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Janer Cristaldo

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

Quinta, 23 Agosto 2007 21:00

Ironias da História

Ironias da História: coube agora a um judeu e comunista, o ministro Tarso Fernando Hertz Genro, justificar a deportação dos cubanos para Cuba.

Leio artigo de Ipojuca Pontes, onde há uma menção ao "ex-marxista-leninista Tarso Genro". Marxista-leninista Tarso sempre foi. Quanto ao ex, não tenho notícia alguma de que algum dia tenha abjurado sua fé. Que mais não seja, sua fidelidade canina a Fidel Castro o evidencia no mínimo como comunista. Mais ainda: considero que quem defende a ditadura cubana nos dias que correm, antes mesmo de ser comunista, é stalinista. Stalinismo não é uma questão de pautar-se por Stalin, mas um estado de espírito. Considero inclusive que o primeiro stalinista da História foi um outro Tarso, o Paulo de Tarso, na Cilícia.

Chamava-se Saulo e foi grande perseguidor de cristãos. "Persegui até a morte os que seguiam este caminho, prendendo homens e mulheres e jogando-os na prisão". Ao converter-se ao cristianismo, mudou até de nome, passou a chamar-se Paulo. A conversão ocorreu quando ia para Damasco. Um grande luz surgiu nos céus, Saulo caiu do cavalo e ficou momentaneamente cego, enquanto a voz de Cristo - que havia sido crucificado anos antes - lhe ordenava seguir para Damasco. Em Paulo de Tarso temos realmente uma mudança de filosofia. Mudança tão radical que Paulo é hoje considerado o construtor do cristianismo, e não Cristo. Cristo morreu como uma mosca tonta, sem saber muito bem o que estava ocorrendo em torno a ele. Paulo, poliglota e cosmopolita, viu no cadáver de Cristo uma promissora bandeira e a empunhou com entusiasmo. Alguns historiadores julgam inclusive ser mais adequado falar de paulismo em vez de cristianismo.

Não se fazem mais Tarsos como antigamente. O Genro, pelo que sabemos, continua fiel a sua filosofia de juventude. Nunca soube que tenha caído do cavalo, nem que tenha percorrido sua estrada de Damasco. Há alguns anos, eu li - juro que li - um artigo assinado por Genro no caderno "Mais" da Folha de São Paulo, onde ele falava da "ventura do stalinismo". Assim sendo, me parece totalmente despropositado falar de ex-marxista-leninista.

É curioso ver como as velhas raposas comunistas detestam ouvir esta palavrinha, sem jamais terem renegado a doutrina. Outro dia, eu escrevia sobre o deputado comunista Roberto Freire. Uma leitora, indignada, dizia que Roberto Freire nunca foi comunista. "Sempre foi socialista", jurava a moça. Num país de memória curta, as raposas simulam ter trocado de ideologia e não falta crédulo para acreditar na nova face. Esquecendo inclusive a antiga.

Com o desmoronamento da União Soviética, os velhos comunistas da Polônia, para marcar sua renúncia à antiga filosofia, eram submetidos a uma crucificação por uma hora. Crucificação sem pregos, é verdade, pulsos atados por cordinhas, que ninguém está aí para ser mártir. O gesto era simbólico, mas pelo menos trazia a público a decisão de renunciar ao comunismo. Não que eu queira ver o Tarso Genro ou o Roberto Freire atados por cordinhas numa cruz de mentirinha, nada disso. Mas o que se pede a um homem público que repudia uma doutrina é que manifeste este repúdio publicamente. Ora, não ouvi um só pio, seja de Tarso, seja de Freire, seja dos velhos comunistas herdeiros de Marx, Lênin e Stalin, manifestando sua renúncia à doutrina assassina. Para mim, continuam sendo comunistas.

Tanto que Tarso não hesitou em defender a deportação para Cuba, feudo do colega e dileto amigo Fidel Castro, de dois pobres diabos cubanos que queriam aproveitar o Pan no Brasil para pedir asilo na Alemanha. Não só defendeu como seu dedo ministerial deve estar por trás da deportação. É impossível que um ministro da Justiça não tenha tido ciência de uma operação assim delicada da Polícia Federal. A alegação esfarrapada é que os dois pugilistas estavam sem documentos e em situação irregular no Brasil. Foram presos em dois ou três dias e empacotados expressamente para Cuba. Ora, o Brasil tem centenas de milhares de colombianos, bolivianos, paraguaios, argentinos, uruguaios, coreanos, chineses e até mesmo europeus em situação irregular no Brasil e nenhuma Polícia Federal demonstrou tanto zelo em deportá-los com tanta rapidez.

Para justificar a volta dos cubanos a Cuba, Tarso, o ministro stalinista, declarou à Folha de São Paulo que quando foi exilado político optou por regressar ao Brasil, mesmo na ditadura, "porque queria voltar para minha pátria. Saí do meu país um dia e no outro queria voltar".

Leitor desmemoriado que lê esta declaração é capaz de imaginar que Tarso, o de São Borja e não o da Cilícia, esteve exilado em países distantes, de línguas estranhas e povo hostil, com oceanos de permeio. Ora, o exílio de Tarso foi bem mais singelo. E pragmático. Exilou-se... em Rivera, no Uruguai. Coitado do jovem poeta. Deve ter-se sentido terrivelmente dépaysé, assim longe da pátria que o viu nascer, a léguas de distância da São Borja natal e da Santa Maria que o acolheu. Para quem desconhece Rivera, esclareço que é uma cidade colada a Santana do Livramento, onde nasci. Apenas uma avenida, a calle Internacional, sem aduana nem controle algum, separa uma cidade da outra. Deve ser extremamente doloroso para um exilado sentar-se em um café em Rivera, olhando saudoso para a pátria longínqua e inacessível... no outro lado da rua.

Os comunistas brasileiros demonizaram Getúlio Vargas, por ter deportado para a Alemanha nazista a comunista judia Olga Benario, oficial do Exército Vermelho e enviada ao Brasil para liderar a Intentona de 1935. Os comunistas demonizaram Getúlio em termos. Luiz Carlos Prestes, marido de Olga e seu protegido, aliás o vulto histórico nacional que Tarso mais admira, subiu mais tarde ao palanque de Getúlio para apoiá-lo em sua campanha à presidência da República. Para se ter uma idéia da humanidade do líder comunista, sempre é bom lembrar que foi deflorado pela alemã oficial do Exército Vermelho... aos 37 anos de idade.

Ironias da História: coube agora a um judeu e comunista, o ministro Tarso Fernando Hertz Genro, justificar a deportação dos cubanos para Cuba.

Quarta, 08 Agosto 2007 21:00

Sobre Cães, Direito e Deus

Um novo ramo do direito, o Direito Animal, começa tomar corpo nos Estados Unidos.

Vivi em Paris de 1977 a 1981. Se houve algo que chocou na França, foi o status do qual gozavam os cães. Cheguei até a mesmo a fazer um dossiê sobre o assunto, que deverias uns bons quatro ou cinco quilos. Uma pequena parte desse dossiê está transcrita em Ponche Verde.

