Dom01202019

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

13 Mai 2014

A TRADIÇÃO TEUTÔNICA E AS RAÍZES OCULTISTAS DO NAZISMO – PARTE 6

Escrito por 

Escrevi esta série de artigos sobre a influência dos movimentos ocultistas no desenvolvimento e governança nazistas sem pretender esgotar estes vastos e inesgotáveis campos de estudo. Desnecessário dizer que a influência ocultista não explica por si só o aparecimento do nazismo e dos horrores que desencadeou.

 

Teosofia, ariosofia e racismo.

Antissemitismo e anticristianismo são essenciais para permitir o retorno ao “imperialismo pagão” Julius Evola (1), em 'Imperialismo Pagano'.

blavatsky

A Doutrina Secreta de Blavatsky (2) servia como uma luva para enaltecer o racismo germânico. A “Antropogênese” Teosófica era baseada no nascimento e queda de sete consecutivas raças-raízes (root-races) que descendiam de uma escala de desenvolvimento espiritual: da primeira à quarta estão embebidas no mundo material antes de ascenderem para raças-raízes superiores, da quinta à sétima. As três primeiras, presentes no início do “atual ciclo planetário” são proto-humanas: a Astral, que surgiu numa terra sagrada e invisível, a Hiperbórea, que residiu num continente polar desaparecido e a Lemuriana que floresceu num continente perdido do oceano Índico. A quarta foi a Atlântica que submergiu no cataclismo da Atlântida, mas antes alguns elementos evoluíram para a quinta, a Ariana, a primeira das raças superiores. Antes de perecerem os Atlânticos desenvolveram forças psíquicas cósmicas e seu gigantismo possibilitou a construção de estruturas ciclópicas e uma tecnologia superior baseada na exploração bem sucedida do Fohat (em tibetano: vida cósmica ou vitalidade, na Teosofia designa a força de interação entre a Ideação e a Substância Cósmica, o "incessante poder formador e destruidor"), herdada pelos arianos. As duas últimas, sexta e sétima, representam o futuro desenvolvimento da humanidade ariana nos próximos ciclos cósmicos do planeta. Blavatsky, usando o conceito espiritual de evolução, afirmava que o homem das raças superiores pode tornar-se divino ao avançar no processo evolutivo cosmológico.

Os ariosofistas usaram esta escala para designar os judeus, ciganos, negros e eslavos, como sobreviventes da raça inferior Lemuriana, considerados pelo nazismo como Untermenschen, os quais deverão desaparecer para a evolução plena da raça superior. E obviamente, os fisicamente incapacitados, pois a raça superior é perfeita por definição.

A ariosofia (2) é uma ideologia de raiz esotérica baseada na superioridade da raça ariana, combinava racismo, antissemitismo, teosofia e ocultismo e propunha a volta a um passado glorioso e pagão, o “imperialismo pagão” descrito por Evola, sob a direção de líderes dotados de poderes ocultos. Não por acaso a Ariosofia nasceu em Viena, uma cidade germânica que, por ser a capital do Império Habsburg, tornou-se multirracial com a imigração de povos não-germânicos, incluindo Judeus da Galícia (os Judeus eram 6.000 em 1857, passaram a 175.000 em 1910 – em média 8%, em algumas regiões 20%). Na Viena fin de siècle imperava o racismo völkisch, o anti-catolicismo e o anti-modernismo (4). Era o lugar certo para o florescimento de crenças místicas e uma Sociedade Teosófica foi fundada em 1886. “É um trágico paradoxo que na colorida variação de povos no Império Habsburgo, um legado direto de seu passado dinástico multinacional, tenha germinado doutrinas raciais genocidas na nova era do nacionalismo” (5). Dizia Hitler: “Achei o conglomerado racial da capital imperial nojento, esta mescla de tchecos, poloneses, rutenos, sérvios e croatas era repulsiva. A cidade parecia a personificação da infâmia racial”.

Repudiando a astronomia oficial, Hans Hoerbigher (1860-1931) assegurou que a Lua era um oceano de gelo. Sua teoria do “mundo de gelo” (Welteislehre ou Glazial-Kosmogonie) afirmava que o universo fora criado quando um gigantesco bloco de gelo cósmico colidiu com o Sol causando uma explosão que explica o Grande Dilúvio, a Idade do Gelo e a divisão em raças! Até aí seria apenas mais um autor com teorias esdrúxulas. O fato, importante para este estudo, é que foi nomeado por Himmler como Führer do Gelo Cósmico! (6). Era intolerável para os nazistas aceitar a Teoria da Relatividade sugerida por Einstein, um Untermensch.

