrand Russel. Voltaire, no fundo era teísta. Mas como não professava fé em deus nenhum em particular, não vejo porque não situá-lo entre ateus. De Russel, o excelente livrinho Porque não sou cristão, consolidou de vez o que eu já vinha suspeitando. Ateu sendo, na época nunca fui questionado por esta atitude. Era ateu como outros eram católicos, evangélicos, espíritas ou o que quer que fossem. É curioso notar que só hoje, uns bons quarenta anos depois daqueles dias de adolescente, tenho provocado escândalo ao declarar-me ateu. A meu ver, isto só pode ser explicado por um avanço crescente dos teístas fundamentalistas e fanáticos. Seja como for, este fenômeno me diverte muito. Religião é mala sem alça. Ante a razão, não há como segurá-la.
 
Leio com prazer, na penúltima Veja, que a mais recente literatura sobre ateísmo está finalmente chegando ao Brasil. A Martins Fontes publicou o Tratado de Ateologia, de Michel Onfray, que comprei na França quando havia saído do forno. Interessante, mas não se compara ao livro de Minois. Onfray tem uma produção irregular. Talvez um pouco embriagado pelo sucesso, investiu em uma "contra-história da filosofia", obra projetada para seis volumes, dos quais já tenho o primeiro, Les sagesses antiques. Pensei que iria descobrir novidades na área e só encontrei os pré-socráticos que um dia estudei em meu curso de Filosofia. O autor promete mais do que fornece.
 
Ainda nesta área, ano passado tivemos Jesus e Javé - os nomes divinos, de Harold Bloom, pela Objetiva, um dos melhores estudos literários que já li sobre a Bíblia. Bloom, crítico literário, judeu e ateu, vê Deus como mais um personagem da literatura universal, assim como o Quixote ou Hamlet, e nisto reside o vigor de seu ensaio.
 
Surgiu também Quebrando o encanto, de Daniel Dennett, pela Globo. Em agosto deve sair, pela Companhia das Letras, Deus, um delírio, de Richard Dawkins, autor que vem provocando crises de histerismo nos teístas. E a Ediouro nos promete para outubro, Deus não é grande, de Christopher Hitchens, que já nos deu o excelente The Missionary Position - Mother Teresa in Theory and Practice, um libelo arrasador e definitivo contra Agnes Gonxha Bojaxhiu, essa vigarista albanesa de alto bordo mais conhecida como Madre Teresa de Calcutá. Este livro não foi - e suponho que tão cedo não será - traduzido no Brasil. Mais do que santa, como pretendeu João Paulo II, a escroque internacional é um dos ícones da mídia contemporânea.
 
Em meio a isso, tenho afirmado, por influência de Bloom, que hoje o Ocidente cristão é politeísta e cultua nada menos que quatro deuses: Jeová, Cristo, o Paráclito e Maria, que assumiu o status de deusa. Esta percepção parece estar sendo mais difundida nos dias atuais, quando se vê com mais nitidez o que está por trás da hagiologia católica. Dawkins, em Deus, um delírio, escreve:
 
"A Santíssima Trindade é acompanhada pela Virgem Maria, uma deusa de fato, embora não seja chamada assim. O panteão católico é inflado ainda pelos santos, que, se não são semideuses, têm poderes de intercessão em áreas especializadas que incluem dores abdominais, anorexia, desordens intestinais. O que me impressiona na mitologia católica é não só sua qualidade kitsch, mas também a falta de vergonha com que essa gente fabrica as coisas no andar da carruagem. É tudo despudoramente inventado".
 
Ateus, temos leituras divinas pela frente. Mas está faltando ainda a tradução do mais importante deste livros, o de George Minois. Falta também L'Esprit de l'athéisme, de André Comte-Sponville, lançado ano passado em Paris pela Albin Michel.
"Como fazer a história de uma atitude negativa?" - pergunta-se George Minois, em Histoire de l’athéisme -. "A história dos que se opõem à... é seguidamente empunhada pelo campo adverso, e tratada com todos os preconceitos de hábito. (...) A dificuldade não é menor na época contemporânea: exceção feita dos movimentos ateus militantes, muito minoritários, como retraçar a história de uma atitude que não parece ter conteúdo positivo? Sonharia alguém, por exemplo, retraçar a história dos que não acreditam nos Ovnis?" Mesmo assim, Minois desenvolve por quase 700 páginas a história dos que se opõem à...
 