Do Le Monde, por exemplo, reproduzi uma reportagem sobre uma psicanalista de cães. A moça tinha seis anos de especialização na Inglaterra – onde a psicanálise canina está um século à frente em relação à França, dizia o jornal – e falava dos traumas que poderiam acometer os animaizinhos. Um dos graves problemas do cão parisiense era a crise de identidade, de tanto andar entre humanos o cão acabava esquecendo que era um cão, assim – dizia a especialista – era bom que de vez em quando ele saísse com seus semelhantes. Um outro problema, e este dos mais graves, era o fato de que, sendo o cão muito sensível, seus problemas psíquicos muitas vezes não decorriam de seu próprio psiquismo, mas dos problemas vividos pelos proprietários. Se havia atritos no casal, estes eram imediatamente intuídos pelo cão, de modo que a psicanalista se via forçada a sugerir ao casal uma boa análise, pelo menos em nome da saúde psíquica do cão.

Mas o recorte que mais me impressionou na época foi sobre o direito de visita a cães. Um marido, em instância de divórcio em Cretéil, Val-de-Marne, obteve de um juiz de paz um direito de visita a seu cãozinho, já que a mulher havia ficado com a guarda do animal. O casal só se entendia em dois pontos: a ruptura e a vontade de ver regularmente o pequeno animal. O juiz, após ter oficialmente constatado que havia convergência de pontos de vista por parte do marido e da mulher a respeito do animal, deu ao marido o direito de visitar seu cachorro dois fins-de-semana por mês e de guardá-lo durante boa parte das férias.

Para mim, latino, era como se estivesse lendo alguma ficção de Swift ou Kafka. Nunca entendi – e até hoje não entendo – como pode um casal mobilizar a máquina judiciária para chegar a um acordo tão banal.

Entre os livros que trouxe da França, está um Guide du Chien en Vacances, que mapeia a rede hoteleira destinada aos cães, com hotéis divididos em um, dois e três ossos, sendo que nesta última categoria os cuscos eram postos à mesa com guardanapos e servidos, na sobremesa, com crêpes au Grand Marnier. Trouxe também o Recettes pour Chiens et Chats, best-seller que em seu prefácio oferecia às donas-de-casa a alternativa de, em vez de utilizar enlatados, cozinhar para o prazer de seus fiéis companheiros. O livro dava uma série de receitas à base de carnes e peixes, mais manteigas caninas, para animais carnívoros ou vegetarianos, mais bebidas e molhos, tudo aquilo como entrada para depois sugerir pratos de resistência, onde se previa também um regime sem ossos, mais bolos e doces, mais cosméticos e remédios, onde se especificava desde pastas dentifrícias com mel e óleos de massagem pós-banho.

E visitei também Asnières, um dos dois cemitérios para cães de Paris. Visitei-o, propositadamente, num dia de Finados. Outra hora faço o relato de minha visita. O que me ocorre agora é comentar notícia que li ontem no Estadão. Em Wisconsin, nos Estados, uma

Lei vai regular guarda de bichos de estimação

É o que diz a manchete. Os legisladores do estado americano estão discutindo um projeto de lei que determina como os tribunais devem resolver as disputas de casais em processo de divórcio pela guarda de animais de estimação. Segundo o projeto, é preciso especificar, entre outras coisas, os direitos de visita e de viagem com o animal de estimação. Se o casal não chega a acordo, o juiz escolhe um dos cônjuges como tutor do bicho ou o envia para um abrigo.

Vive la France! Aquela decisão de um juiz francês nos anos 70 – que mesmo na França causava espécie – parece estar fazendo escola nos Estados Unidos “Tradicionalmente, os tribunais tratam os animais de estimação como um objeto”, diz a parlamentar Carol Roessler, co-autora do projeto. “Mas um cachorro não é uma escrivaninha.” Como dizia Antônio Rogério Magri, ex-ministro do Trabalho e Assistência Social, cachorro também é gente. O ministro foi ridicularizado na época. Nos Estados Unidos, estaria criando jurisprudência.

A principal defensora da nova legislação é a republicana Sheryl Albers, que promoveu a lei da guarda dos bichos de estimação por causa da experiência vivida por seu marido, quando ele se divorciou em 2003 da mulher anterior. Eles entraram numa briga violenta sobre quem deveria cuidar do labrador da família, Sammi. As crianças queriam ficar com Sammi, já idoso e sofrendo de incontinência urinária. Mas nenhum dos pais se dispunha a cuidar do cão em tempo integral. O juiz da Corte Distrital do Condado de Dane decidiu, então, que, da mesma maneira que as crianças dividiriam o tempo entre o pai e a mãe, seria obrigatório compartilhar as atenções em relação a Sammi.

Um novo ramo do direito, o Direito Animal, começa tomar corpo nos Estados Unidos. Segundo Richard Cupp, diretor da Faculdade de Direito da Universidade de Pepperdine, na Califórnia, “é uma das áreas do Direito que se expande mais rápido no país”. Coisas de país grande, que institucionalizou a tortura e a prisão sem culpa formada para humanos e se volta para minudências no trato dos animais. Como o Brasil adora importar o que de mais ridículo produz o Primeiro Mundo, não perdemos por esperar. Dentro em breve nossos juízes estarão decidindo a qual parceiro do casal confiar a guarda de um cão.

Mas vi piores na França. Em meu dossiê veio também um outro livrinho, intitulado L’Animal, l’homme et Dieu, de Michel Damien (Paris, Editions du Cerf, 216p., 45 F na época). Ocorre, diz o autor, que se escreva sobre o animal para situá-lo em relação ao homem, mas é muito raro que os cristãos ultrapassem a etapa da poesia franciscana para chegar a uma espécie de teologia da natureza animada.

LE CHRIST EST MORT AUSSI POUR LES CHIENS

Assim titulou o Le Monde sua reportagem sobre o livro de Damien. “A solidariedade do homem com o animal não é somente biológica, natural, ela é ontológica, transcendental, evangélica. O Cristo morreu também pelos cães. A Igreja Católica infelizmente está ausente deste debate. Os animais não receberam nenhum status de sua parte. No entanto, se o animal não tem a noção de Deus, ele tem por outro lado aquela do homem, que foi feito à imagem de Deus. (...) Os cães nos esperam no caminho de Cristo. Eles são nossos próximos. Seu sofrimento misterioso é uma participação das Beatitudes. Há um Evangelho do animal, que também morreu nos braços de Deus. O animal tem algo de comum com o Cristo: ele morre pelo mundo e seu sacrifício é indispensável ao equilíbrio deste mundo”.

Mais um pouco e teremos diferentes confissões de fé para os cães. Teremos talvez cães católicos, luteranos, evangélicos e quem sabe até mesmo espíritas. Assim caminha o Primeiro Mundo.

Em tempo: eu subestimava o Brasil. Imaginava que um dia ainda iríamos imitar essa tolice de Primeiro Mundo, a disputa na Justiça do direito de visitar um cachorro. Vanderley Vaselesk me informa:

Meu caro Janer:

Aqui o Vanderlei. Trabalhei sete anos no fórum.Já houve aqui no Rio, pelo menos um caso de regulamentação de direito de visita para um cachorro, e aliás era um dos maiores processos da 14ª vara de família onde eu trabalhava.

Como você vê, já começamos a importação.

Luto virou mercado. Mal surge um grande desastre, revoadas de sinistros gigolôs das angústias humanas cercam os sobreviventes.