Hitler desde sua juventude errante e pobre em Viena – quando se supõe que até teria se prostituído – cedo se interessou por sociedades secretas e ocultistas. Tornou-se um leitor contumaz da revista Ostara, editada por Jörg Lanz von Liebenfels sob o patrocínio da seita iniciática Ordo Novi Templi (Nova Ordem do Templo), de vaga inspiração Templária. Em 1930 foi publicado um ensaio neo-maniqueista de Liebenfels sobre a história da ariosofia, Die Geschichte der Ariosophie, no qual atestava que havia surgido na Atlântida cujo povo se originara do divino original Theozoa. Incluía entre os teosofistas Moisés, Platão, Pitágoras, Alexandre Magno e outros. Descrevia ainda a história dos Atlantes e suas migrações.

Intimamente associada aos movimentos ocultistas, de fato um de seus mais importantes aspectos, era a astrologia com a qual os nazistas abertamente se identificavam. De acordo com as teorias astrológicas a harmonia da natureza expressada nos movimentos planetários é a mesma que se expressa nas personalidades individuais e na sociedade. Portanto, passado, presente e futuro podem ser interpretados por certos ciclos e cálculos numéricos sobre os corpos celestes.

Com os sinistros personagens que serão descritos adiante a astrologia germânica tornou-se intimamente relacionada com racismo: os antigos germânicos eram guardiães de uma ciência secreta que foi destruída por judeus e cristãos. (Sklar, loc. cit, pp. 116-126). Guido von List afirmava que a antiga linguagem mística era encontrada na Cabala, erradamente considerada Judaica segundo ele, mas na realidade uma compilação de antigos conhecimentos Germânicos que sobreviveram à perseguição. Blavatsky também rejeitava as origens judaicas da Cabala (7).

Jörg Lanz von Liebenfels, a theozoologia e a Nova Ordem Templária

Liebenfels foi chamado por Wilfried Daim, talvez com algum exagero, Der Mann der Hitler die Ideen gab ('O Homem cujas Idéias Hitler adotou'), foi o fundador da ariosofia. Afirmava que os deuses eram formas superiores de vida – Theozoa – distintos dos herdeiros de Adão – Anthropozoa. Os primeiros, diferentemente dos últimos, eram seres primordiais que possuíam órgãos sensoriais extraordinários para recepção e transmissão de sinais elétricos e eletrônicos que geravam outros poderes, como a telepatia e a onisciência que se atrofiaram – nas glândulas pituitária e pineal – nos homens modernos em função de miscigenação dos homens-bons com os homens-bestas. O nascimento de Cristo, seus milagres e poderes mágicos indicavam sua origem eletrônica e serviriam para redimir seu povo escolhido, a raça à qual Ele pertencia, a Ariana. A Paixão de Cristo foi o resultado perverso dos pigmeus, discípulos de cultos satânicos devotados ao cruzamento sexual para produzir seres racialmente híbridos (Goodrick-Clarke, loc.cit., p.p. 90-96).

Lanz preconizava a existência de mães-procriadoras para a manutenção da raça pura em conventos eugênicos (Zuchtklöster) e diferentes tratamentos para as raças inferiores: deportação para Madagascar, escravização, incineração sacrificial e uso como bestas de carga. Sua dívida para com Madame Blavatsky era inegável: na sua revista Ostara escreviam Annie Besant, a sucessora de Blavatsky como líder da Sociedade Teosófica Internacional, Rudolf Steiner, secretário-geral do ramo Alemão. Nesta revista foi elaborada uma completa teoria teosófica de raça e um programa para a restauração da autoridade Ariana no mundo. Estes ideais estavam ligados historicamente ao neo-romantismo (idem, ibid, p.p. 99-105).

Lanz sonhava em fundar uma nova ordem religiosa desenvolvida diretamente de sua gnose elitista e racista, para combater a ascensão dos seres inferiores na Europa e o caos racial instalado nos últimos séculos, desde o desaparecimento das Ordens Templária e Teutônica. Seria uma Nova Cruzada, comandada pela Ordem do Novo Templo. Sua fundação e instalação no Burg Werfenstein, contou com a união com outros como Guido von List.

