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05 Abr 2020

NÃO É POSSÍVEL QUE TODOS ESTEJAM ERRADOS E SÓ UM ESTEJA CERTO

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Quem afirmou tal coisa? Platão, Newton, Confúcio?

 

Quem afirmou tal coisa? Platão, Newton, Confúcio? Não. Milhares de pessoas repetem isso há milhares de anos. Trata-se de um chavão, geralmente dito para confrontar os supostos certos com o suposto errado. E olha que convence muita gente por aí!
 
Creio que na Idade Média, algo semelhante era dito: Vox populi vox Dei. Ou seja:” A voz do povo é a voz de Deus”. Em determinados casos até pode ser, mas nem sempre é. E como alguém pode estar certo de que o povo, sem saber, sempre expressa por sua boca a Voz de Deus? E não as vozes da TV Globo, da Folha de S.Paulo ou de qualquer outra ladainha ressoando em seus  ouvidos?!
 
Cuidado! Este é um terreno escuro e pantanoso em que até mesmo PhDs, filósofos de carteirinha, por vezes ali chafurdam sem se dar conta.
 
Mas como é o caso de um chavão bastante disseminado, qualquer gênio ou papalvo pode inflar o peito, fazer ares da máxima seriedade e proclamar: “Não é possível que todos estejam errados e só um esteja certo!!!. Se esse espírito genial ou parvo, for da área jurídica, ainda pode aduzir um Data maxima venia (obs: em latim não há acentos].
 
Após esse  breve preâmbulo, srict to the point: um deputado do PT em Brasília enviou ao STF um pedido de impeachment de Jair Messias Bolsonaro. Baseado em que? Corrupção, pedaladas fiscais, mau gosto, mau hálito? Não, nada disso. Conduta incompatível com a dignidade do cargo.
 
O pedido de impeachment caiu em mãos do Ministro Marco Aurélio que, por não ter um juízo formado ou mesmo por tê-lo, mas desejar uma segunda opinião, pediu ao Procurador Geral da República um parecer sobre a questão. Dias antes ou depois, não sei dizer, falando fora dos autos como sempre, Calígula, perdão: Marco Aurélio declarou: Não é possível que todos estejam errados e só um esteja certo (“Ele”,  neste contexto, é o “Ele Não”, i.e. Bolsonaro].
 
Qual conduta estava em pauta? Ter dito que, após ter sofrido uma facada nas tripas e sobrevivido – referia-se ele ao executante, que somente o ex-ministro Raul Jungman afirmou que se tratava de insano ato de um lobo solitário -   Bolsonaro disse que não seria uma gripezinha que iria lhe derrubar “. E lembro que a facada passou a alguns milímetros da veia cava que, uma vez atingida, causaria  gravíssimo risco de vida!
 
Vejam só: se alguém que diz se tratar de um “lobo solitário” afasta imediatamente a existência de um mandante do ato homicida. Para todos os efeitos e propósitos, esses dois papéis foram desempenhados por um mesmo indivíduo, a saber: Adélio Bispo.
 
Jungman fez esta declaração pouco tempo após o atentado quando a Polícia Federal mal havia começado as investigações. Tendo ou não esse propósito, Jungman sugeriu que se tratava do ato tresloucado de um indivíduo  demente, não de algo planejado por um grupo desejoso de tornar Bolsonaro inelegível por não mais pertencer a este mundo.
 
A torcida do Flamengo e do Corínthians juntas pensaram logo que o Presidente havia sido vítima de um premeditado atentado planejado num “gabinete do ódio” por  inimigos do capitão, somente Jungman pensou que não: para ele foi ato de um lobo soliltário destes que encharcam de querosene o corpo de um desabrigado dormindo no banco de uma praça e riscam um fósforo, só para dar gargalhadas com uma tocha ambulante correndo na escuridão da noite
Como já disse, pode ser que os Gaviões da Fiel e todos os Urubus estejam completamente equivocados e somente um reles mortal esteja certo. E se isto poder ser não passa de uma possibilidade, incluindo, é óbvio, a alternativa contrária.
No Renascimento italiano, quando Galileu Galilei afirmou que a Terra se movia, e apresentou provas do que dizia, foi um alvoroço generalizado. Todo mundo discordou veementemente, sem mesmo apresentar uma só razão da sua discordância. Ocorre que ele  estava certo e todo mundo estava  errado.
Quando no século XX, Albert Einstein mostrou que toda observação astronômica é relativa ao lugar em que se posiciona o observador, um grande número de cientistas e leigos , incluindo aí toda a população da China, achou que ele estava errado... Daí não decorre o chavão da epistemologia relativista: “Tudo é relativo”. Tudo é relativo a que? A nada?, indago eu...
Disto se infere que se você afirma algo e dispõe de provas e/ou argumentos capazes de sustentar sua afirmação, por mais contundente e repelente que seja ela, não mude de ideia só porque todos discordam de você. Não seja uma Maria-vai-com-as-outras, nem um ser politicamente correto, seja fiel ao que você pensa até o fim, a menos que lhe sejam apresentados argumentos ou provas de que você estava errado.
Mas de modo a evitar a arrogância que às vezes acompanha os que têm grandes certezas e a pecha de radical pespegada por muitos que mudam de ideias como quem muda de roupa, admita para si mesmo que é possível que você esteja errado e todos os outros certos.
No século XVIII, Voltaire recebia críticas impiedosas de um famoso crítico da época, porém tecia os mais rasgados elogios a quem o espinafrava. Tal coisa gerou perplexidade generalizada. Assim sendo, um amigo seu disse para Voltaire: “Não consigo entender você por mais que tente. Você cumula de elogios um sujeito que só lhe faz reprimendas e imprecações. Diante disso, disse o feroz crítico da mentalidade da época: “Bem, é possível que ambos estejamos errados”

Última modificação em Domingo, 05 Abril 2020 19:33
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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