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24 Ago 2007

Ironias da História

Escrito por 
Ironias da História: coube agora a um judeu e comunista, o ministro Tarso Fernando Hertz Genro, justificar a deportação dos cubanos para Cuba.

Leio artigo de Ipojuca Pontes, onde há uma menção ao "ex-marxista-leninista Tarso Genro". Marxista-leninista Tarso sempre foi. Quanto ao ex, não tenho notícia alguma de que algum dia tenha abjurado sua fé. Que mais não seja, sua fidelidade canina a Fidel Castro o evidencia no mínimo como comunista. Mais ainda: considero que quem defende a ditadura cubana nos dias que correm, antes mesmo de ser comunista, é stalinista. Stalinismo não é uma questão de pautar-se por Stalin, mas um estado de espírito. Considero inclusive que o primeiro stalinista da História foi um outro Tarso, o Paulo de Tarso, na Cilícia.

Chamava-se Saulo e foi grande perseguidor de cristãos. "Persegui até a morte os que seguiam este caminho, prendendo homens e mulheres e jogando-os na prisão". Ao converter-se ao cristianismo, mudou até de nome, passou a chamar-se Paulo. A conversão ocorreu quando ia para Damasco. Um grande luz surgiu nos céus, Saulo caiu do cavalo e ficou momentaneamente cego, enquanto a voz de Cristo - que havia sido crucificado anos antes - lhe ordenava seguir para Damasco. Em Paulo de Tarso temos realmente uma mudança de filosofia. Mudança tão radical que Paulo é hoje considerado o construtor do cristianismo, e não Cristo. Cristo morreu como uma mosca tonta, sem saber muito bem o que estava ocorrendo em torno a ele. Paulo, poliglota e cosmopolita, viu no cadáver de Cristo uma promissora bandeira e a empunhou com entusiasmo. Alguns historiadores julgam inclusive ser mais adequado falar de paulismo em vez de cristianismo.

Não se fazem mais Tarsos como antigamente. O Genro, pelo que sabemos, continua fiel a sua filosofia de juventude. Nunca soube que tenha caído do cavalo, nem que tenha percorrido sua estrada de Damasco. Há alguns anos, eu li - juro que li - um artigo assinado por Genro no caderno "Mais" da Folha de São Paulo, onde ele falava da "ventura do stalinismo". Assim sendo, me parece totalmente despropositado falar de ex-marxista-leninista.

É curioso ver como as velhas raposas comunistas detestam ouvir esta palavrinha, sem jamais terem renegado a doutrina. Outro dia, eu escrevia sobre o deputado comunista Roberto Freire. Uma leitora, indignada, dizia que Roberto Freire nunca foi comunista. "Sempre foi socialista", jurava a moça. Num país de memória curta, as raposas simulam ter trocado de ideologia e não falta crédulo para acreditar na nova face. Esquecendo inclusive a antiga.

Com o desmoronamento da União Soviética, os velhos comunistas da Polônia, para marcar sua renúncia à antiga filosofia, eram submetidos a uma crucificação por uma hora. Crucificação sem pregos, é verdade, pulsos atados por cordinhas, que ninguém está aí para ser mártir. O gesto era simbólico, mas pelo menos trazia a público a decisão de renunciar ao comunismo. Não que eu queira ver o Tarso Genro ou o Roberto Freire atados por cordinhas numa cruz de mentirinha, nada disso. Mas o que se pede a um homem público que repudia uma doutrina é que manifeste este repúdio publicamente. Ora, não ouvi um só pio, seja de Tarso, seja de Freire, seja dos velhos comunistas herdeiros de Marx, Lênin e Stalin, manifestando sua renúncia à doutrina assassina. Para mim, continuam sendo comunistas.

Tanto que Tarso não hesitou em defender a deportação para Cuba, feudo do colega e dileto amigo Fidel Castro, de dois pobres diabos cubanos que queriam aproveitar o Pan no Brasil para pedir asilo na Alemanha. Não só defendeu como seu dedo ministerial deve estar por trás da deportação. É impossível que um ministro da Justiça não tenha tido ciência de uma operação assim delicada da Polícia Federal. A alegação esfarrapada é que os dois pugilistas estavam sem documentos e em situação irregular no Brasil. Foram presos em dois ou três dias e empacotados expressamente para Cuba. Ora, o Brasil tem centenas de milhares de colombianos, bolivianos, paraguaios, argentinos, uruguaios, coreanos, chineses e até mesmo europeus em situação irregular no Brasil e nenhuma Polícia Federal demonstrou tanto zelo em deportá-los com tanta rapidez.