Guido von List, wotanismo e teosofia

list

list List era outro vienense interessado em magia negra, sociedades iniciáticas como os Rosacruzes e Maçonaria, e misticismo, Karma. Inicialmente fundou seu primeiro grupo, Armanen (1908) que mais tarde se uniu a Lanz formando a Germanenorden. Rapidamente se apoderou da Teosofia para, nela baseado, formar uma religião gnóstica Germânica que enfatizava a iniciação em mistérios naturais, que chamou de Wotanismo em função do principal deus do panteão germânico. Suas fontes básicas eram as runas e o Edda, coletânea de antigas poesias nórdicas da Islândia que mostrava a riqueza mitológica de seus habitantes pagãos, que List considerava com um refúgio Wotânico dos Cristãos perseguidos na Germânia medieval. O Edda registrou os antigos mitos e crenças da Germânia ancestral (8) onde Wotan (ou Odin), o maior dos deuses Viking, governante de Asgard era cultuado como o deus da guerra e Senhor dos heróis mortos no Valhalla, deus da sabedoria e da magia. As runas eram sinais antigos formadas de linhas separadas para escrever ou para entalhar na madeira, no metal ou na pedra. A suástica é um símbolo rúnico ancestral, comum tanto a Germânicos quanto a Hinduistas. Possuíam também propriedades mágicas para adivinhação, invocações e preparação de amuletos e encantamentos. List descobriu seu significado durante um período de cegueira passageira em 1902, o que o colocava em linha direta com Wotan que teria perdido um olho para ganhar conhecimento de todas as coisas (Edda, Voluspa) (9).

List deve ser considerado o pioneiro do ocultismo völkisch das runas. O homem, como parte integral do cosmos unitário está obrigado a seguir um único preceito ético: viver de acordo com a Natureza.

Rudolf Gorsleben baseado nas runas, ocultismo e no Edda criou uma religião original misteriosa e racista que valorizava a herança mágica dos arianos e justificava sua supremacia mundial espiritual e política. Considerava as runas como condutores de uma energia sutil que animava todo o Universo, e poderiam ser usadas para influenciar o mundo material e o curso da história. Estava implícito que viver como fera assassina também é viver de acordo com a Natureza.

A antiga doutrina hindu da pureza racial da casta dirigente foi utilizada pelos alemães para justificar a superioridade ariana sobre os judeus. Em meados do século XIX filólogos alemães teorizaram que seus nobres ancestrais arianos na Índia possuíam os mesmos símbolos místicos e deuses que os antigos germanos (Teutônicos (10)). A teoria de Gobineau, diplomata e orientalista, fazia da raça a característica da ascensão e queda das civilizações: a raça pura ariana se tornara bastarda pela miscigenação com raças decadentes, como os judeus, semitas híbridos de negros era a responsável pela queda (Sklar, 9).

List distinguia entre as formas exotérica (wotanismo) e esotérica (armanismo) e defendia que os iniciados na doutrina eram superiores às pessoa ordinárias. Os deuses teutônicos, Wotan, Donar, Loki, Thor eram interpretados como símbolos para ideias cosmológicas esotéricas. A weltanschuung de List era uma síntese de teosofia e mitologia germânica incluindo as antigas crenças teutônicas. A equivalência entre estas crenças e as hinduístas serviu de base para reforçar a ideia de Arianismo (Goodrick-Clarke, loc. cit.).

Rudolf von Sebottendorf, Germanenorden e a Sociedade Thule

seb

Alguns meses depois do estabelecimento do regime nazista surgiu um livro com um título curioso: Bevor Hitler kam: Urkundliches aus der Frühzeit der Nationalsozialistischen Bewegung (Antes de Hitler chegar: documentário dos primeiros dias do movimento nacional-socialista), de Rudolf von Sebottendorff (11). O livro era dedicado à memória dos sete membros da Sociedade Thule (Thule Gesellschaft), fundada em 17 de Agosto de 1918, assassinados pelos comunistas como “reféns” em Munich, um dia antes da entrada na cidade das tropas “brancas” que apoiavam o governo Bávaro temporariamente exilado em Bamberg (12). A principal tese do livro estava no prefácio: os membros da Thule foram os primeiros para os quais Hitler se voltou e seus primeiros aliados. Vários membros dos escalões de topo do partido, incluindo Rudolf Hess, Alfred Rosenberg eram membros da Thule.

