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25 Jul 2007

A Finesse do Assessor Especial

Escrito por 
Mas desde há muito afirmo que atribuir a um governo corrupto culpas que não são suas é o mesmo que dar mais alento a este governo corrupto, que pode então colocar-se na confortável condição de vítima de calúnias.

Em meus dias de foca, no Diário de Notícias, de Porto Alegre, fiquei mais ou menos célebre por resposta que dei ao editor do jornal. Eu fizera a cobertura de um incêndio na madrugada, fiz um rápido texto legenda, arrumei minhas coisas e saí da redação. Ainda na porta, ouvi o editor que me perguntava:

- As causas?
- Desconhecidas - respondi.
Ia descendo por um elevador de porta pantográfica, quando ouvi ainda um fio de voz do editor:
- E os prejuízos?
- Incalcuuuulllaaaadooos - gritei, enquanto descia.

Um incêndio, em seus primeiros momentos, só pode ter causas desconhecidas e prejuízos incalculados.

Leitores querem saber quando vou escrever sobre o desastre com o avião da TAM. Escrever o quê? Que se pode saber logo após um desastre destas dimensões? Maior que a explosão do Air-Bus foi a explosão de especialistas que surgiu logo após o acidente. Pessoas que nada tinham a ver com aeronáutica, segurança de vôos ou mesmo de vôos, logo passaram a explicar as causas da queda do avião. Imediatamente formou-se uma corrente de opinião que atribuiu a culpa do acidente ao governo. Se o acidente ocorrera em virtude da falta de ranhuras na pistas, se a falta de ranhuras na pista era responsabilidade da Infraero, e se a Infraero é responsabilidade do governo, logo a responsabilidade é do governo. As vaias a Lula no Rio foram vistas como antecipatórias do desastre. Uma amiga, ainda na mesma noite do fato, telefonou-me querendo se agora finalmente Lula iria cair.

Santa esperança, a de minha amiga. Se uma montanha de evidências de corrupção e de cumplicidade com a corrupção não derrubaram Lula, não será um insignificante Air-Bus que lhe arrancará o osso do poder. Além do mais, a hipótese mais óbvia não parece ter passado de um wishful thinking. O Estadão de quinta-feira passada trazia uma página inteira de leitores e internautas manifestando uma reação indignada contra o governo. Ora, pouco mais de 48 horas depois, uma nova e mais viável hipótese tomou conta dos jornais, a de um defeito no reverso dos motores. A própria TAM confirmou a falha mecânica.

Longe de mim pretender defender este governo. Mas desde há muito afirmo que atribuir a um governo corrupto culpas que não são suas é o mesmo que dar mais alento a este governo corrupto, que pode então colocar-se na confortável condição de vítima de calúnias. Significativo foi o delicado gesto do douto humanista Marco Aurélio Garcia, assessor especial de Assuntos Internacionais da Presidência da República, ao ouvir na TV que a causa do acidente teria sido uma falha mecânica do Air-Bus.

Com a finesse de quem foi professor na famigerada Université de Paris VIII, considerada "la poubelle du Thiers Monde", o velho e desdentado comunista mandou todo mundo foder-se. Desdentado mas ainda morde.

Esta foi a primeira manifestação do governo sobre o desastre. A segunda foi a de Lula, que levou mais de 72 horas para dizer qualquer coisa a respeito. “Eu estou com o coração sangrando”, declarou.

Já Marco Aurélio afirmou que jamais faria aquele gesto em público. Disto todos sabemos. Não fosse uma janela providencialmente aberta e um cinegrafista curioso, a reação do assessor especial permaneceria oculta à opinião pública. Neste sentido, é de louvar-se a desfaçatez de Marta Suplicy, que ousou dizer em público o que pensa do caos do tráfico aéreo: "relaxem e gozem". Ou o cinismo do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que não viu nenhum despropósito em atribuir à "prosperidade do país" o descalabro do tráfico aéreo no Brasil. O que nos faz sentir profunda lástima desses países pobres, como França, Alemanha ou Estados Unidos, onde os aviões saem no horário. Coisa de países sem prosperidade alguma.

Se algo já se pode deduzir desta crise, é a visão elitista dos sedizentes trabalhadores do Partido dos Trabalhadores. Qual a primeira providência de vulto de Lula, uma vez no Planalto? Foi comprar para seu uso exclusivo - com o dinheiro do contribuinte, é claro! - um avião de luxo, ao qual nem um sultão do Burnei se daria o luxo. Para os ministros, que têm jatinhos especiais com aterrissagem privilegiada em qualquer aeroporto, tanto faz como tanto fez que milhares de passageiros sofram nas salas de espera.

Uma elite vinda de baixo tomou o poder no país. Uma vez no poder, abusa do poder como nem mesmo o aristocrata Fernando Henrique Cardoso fez. Em público, o coração sangra. Nos corredores, fodam-se os brasileiros todos.

Pior cego é o que aprendeu a ver.

Questiúncula colateral, mas não menos importante - Justo nestes dias do acidente da TAM, após quatro meses de ausência, voltou a meu bar um garçom que muito estimo. Fora acometido por um câncer. Foi internado, tratado por uma equipe de médicos, operado e acabou voltando ao ror dos vivos. Cumprimentei-o emocionado em sua volta, contente em vê-lo de novo.

- Graças a Deus, ressuscitei - me disse.

O homem é tratado pelo que de mais adiantado tem a medicina desta cidade, com tecnologia de ponta, por médicos dedicados... e agradece sua vida ao tal de Deus. Não dá pra entender.

Volto ao acidente. Leio no noticiário que um funcionário da TAM, que pretendia jogar-se do alto do prédio em chamas, decidiu esperar e acabou sendo salvo pelos bombeiros. Em declaração aos jornais, agradeceu ao tal de Deus a salvação de sua vida. Nenhuma menção aos bombeiros que arriscaram a própria vida para salvá-lo.

