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06 Jul 2020

NA MESMA PRAÇA

Escrito por 

Descartando o coringa para fora do baralho, podemos dizer que, de certa forma, o povo não era e não é bobo não.

 

“O povo assistiu àquilo – a proclamação da República - bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada”. Essas palavras foram escritas e publicadas, como todos bem sabem, pelo jornalista republicano Aristides Lobo logo após o golpe que deu fim à monarquia no Brasil que, naquela altura do campeonato, já estava com a coroa no colo, dentadura no copo e ruim das pernas.

Há também quem o diga que após todo o fervo que foi armado pelos militares, Deodoro da Fonseca teria bradado, em alto e bom tom um “Viva D. Pedro II”. Houveram outras historietas saborosas e picantes em torno desse acontecido, mas, espere aí: será que o povo pode ser considerado “besta” só por não ter levado a sério essa birosca [depre]cívica? Acho que não. O historiador José Murilo de Carvalho também.

Descartando o coringa para fora do baralho, podemos dizer que, de certa forma, o povo não era e não é bobo não. Às vezes, muitas vezes, ele acaba sendo feito de bobo, mas ele não é não seu moço. Não é não.

Aliás, muitos dizem que povo não sabe votar. Não concordo. Na real, acho que os populares, individualmente, são portadores duma sabedoria incomum que irrita profundamente as pessoas diplomadas que creem estar autorizadas a falar do alto do seu bacharelismo em nome dos esquecidos.

Parêntese: Ao contrário dos doutos, cheios desses trens fuçados que eles chamam de “responsabilidade social” e “consciência crítica”, não acho legal ficar falando em nome de ninguém, de grupo nenhum. Penso que deveríamos falar apenas e tão somente em nosso nome. No meu caso, sei que isso não é grande coisa. Na verdade, é praticamente coisa alguma, mas é o que tenho e isso, pra ser franco, me basta. Fecha parêntese.

Gente assim, que acredita ser um “agente de mudança social”, de certa forma acaba sendo uma espécie de herdeiro do velho Aristides Lobo. Esse senhor, como praticamente qualquer militante de qualquer tranqueira, acreditava ser o porta-voz legítimo da sofrida multidão silente.

É. Enquanto está de acordo com seu brado o povo é retumbante, mas se ousar colocar-se contra as suas proclamações, o povo torna-se aos seus olhos, num estalar de dedos, uma chusma de ignorantes infames.

Ignorantes. Ignaro era ele e todos aqueles que veem os simples como um simplório instrumento para as maquinações das suas ideologias.

De mais a mais, não é que o povo não saiba votar ou que não entenda nada do entrevero que está sendo macaqueado diante de seus olhos. Nada disso. O tal do povo apenas joga com as cartas que tem e com os parcos recursos que dispõem.

E tem outra: se levarmos isso em consideração podemos, sim, iremos concluir que o povo brasileiro é muito mais sabido que os bacharéis e demais diplomados dessa pátria infeliz, principalmente se levarmos em conta os recursos intelectuais que essa gente de fala bonita tem, ou que, ao menos, presumem ter.

Os humildes fazem o que podem com o pouco que tem e, no frigir dos ovos, acabam fazendo muitíssimo com esse pouco, enquanto muitos doutos e um bom tanto das “otoridades” públicas fazem o que fazem sendo o que são.

Sim, o Zé do povo erra e, normalmente, está ciente disso. Já os doutos erram, como erram, e acham isso uma lindeza só.

Sem mais delongas, digo que o povo não assistiu e não assiste os eventos políticos com cara de besta por ser tonto. Não. Seja no 15 de novembro de 1889, seja hoje, seja em qualquer tempo, o povo sabe razoavelmente bem que o que está sendo encenado diante de suas vistas, ele sabe que é apenas mais uma garbosa baboseira; mais uma como tantas outras que foram e que serão apresentadas em seu nome por fulaninhos engomadinhos e sem procuração.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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