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21 Ago 2017

CHRIS ROCK, A ESQUERDA E A DIREITA

Escrito por 

 

 

 

“Nenhuma pessoal normal e decente é só uma coisa. Ok?! Em um monte de bosta, eu sou um conservador e em um outro monte de bosta, eu sou um liberal. No crime, eu sou conservador. Na prostituição, eu sou um liberal.”  Chris Rock

 

 

“Nenhuma pessoal normal e decente é só uma coisa. Ok?! Em um monte de bosta, eu sou um conservador e em um outro monte de bosta, eu sou um liberal. No crime, eu sou conservador. Na prostituição, eu sou um liberal.”  Chris Rock

 

Quatro dias atrás, uma manifestação racista acabou em violência no estado da Virgínia, EUA. Ativistas da Supremacia Branca, Alt-Right (Alternative Right) e a renascida Ku Klux Klan marcharam até o campus local onde havia uma estátua do General Lee, um dos líderes confederados que defendia a escravidão na Guerra de Secessão (1861-1865) e que ameaça ser retirada, pois é vista como um “símbolo racista”. Claro que o evento serviu a outros propósitos que não a mera preservação de uma ingrata memória: a “união das direitas”, como asseverou um de seus membros era a real motivação da marcha de celerados. Aí, por causa disto, os antiesquerdistas brasileiros surtaram.

Por quê? “Porque nos igualaram a nazistas,” alguém diria. Vem cá, há uma essência inabalável no conceito da palavra Direita? Se há, me provem. Da mesma forma, há uma essência inabalável no conceito da palavra Esquerda? Eu digo que não. Esse é um dos temas que mais me apaixona e não é a discussão de filosofia política ou mais simplesmente, ideologia, mas sim, em como as pessoas percebem as mesmas ideologias e seu papel nelas. Ou seja, como as pessoas se imaginam vinculadas a certos conjuntos de ideias.[1]

A birra toda veio porque a esquerda tupiniquim guiada pelos anti-Trumpistas que quiseram associar a presença dos manifestantes racistas que também apoiaram Donald J. Trump à presidência, como uma inabalável prova de sua má influência, o que teria encorajado tais movimentos. Cá entre nós, Trump pode ser um tanto desastrado em suas declarações (embora muito menos do que o nosso Bolsonaro), mas ele não é burro. Aliás, seu governo está se saindo muito bem, mas este é assunto para outro artigo… A questão é que em uma era midiática, que se expressa opiniões em apenas 140 caracteres no Twitter, vocês querem o quê? Altos debates com fundamentação filosófica e teórica? Não dá. Assim como em toda a guerra, a primeira vítima é a verdade, o que mais se viu de ambos os lados foram falsas acusações. E isto não seria diferente aqui no Brasil.

Agora, que nossa esquerda brasileira faça pouco caso das ameaças de um louco na Coreia do Norte que ameaça não só os EUA, mas também ilhas no Pacífico, sua vizinha, a Coreia do Sul e o Japão ou o assassinato de mais de 120 jovens que protestaram contra o fim da democracia na Venezuela na semana passada ou contra a pior corrupção do planeta capitaneada pelo PT aqui no Brasil, eu não me admiro. Obviamente que ela tentará encobrir estes e outros fatos, FATOS com a morte de uma militante antirracista por um canalha assassino que furou sua marcha batendo em um carro que colidiu com seu corpo. Uma morte sim, mas uma morte estúpida feita por um fanático que trouxe a ira de americanos contra seu protesto a favor da preservação da estátua de um militar a serviço dos escravocratas. Claro que Trump poderia ter sido rápido no gatilho ao condenar o protesto e o timing dele, por vezes tão ágil no Twitter falhou. Acabou se manifestando, só que depois de vários congressistas de seu próprio partido se anteciparem. Dentre todos que li, a melhor foi do senador veterano pelo estado de Utah:

 

“Meu irmão não deu a vida lutando contra Hitler por suas ideias nazistas para que elas fossem aceitas aqui em casa.”

Por que um cara desses não é escalado para ser um POTUS (President Of The United States) com uma firmeza moral destas é um mistério para mim. Enfim, Trump condenou a marcha sim, mas considerou que retirar a estátua do General Lee seria o mesmo que então tirar as de George Washington ou Thomas Jefferson, alguns dos Pais Fundadores da nação por que estes também tiveram escravos. Erro, presidente, o senhor está errado. Ou sofismou ou caiu vítima do próprio equívoco em misturar épocas. Fazendo uma analogia: John Locke foi um dos maiores pensadores do liberalismo econômico que se conheceu na história. Só que na sua época, século XVII, a escravidão era vista como algo totalmente lícito, no que lhe permitia ser acionista de uma empresa que traficava escravos. Absurdo, não? Sim, plenamente, mas não para os padrões da época. Assim como não para os próprios padrões de africanos antes de meados do século XX, quando ter escravos era tão comum e normal que os próprios conterrâneos caçavam e vendiam seus ‘irmãos’ aos europeus em troca de mercadorias; assim como não para os povos da Mauritânia, país africano acusado pela ONU de ainda manter nos dias de hoje, a prática da escravidão entre os seus. Leiam com atenção, a escravidão não tem desculpas, não se justifica, mas se compreende e compreender NÃO é aceitar. O caso é que se aproveitamos John Locke ou Thomas Jefferson em alguma coisa, não foi por sua relação com a escravidão, mas sim pela defesa da liberdade que, inclusive serviu para acabar com a escravidão. Entendam que as ideias superam, vão além desses mortais que, por acaso, as enunciaram. Agora, me digam aqui, quais ideias eu posso aproveitar de um General Lee? Alguma tática militar talvez, mas é por isto que tem uma estátua dele no campus? Acho que não.

