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02 Ago 2007

Revoada de Abutres Sobre o Mercado da Morte

Escrito por 
Luto virou mercado. Mal surge um grande desastre, revoadas de sinistros gigolôs das angústias humanas cercam os sobreviventes.

Desde há muito a figura do jornalista é associada a urubus. Onde há cadáveres, lá está o jornalista. Faz parte do ofício. Tragédias são sempre notícias. Cadáveres, particularmente quando aos montes, sempre fazem as primeiras páginas dos jornais. Jornalista é um abutre compulsório. Onde houver cadáveres, sempre haverá jornalistas. Mas um fato novo está surgindo nos noticiários. São os abutres voluntários, abutres que convidam a si próprios em todas as tragédias. Abutres perfeitamente dispensáveis, os psicólogos estão sempre cada vez mais presentes onde há cheiro de morte. Leio manchete na Folha de São Paulo de hoje:

PARA PSICÓLOGA, LUTO DEVE SER VIVIDO, MAS É IMPORTANTE QUE A DOR SEJA TRANSITÓRIA

Até aí morreu o Neves, sem trocadilho. O luto sempre foi vivido em todas as civilizações, sem que profissionais o regulamentem. E a dor sempre foi transitória. A existência se tornaria insuportável se a dor que sentimos pelos nossos seres amados nos acicatasse a toda hora, o dia todo, todos os meses e todos os anos que restam a nós, sobreviventes, viver. Em minha primeira viagem à Itália, encontrei em um restaurante um súbito amigo. Chamava-se Franco e havia ocorrido recentemente um terremoto na Itália. Não era psicólogo, psicanalista nem outro psicanalha qualquer. Era apenas um homem sensato. Até hoje não esqueço uma frase sua: "Após um terremoto, podemos chorar uma semana ou um mês, encharcar um lenço ou um lençol, mas ninguém vai chorar a vida toda, que os mortos enterrem seus mortos e a vida continua, melhor rir e continuar vivendo, salute!"

"A experiência do luto é para ser vivida", diz na reportagem da Folha a psicóloga clínica Maria Helena Pereira Franco. "Não tem como apressar esse processo, especialmente quando há agravantes de morte repentina e violenta", afirma a moça, que também é coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre Luto da PUC-SP. Considerada a principal especialista em luto traumático no Brasil, ela foi chamada logo depois do acidente que matou 199 pessoas. Está coordenando um grupo de 30 psicólogos envolvidos no caso.

Luto virou mercado. Mal surge um grande desastre, revoadas de sinistros gigolôs das angústias humanas cercam os sobreviventes. Os psicólogos estão atuando no IML (Instituto Médico Legal), nos dois hotéis que hospedam os parentes dos cadáveres, nos dois aeroportos de São Paulo e em três departamentos da TAM. Junto a quem sofre, pessoas fragilizadas pela dor que sequer têm como reagir à marquetagem do luto. Mais um pouco e as funerárias oferecerão, junto com o caixão, serviços de assistência psicológica.

Não era assim quando nasci. Esta disputa pela dor alheia é algo bastante contemporâneo. Até bem pouco tempo, a morte era uma circunstância normal da vida - normal e dolorosa, é verdade - que não exigia cuidados psicológicos para quem ficava. Já perdi três dos seres mais queridos que a um homem é dado ter - pai, mãe e minha Baixinha adorada - e nunca me ocorreu recorrer a carpideiras profissionais. O abalo maior foi o desta terceira morte, afinal pai e mãe estão na cronologia normal dos fatos. Mas ela não estava, e isto é o que mais dói. Certo dia, em conversa com minha médica, caí em lágrimas e ela me sugeriu um analista. Quase que termina ali nossa boa relação. Pagar um vigarista para ouvir o quê? Ouvir que minha mulher morreu e que a vida é assim mesmo? Ora, isso eu posso dizer a mim mesmo e não pago nem cobro nada para ouvir.

"As pessoas podem ter raiva, tristeza ou necessidade de achar um culpado. Também é comum que alguma sensação interior se reflita em outra situação. Se um parente começa a achar que está tudo ruim, que o café está fraco, que isso e que aquilo, pode estar transferindo esse sentimento", explica a psicóloga. Só o que faltava achar que o café está ruim porque uma pessoa amada morreu! Morte não significa adição nenhuma de açúcar ou sal ao café. As pessoas nascem, crescem e morrem e o café nada tem a ver com isso.

Algumas frases como "bola para frente" ou "a vida continua" - diz a Folha - são proibidas entre os psicólogos que atendem os parentes das vítimas. "Não falamos nada que traga, nas entrelinhas, que não agüentamos vê-los sofrer. Temos postura de validar o que ele está vivendo, reconhecendo que há motivos para estar triste", diz Maria Helena. Dá-nos a entender que é preciso formação universitária e altíssima qualificação profissional para reconhecer que há motivos para uma pessoa que sofreu uma grave perda estar triste.

Tenho lido, cada vez com mais freqüência, sobre psicólogos e outros ólogos revoando sobre cadáveres. A impressão que me fica é que, nos dias atuais, as pessoas já não conseguem suportar uma decorrência natural da vida sem ter por perto um destes profissionais da morte. Estão, pouco a pouco, roubando as atribuições vulturinas dos sacerdotes. É de perguntar-se como os sobreviventes d’antanho conseguiam continuar suas vidas quando psicólogos desempregados ainda não pululavam como cogumelos após a chuva.

O serviço de assistência a vitimas e familiares de acidentes aéreos é regulamentado pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), e determina que o auxílio se estenderá pelo tempo que for necessário. Mais um cabidão de empregos.