Sebottendorff era admirador de Lanz e List e pertenceu a duas organizações racistas criadas por sucessores de List: a Reichshammerbund e a Germanenorden, ambas virulentamente antissemitas. A última, face secreta da primeira, formada em 1912 por vários ocultistas alemães proeminentes, tinha por símbolo a suástica e uma estrutura fraternal similar à maçonaria. A sociedade ensinava ideologias nacionalistas aos seus iniciados sobre a superioridade da raça nórdica, antissemitismo e também ocultismo e filosofias mágicas. Alguns dizem que o partido dos trabalhadores alemães (posteriormente partido nazista) quando sob a liderança de Adolf Hitler foi sua fronte política, e de fato, a organização refletiu muitas ideologias do partido, inclusive a suástica. Uma de suas principais funções era monitorar os judeus e a criação de um centro distribuidor de material antissemita. Quem desejasse se inscrever era submetido a um escrutínio detalhado sobre a cor do cabelo, dos olhos e da pele. Pessoas com defeitos físicos ou aparência desagradável eram eliminadas e encaminhadas para estudo pelos editores da Ostara dedicada na época à somatologia (estudo das características fisiológicas a anatômicas).

Hitler dedicou o Mein Kampf a um dos membros do círculo mais fechado da Thule, Dietrich Eckart, antigo dirigente do Deutschen Volkspartei.

Segundo Sebottendorf além da Thule outros aliados de primeira hora foram a Associação dos Trabalhadores (Deutscher Arbeiterverein), fundado pelo Irmão (como se chamavam os membros da Thule) Karl Harrer, e o Partido Socialista Alemão (Deutsch-Sozialistische Partei), de Georg Grassinger cujo jornal, o “Münchener Beobachter”, mais tarde tornou-se o órgão oficial do Partido Nazista até 1945, o “Völkischer Beobachter”. Estas foram as três primeiras fontes do Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei.

Karl Maria Wiligut: o Rasputin de Himmler

wiligut

Todos os anteriores contribuíram para a mitologia Nazista, mas nenhum teve uma influência direta nas ações de pessoas em posição de poder e responsabilidade política como Wiligut (1866-1946), o mago pessoal do Reichsführer-SS em virtude de sua alegada memória ancestral inspirada na representação das tradições germânicas arcaicas. Sua influência estendeu-se desde o design do anel da caveira (Totenkopfring) usado pelos membros da SS à sagração do Castelo de Wewelsburg como sede sagrada da Ordem das SS, destinado aos cerimoniais de elitismo, pureza racial e conquistas territoriais. Sua importância derivava da reputação como último descendente de uma longa linha de sábios germânicos, os Uiligotis de Asa-Uana-Sippe que datava da era pré-histórica. Wiligut alegava possuir memória clarividente que o capacitava a recordar a história e as experiências de sua tribo por milhares de anos. Atribuía a existência da religião, cultura e história germânicas há 228 mil anos A.C. quando havia três sóis e a Terra era povoada de gigantes, anões mágicos e outros seres míticos. A era histórica começava quando seu ancestral Adler Wiligoten restaurou a paz após longo período de conflitos.

Segundo Wiligut, a Bíblia foi originalmente escrita em alemão identificando-se com a religião Irminista que possuía o deus Krist, nome posteriormente apropriado pelos cristãos, religião antecessora do wotanismo, uma heresia que posteriormente triunfou.

De 1924 a 1927 esteve internado no hospício de Salzburg com o diagnóstico de insanidade mental.

Com a posse de Hitler em janeiro de 1933 foram desencadeadas todas as crenças místicas e apocalípticas e neste mesmo ano foi apresentado a Himmler por um amigo. Entrou para as SS em setembro com o nome de Karl Maria Weisthor e assumiu o Departamento de História Antiga e Pré-História pertencente ao Diretório Geral para a Raça e Colonização (Rasse und Siedlungshauptamt - RUSHA) dirigido por Walther Darré (13), sendo constantemente promovido até General de Brigada-SS (Brigadeführer) do staff pessoal de Himmler.

