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01 Out 2013

IPCC CONFIA NA FRÁGIL MEMÓRIA DAS GENTES

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O homem que desenvolveu a tese absurda acabou por renegá-la. Ao IPCC isto tanto faz como tanto fez. Os neocomunas sabem – como também os antigos comunas sabiam – que curta é a memória das gentes. A imprensa continuará a bater na batida tecla como se nada tivesse acontecido.

 

Com o desmoronamento do comunismo, era preciso encontrar uma nova bandeira para enfrentar o Grande Satã, o capitalismo. A luta de classes, além de ser instrumento muito manjadO, morrera com o muro de Berlim. Desde há muito se sabia que a nobre classe proletária – tão orgulhosa de si mesmo no início do século – não queria ser proletária. Havia um desejo profundo de capitalismo em todo o mundo socialista, e a queda do Muro foi a gota d’água que transbordou do copo dos utopistas: milhares de alemães da RDA fugindo alegremente do paraíso socialista para o inferno capitalista.

Mentira morta, mentira posta. A grande ameaça deixou de ser o capital. Passou a ser o aquecimento global. O que no fundo dava no mesmo. Era a sociedade capitalista, com seus índices de consumo, o fator maior de aquecimento. Nem as vacas – que produzem carne, este luxo capitalista – foram poupadas. Suas flatulências destruíam a camada de ozônio. Por trás da nova denúncia, o IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança Climática, ligado à ONU).

O IPCC foi desmacarado em 2009, quando o famoso climatologista Phil Jones, diretor da Unidade de Investigação do Clima da Universidade de East Anglia, foi acusado de haver manipulado dados para exagerar os efeitos da mudança climática. Ele renunciou depois que foram divulgadas na internet mensagens que supostamente demonstrariam a fraude. Em um dos e-mails invadidos por hackers, Jones menciona um "truque" empregado para maquiar as estatísticas de temperatura para "ocultar uma redução".

Como na imprensa nada se conserva – tudo se esquece – o IPCC voltou à tona na sexta-feira passada, brandindo o velho e eficaz apocalipse. Segundo o novo relatório, as pesquisas mais recentes apontam que existe 95% de certeza do envolvimento humano no aquecimento global. E desta vez a denúncia é mais contundente. Há seis anos, quando o relatório anterior foi divulgado, a certeza era de 90%. Da manipulação de dados , descoberta há cinco anos, parece que ninguém lembra mais.

Jones era diretor da Unidade de Investigação do Clima da Universidade de East Anglia, um dos centros de maior reputação do mundo nesta área. Ele renunciou depois que foram divulgadas na internet mensagens que supostamente demonstrariam a fraude. Em um dos e-mails invadidos pelos hackers, Jones menciona um "truque" empregado para maquiar as estatísticas de temperatura para "ocultar uma redução".

A teoria do aquecimento global teve seu guru precursor, James Lovelock, inventor do Electron Capture Detector, aparelho que ajudou a detectar o (suposto) buraco crescente na camada de ozônio e outros nano-poluentes, considerado “uma das mentes científicas mais inovadoras e rebeldes da atualidade”, é o criador da chamada Hipótese Gaia, que vê a Terra como um organismo vivo.

Não há de novo sob o sol. Aliás, desde o Qohelet não havia. Já comentei há alguns anos. Lovelock chegou à conclusão que a raça humana está condenada. Que mais de seis bilhões de pessoas morrerão neste século. Enquanto caminhava em um parque em Oslo, declarou ao escritor americano Jeff Goodel:

- Até 2040, o Saara vai invadir a Europa, e Berlim será tão quente quanto Bagdá. Atlanta acabará se transformando em uma selva de trepadeiras kudzu. Phoenix se tornará um lugar inabitável, assim como partes de Beijing (deserto), Miami (elevação do nível do mar) e Londres (enchentes). A falta de alimentos fará com que milhões de pessoas se dirijam para o norte, elevando as tensões políticas. “Os chineses não terão para onde ir além da Sibéria”, sentencia Lovelock. “O que os russos vão achar disso? Sinto que uma guerra entre a Rússia e a China seja inevitável.” Com as dificuldades de sobrevivência e as migrações em massa, virão as epidemias. Até 2100, a população da Terra encolherá dos atuais 6,6 bilhões de habitantes para cerca de 500 milhões, sendo que a maior parte dos sobreviventes habitará altas latitudes – Canadá, Islândia, Escandinávia, Bacia Ártica.