Donald J. Trump erra e erra feio porque depois da derrota do sul escravagista, manter símbolos desse período e de quem lutou para manter o status quo não é só preservar um símbolo de independência, mas de dependência de um ser humano visto e condenado ao status de ser “uma coisa de alguém,” este sim livre. Em minha opinião, a estátua do General Lee deveria ser posta abaixo e construída uma do presidente Lincoln, o abolicionista em seu lugar. Sei, sei que a guerra não teve seus propósitos limitados a isto, que houve motivações, predominantes dir-se-ia, estritamente econômicas, como a manutenção de um mercado (sulista) protegido para os manufaturados do norte yankee. No entanto, isto não demove um milímetro, o fato de que a guerra acabou com a escravidão, malgrado o racismo não termine com guerras, mas sim com miscigenação. E a miscigenação nos EUA, comparativamente a países como o Brasil é muito tímida, embora tenha mudado de alguns anos para cá, lentamente. E é isto que apavora a KKK, os supremacistas e toda esta escória. Se não podemos saber o que pensariam George Washington e Thomas Jefferson de tudo isso, não quer dizer que não sabíamos o que pensava o General Lee. Sabemos sim e manter a bosta da estátua que serve para acumular merda de pombo no campus é uma provocação.

Bem, o que fez nossa direita? Indignou-se por chamarem os racistas de ‘direita’ e se empenhou em produzir textos e textos, vídeos e vídeos chamando nazistas de esquerdistas pela palavra Nazismo ser um acrônimo de “Nacional-Socialismo” do Partido Nacional-Socialista Alemão. A dedução lógica é se o nazismo se originou na esquerda, então “o racismo é socialista”. Reparem, a defesa dos direitistas foi do mesmo quilate da acusação dos esquerdistas “vocês liberais são direita e a direita nos EUA é racista, logo…” Algum comentário ou análise sobre o caso em si? Isto foi de passagem, mas se concentraram em “limpar a barra da direita”, como se eles fossem responsabilizados pelo que ocorreu em Charlottesville, VA. Pessoal, vocês da Direita, sinto lhes dizer, mas vocês morderam a isca! A questão de se os nazistas eram direitistas na Alemanha, caso alguém se interesse em saber minha opinião, não se responde pela filosofia política (ideologia) e sim pela história: havia algum grupo “mais a direita”? Os liberais econômicos? Estes eram expressivos na composição política alemã do pré-II Guerra? Se não, então os nazistas entram como direita e não importa que sejam estatistas, pois o socialismo como organização econômica não vincula seus membros e apologistas, necessariamente, com o racismo. Até os anos 70, na América Latina, quando o comunismo era visto como alternativa viável pelos seus intelectuais, o keynesianismo, hoje chamado de ‘esquerda’ por liberais(-econômicos) era encarado como de direita porque, ao final das contas servia como um conjunto de políticas destinadas a salvar o capitalismo e não permitir que suas crises levassem a sua ‘superação’. Entendam de uma vez por todas que os diabos dos termos Esquerda e Direita são RELATIVOS! Não confundamos divergência econômica com cizânia racial ou social. São coisas distintas. É possível termos liberais em termos econômicos que não apreciem negros ou negros liberais que não gostem de hispânicos e por aí vai. POR ISTO, tanto faz se o nazismo é de direita ou de esquerda, DEPENDE do que estejamos considerando. Pense, o mundo não precisa ser manipulado por inteligentes e sábias cúpulas dirigentes, basta que seja normalmente estúpido, como de fato o é. E é aí que está a matéria-prima de quem apoia a estupidez, nos estúpidos que vão apoiar comunistas, que vão apoiar nazistas, independente de que numa dada conjuntura, eles estejam mais a direita ou mais a esquerda. Isto é irrelevante. Nunca subestime a ignorância, o racismo é uma constante mundial mitigada em sociedades, locais, cosmopolitas e em raros casos de países onde as tribos se miscigenam tendo casamentos interétnicos como padrão. Afinal, filhos amam seus pais, independente se são judeus ou palestinos. Daí se forem os dois, se importarão menos com os deuses de cada um e sim com quem lhes afaga e beija antes de dormir.

Minha posição política? Depende. Neste caso, ninguém melhor do que Chris Rock, ator e comediante americano para responder por mim:

“The whole country’s got a fucked up mentality. We all got a gang mentality. Republicans are fucking idiots. Democrats are fucking idiots. Conservatives are idiots and liberals are idiots.

Anyone who makes up their mind before they hear the issue is a fucking fool. Everybody, nah, nah, nah, everybody is so busy wanting to be down with a gang! I’m a conservative! I’m a liberal! I’m a conservative! It’s bullshit!

Be a fucking person. Listen. Let it swirl around your head. Then form your opinion.

No normal decent person is one thing. OK!?! I got some shit I’m conservative about, I got some shit I’m liberal about. Crime – I’m conservative. Prostitution – I’m liberal. (Chris Rock on Liberals And Conservatives”)

 

Perspicaz, o rapaz. Um excelente dia a todos.

 

 

 

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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