A princípio, a RUSHA se encarregava de verificar a ascendência das mulheres dos oficiais das SS. Em dezembro de 1935, o Reichsführer ordenou à RUSHA que estabelecesse a Lebensborn (fontes da vida), casas de maternidade onde as mulheres solteiras racialmente sãs e puras, procriavam grande número de filhos igualmente sãos e puros, os “procriadores” eram cuidadosamente escolhidos, muitos deles eram soldados heroicos da frente de batalha que eram interrompidos do seu serviço por um tempo.

Em 1933 Himmler visitou o Castelo de Wewelsburg por indicação de Weisthor-Wiligut e em agosto de 1934 as SS se apropriaram dele, tornando-o centro da educação e rituais das SS. Todas as cerimônias, principalmente o casamento dos SS Lebensborn eram oficiadas por Weisthor. Os casamentos eram geralmente realizados durante os festivais dos solstícios.

Sua enorme influência levou-o a dirigir, juntamente com Otto Rahn, as buscas de uma tradição germânica perdida, obscurecida e destruída pela Igreja Católica e outros interesses hostis. Rahn saiu em busca do Santo Graal na Alemanha. Himmler, Rahn e Weisthor acreditavam piamente que a chave secreta para a antiga cultura pagã poderia ser encontrada no presente. Consultaram profundamente as obras de Giulio Evola (ver nota 30) Imperialismo Pagano (1933) e La rivolta contro il Mondo Moderno (1935), onde Evola apresentava sua doutrina elitista e anti-moderna baseada na tradição ariano-nórdica definida como uma mitologia solar contra o “princípio feminino de democracia”. Suas ideias não foram bem aceitas pelo fascismo italiano. As interpretações de Wiligut sobre a obra de Evola, que demonstravam, segundo ele, a superioridade do nazismo alemão sobre o fascismo italiano, prejudicavam a aliança entre os dois e Wiligut foi desencorajado a prosseguir suas atividades.

Por razões desconhecidas e envolvidas numa bruma impenetrável, Wiligut demitiu-se das SS. Aparentemente o alcoolismo exagerado deve ter provocado novo surto. Em 29 de agosto de 1939 foi oficialmente reconhecido seu afastamento “por idade avançada e estafa”. (Para Wiligut ver a referência na nota 34).

Conclusão e advertências

Escrevi esta série de artigos sobre a influência dos movimentos ocultistas no desenvolvimento e governança nazistas sem pretender esgotar estes vastos e inesgotáveis campos de estudo. Desnecessário dizer que a influência ocultista não explica por si só o aparecimento do nazismo e dos horrores que desencadeou. Uma das conclusões que se pode tirar desta exposição vai contra a visão conservadora comum de que os movimentos totalitários do século XX são herdeiros diretos do Iluminismo, mas, ao contrário, significam uma reação violenta contra o Iluminismo, a ciência e a liberdade de pensamento que trouxe ao homem moderno. Como concluiu Locke, a maior de todas as inimigas da Liberdade é a crença de que os reis não são homens comuns, mas ungidos por Deus para governa-los de forma absolutista e mantê-los na total e eterna ignorância. O Iluminismo, seguindo a máxima de Kant, sapere aude, não apenas tirou a humanidade das trevas da ignorância e da mentira, mas desencadeou o maior surto de criatividade e abundância de todos os tempos. Mas a liberdade traz responsabilidades, algumas difíceis de aceitar. Os totalitarismos foram a resposta aos anseios de retornam aos velhos tempos de escravidão mental. Il Duce ha sempre ragione, um dos lemas do fascismo italiano, ou a consciência do Reich é o Führer, ou o camarada Stalin é o bondoso paizinho dos povos e sabe o que é bom para todos, isentavam os povos de pensar por si mesmo. Retornava-se ao poder absoluto e à “razão” dos reis cujo último argumento eram as armas – ultima ratio regis -, deixando ao povo apenas as obrigações de servi-los: il Fascismo non vi promette né onori, né cariche, né guadagni, ma il dovere e il combattimento. Il Fascista disdegna la vita comoda. Assim rezavam alguns dos mandamentos do “catecismo fascista” de Achille Starace. Os italianos não precisavam se ocupar nem do próprio ócio: para isto existia a Opera Nazionale Dopolavoro (depois do trabalho) e o Sabato Fascista.