Desde há muito a figura do jornalista é associada a urubus. Onde há cadáveres, lá está o jornalista. Faz parte do ofício. Tragédias são sempre notícias. Cadáveres, particularmente quando aos montes, sempre fazem as primeiras páginas dos jornais. Jornalista é um abutre compulsório. Onde houver cadáveres, sempre haverá jornalistas. Mas um fato novo está surgindo nos noticiários. São os abutres voluntários, abutres que convidam a si próprios em todas as tragédias. Abutres perfeitamente dispensáveis, os psicólogos estão sempre cada vez mais presentes onde há cheiro de morte. Leio manchete na Folha de São Paulo de hoje:

PARA PSICÓLOGA, LUTO DEVE SER VIVIDO, MAS É IMPORTANTE QUE A DOR SEJA TRANSITÓRIA

Até aí morreu o Neves, sem trocadilho. O luto sempre foi vivido em todas as civilizações, sem que profissionais o regulamentem. E a dor sempre foi transitória. A existência se tornaria insuportável se a dor que sentimos pelos nossos seres amados nos acicatasse a toda hora, o dia todo, todos os meses e todos os anos que restam a nós, sobreviventes, viver. Em minha primeira viagem à Itália, encontrei em um restaurante um súbito amigo. Chamava-se Franco e havia ocorrido recentemente um terremoto na Itália. Não era psicólogo, psicanalista nem outro psicanalha qualquer. Era apenas um homem sensato. Até hoje não esqueço uma frase sua: "Após um terremoto, podemos chorar uma semana ou um mês, encharcar um lenço ou um lençol, mas ninguém vai chorar a vida toda, que os mortos enterrem seus mortos e a vida continua, melhor rir e continuar vivendo, salute!"

"A experiência do luto é para ser vivida", diz na reportagem da Folha a psicóloga clínica Maria Helena Pereira Franco. "Não tem como apressar esse processo, especialmente quando há agravantes de morte repentina e violenta", afirma a moça, que também é coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre Luto da PUC-SP. Considerada a principal especialista em luto traumático no Brasil, ela foi chamada logo depois do acidente que matou 199 pessoas. Está coordenando um grupo de 30 psicólogos envolvidos no caso.

Luto virou mercado. Mal surge um grande desastre, revoadas de sinistros gigolôs das angústias humanas cercam os sobreviventes. Os psicólogos estão atuando no IML (Instituto Médico Legal), nos dois hotéis que hospedam os parentes dos cadáveres, nos dois aeroportos de São Paulo e em três departamentos da TAM. Junto a quem sofre, pessoas fragilizadas pela dor que sequer têm como reagir à marquetagem do luto. Mais um pouco e as funerárias oferecerão, junto com o caixão, serviços de assistência psicológica.

Não era assim quando nasci. Esta disputa pela dor alheia é algo bastante contemporâneo. Até bem pouco tempo, a morte era uma circunstância normal da vida - normal e dolorosa, é verdade - que não exigia cuidados psicológicos para quem ficava. Já perdi três dos seres mais queridos que a um homem é dado ter - pai, mãe e minha Baixinha adorada - e nunca me ocorreu recorrer a carpideiras profissionais. O abalo maior foi o desta terceira morte, afinal pai e mãe estão na cronologia normal dos fatos. Mas ela não estava, e isto é o que mais dói. Certo dia, em conversa com minha médica, caí em lágrimas e ela me sugeriu um analista. Quase que termina ali nossa boa relação. Pagar um vigarista para ouvir o quê? Ouvir que minha mulher morreu e que a vida é assim mesmo? Ora, isso eu posso dizer a mim mesmo e não pago nem cobro nada para ouvir.

"As pessoas podem ter raiva, tristeza ou necessidade de achar um culpado. Também é comum que alguma sensação interior se reflita em outra situação. Se um parente começa a achar que está tudo ruim, que o café está fraco, que isso e que aquilo, pode estar transferindo esse sentimento", explica a psicóloga. Só o que faltava achar que o café está ruim porque uma pessoa amada morreu! Morte não significa adição nenhuma de açúcar ou sal ao café. As pessoas nascem, crescem e morrem e o café nada tem a ver com isso.

Algumas frases como "bola para frente" ou "a vida continua" - diz a Folha - são proibidas entre os psicólogos que atendem os parentes das vítimas. "Não falamos nada que traga, nas entrelinhas, que não agüentamos vê-los sofrer. Temos postura de validar o que ele está vivendo, reconhecendo que há motivos para estar triste", diz Maria Helena. Dá-nos a entender que é preciso formação universitária e altíssima qualificação profissional para reconhecer que há motivos para uma pessoa que sofreu uma grave perda estar triste.

Tenho lido, cada vez com mais freqüência, sobre psicólogos e outros ólogos revoando sobre cadáveres. A impressão que me fica é que, nos dias atuais, as pessoas já não conseguem suportar uma decorrência natural da vida sem ter por perto um destes profissionais da morte. Estão, pouco a pouco, roubando as atribuições vulturinas dos sacerdotes. É de perguntar-se como os sobreviventes d’antanho conseguiam continuar suas vidas quando psicólogos desempregados ainda não pululavam como cogumelos após a chuva.

O serviço de assistência a vitimas e familiares de acidentes aéreos é regulamentado pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), e determina que o auxílio se estenderá pelo tempo que for necessário. Mais um cabidão de empregos.

Sou mais Fernando Pessoa:

Não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...

Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...

O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...

Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Terça, 24 Julho 2007 21:00

A Finesse do Assessor Especial

Mas desde há muito afirmo que atribuir a um governo corrupto culpas que não são suas é o mesmo que dar mais alento a este governo corrupto, que pode então colocar-se na confortável condição de vítima de calúnias.

Em meus dias de foca, no Diário de Notícias, de Porto Alegre, fiquei mais ou menos célebre por resposta que dei ao editor do jornal. Eu fizera a cobertura de um incêndio na madrugada, fiz um rápido texto legenda, arrumei minhas coisas e saí da redação. Ainda na porta, ouvi o editor que me perguntava:

- As causas?
- Desconhecidas - respondi.
Ia descendo por um elevador de porta pantográfica, quando ouvi ainda um fio de voz do editor:
- E os prejuízos?
- Incalcuuuulllaaaadooos - gritei, enquanto descia.

Um incêndio, em seus primeiros momentos, só pode ter causas desconhecidas e prejuízos incalculados.

Leitores querem saber quando vou escrever sobre o desastre com o avião da TAM. Escrever o quê? Que se pode saber logo após um desastre destas dimensões? Maior que a explosão do Air-Bus foi a explosão de especialistas que surgiu logo após o acidente. Pessoas que nada tinham a ver com aeronáutica, segurança de vôos ou mesmo de vôos, logo passaram a explicar as causas da queda do avião. Imediatamente formou-se uma corrente de opinião que atribuiu a culpa do acidente ao governo. Se o acidente ocorrera em virtude da falta de ranhuras na pistas, se a falta de ranhuras na pista era responsabilidade da Infraero, e se a Infraero é responsabilidade do governo, logo a responsabilidade é do governo. As vaias a Lula no Rio foram vistas como antecipatórias do desastre. Uma amiga, ainda na mesma noite do fato, telefonou-me querendo se agora finalmente Lula iria cair.