Em meus dias de foca, no Diário de Notícias, de Porto Alegre, fiquei mais ou menos célebre por resposta que dei ao editor do jornal. Eu fizera a cobertura de um incêndio na madrugada, fiz um rápido texto legenda, arrumei minhas coisas e saí da redação. Ainda na porta, ouvi o editor que me perguntava:

- As causas?
- Desconhecidas - respondi.
Ia descendo por um elevador de porta pantográfica, quando ouvi ainda um fio de voz do editor:
- E os prejuízos?
- Incalcuuuulllaaaadooos - gritei, enquanto descia.

Um incêndio, em seus primeiros momentos, só pode ter causas desconhecidas e prejuízos incalculados.

Leitores querem saber quando vou escrever sobre o desastre com o avião da TAM. Escrever o quê? Que se pode saber logo após um desastre destas dimensões? Maior que a explosão do Air-Bus foi a explosão de especialistas que surgiu logo após o acidente. Pessoas que nada tinham a ver com aeronáutica, segurança de vôos ou mesmo de vôos, logo passaram a explicar as causas da queda do avião. Imediatamente formou-se uma corrente de opinião que atribuiu a culpa do acidente ao governo. Se o acidente ocorrera em virtude da falta de ranhuras na pistas, se a falta de ranhuras na pista era responsabilidade da Infraero, e se a Infraero é responsabilidade do governo, logo a responsabilidade é do governo. As vaias a Lula no Rio foram vistas como antecipatórias do desastre. Uma amiga, ainda na mesma noite do fato, telefonou-me querendo se agora finalmente Lula iria cair.

Santa esperança, a de minha amiga. Se uma montanha de evidências de corrupção e de cumplicidade com a corrupção não derrubaram Lula, não será um insignificante Air-Bus que lhe arrancará o osso do poder. Além do mais, a hipótese mais óbvia não parece ter passado de um wishful thinking. O Estadão de quinta-feira passada trazia uma página inteira de leitores e internautas manifestando uma reação indignada contra o governo. Ora, pouco mais de 48 horas depois, uma nova e mais viável hipótese tomou conta dos jornais, a de um defeito no reverso dos motores. A própria TAM confirmou a falha mecânica.

Longe de mim pretender defender este governo. Mas desde há muito afirmo que atribuir a um governo corrupto culpas que não são suas é o mesmo que dar mais alento a este governo corrupto, que pode então colocar-se na confortável condição de vítima de calúnias. Significativo foi o delicado gesto do douto humanista Marco Aurélio Garcia, assessor especial de Assuntos Internacionais da Presidência da República, ao ouvir na TV que a causa do acidente teria sido uma falha mecânica do Air-Bus.

Com a finesse de quem foi professor na famigerada Université de Paris VIII, considerada "la poubelle du Thiers Monde", o velho e desdentado comunista mandou todo mundo foder-se. Desdentado mas ainda morde.

Esta foi a primeira manifestação do governo sobre o desastre. A segunda foi a de Lula, que levou mais de 72 horas para dizer qualquer coisa a respeito. “Eu estou com o coração sangrando”, declarou.

Já Marco Aurélio afirmou que jamais faria aquele gesto em público. Disto todos sabemos. Não fosse uma janela providencialmente aberta e um cinegrafista curioso, a reação do assessor especial permaneceria oculta à opinião pública. Neste sentido, é de louvar-se a desfaçatez de Marta Suplicy, que ousou dizer em público o que pensa do caos do tráfico aéreo: "relaxem e gozem". Ou o cinismo do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que não viu nenhum despropósito em atribuir à "prosperidade do país" o descalabro do tráfico aéreo no Brasil. O que nos faz sentir profunda lástima desses países pobres, como França, Alemanha ou Estados Unidos, onde os aviões saem no horário. Coisa de países sem prosperidade alguma.

Se algo já se pode deduzir desta crise, é a visão elitista dos sedizentes trabalhadores do Partido dos Trabalhadores. Qual a primeira providência de vulto de Lula, uma vez no Planalto? Foi comprar para seu uso exclusivo - com o dinheiro do contribuinte, é claro! - um avião de luxo, ao qual nem um sultão do Burnei se daria o luxo. Para os ministros, que têm jatinhos especiais com aterrissagem privilegiada em qualquer aeroporto, tanto faz como tanto fez que milhares de passageiros sofram nas salas de espera.

Uma elite vinda de baixo tomou o poder no país. Uma vez no poder, abusa do poder como nem mesmo o aristocrata Fernando Henrique Cardoso fez. Em público, o coração sangra. Nos corredores, fodam-se os brasileiros todos.

Pior cego é o que aprendeu a ver.

Questiúncula colateral, mas não menos importante - Justo nestes dias do acidente da TAM, após quatro meses de ausência, voltou a meu bar um garçom que muito estimo. Fora acometido por um câncer. Foi internado, tratado por uma equipe de médicos, operado e acabou voltando ao ror dos vivos. Cumprimentei-o emocionado em sua volta, contente em vê-lo de novo.

- Graças a Deus, ressuscitei - me disse.

O homem é tratado pelo que de mais adiantado tem a medicina desta cidade, com tecnologia de ponta, por médicos dedicados... e agradece sua vida ao tal de Deus. Não dá pra entender.

Volto ao acidente. Leio no noticiário que um funcionário da TAM, que pretendia jogar-se do alto do prédio em chamas, decidiu esperar e acabou sendo salvo pelos bombeiros. Em declaração aos jornais, agradeceu ao tal de Deus a salvação de sua vida. Nenhuma menção aos bombeiros que arriscaram a própria vida para salvá-lo.

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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