É preciso também advertir os leitores que em alguns trechos devem ter dado gargalhadas pelo amontoado de asneiras e idiotices que embasavam o nazismo – no fascismo e no comunismo bem menos. Atentem, no entanto, que nestas asneiras estão o germe de Dachau, Auschwitz, Bergen-Belsen. A Sociedade Teosófica e suas ideias raciais continuam existindo e com milhões de adeptos, suas crenças místicas ainda embalam sonhos satânicos de poder. Exagero? Saiba-se que a editora das obras de Annie Besant e outros teosofistas se chama Lucis Trust, fundada por Alice Bailey, mas Lucis foi mudado depois que o nome verdadeiro, Lúcifer Trust causou rejeição. A influência de Yelena Pietrovna Blavatsky através de Bailey e Robert Muller sobre o movimento New Age, na ONU e no movimento gay precisa ser mais bem avaliada (14). Blavatsky era tida como lésbica e seu “bispo” da Sociedade Teosófica, Charles Leadbetter era reconhecidamente pederasta e pedófilo, tendo comprado um menino indiano de seu pai transformando-o no visionário Krishnamurti, o qual posteriormente revoltado contra os maus tratos recebidos na Sociedade Teosófica abandonou-a. É conhecida a relação entre ocultismo e homossexualidade (15).

Adivinhos, cartomantes, quiromantes, pais-de-santo, rosacruzes e até mesmo templários e crentes em Druidas e nos poderes mágicos de pedras e runas “ancestrais” (16) têm muitos adeptos e crentes. A astrologia, as “medicinas” alternativas, as “cirurgias astrais” e a exploração das crenças espíritas têm pretensões de ser ciência e não um aglomerado de ideias delirantes, mas contam com a eterna crendice popular que necessita explicações perfeitas que a ciência não pode dar e as religiões tradicionais exigem fé e não aceitação objetiva.

O multiculturalismo tem servido para blindar tais delírios como equivalentes ao verdadeiro conhecimento.

O que aconteceu na Alemanha, e em menor intensidade Itália e Rússia, foi o surgimento de líderes que souberam explorá-las para tomar o poder político, convencer o povo que tinham poderes “ocultos”, e usá-lo para conspurcar a verdadeira fé, explorando a força da tradição ao mesmo tempo em que a destrói por dentro. Nada mais significativo do que a missa inaugural do Campo Duce destinado a batalhões de jovens se dedicarem a atividades atléticas e militares em 1938: a cerimônia iniciou pelo hino fascista Giovinezza, em lugar de cantos católicos seguindo-se uma reza para Mussolini, il fondatore dell’Impero. O padre foi assistido pelo Secretário do Partido, o que levou o observador Dante Germino a dizer: “l’Italia fascista é Católica”. Na elevação da hóstia, ao invés da atitude de recolhimento e veneração, quinze mil fuzis foram elevados ao Céu. Germino concluiu: “Italia é sopratutto fascista e honra a Deus com a ponta da espada”. Mussolinia dizia: “o povo italiano não engole um Deus judeu, sou católico, mas anti-cristão!” (17).

 

Notas:

1 -  Barão Giulio Cesare Andrea Evola, 1898-1974, (ver Dizionario Biografico degli Italiani - Volume 43 (1993). Sua vasta obra abrange arte, filosofia, historia, politica, esoterismo, religião, costumes, estudos sobre as raças. Participou ativamente das campanhas racistas, suas ideias esotéricas influenciaram o misticismo fascista e principalmente nazista.

2 - Yelena Pietrovna Blavatsky, The Secret Doctrine, Theosophical University Press, Philadelphia: 1974

3 - Ario=nobre, em Sânscrito. William Jones, em 1786, usou para definir o grupo exclusivamente lingüístico , que abarcava sânscrito, grego e latim.