Santa esperança, a de minha amiga. Se uma montanha de evidências de corrupção e de cumplicidade com a corrupção não derrubaram Lula, não será um insignificante Air-Bus que lhe arrancará o osso do poder. Além do mais, a hipótese mais óbvia não parece ter passado de um wishful thinking. O Estadão de quinta-feira passada trazia uma página inteira de leitores e internautas manifestando uma reação indignada contra o governo. Ora, pouco mais de 48 horas depois, uma nova e mais viável hipótese tomou conta dos jornais, a de um defeito no reverso dos motores. A própria TAM confirmou a falha mecânica.

Longe de mim pretender defender este governo. Mas desde há muito afirmo que atribuir a um governo corrupto culpas que não são suas é o mesmo que dar mais alento a este governo corrupto, que pode então colocar-se na confortável condição de vítima de calúnias. Significativo foi o delicado gesto do douto humanista Marco Aurélio Garcia, assessor especial de Assuntos Internacionais da Presidência da República, ao ouvir na TV que a causa do acidente teria sido uma falha mecânica do Air-Bus.

Com a finesse de quem foi professor na famigerada Université de Paris VIII, considerada "la poubelle du Thiers Monde", o velho e desdentado comunista mandou todo mundo foder-se. Desdentado mas ainda morde.

Esta foi a primeira manifestação do governo sobre o desastre. A segunda foi a de Lula, que levou mais de 72 horas para dizer qualquer coisa a respeito. “Eu estou com o coração sangrando”, declarou.

Já Marco Aurélio afirmou que jamais faria aquele gesto em público. Disto todos sabemos. Não fosse uma janela providencialmente aberta e um cinegrafista curioso, a reação do assessor especial permaneceria oculta à opinião pública. Neste sentido, é de louvar-se a desfaçatez de Marta Suplicy, que ousou dizer em público o que pensa do caos do tráfico aéreo: "relaxem e gozem". Ou o cinismo do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que não viu nenhum despropósito em atribuir à "prosperidade do país" o descalabro do tráfico aéreo no Brasil. O que nos faz sentir profunda lástima desses países pobres, como França, Alemanha ou Estados Unidos, onde os aviões saem no horário. Coisa de países sem prosperidade alguma.

Se algo já se pode deduzir desta crise, é a visão elitista dos sedizentes trabalhadores do Partido dos Trabalhadores. Qual a primeira providência de vulto de Lula, uma vez no Planalto? Foi comprar para seu uso exclusivo - com o dinheiro do contribuinte, é claro! - um avião de luxo, ao qual nem um sultão do Burnei se daria o luxo. Para os ministros, que têm jatinhos especiais com aterrissagem privilegiada em qualquer aeroporto, tanto faz como tanto fez que milhares de passageiros sofram nas salas de espera.

Uma elite vinda de baixo tomou o poder no país. Uma vez no poder, abusa do poder como nem mesmo o aristocrata Fernando Henrique Cardoso fez. Em público, o coração sangra. Nos corredores, fodam-se os brasileiros todos.

Pior cego é o que aprendeu a ver.

Questiúncula colateral, mas não menos importante - Justo nestes dias do acidente da TAM, após quatro meses de ausência, voltou a meu bar um garçom que muito estimo. Fora acometido por um câncer. Foi internado, tratado por uma equipe de médicos, operado e acabou voltando ao ror dos vivos. Cumprimentei-o emocionado em sua volta, contente em vê-lo de novo.

- Graças a Deus, ressuscitei - me disse.

O homem é tratado pelo que de mais adiantado tem a medicina desta cidade, com tecnologia de ponta, por médicos dedicados... e agradece sua vida ao tal de Deus. Não dá pra entender.

Volto ao acidente. Leio no noticiário que um funcionário da TAM, que pretendia jogar-se do alto do prédio em chamas, decidiu esperar e acabou sendo salvo pelos bombeiros. Em declaração aos jornais, agradeceu ao tal de Deus a salvação de sua vida. Nenhuma menção aos bombeiros que arriscaram a própria vida para salvá-lo.

Quinta, 19 Julho 2007 21:00

Um Crime Tipicamente Católico

O abuso sexual por parte dos padres católicos é praga tão nociva e disseminada quanto a ablação do clitóris entre os muçulmanos.

Em maio passado, o cardeal Roger Mahony anunciava que a Igreja Católica de Los Angeles pensava em vender o Centro Católico arquidiocesano da cidade para pagar as indenizações de 60 milhões de dólares a vítimas de abusos sexuais por parte de alguns sacerdotes. "Algumas propriedades serão mantidas para o funcionamento de futuras paróquias, futuras escolas e estabelecimentos ministeriais semelhantes. Preferiríamos mantê-las todas, mas não temos nenhuma saída para arrecadar dinheiro, a não ser com as vendas", explicou o cardeal na ocasião.

Segundo estudo encomendado em 2003 pela Conferência Nacional dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, 10.667 pessoas haviam apresentado queixas contra 4.392 padres e diáconos entre 1950 e 2002, ainda que os críticos aleguem que muitas das vítimas nunca apresentaram queixa, e que muitas queixas não foram registradas pela Igreja. Pelo menos cinco dioceses católicas tentaram o calote: entraram com uma declaração de quebra, por não poderem fazer frente às demandas das vítimas de abuso sexual, estimadas em centenas de milhões de dólares. O calote permitiria à diocese continuar funcionando normalmente, com os credores ficando apenas com uma parte dos ativos.

Ao que tudo indica, o cardeal Mahony subestimava o montante da dívida. Segundo o noticiário de ontem, a Igreja Católica chegou a um acordo financeiro estimado em US$ 660 milhões (dez vezes mais do que o previsto pelo cardeal) com mais de 500 pessoas que alegam ter sido vítimas de abuso sexual por padres. Isto apenas em Los Angeles. Esta indenização elevaria o total de indenizações pago pela Igreja desde 1950, nos Estados Unidos, a US$ 2 bilhões (R$ 3,7 bilhões). Sexo proibido custa caro nos States.

O problema não diz respeito apenas aos padres. "Temos 40 freiras em nosso banco de dados", disse Anne Barrett Doyle, co-diretora da Bishop Accountability, uma organização nacional norte-americana que compila dados sobre abusos sexuais praticados pela Igreja.

Em meio a isso, a Igreja insiste no celibato sacerdotal e prega a castidade a seu rebanho. Os papas, desde Pedro até o Bento, ainda não se deram conta que o problema reside precisamente no celibato clerical e na exigência de castidade. Nunca um crime foi tão intimamente associado a uma casta sacerdotal, mais precisamente a casta católica. Sempre com características homossexuais. Acontece, é verdade, mas é muito raro ouvir-se falar de padres abusando de meninas. Eles gostam mesmo é dos efebos. Cá e lá, ouve-se falar de tais abusos entre evangélicos e luteranos, mas são exceções. A regra é a Igreja Católica.

Parece que os pontífices, observadores privilegiados da História, nada aprendem com suas lições. O abuso sexual por parte dos padres católicos é praga tão nociva e disseminada quanto a ablação do clitóris entre os muçulmanos. Quando os religiosos aprenderão que quem vive plenamente sua sexualidade não precisa abusar do próximo?