Em entrevista para a Veja, em 2006, falando sobre seu livro A Vingança de Gaia, lançado naquele ano na Inglaterra, Lovelock brandia o apocalipse. O repórter, não por acaso um dos crentes no efeito estufa, queria saber quando o aquecimento global chegaria a um ponto sem volta. Respondeu o guru, com a convicção dos profetas:

- Já passamos desse ponto há muito tempo. Os efeitos visíveis da mudança climática, no entanto, só agora estão aparecendo para a maioria das pessoas. Pelas minhas estimativas, a situação se tornará insuportável antes mesmo da metade do século, lá pelo ano 2040.

- O que o faz pensar que já não há mais volta?

- Por modelos matemáticos, descobre-se que o clima está a ponto de fazer um salto abrupto para um novo estágio de aquecimento. Mudanças geológicas normalmente levam milhares de anos para acontecer. As transformações atuais estão ocorrendo em intervalos de poucos anos. É um erro acreditar que podemos evitar o fenômeno apenas reduzindo a queima de combustíveis fósseis. O maior vilão do aquecimento é o uso de uma grande porção do planeta para produzir comida. As áreas de cultivo e de criação de gado ocupam o lugar da cobertura florestal que antes tinha a tarefa de regular o clima, mantendo a Terra em uma temperatura confortável. Essa substituição serviu para alimentar o crescimento populacional. Se houvesse um bilhão de pessoas no mundo, e não seis bilhões, como temos hoje, a situação seria outra. Agora não há mais volta.

- O senhor vê o aquecimento global como a comprovação de que sua teoria está certa?

- O aquecimento global pode ser analisado com base na Hipótese Gaia, e, por isso, muitos cientistas agora estão se vendo obrigados a aceitar minha teoria.

Quem se viu obrigado a fazer meia-volta – quem diria? – e negar sua própria teoria, foi Lovelock. Como o planeta teimava em não aquecer-se, Lovelock confessou em abril do ano passado ter sido alarmista: "cometi um erro".

- O problema é que não sabemos o que o clima está fazendo. Pensávamos que sabíamos nos últimos vinte anos. Isto levou a alguns livros alarmistas – o meu inclusive – porque parecia óbvio, mas isto não aconteceu. O clima está fazendo seus truques usuais. Não há nada realmente acontecendo ainda. Já era para estarmos a meio caminho de um mundo tórrido. O mundo não aqueceu muito desde a virada do milênio. Doze anos é um tempo razoável... a temperatura permaneceu quase constante, enquanto devia ter-se elevado. O dióxido de carbono está aumentando, não há dúvida quanto a isso. 

Lovelock arrebanhou milhares de malucos no mundo todo que saíram a fazer campanhas para impedir a construção de barragens e hidrelétricas. Isso sem falar nos que condenavam a pecuária brandindo a flatulência das vacas como fator de aquecimento do planeta. Era tudo alarme falso. A retratação de Lovelock ocorreu há pouco mais de ano. Pelo que vimos nos jornais deste final de semana, a imprensa parece jamais ter tido conhecimento dela.

Com a morte do comunismo, uma outra religião laica tomou seu lugar. Lovelock via de um lado a emissão de gás carbônico (característica de países industrializados), desmatamento de biomas (característica também destes países), concentração de renda, consumismo e má distribuição da terra. De outro, a miséria e a exclusão humana. Traduzindo: militando no lado do Mal estão os países ricos. Os países pobres sofrem no lado do Bem. Se não me falha a memória, já ouvi essa tese. Data do século XIX, se bem me lembro. 

O homem que desenvolveu a tese absurda acabou por renegá-la. Ao IPCC isto tanto faz como tanto fez. Os neocomunas sabem – como também os antigos comunas sabiam – que curta é a memória das gentes. A imprensa continuará a bater na batida tecla como se nada tivesse acontecido.

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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