Sou mais Fernando Pessoa:

Não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...

Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...

O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...

Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Desde há muito a figura do jornalista é associada a urubus. Onde há cadáveres, lá está o jornalista. Faz parte do ofício. Tragédias são sempre notícias. Cadáveres, particularmente quando aos montes, sempre fazem as primeiras páginas dos jornais. Jornalista é um abutre compulsório. Onde houver cadáveres, sempre haverá jornalistas. Mas um fato novo está surgindo nos noticiários. São os abutres voluntários, abutres que convidam a si próprios em todas as tragédias. Abutres perfeitamente dispensáveis, os psicólogos estão sempre cada vez mais presentes onde há cheiro de morte. Leio manchete na Folha de São Paulo de hoje:

PARA PSICÓLOGA, LUTO DEVE SER VIVIDO, MAS É IMPORTANTE QUE A DOR SEJA TRANSITÓRIA

Até aí morreu o Neves, sem trocadilho. O luto sempre foi vivido em todas as civilizações, sem que profissionais o regulamentem. E a dor sempre foi transitória. A existência se tornaria insuportável se a dor que sentimos pelos nossos seres amados nos acicatasse a toda hora, o dia todo, todos os meses e todos os anos que restam a nós, sobreviventes, viver. Em minha primeira viagem à Itália, encontrei em um restaurante um súbito amigo. Chamava-se Franco e havia ocorrido recentemente um terremoto na Itália. Não era psicólogo, psicanalista nem outro psicanalha qualquer. Era apenas um homem sensato. Até hoje não esqueço uma frase sua: "Após um terremoto, podemos chorar uma semana ou um mês, encharcar um lenço ou um lençol, mas ninguém vai chorar a vida toda, que os mortos enterrem seus mortos e a vida continua, melhor rir e continuar vivendo, salute!"

"A experiência do luto é para ser vivida", diz na reportagem da Folha a psicóloga clínica Maria Helena Pereira Franco. "Não tem como apressar esse processo, especialmente quando há agravantes de morte repentina e violenta", afirma a moça, que também é coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre Luto da PUC-SP. Considerada a principal especialista em luto traumático no Brasil, ela foi chamada logo depois do acidente que matou 199 pessoas. Está coordenando um grupo de 30 psicólogos envolvidos no caso.

Luto virou mercado. Mal surge um grande desastre, revoadas de sinistros gigolôs das angústias humanas cercam os sobreviventes. Os psicólogos estão atuando no IML (Instituto Médico Legal), nos dois hotéis que hospedam os parentes dos cadáveres, nos dois aeroportos de São Paulo e em três departamentos da TAM. Junto a quem sofre, pessoas fragilizadas pela dor que sequer têm como reagir à marquetagem do luto. Mais um pouco e as funerárias oferecerão, junto com o caixão, serviços de assistência psicológica.

Não era assim quando nasci. Esta disputa pela dor alheia é algo bastante contemporâneo. Até bem pouco tempo, a morte era uma circunstância normal da vida - normal e dolorosa, é verdade - que não exigia cuidados psicológicos para quem ficava. Já perdi três dos seres mais queridos que a um homem é dado ter - pai, mãe e minha Baixinha adorada - e nunca me ocorreu recorrer a carpideiras profissionais. O abalo maior foi o desta terceira morte, afinal pai e mãe estão na cronologia normal dos fatos. Mas ela não estava, e isto é o que mais dói. Certo dia, em conversa com minha médica, caí em lágrimas e ela me sugeriu um analista. Quase que termina ali nossa boa relação. Pagar um vigarista para ouvir o quê? Ouvir que minha mulher morreu e que a vida é assim mesmo? Ora, isso eu posso dizer a mim mesmo e não pago nem cobro nada para ouvir.

"As pessoas podem ter raiva, tristeza ou necessidade de achar um culpado. Também é comum que alguma sensação interior se reflita em outra situação. Se um parente começa a achar que está tudo ruim, que o café está fraco, que isso e que aquilo, pode estar transferindo esse sentimento", explica a psicóloga. Só o que faltava achar que o café está ruim porque uma pessoa amada morreu! Morte não significa adição nenhuma de açúcar ou sal ao café. As pessoas nascem, crescem e morrem e o café nada tem a ver com isso.

Algumas frases como "bola para frente" ou "a vida continua" - diz a Folha - são proibidas entre os psicólogos que atendem os parentes das vítimas. "Não falamos nada que traga, nas entrelinhas, que não agüentamos vê-los sofrer. Temos postura de validar o que ele está vivendo, reconhecendo que há motivos para estar triste", diz Maria Helena. Dá-nos a entender que é preciso formação universitária e altíssima qualificação profissional para reconhecer que há motivos para uma pessoa que sofreu uma grave perda estar triste.

Tenho lido, cada vez com mais freqüência, sobre psicólogos e outros ólogos revoando sobre cadáveres. A impressão que me fica é que, nos dias atuais, as pessoas já não conseguem suportar uma decorrência natural da vida sem ter por perto um destes profissionais da morte. Estão, pouco a pouco, roubando as atribuições vulturinas dos sacerdotes. É de perguntar-se como os sobreviventes d’antanho conseguiam continuar suas vidas quando psicólogos desempregados ainda não pululavam como cogumelos após a chuva.

O serviço de assistência a vitimas e familiares de acidentes aéreos é regulamentado pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), e determina que o auxílio se estenderá pelo tempo que for necessário. Mais um cabidão de empregos.

Sou mais Fernando Pessoa:

Não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...

Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...

O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...

Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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