Quinta, 12 Julho 2007 21:00

Palmas Para o Senhor Jesuis!

Se o concurso fosse de paisagens, creio que daria de bom grado meu voto ao Corcovado. Mas teria de meditar um pouco antes de qualquer decisão.

Santo cem por cento pêlo-duro nós já temos. Verdade que era um charlatão. Mas se o Bento disse que é santo, santo fica sendo. Agora, temos uma das sete novas maravilhas do mundo, eleita por votos na Internet e por celulares, em um concurso espúrio organizado por um suíço em busca de holofotes. Se a moda pegar e qualquer arrivista decidir fazer um concurso, vai sobrar até para a Caixa d’Água de Dom Pedrito. Ou para a fonte das Águas Dançantes, em Cachoeira do Sul. Agora nos falta só o Nobel. Claro que não aspiramos a uma comenda séria, como o Nobel de Física, Economia ou Medicina. Serve um nobelzinho menor, como os de Literatura ou Paz. Se já foram premiados vigaristas como Rigoberta Menchú, Madre Teresa de Calcutá, Pablo Neruda, Dalai Lama, por que não contemplar esta grande nação? Só no Congresso há um verdadeiro semental de candidatos.

Quem me chamou a atenção para a feiúra do Cristo do Corcovado, pela primeira vez, foi o escritor italiano Alberto Moravia. Em algum de seus ensaios, escreveu desconhecer monumento mais feio no mundo. Eu, que até então não me havia perguntado se a estátua era feia ou bonita, de repente me dei conta que aquele Cristo era um horror. Monumento duro, inexpressivo, mais parece uma cruz que um homem... e a intenção terá sido mesmo essa. Sim, lá do alto a paisagem é deslumbrante, certamente uma das mais lindas do mundo. Mas paisagem é obra da natureza. Quando se fala em maravilhas, entendemos obras do homem. E aquele Cristo espetado lá em cima está a anos-luz de distância de ser uma maravilha.

Se o concurso fosse de paisagens, creio que daria de bom grado meu voto ao Corcovado. Mas teria de meditar um pouco antes de qualquer decisão. Teria de avaliar com carinho, antes de votar, o Tridente, no Assekrem, o Montblanc, na Suíça, os fjordes da costa norueguesa, em particular o Trollfjord, de uma beleza que chega a perturbar os sentidos, os glaciares silentes da Terra do Fogo, as dunas do Sahara. Ocorre que a competição diz respeito a obras do engenho humano.

Este concurso fajuto começa uma injustiça que clama aos céus remissão. A torre Eiffel ficou de fora. Deconheço monumento mais singelo e ao mesmo tempo imponente, despojado e ao mesmo tempo elegante. Quando a vi pela primeira vez, nem foi como se fosse a primeira vez, tanto ela está impregnada em nosso imaginário. Mas não é apenas sua beleza que me fascina. Também me fascina sua total impessoalidade. Não representa coisa alguma. Não é homenagem a nenhum deus, a nenhuma nação, a nenhum vulto histórico, a nenhum ideal. Se há algum monumento sem ideologia no mundo, este é a torre Eiffel. Está ali apenas para ser bela. Não representa nada, ninguém nem coisa nenhuma. Nunca foi tão atual o antigo dito francês: soit belle et tais-toi! Seja bela e cale a boca!

Outra injustiça berrante é a ausência da Alhambra, a Vermelha, em Granada. Conjunto de palácios e fortificações de potentados árabes, é de uma beleza estonteante. O requinte é tal que seus espelhos de água foram concebidos para refletir o firmamento para homens que estivessem de cócoras, isto é, em posição de conversar. O palácio mouro, que teria inspirado a arquitetura onírica das criações de Escher, é uma festa não só para os olhos como também para os ouvidos. Homens do deserto, obcecados por águas, os árabes as puxaram de Sierra Nevada e os jardins da Alhambra estão cheios de córregos invisíveis e murmurantes que induzem à paz e contemplação. Não é raro, inclusive, encontrar-se uma turista, de gravador em punho, sentada em meio ao verde, gravando o silêncio cortado pelo rumor das fontes.

Ou ainda o castelo de Neuschwanstein, o novo cisne de pedra, perto das cidades de Hohenschwangau e Füssen, no sudoeste da Baviera, quase fronteira com a Áustria. Foi construído por Ludwig II, mais conhecido como o rei louco da Baviera, em homenagem a Wagner, em cuja ópera, Lohengrin, aparece o Cisne da Noite. Palácio de uma beleza ímpar entre os castelos da Europa, é lindo desde fora. Erguido em um pico entre outros picos, seu entorno é hirto e congelado no inverno, verdejante no verão, florido na primavera e de um amarelo deslumbrante no outono. Se você um dia visitou o Neuschwanstein, lembre-se de que falta visitar mais três. A cada estação, o castelo exibe uma beleza distinta. É preciso uma insensibilidade de pedra para não situá-lo em qualquer lista das maravilhas contemporâneas.

Isso sem falar nas pirâmides de Gizé, na Acrópole grega, nos templos de Angkor, no Kremlin, em Moscou e na Hagia Sofia, na Turquia. No Peterhof, em São Petersburgo. Ou em Stonehenge, na Inglaterra. Na Notre Dame e na catedral de Toledo. Na mesquita de Córdova e na catedral de Sevilha. No Schönbrunn, em Viena, ou em Versailles, em Paris. Ou em tantas outras catedrais, palácios e castelos magníficos mundo afora. Ou até mesmo o recente museu da Guggenheim, em Bilbao. O Cristo do Corcovado, pobre coitado, é um monumento muito pobre, espequeado no alto de um morro, que só serve para poluir aquela paisagem de sonho. A eleição do Cristo se deveu a uma ofensiva de marketing liderada inclusive pelo governo brasileiro. Os patrioteiros devem estar empanzinados de orgulho. Parabéns, Rio, parabéns Brasil! – disse o Supremo Apedeuta. Só faltou dizer, como dizem os evangélicos, palmas para o senhor Jesuis!

Mas voto é isso mesmo. Lula para presidente da República e o Cristo para maravilha do mundo. Os dois se merecem. Que mais não seja, que autoridade têm para votar neste certame botocudos que jamais viram Neuschwanstein, Schönbrunn, Alhambra, Peterhof? Quem votou foi essa brasileirada infame, torcedora de Copas e faminta de santos, os afonsos celsos da vida.

A prefeitura do Rio estima aumento de 20% no turismo. Os assaltantes cariocas, penhorados, agradecem.

Sexta, 06 Julho 2007 21:00

Os Ateus Estão Chegando

Ateus, temos leituras divinas pela frente. Mas está faltando ainda a tradução do mais importante deste livros, o de George Minois.
"Como fazer a história de uma atitude negativa?" - pergunta-se George Minois, em Histoire de l’athéisme -. "A história dos que se opõem à... é seguidamente empunhada pelo campo adverso, e tratada com todos os preconceitos de hábito. (...) A dificuldade não é menor na época contemporânea: exceção feita dos movimentos ateus militantes, muito minoritários, como retraçar a história de uma atitude que não parece ter conteúdo positivo? Sonharia alguém, por exemplo, retraçar a história dos que não acreditam nos Ovnis?" Mesmo assim, Minois desenvolve por quase 700 páginas a história dos que se opõem à...
 
