Qui07182019

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

13 Jul 2007

Palmas Para o Senhor Jesuis!

Escrito por 
Se o concurso fosse de paisagens, creio que daria de bom grado meu voto ao Corcovado. Mas teria de meditar um pouco antes de qualquer decisão.

Santo cem por cento pêlo-duro nós já temos. Verdade que era um charlatão. Mas se o Bento disse que é santo, santo fica sendo. Agora, temos uma das sete novas maravilhas do mundo, eleita por votos na Internet e por celulares, em um concurso espúrio organizado por um suíço em busca de holofotes. Se a moda pegar e qualquer arrivista decidir fazer um concurso, vai sobrar até para a Caixa d’Água de Dom Pedrito. Ou para a fonte das Águas Dançantes, em Cachoeira do Sul. Agora nos falta só o Nobel. Claro que não aspiramos a uma comenda séria, como o Nobel de Física, Economia ou Medicina. Serve um nobelzinho menor, como os de Literatura ou Paz. Se já foram premiados vigaristas como Rigoberta Menchú, Madre Teresa de Calcutá, Pablo Neruda, Dalai Lama, por que não contemplar esta grande nação? Só no Congresso há um verdadeiro semental de candidatos.

Quem me chamou a atenção para a feiúra do Cristo do Corcovado, pela primeira vez, foi o escritor italiano Alberto Moravia. Em algum de seus ensaios, escreveu desconhecer monumento mais feio no mundo. Eu, que até então não me havia perguntado se a estátua era feia ou bonita, de repente me dei conta que aquele Cristo era um horror. Monumento duro, inexpressivo, mais parece uma cruz que um homem... e a intenção terá sido mesmo essa. Sim, lá do alto a paisagem é deslumbrante, certamente uma das mais lindas do mundo. Mas paisagem é obra da natureza. Quando se fala em maravilhas, entendemos obras do homem. E aquele Cristo espetado lá em cima está a anos-luz de distância de ser uma maravilha.

Se o concurso fosse de paisagens, creio que daria de bom grado meu voto ao Corcovado. Mas teria de meditar um pouco antes de qualquer decisão. Teria de avaliar com carinho, antes de votar, o Tridente, no Assekrem, o Montblanc, na Suíça, os fjordes da costa norueguesa, em particular o Trollfjord, de uma beleza que chega a perturbar os sentidos, os glaciares silentes da Terra do Fogo, as dunas do Sahara. Ocorre que a competição diz respeito a obras do engenho humano.

Este concurso fajuto começa uma injustiça que clama aos céus remissão. A torre Eiffel ficou de fora. Deconheço monumento mais singelo e ao mesmo tempo imponente, despojado e ao mesmo tempo elegante. Quando a vi pela primeira vez, nem foi como se fosse a primeira vez, tanto ela está impregnada em nosso imaginário. Mas não é apenas sua beleza que me fascina. Também me fascina sua total impessoalidade. Não representa coisa alguma. Não é homenagem a nenhum deus, a nenhuma nação, a nenhum vulto histórico, a nenhum ideal. Se há algum monumento sem ideologia no mundo, este é a torre Eiffel. Está ali apenas para ser bela. Não representa nada, ninguém nem coisa nenhuma. Nunca foi tão atual o antigo dito francês: soit belle et tais-toi! Seja bela e cale a boca!

Outra injustiça berrante é a ausência da Alhambra, a Vermelha, em Granada. Conjunto de palácios e fortificações de potentados árabes, é de uma beleza estonteante. O requinte é tal que seus espelhos de água foram concebidos para refletir o firmamento para homens que estivessem de cócoras, isto é, em posição de conversar. O palácio mouro, que teria inspirado a arquitetura onírica das criações de Escher, é uma festa não só para os olhos como também para os ouvidos. Homens do deserto, obcecados por águas, os árabes as puxaram de Sierra Nevada e os jardins da Alhambra estão cheios de córregos invisíveis e murmurantes que induzem à paz e contemplação. Não é raro, inclusive, encontrar-se uma turista, de gravador em punho, sentada em meio ao verde, gravando o silêncio cortado pelo rumor das fontes.