Para justificar a volta dos cubanos a Cuba, Tarso, o ministro stalinista, declarou à Folha de São Paulo que quando foi exilado político optou por regressar ao Brasil, mesmo na ditadura, "porque queria voltar para minha pátria. Saí do meu país um dia e no outro queria voltar".

Leitor desmemoriado que lê esta declaração é capaz de imaginar que Tarso, o de São Borja e não o da Cilícia, esteve exilado em países distantes, de línguas estranhas e povo hostil, com oceanos de permeio. Ora, o exílio de Tarso foi bem mais singelo. E pragmático. Exilou-se... em Rivera, no Uruguai. Coitado do jovem poeta. Deve ter-se sentido terrivelmente dépaysé, assim longe da pátria que o viu nascer, a léguas de distância da São Borja natal e da Santa Maria que o acolheu. Para quem desconhece Rivera, esclareço que é uma cidade colada a Santana do Livramento, onde nasci. Apenas uma avenida, a calle Internacional, sem aduana nem controle algum, separa uma cidade da outra. Deve ser extremamente doloroso para um exilado sentar-se em um café em Rivera, olhando saudoso para a pátria longínqua e inacessível... no outro lado da rua.

Os comunistas brasileiros demonizaram Getúlio Vargas, por ter deportado para a Alemanha nazista a comunista judia Olga Benario, oficial do Exército Vermelho e enviada ao Brasil para liderar a Intentona de 1935. Os comunistas demonizaram Getúlio em termos. Luiz Carlos Prestes, marido de Olga e seu protegido, aliás o vulto histórico nacional que Tarso mais admira, subiu mais tarde ao palanque de Getúlio para apoiá-lo em sua campanha à presidência da República. Para se ter uma idéia da humanidade do líder comunista, sempre é bom lembrar que foi deflorado pela alemã oficial do Exército Vermelho... aos 37 anos de idade.

Ironias da História: coube agora a um judeu e comunista, o ministro Tarso Fernando Hertz Genro, justificar a deportação dos cubanos para Cuba.

Leio artigo de Ipojuca Pontes, onde há uma menção ao "ex-marxista-leninista Tarso Genro". Marxista-leninista Tarso sempre foi. Quanto ao ex, não tenho notícia alguma de que algum dia tenha abjurado sua fé. Que mais não seja, sua fidelidade canina a Fidel Castro o evidencia no mínimo como comunista. Mais ainda: considero que quem defende a ditadura cubana nos dias que correm, antes mesmo de ser comunista, é stalinista. Stalinismo não é uma questão de pautar-se por Stalin, mas um estado de espírito. Considero inclusive que o primeiro stalinista da História foi um outro Tarso, o Paulo de Tarso, na Cilícia.

Chamava-se Saulo e foi grande perseguidor de cristãos. "Persegui até a morte os que seguiam este caminho, prendendo homens e mulheres e jogando-os na prisão". Ao converter-se ao cristianismo, mudou até de nome, passou a chamar-se Paulo. A conversão ocorreu quando ia para Damasco. Um grande luz surgiu nos céus, Saulo caiu do cavalo e ficou momentaneamente cego, enquanto a voz de Cristo - que havia sido crucificado anos antes - lhe ordenava seguir para Damasco. Em Paulo de Tarso temos realmente uma mudança de filosofia. Mudança tão radical que Paulo é hoje considerado o construtor do cristianismo, e não Cristo. Cristo morreu como uma mosca tonta, sem saber muito bem o que estava ocorrendo em torno a ele. Paulo, poliglota e cosmopolita, viu no cadáver de Cristo uma promissora bandeira e a empunhou com entusiasmo. Alguns historiadores julgam inclusive ser mais adequado falar de paulismo em vez de cristianismo.

Não se fazem mais Tarsos como antigamente. O Genro, pelo que sabemos, continua fiel a sua filosofia de juventude. Nunca soube que tenha caído do cavalo, nem que tenha percorrido sua estrada de Damasco. Há alguns anos, eu li - juro que li - um artigo assinado por Genro no caderno "Mais" da Folha de São Paulo, onde ele falava da "ventura do stalinismo". Assim sendo, me parece totalmente despropositado falar de ex-marxista-leninista.