Tornei-me ateu lá pelos quinze ou dezesseis anos. Não foi lendo literatura atéia, que praticamente não existia na época. Foi lendo a Bíblia. Não há fé que resista a uma leitura atenta da Bíblia. Pelo menos se o leitor for honesto consigo mesmo. Os escassos autores ateus aos quais tive acesso, fui ler um pouco mais tarde: Nietzsche, Voltaire, Bertrand Russel. Voltaire, no fundo era teísta. Mas como não professava fé em deus nenhum em particular, não vejo porque não situá-lo entre ateus. De Russel, o excelente livrinho Porque não sou cristão, consolidou de vez o que eu já vinha suspeitando. Ateu sendo, na época nunca fui questionado por esta atitude. Era ateu como outros eram católicos, evangélicos, espíritas ou o que quer que fossem. É curioso notar que só hoje, uns bons quarenta anos depois daqueles dias de adolescente, tenho provocado escândalo ao declarar-me ateu. A meu ver, isto só pode ser explicado por um avanço crescente dos teístas fundamentalistas e fanáticos. Seja como for, este fenômeno me diverte muito. Religião é mala sem alça. Ante a razão, não há como segurá-la.
 
Leio com prazer, na penúltima Veja, que a mais recente literatura sobre ateísmo está finalmente chegando ao Brasil. A Martins Fontes publicou o Tratado de Ateologia, de Michel Onfray, que comprei na França quando havia saído do forno. Interessante, mas não se compara ao livro de Minois. Onfray tem uma produção irregular. Talvez um pouco embriagado pelo sucesso, investiu em uma "contra-história da filosofia", obra projetada para seis volumes, dos quais já tenho o primeiro, Les sagesses antiques. Pensei que iria descobrir novidades na área e só encontrei os pré-socráticos que um dia estudei em meu curso de Filosofia. O autor promete mais do que fornece.
 
Ainda nesta área, ano passado tivemos Jesus e Javé - os nomes divinos, de Harold Bloom, pela Objetiva, um dos melhores estudos literários que já li sobre a Bíblia. Bloom, crítico literário, judeu e ateu, vê Deus como mais um personagem da literatura universal, assim como o Quixote ou Hamlet, e nisto reside o vigor de seu ensaio.
 
Surgiu também Quebrando o encanto, de Daniel Dennett, pela Globo. Em agosto deve sair, pela Companhia das Letras, Deus, um delírio, de Richard Dawkins, autor que vem provocando crises de histerismo nos teístas. E a Ediouro nos promete para outubro, Deus não é grande, de Christopher Hitchens, que já nos deu o excelente The Missionary Position - Mother Teresa in Theory and Practice, um libelo arrasador e definitivo contra Agnes Gonxha Bojaxhiu, essa vigarista albanesa de alto bordo mais conhecida como Madre Teresa de Calcutá. Este livro não foi - e suponho que tão cedo não será - traduzido no Brasil. Mais do que santa, como pretendeu João Paulo II, a escroque internacional é um dos ícones da mídia contemporânea.
 
Em meio a isso, tenho afirmado, por influência de Bloom, que hoje o Ocidente cristão é politeísta e cultua nada menos que quatro deuses: Jeová, Cristo, o Paráclito e Maria, que assumiu o status de deusa. Esta percepção parece estar sendo mais difundida nos dias atuais, quando se vê com mais nitidez o que está por trás da hagiologia católica. Dawkins, em Deus, um delírio, escreve:
 
"A Santíssima Trindade é acompanhada pela Virgem Maria, uma deusa de fato, embora não seja chamada assim. O panteão católico é inflado ainda pelos santos, que, se não são semideuses, têm poderes de intercessão em áreas especializadas que incluem dores abdominais, anorexia, desordens intestinais. O que me impressiona na mitologia católica é não só sua qualidade kitsch, mas também a falta de vergonha com que essa gente fabrica as coisas no andar da carruagem. É tudo despudoramente inventado".
 
Ateus, temos leituras divinas pela frente. Mas está faltando ainda a tradução do mais importante deste livros, o de George Minois. Falta também L'Esprit de l'athéisme, de André Comte-Sponville, lançado ano passado em Paris pela Albin Michel.
Sábado, 30 Junho 2007 21:00

Mônica Não Convence

Mônica não convence. Se aceitou o assédio de um homenzinho vulgar e mentiroso é porque o merece. Pergunta a quem interessar possa: quem recebe dinheiro sujo não deveria devolvê-lo?

Ontem, todo-poderoso presidente do Senado, terceiro sucessor presidencial, em caso de impedimento ou vacância do cargo de presidente da República. Hoje, um pobre diabo emendando uma mentira na outra para preservar seu status. Nada de surpreendente em um país onde quem não mente não se elege. Até aí, estamos dentro da normalidade. Se alguém conhece um deputado ou senador que conseguiu eleger-se sem mentir, favor comunicar-me. Eu não conheço.

Embora o que esteja em jogo sejam as relações escusas com um lobista, o pivô de toda a história é uma infidelidade conjugal. Para manter um relação equilibrada entre Perpétua e a Outra, o todo-poderoso presidente do Senado, ao que tudo indica, pediu socorro a uma empreiteira para pagar os custos da Outra. Tudo isto na surdina, até o dia em que a pensão minguou e a Outra resolveu botar a boca no trombone. Palavra puxa palavra, mentira puxa mentira, e o senador se revelou como mais um dos tantos corruptos que fazem fortuna na política.

A Veja desta semana mostra, em um gráfico arrasador, a evolução do patrimônio do senador. Em 1978, quando deputado federal, era de 26 mil reais e um Wolkswagen. Em 2002, senador reeleito, tem 1,6 milhão de reais, uma casa e um flat em Brasília, um apartamento em Maceió, uma caminhonete Toyota e outra Mitsubishi. No ano seguinte, como líder do PMDB no Senado, seu patrimônio evolui misteriosamente para 6,3 milhões de reais. De repente, não mais que de repente, surgem em suas posses 1278 cabeças de gado. Em 2005, como presidente do Senado, seus bens alcançam a cifra de 9,5 milhões de reais. Em 2006, 9,8 milhões.

No espaço de cinco anos, o senador multiplica por seis suas posses. Em 2007, para justificar a pensão paga à Outra, o senador apresenta uma contabilidade fajuta que só o enreda cada vez mais. É espantoso constatar que a Receita Federal, que intima contribuintes para justificar o recebimento até mesmo de duas ou três mil merrecas não justificadas nas declarações de IR, não tenha observado nada de anormal na evolução miraculosa do patrimônio do senador. Se Renan Calheiros chegou até seus 9,8 milhões impunemente, é porque contava com a cumplicidade do fisco.

Mas isto é o de menos. Vamos à Outra. A tendência da imprensa é ver Mônica Veloso como uma jornalista ingênua que caiu nas manhas de um político ardiloso. Ora, não é bem assim. Jornalista que aceita dinheiro pago por fora como pensão deve pelo menos suspeitar que esse dinheiro é sujo. Mais ainda quando aceita um pacote de cem mil reais em dinheiro vivo. Em entrevista à Folha de São Paulo deste domingo, diz Mônica: "quando você tem um relacionamento com um homem e vocês têm um filho, você não vai ficar questionando se o pagamento de sua pensão é ou não em espécie". Ora, jornalista que recebe cem mil reais em espécie, ou sabe que está recebendo dinheiro ilícito ou não é jornalista. Jornalista pode ser tudo, menos ingênuo. Pode ser até corrupto. Mas ingenuidade não é coisa de quem lida com informação.