Ou ainda o castelo de Neuschwanstein, o novo cisne de pedra, perto das cidades de Hohenschwangau e Füssen, no sudoeste da Baviera, quase fronteira com a Áustria. Foi construído por Ludwig II, mais conhecido como o rei louco da Baviera, em homenagem a Wagner, em cuja ópera, Lohengrin, aparece o Cisne da Noite. Palácio de uma beleza ímpar entre os castelos da Europa, é lindo desde fora. Erguido em um pico entre outros picos, seu entorno é hirto e congelado no inverno, verdejante no verão, florido na primavera e de um amarelo deslumbrante no outono. Se você um dia visitou o Neuschwanstein, lembre-se de que falta visitar mais três. A cada estação, o castelo exibe uma beleza distinta. É preciso uma insensibilidade de pedra para não situá-lo em qualquer lista das maravilhas contemporâneas.

Isso sem falar nas pirâmides de Gizé, na Acrópole grega, nos templos de Angkor, no Kremlin, em Moscou e na Hagia Sofia, na Turquia. No Peterhof, em São Petersburgo. Ou em Stonehenge, na Inglaterra. Na Notre Dame e na catedral de Toledo. Na mesquita de Córdova e na catedral de Sevilha. No Schönbrunn, em Viena, ou em Versailles, em Paris. Ou em tantas outras catedrais, palácios e castelos magníficos mundo afora. Ou até mesmo o recente museu da Guggenheim, em Bilbao. O Cristo do Corcovado, pobre coitado, é um monumento muito pobre, espequeado no alto de um morro, que só serve para poluir aquela paisagem de sonho. A eleição do Cristo se deveu a uma ofensiva de marketing liderada inclusive pelo governo brasileiro. Os patrioteiros devem estar empanzinados de orgulho. Parabéns, Rio, parabéns Brasil! – disse o Supremo Apedeuta. Só faltou dizer, como dizem os evangélicos, palmas para o senhor Jesuis!

Mas voto é isso mesmo. Lula para presidente da República e o Cristo para maravilha do mundo. Os dois se merecem. Que mais não seja, que autoridade têm para votar neste certame botocudos que jamais viram Neuschwanstein, Schönbrunn, Alhambra, Peterhof? Quem votou foi essa brasileirada infame, torcedora de Copas e faminta de santos, os afonsos celsos da vida.

A prefeitura do Rio estima aumento de 20% no turismo. Os assaltantes cariocas, penhorados, agradecem.

Santo cem por cento pêlo-duro nós já temos. Verdade que era um charlatão. Mas se o Bento disse que é santo, santo fica sendo. Agora, temos uma das sete novas maravilhas do mundo, eleita por votos na Internet e por celulares, em um concurso espúrio organizado por um suíço em busca de holofotes. Se a moda pegar e qualquer arrivista decidir fazer um concurso, vai sobrar até para a Caixa d’Água de Dom Pedrito. Ou para a fonte das Águas Dançantes, em Cachoeira do Sul. Agora nos falta só o Nobel. Claro que não aspiramos a uma comenda séria, como o Nobel de Física, Economia ou Medicina. Serve um nobelzinho menor, como os de Literatura ou Paz. Se já foram premiados vigaristas como Rigoberta Menchú, Madre Teresa de Calcutá, Pablo Neruda, Dalai Lama, por que não contemplar esta grande nação? Só no Congresso há um verdadeiro semental de candidatos.

Quem me chamou a atenção para a feiúra do Cristo do Corcovado, pela primeira vez, foi o escritor italiano Alberto Moravia. Em algum de seus ensaios, escreveu desconhecer monumento mais feio no mundo. Eu, que até então não me havia perguntado se a estátua era feia ou bonita, de repente me dei conta que aquele Cristo era um horror. Monumento duro, inexpressivo, mais parece uma cruz que um homem... e a intenção terá sido mesmo essa. Sim, lá do alto a paisagem é deslumbrante, certamente uma das mais lindas do mundo. Mas paisagem é obra da natureza. Quando se fala em maravilhas, entendemos obras do homem. E aquele Cristo espetado lá em cima está a anos-luz de distância de ser uma maravilha.

Se o concurso fosse de paisagens, creio que daria de bom grado meu voto ao Corcovado. Mas teria de meditar um pouco antes de qualquer decisão. Teria de avaliar com carinho, antes de votar, o Tridente, no Assekrem, o Montblanc, na Suíça, os fjordes da costa norueguesa, em particular o Trollfjord, de uma beleza que chega a perturbar os sentidos, os glaciares silentes da Terra do Fogo, as dunas do Sahara. Ocorre que a competição diz respeito a obras do engenho humano.