É curioso ver como as velhas raposas comunistas detestam ouvir esta palavrinha, sem jamais terem renegado a doutrina. Outro dia, eu escrevia sobre o deputado comunista Roberto Freire. Uma leitora, indignada, dizia que Roberto Freire nunca foi comunista. "Sempre foi socialista", jurava a moça. Num país de memória curta, as raposas simulam ter trocado de ideologia e não falta crédulo para acreditar na nova face. Esquecendo inclusive a antiga.

Com o desmoronamento da União Soviética, os velhos comunistas da Polônia, para marcar sua renúncia à antiga filosofia, eram submetidos a uma crucificação por uma hora. Crucificação sem pregos, é verdade, pulsos atados por cordinhas, que ninguém está aí para ser mártir. O gesto era simbólico, mas pelo menos trazia a público a decisão de renunciar ao comunismo. Não que eu queira ver o Tarso Genro ou o Roberto Freire atados por cordinhas numa cruz de mentirinha, nada disso. Mas o que se pede a um homem público que repudia uma doutrina é que manifeste este repúdio publicamente. Ora, não ouvi um só pio, seja de Tarso, seja de Freire, seja dos velhos comunistas herdeiros de Marx, Lênin e Stalin, manifestando sua renúncia à doutrina assassina. Para mim, continuam sendo comunistas.

Tanto que Tarso não hesitou em defender a deportação para Cuba, feudo do colega e dileto amigo Fidel Castro, de dois pobres diabos cubanos que queriam aproveitar o Pan no Brasil para pedir asilo na Alemanha. Não só defendeu como seu dedo ministerial deve estar por trás da deportação. É impossível que um ministro da Justiça não tenha tido ciência de uma operação assim delicada da Polícia Federal. A alegação esfarrapada é que os dois pugilistas estavam sem documentos e em situação irregular no Brasil. Foram presos em dois ou três dias e empacotados expressamente para Cuba. Ora, o Brasil tem centenas de milhares de colombianos, bolivianos, paraguaios, argentinos, uruguaios, coreanos, chineses e até mesmo europeus em situação irregular no Brasil e nenhuma Polícia Federal demonstrou tanto zelo em deportá-los com tanta rapidez.

Para justificar a volta dos cubanos a Cuba, Tarso, o ministro stalinista, declarou à Folha de São Paulo que quando foi exilado político optou por regressar ao Brasil, mesmo na ditadura, "porque queria voltar para minha pátria. Saí do meu país um dia e no outro queria voltar".

Leitor desmemoriado que lê esta declaração é capaz de imaginar que Tarso, o de São Borja e não o da Cilícia, esteve exilado em países distantes, de línguas estranhas e povo hostil, com oceanos de permeio. Ora, o exílio de Tarso foi bem mais singelo. E pragmático. Exilou-se... em Rivera, no Uruguai. Coitado do jovem poeta. Deve ter-se sentido terrivelmente dépaysé, assim longe da pátria que o viu nascer, a léguas de distância da São Borja natal e da Santa Maria que o acolheu. Para quem desconhece Rivera, esclareço que é uma cidade colada a Santana do Livramento, onde nasci. Apenas uma avenida, a calle Internacional, sem aduana nem controle algum, separa uma cidade da outra. Deve ser extremamente doloroso para um exilado sentar-se em um café em Rivera, olhando saudoso para a pátria longínqua e inacessível... no outro lado da rua.

Os comunistas brasileiros demonizaram Getúlio Vargas, por ter deportado para a Alemanha nazista a comunista judia Olga Benario, oficial do Exército Vermelho e enviada ao Brasil para liderar a Intentona de 1935. Os comunistas demonizaram Getúlio em termos. Luiz Carlos Prestes, marido de Olga e seu protegido, aliás o vulto histórico nacional que Tarso mais admira, subiu mais tarde ao palanque de Getúlio para apoiá-lo em sua campanha à presidência da República. Para se ter uma idéia da humanidade do líder comunista, sempre é bom lembrar que foi deflorado pela alemã oficial do Exército Vermelho... aos 37 anos de idade.

Ironias da História: coube agora a um judeu e comunista, o ministro Tarso Fernando Hertz Genro, justificar a deportação dos cubanos para Cuba.

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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