Mônica diz ainda que a "sociedade, em geral, tende a recriminar" mulheres com casos extraconjugais. Não é verdade. Isto faz parte dos costumes contemporâneos. Se alguém merece a reprovação pública é a panaca da Perpétua, que aceita passivamente a condição de mulher secundária.

Mônica afirma que amou o peemedebista, "amei, amei muito". E aqui já cabe uma primeira pergunta: pode alguém amar um peemedebista? Se ama, é porque ama a mentira. Diz a moça que os dois nunca procuraram se esconder e que, no início, Renan dizia que estava separado. Ora, bastava que a jornalista fosse às fontes competentes - como se faz em sua profissão - para saber que o senador mentia. Bastaria um telefonema à sua casa. Ou terá achado normal relacionar-se com alguém durante três anos com a condição de jamais chamá-lo em sua própria casa?

"Soit belle et tais-toi", dizem os franceses. Seja bela e cale a boca. É o que melhor teria feito Mônica. Em vez disso, preferiu abrir a boca. Revelou-se como um personagem à altura do pequeno Renan Calheiros. Interrogada sobre sua religião, disse: "Evangélica, batista, da Vale do Amanhecer". Ora, jornalista que dá crédito àquele caldo místico que borbulha na geografia fétida de Brasília não merece crédito algum. E é óbvio que nenhuma crença evangélica vai abençoar relações com senhores casados.

Mônica não convence. Se aceitou o assédio de um homenzinho vulgar e mentiroso é porque o merece. Pergunta a quem interessar possa: quem recebe dinheiro sujo não deveria devolvê-lo?

Quinta, 21 Junho 2007 21:00

Dois Luminares da Mackenzie

Dois luminares das ciências jurídicas tupiniquins, reuniram suas sapiências e títulos para proferir bobagens em espaço nobre da Folha de São Paulo.

Dois luminares das ciências jurídicas tupiniquins, os advogados Ives Gandra da Silva Martins - advogado tributarista, professor emérito da Universidade Mackenzie, da UniFMU, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra - e Antonio Carlos Rodrigues do Amaral - mestre em direito pela Universidade Harvard (EUA) e mestre em educação pela USP, professor de direitos e garantias fundamentais da Universidade Mackenzie e presidente da Comissão de Direito Constitucional da OAB-SP - reuniram suas sapiências e títulos para proferir bobagens em espaço nobre da Folha de São Paulo. O besteirol se evidencia já no título:

ESTADO LAICO NÃO É ESTADO ATEU E PAGÃO

Os notabilíssimos jurisconsultos, apesar de já avançados em idade, demonstram ainda não ter entendido o que seja ateísmo e paganismo, a ponto de os tomarem como sinônimos. Se esta sinonímia não fica bem clara no título, os autores a reforçam no corpo do artigo:

"Essa percepção da importância de Deus como fundamento de uma sociedade fraterna radica na indissociável conexão entre a história, a cultura e o próprio Criador, o que é imprescindível à elaboração de políticas públicas que não colidam com a liberdade religiosa nem desrespeitem a profunda religiosidade dos brasileiros. Daí a enorme distância entre o pluralismo religioso do Estado laico e um Estado ateu ou pagão, que nega a existência de Deus ou prega a divinização do ocupante do poder".

Com a arrogância de um Torquemada, os titulados professores estendem a todo universo a jurisdição de uma crença que está longe de ser universal. Deus existe para aqueles que nele crêem, e não para o mundo todo. Por outro lado, se o século passado viu Estados que fizeram do ateísmo profissão de fé, nunca tivemos notícias de um Estado pagão. Sem falar que o paganismo nunca negou a existência de deus algum. Pelo contrário, os pagãos tinham muitos deuses. Deuses que nunca interferiram na vida do Estado e - o que é mais importante - nunca se imiscuíram na vida dos mortais. Exceto quando alguma mortal mais atraente lhes provocava a libido. Desciam então de sua morada para folgar com as terráqueas. Mas em momento algum ditaram leis ou pregaram moral. Isso de meter-se nos assuntos cá da terra é coisa do deus tosco e bruto do Antigo Testamento.

A seguir, demonstrando uma miopia histórica de grau avançado, os eméritos juristas tomam as árvores pela floresta e consideram que a falência do socialismo é decorrente da ausência de Deus:

"Aqui está precisamente o grande erro das tendências dominantes no último século, erro destrutivo, como demonstram os resultados dos sistemas marxistas e dos capitalistas. Falsificam o conceito de realidade com a amputação da realidade fundante, e por isso decisiva, que é Deus. Quem exclui Deus de seu horizonte falsifica o conceito de realidade e, em conseqüência, só pode terminar em caminhos equivocados e com receitas destrutivas. A primeira afirmação fundamental é, pois, a seguinte: só quem reconhece Deus conhece a realidade e pode responder a ela de modo adequado e realmente humano. A verdade dessa tese é evidente ante o fracasso de todos os sistemas que colocam Deus entre parênteses".

Em suma, os sapientes articulistas insultam a inteligência de quem quer que não creia em Deus. Segundo este raciocínio, nós, ateus, desconhecemos a realidade e a ela não podemos responder de modo adequado e humano. Seremos monstros morais? Estes senhores, travestidos de humanistas, em verdade demonstram uma intolerância digna de fazer inveja aos inquisidores da Santa Madre Igreja Católica. Por outro lado, os acontecimentos do final do século passado deixaram bem claro que o comunismo afundou não em virtude da ausência de Deus, mas em decorrência da falta de liberdade econômica e de expressão. Os Estados comunistas pretenderam revogar por decreto as leis do mercado e só poderiam acabar como acabaram, falidos. Deus não faz falta alguma a economias prósperas, o Ocidente capitalista que o diga. Só um fanático poderia afirmar que é a idéia de Deus que sustenta o bem-estar dos Estados Unidos, Canadá ou Europa.

Não por acaso, estes dois senhores lecionam na universidade presbiteriana Mackenzie, da qual tenho algumas informações. Ao longo de toda sua vida, minha mulher trabalhou com legislação. Uma vez aposentada, passou a dar consultoria, sem ter diploma de Direito. Considerou que seria melhor obtê-lo, para poder assinar petições. E decidiu fazer o curso de Direito da Mackenzie. Eu a adverti que ela não o suportaria três meses. Ela elaborava pareceres em um Conselho Fiscal em Brasília, pareceres que geravam legislação, e não iria agüentar o beabá do Direito. Ela insistiu, fez vestibular e decidiu-se a freqüentar o curso. Pois bem: não esquentou banco por mais de três dias. Eu havia superestimado sua capacidade de tolerar a mediocridade.

Na primeira aula de Direito Constitucional, um decrépito professor perguntava a seus alunos:

- O direito é uma emanação da so.. da so...?

Ninguém conseguia terminar a frase.

- Da socie... da socie...?

Os alunos, demonstrando invulgar inteligência, responderam em coro:

- Da sociedade!!!