Este concurso fajuto começa uma injustiça que clama aos céus remissão. A torre Eiffel ficou de fora. Deconheço monumento mais singelo e ao mesmo tempo imponente, despojado e ao mesmo tempo elegante. Quando a vi pela primeira vez, nem foi como se fosse a primeira vez, tanto ela está impregnada em nosso imaginário. Mas não é apenas sua beleza que me fascina. Também me fascina sua total impessoalidade. Não representa coisa alguma. Não é homenagem a nenhum deus, a nenhuma nação, a nenhum vulto histórico, a nenhum ideal. Se há algum monumento sem ideologia no mundo, este é a torre Eiffel. Está ali apenas para ser bela. Não representa nada, ninguém nem coisa nenhuma. Nunca foi tão atual o antigo dito francês: soit belle et tais-toi! Seja bela e cale a boca!

Outra injustiça berrante é a ausência da Alhambra, a Vermelha, em Granada. Conjunto de palácios e fortificações de potentados árabes, é de uma beleza estonteante. O requinte é tal que seus espelhos de água foram concebidos para refletir o firmamento para homens que estivessem de cócoras, isto é, em posição de conversar. O palácio mouro, que teria inspirado a arquitetura onírica das criações de Escher, é uma festa não só para os olhos como também para os ouvidos. Homens do deserto, obcecados por águas, os árabes as puxaram de Sierra Nevada e os jardins da Alhambra estão cheios de córregos invisíveis e murmurantes que induzem à paz e contemplação. Não é raro, inclusive, encontrar-se uma turista, de gravador em punho, sentada em meio ao verde, gravando o silêncio cortado pelo rumor das fontes.

Ou ainda o castelo de Neuschwanstein, o novo cisne de pedra, perto das cidades de Hohenschwangau e Füssen, no sudoeste da Baviera, quase fronteira com a Áustria. Foi construído por Ludwig II, mais conhecido como o rei louco da Baviera, em homenagem a Wagner, em cuja ópera, Lohengrin, aparece o Cisne da Noite. Palácio de uma beleza ímpar entre os castelos da Europa, é lindo desde fora. Erguido em um pico entre outros picos, seu entorno é hirto e congelado no inverno, verdejante no verão, florido na primavera e de um amarelo deslumbrante no outono. Se você um dia visitou o Neuschwanstein, lembre-se de que falta visitar mais três. A cada estação, o castelo exibe uma beleza distinta. É preciso uma insensibilidade de pedra para não situá-lo em qualquer lista das maravilhas contemporâneas.

Isso sem falar nas pirâmides de Gizé, na Acrópole grega, nos templos de Angkor, no Kremlin, em Moscou e na Hagia Sofia, na Turquia. No Peterhof, em São Petersburgo. Ou em Stonehenge, na Inglaterra. Na Notre Dame e na catedral de Toledo. Na mesquita de Córdova e na catedral de Sevilha. No Schönbrunn, em Viena, ou em Versailles, em Paris. Ou em tantas outras catedrais, palácios e castelos magníficos mundo afora. Ou até mesmo o recente museu da Guggenheim, em Bilbao. O Cristo do Corcovado, pobre coitado, é um monumento muito pobre, espequeado no alto de um morro, que só serve para poluir aquela paisagem de sonho. A eleição do Cristo se deveu a uma ofensiva de marketing liderada inclusive pelo governo brasileiro. Os patrioteiros devem estar empanzinados de orgulho. Parabéns, Rio, parabéns Brasil! – disse o Supremo Apedeuta. Só faltou dizer, como dizem os evangélicos, palmas para o senhor Jesuis!

Mas voto é isso mesmo. Lula para presidente da República e o Cristo para maravilha do mundo. Os dois se merecem. Que mais não seja, que autoridade têm para votar neste certame botocudos que jamais viram Neuschwanstein, Schönbrunn, Alhambra, Peterhof? Quem votou foi essa brasileirada infame, torcedora de Copas e faminta de santos, os afonsos celsos da vida.

A prefeitura do Rio estima aumento de 20% no turismo. Os assaltantes cariocas, penhorados, agradecem.

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

Deixe um comentário

Informações marcadas com (*) são obrigatórias. Código HTML básico é permitido.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.