Tornei-me ateu lá pelos quinze ou dezesseis anos. Não foi lendo literatura atéia, que praticamente não existia na época. Foi lendo a Bíblia. Não há fé que resista a uma leitura atenta da Bíblia. Pelo menos se o leitor for honesto consigo mesmo. Os escassos autores ateus aos quais tive acesso, fui ler um pouco mais tarde: Nietzsche, Voltaire, Bertrand Russel. Voltaire, no fundo era teísta. Mas como não professava fé em deus nenhum em particular, não vejo porque não situá-lo entre ateus. De Russel, o excelente livrinho Porque não sou cristão, consolidou de vez o que eu já vinha suspeitando. Ateu sendo, na época nunca fui questionado por esta atitude. Era ateu como outros eram católicos, evangélicos, espíritas ou o que quer que fossem. É curioso notar que só hoje, uns bons quarenta anos depois daqueles dias de adolescente, tenho provocado escândalo ao declarar-me ateu. A meu ver, isto só pode ser explicado por um avanço crescente dos teístas fundamentalistas e fanáticos. Seja como for, este fenômeno me diverte muito. Religião é mala sem alça. Ante a razão, não há como segurá-la.
 
Leio com prazer, na penúltima Veja, que a mais recente literatura sobre ateísmo está finalmente chegando ao Brasil. A Martins Fontes publicou o Tratado de Ateologia, de Michel Onfray, que comprei na França quando havia saído do forno. Interessante, mas não se compara ao livro de Minois. Onfray tem uma produção irregular. Talvez um pouco embriagado pelo sucesso, investiu em uma "contra-história da filosofia", obra projetada para seis volumes, dos quais já tenho o primeiro, Les sagesses antiques. Pensei que iria descobrir novidades na área e só encontrei os pré-socráticos que um dia estudei em meu curso de Filosofia. O autor promete mais do que fornece.
 
Ainda nesta área, ano passado tivemos Jesus e Javé - os nomes divinos, de Harold Bloom, pela Objetiva, um dos melhores estudos literários que já li sobre a Bíblia. Bloom, crítico literário, judeu e ateu, vê Deus como mais um personagem da literatura universal, assim como o Quixote ou Hamlet, e nisto reside o vigor de seu ensaio.
 
Surgiu também Quebrando o encanto, de Daniel Dennett, pela Globo. Em agosto deve sair, pela Companhia das Letras, Deus, um delírio, de Richard Dawkins, autor que vem provocando crises de histerismo nos teístas. E a Ediouro nos promete para outubro, Deus não é grande, de Christopher Hitchens, que já nos deu o excelente The Missionary Position - Mother Teresa in Theory and Practice, um libelo arrasador e definitivo contra Agnes Gonxha Bojaxhiu, essa vigarista albanesa de alto bordo mais conhecida como Madre Teresa de Calcutá. Este livro não foi - e suponho que tão cedo não será - traduzido no Brasil. Mais do que santa, como pretendeu João Paulo II, a escroque internacional é um dos ícones da mídia contemporânea.
 
Em meio a isso, tenho afirmado, por influência de Bloom, que hoje o Ocidente cristão é politeísta e cultua nada menos que quatro deuses: Jeová, Cristo, o Paráclito e Maria, que assumiu o status de deusa. Esta percepção parece estar sendo mais difundida nos dias atuais, quando se vê com mais nitidez o que está por trás da hagiologia católica. Dawkins, em Deus, um delírio, escreve:
 
"A Santíssima Trindade é acompanhada pela Virgem Maria, uma deusa de fato, embora não seja chamada assim. O panteão católico é inflado ainda pelos santos, que, se não são semideuses, têm poderes de intercessão em áreas especializadas que incluem dores abdominais, anorexia, desordens intestinais. O que me impressiona na mitologia católica é não só sua qualidade kitsch, mas também a falta de vergonha com que essa gente fabrica as coisas no andar da carruagem. É tudo despudoramente inventado".
 
Ateus, temos leituras divinas pela frente. Mas está faltando ainda a tradução do mais importante deste livros, o de George Minois. Falta também L'Esprit de l'athéisme, de André Comte-Sponville, lançado ano passado em Paris pela Albin Michel.
Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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