- Muito bem - disse o professor, com um sorriso beatífico. - Ao direito dos costumes, costumamos chamar de Direito con... Direito con...?

Silêncio total.

- Direito consue...? Consue...?

Silêncio ainda mais espesso.

- Consuetu...? Consuetu...?

Nada feito.

- Consuetudi...? Consuetudi...?

Muito menos. O brilhante professor exclamou então com um sorriso sapiente na face, sorriso de quem detém o saber:

- Consuetudináááááário!!!

Foi o terceiro e último dia de curso de minha mulher. Preferiu continuar dando consultoria sem diploma algum. Que Ives Gandra da Silva Martins e Antonio Carlos Rodrigues do Amaral exponham suas estultícies a um alunado assim analfabeto, entende-se. Talvez até passem por doutos e eruditos. Daí a explanar tais bobagens em página nobre de um jornal como a Folha, só depõe contra o jornal e demonstra intolerância e indigência intelectual.

Quinta, 14 Junho 2007 21:00

Honra e Glória a Aunty Maiduguri

Aunty, além de coragem, deve ter senso de humor. Afinal, o Islã aceita que um homem se case com até quatro mulheres, desde que tenha condições de sustentá-las. Por analogia, Aunty concluiu que tinha o mesmo direito.

Não sei se o leitor já leu livros como OS Kama Sutra, O Jardim das Delícias, ou As Mil e Uma Noites. Foram livros que embalaram minha juventude. Os Kama Sutra têm dezoito séculos e são uma compilação da artes amatórias, feita por um obscuro estudante hindu de religião, o jovem Vatsyayana, que disserta sobre as diferentes posições e técnicas sexuais. O Jardim das Delícias é sua versão árabe, escrita pelo xeique Nefzaui, entre os anos de 1349 e 1433. São obras de um erotismo elegante e bem-humorado, nada a ver com a pornografia vulgar dos dias que correm.

As Mil e Uma Noites, destas todos ouvimos falar. Obra universalmente conhecida, são mil uma histórias imbricadas umas nas outras, narradas em árabe por Sherazade, a persa, ao rei Schahriar. O fio que conduz as narrativas é singular. O rei Schahriar descobre que sua mulher o havia traído, e que tal fato também ocorrera com seu irmão Shahzamán. Para que isto nunca mais se repita, dispõe que dali para a frente passará todas as noites com uma virgem, filha de algum de seus súditos, e a mandará matar na manhã seguinte. Este tributo é interrompido por Sherazade, que sabe despertar o interesse do rei contando uma história. O rei, para escutar o final, remete a execução para o dia seguinte. Mas na noite seguinte Sherazade inserta uma outra história inacabada, e assim se passam mil e uma noites, ao final dos quais a persa já tem três filhos com o rei Schahriar. E um livro cheio de erotismo e violência, onde a mulher não é exatamente a árabe submissa de nossos dias, mas também guerreira e combatente de valor.

Antes de ir adiante, atenção: minha edição em espanhol das Mil e Uma Noites está publicada em três volumes de mais de 1.400 páginas cada um. Não é livro para comprar por impulso, nem para ser lido linearmente. Quando quero mergulhar naquele universo, leio ao azar um ou mais contos. Claro que ainda não li todos os relatos.

É espantoso ver como estas civilizações, tanto a árabe como a hindu, que cantaram desbragadamente os prazeres do sexo, se transformaram com o correr do séculos em sociedades repressivas, onde determinadas práticas constituem crime e podem ser punidas inclusive com a morte. O homossexualismo, por exemplo. Custa acreditar que em pleno século XXI dezenas de países punam com rigor as práticas homossexuais.

Leio nos jornais que na outrora sensual Índia, as relações homossexuais são até hoje consideradas crime e podem ser punidas com até dez anos de prisão. A lei não acompanha os costumes. Mas algo está mudando. No primeiro domingo deste mês, ocorreu o primeiro festival gay do país, que reuniu três mil pessoas. Um punhado de gatos pingados, se compararmos com a Parada Gay que hoje percorreu as ruas de São Paulo, com três milhões de participantes, segundo seus organizadores. A polícia fala em um milhão. De qualquer forma, uma mostragem significativa. Segundo um dos organizadores do evento na Índia, "este festival seria inimaginável há cinco anos. As coisas mudaram muito".

Em maio passado, mais de 300 mil transexuais se reuniram na região de Tamil Nadu, no sul do país para o Festival de Koovagam. No caso, os "aravanis" (como são chamados no país) vão todos os anos ao único templo dedicado a eles dedicados na Índia e aproveitam para prestar homenagem a seu deus protetor, Koothandavar, que se casou com Vishnu depois de adotar a forma de mulher.

Mesmo os países socialistas, antes tão pudicos em matéria de sexualidade, estão se tornando mais tolerantes. Também em maio passado, os gays tentaram organizar seu festival em Moscou, na Praça Vermelha, sob protestos dos católicos ortodoxos e bastonadas da polícia. Homossexuais desfilando no coração do comunismo, na Nova Jerusalém socialista! A múmia de Lenin deve ter ruborizado em sua tumba. Mais de 70 pessoas foram presas. O prefeito de Moscou, Yuri Luzhkov proibiu a marcha porque o homossexualismo "não é algo natural e causaria ultraje na sociedade", posição compartilhada por grupos cristãos e muçulmanos. E disse que não permitirá um evento do gênero enquanto estiver no cargo. A bem da verdade, a homossexualidade foi descriminalizada há 13 anos na Rússia.

A austera Cuba de Castro também parece marchar no mesmo sentido. Se um dia Cuba puniu os homossexuais com confinamento em campos de trabalho, hoje aceita os travestis como as demais pessoas. Curiosamente, a grande defensora dos homossexuais na ilha é Mariela Castro, 44 anos, filha de Raul Castro. Os travestis estão recebendo treinamento como conselheiros de Aids no Centro Nacional de Educação Sexual, que é dirigido por Castro. Embora o homossexualismo ainda seja proibido nas Forças Armadas, os camaradas travestis abordaram os relacionamentos que alguns deles mantinham com soldados. "Talvez aconselhamento nos quartéis seja necessário", disseram. A ortodoxia cede.

Mas a melhor e mais insólita notícia que os jornais me trazem veio da islâmica Nigéria. Em abril passado, um grupo de cinco lésbicas fugiu do país depois que uma delas se casou com as outras quatro, contrariando os preceitos da Sharia, a lei islâmica.

Aunty Maiduguri e suas quatro esposas teriam fugido para um lugar desconhecido no dia seguinte ao casamento. O grupo Hisbah, de voluntários que fiscalizam o cumprimento da Sharia, disse que o casamento foi inaceitável. Para que o exemplo não vingue, o teatro onde a cerimônia ocorreu, na cidade de Kano, foi demolido por ordem das autoridades.

Aunty, além de coragem, deve ter senso de humor. Afinal, o Islã aceita que um homem se case com até quatro mulheres, desde que tenha condições de sustentá-las. Por analogia, Aunty concluiu que tinha o mesmo direito. Seu gesto, no infame universo islâmico, me soa mais ou menos como as palavras de Lúcifer: non serviam.

Toda honra e toda glória a Aunty Maiduguri.

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