4 - Ver de Evola: La rivolta contro il mondo moderno, 1934:Milano

5 - Nicholas Goodrick-Clarke, The Occult Roots of Nazism: secret Aryan cults and their influence in Nazi ideology, NY University Press: 1985

6 - Dusty Sklar, The Nazis and the Occult, Dorset Press, NY:1977

7 - G. L. Mosse, The Mystical Origins of National Socialism, Journal of the History of Ideas, Vol. 22, No. 1 (Jan. - Mar., 1961), pp. 81-96, University of Pennsylvania Press

8 - Ver em http://www.sacred-texts.com/neu/poe/ e http://www.sacred-texts.com/neu/pre/pre04.htm. Também são relevantes os mitos do Reno em X. B. Saintine, Mitologia del Rin, Edicomunicación, Barcelona: 1988

9 - Na mitologia nórdica, Odin (Wotan) era o maior dos deuses vikings, governante de Asgard e senhor de todas as magias. Possuía a lança Gungnir, que nunca errava o alvo e em cujo cabo havia runas que ditavam a preservação da lei. Possuía também um cavalo de oito patas chamado Sleipnir. Odin também era o deus da sabedoria. Ele atirou um de seus olhos no poço de Mimir em troca de um gole de sabedoria. Ele se enforcou pendurando-se na árvore cósmica, Yggdrasil, para obter o conhecimento dos mortos e foi revivido por magia em seguida. Ele se mantinha informado sobre os acontecimentos em toda a parte através de seus dois corvos, Hugin (Pensamento) e Munin (Memória), que vigiavam o mundo e contavam tudo o que se passa e o que já se passou.

10 - O gentílico Deutsch é derivado de Teutsch, Teutônico, Deutschland (Alemanha): Teutschland.

11- Reginald H. Phelps, Before Hitler came: Thule Society and Germanen Orden, http://black.greyfalcon.us/bevor.html

12 - Referência à tomada do poder pelos comunistas em Munich em 12 de abril de 1919 para estabelecer um regime bolchevista na Baviera, sob o comando de Eugen Leviné. Foram tomados sete reféns da elite posteriormente executados por tropas russas, entre os quais o Príncipe Gustav von Thurn und Taxis e a Condessa Hella von Westarp, Secretária da Thule. Os “Guardas Brancos”, Freikorps e Marinebrigade, retomaram o poder em 3 de maio, prenderam 700 pessoas e Leviné foi executado na prisão de Stadelheim.

13 - Ricardo Walther Oscar Darré nasceu em Buenos Aires em 14 de Julho de 1895. Sua principal obra, Der Neuer Adel aus Blut und Boden (A Nova Nobreza do Sangue e do Solo) valeu sua nomeação para Ministro da Agricultura do Reich, posteriormente a Reichsbauernführer (Líder dos Camponeses do Reich).

14 - Ver em http://www.heitordepaola.com/publicacoes_materia.asp?id_artigo=99

15 - Scott Lively & Kevin Abrams, The Pink Swastika: homosexuality in the Nazi Party, Founders Publ. Corp., Oregon:1995, Scott Lively The Poisoned Stream: “Gay” influence in human history, Vol. I:Germany 1890-1945, Founders Publ. Corp., Oregon:1997 Michael W. Johnson, Ph.D., Homosexuality: the essence of Nazism, The Geopolitical Strategist, Vol. XVIII, Agosto 2002, Samuel Igra, Germany’s National Vice, Quality Press, London:1945 J. Sydney Jones, Hitler in Vienna 1907-1913, Stein & Day, New York:1983 Harry Oosterhuis & Hubeert Kennedy, Homossexuality and Male Bondings in Pre-Nazi Germany: the youth movement, the gay movement and male bonding before Hitler’s rise original transcripts “Der Eigene”, the first gay journal in the world, Routledge, Taylor & Francis Group, London:1991 Richard Plant, The Pink Triangle: the Nazi war against homosexuals, New Republic, NY:1986

16 - Estive em Stonehenge e na Anglesey Island, a “ilha dos druidas” em Wales. Na primeira, só vi um amontoado de pedras que não há como dizer para quê serviam, na segunda encontrei alguns pubs bastante interessantes!

17 - Ernst Nolte, Three Faces of Fascism: Action Française, Italian Fascism, National Socialism, Hotlt, Rinehart & Winston, NY:1966

Última modificação em Terça, 13 Maio 2014 15:13
Heitor de Paola

Médico, escritor e analista político. Membro do International Board of Directors da Drug Watch International, Diretor Cultural da BRAHA (Brasileiros Humanitários em Ação), autor do livro O Eixo do Mal Latino-Americano e a Nova Ordem Mundial. Articulista do site Midia Sem Máscara, dos Jornais Inconfidência e Visão Judaica.

Deixe um comentário

Informações marcadas com (*) são obrigatórias. Código HTML básico é permitido.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.