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Janer Cristaldo

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

Terça, 12 Junho 2007 21:00

Igreja Rouba Vida de Goliardo

A Igreja roubou a vida de Boff. O teólogo goliardo, mesmo depois de velho, parece não ter percebido isto.

Triste ver um homem chegar ao entendimento só depois de velho. Em verdade, nem falo de entendimento. Ele chegou apenas a algumas descobertas básicas, que seriam muito úteis para a vida em um adolescente de 15 ou 16 anos. Quando se descobre isto já sessentão, a descoberta se torna trágica. Falo de Leonardo Boff.

Em entrevista publicada hoje no jornal espanhol La Vanguardia, define-se como um cigano teológico. Em verdade, sempre foi um goliardo. Por goliardo entende-se aqueles monges medievais, um tanto refratários à Santa Madre, que buscavam os prazeres do século sem renunciar às vantagens conferidas pela infra-estrutura da Santa Madre. Valiam-se de sua condição erudita para compor, clandestinamente, canções satíricas, amorosas e mesmo chansons grivoises, isto é, canções licenciosas. Quem quiser conhecê-los melhor, pode escutar a cantata Carmina Burana, de Carl Orff. Como isto não garante o sustento de ninguém, os goliardos esmolavam em troca de sua arte. Se alguém um dia viu uma tuna cantando pelas noites de Madri ou Barcelona, tem uma idéia do que sejam os goliardos. Com a diferença de que os tuneros não são religiosos.

O goliardo Boff, em vez de chansons grivoises, compôs odes marxisto-teológicas. É considerado um dos teóricos da sedizente teologia da libertação, que em nada agradou o Vaticano. Condenado a não mais lecionar e a manter um silêncio obsequioso, Boff até hoje se lamuria do procedimento inquisitorial da Santa Sé. Em entrevista dada à revista comuno-anarquista Caros Amigos, quando o papa era ainda Wojtyla, disse da Igreja: "Ela mente, é corrupta, é cruel e sem piedade. Ela pega alguém e vai até o fim".

Voltemos à entrevista dada ao jornal espanhol. Diz Boff: "O Vaticano afirma que sem a Igreja não há salvação, e isso é uma arrogância medieval: o espírito de Deus está em todas as partes e Deus, olhando a humanidade, vê todos os seus filhos; não olha só para o Vaticano. Roma tem medo do presente, da diversidade: tem medo da modernidade e do futuro. E se aceitasse que a centralidade não é a Igreja, mas a humanidade inteira, poderia realmente salvar o mundo. (...) Teríamos de aceitar que nenhuma igreja é portadora da única verdade; só assim poderíamos chegar à paz duradoura".

O teólogo goliardo demonstra nada entender de história das religiões. Ou fez gazeta nas aulas sobre judaísmo. Esse Deus universal que olha a humanidade, na concepção de Boff, nasceu em verdade como um Deus nacional, ligado a um Estado. Era apenas um entre os muitos deuses que os judeus cultuavam. Como levou Israel à vitória, tornou-se o deus preferencial do povo judeu. Pouco a pouco, foi-se julgando - ou sendo julgado - ser o único. Ainda assim, continuava sendo o Deus do Estado de Israel. Ele só se universaliza após o império de Constantino. A Igreja Católica apropriou-se indebitamente do deus judaico e passou a considerar-se portadora da única verdade. No dia em que assim não for, o mundo se tornaria certamente mais tolerante, mas a Igreja Católica deixaria de ser a Igreja Católica.

Se a Igreja mente, é corrupta, cruel e sem piedade, isso não ocorreu ontem. Diga-se de passagem, a Igreja mentiu muito mais, foi muito mais corrupta e cruel naqueles idos em que reis se humilhavam para contar com o beneplácito dos papas. É espantoso que frei Boff ignorasse isto. Em suas entrevistas, costuma apostrofar Ratzinger, que cortou suas asinhas quando ainda era cardeal. Gosta de gabar-se de ter estado em Roma, sentado na mesma sala onde estiveram Galileu Galilei e Giordano Bruno, e sendo interrogado pelo futuro papa.

Ora, foi interrogado porque quis. Se a Igreja mente, é corrupta, cruel e sem piedade, Boff devia tê-la abandonado há muito tempo. O frei há muito deixou de ser um católico. O problema destes senhores é que largam a batina, mas não a fé. O teólogo defensor da libertação dos povos, até hoje defende o deus brutal de Israel, que massacrou povos em defesa do Estado de Israel. Se Boff ainda xinga a Igreja, é porque tem saudades dos tempos em que usufruía das mordomias vaticanas ou decorrentes de sua condição de religioso: viagens, cursos, públicos cativos, editoras à mão.

Tenho profunda lástima destas pessoas que só começam a entender o mundo recém no fim da vida. Relacionei-me com muitos sacerdotes em minha juventude, afinal fui congregado mariano (e presidente de Congregação Mariana) e militei na JEC e na JUC. Nesta, minha militância foi curta, afinal minha fé estava se esboroando. Mas conservei contato com alguns daqueles padres, padres que admirei por seu idealismo, e que, tendo tomado contato com jovens, largaram a batina. Certa vez, conversando com um deles, 60 anos, ele deitou a cabeça sobre minha mão e começou a chorar: "eles roubaram minha vida".

Que podia eu dizer àquele homem de 60 anos, que só descobrira o engodo já na última etapa da vida? Quantas milhares de horas teria perdido de gozo sexual, de carinhos de uma mulher? Quantas vezes teria tido de renunciar à razão porque os dogmas assim o exigiam? Quantas vezes teria dobrado a cerviz ao poder imperial de uma instituição medieval e obsoleta? Àquele defroqué, eu nada tinha a dizer. Só a escutar.

A Igreja roubou a vida de Boff. O teólogo goliardo, mesmo depois de velho, parece não ter percebido isto. E continua crendo no velho deus castrado do Antigo Testamento. Largou a batina mas preservou o pior, a fé.

Sexta, 01 Junho 2007 21:00

O Último Refúgio da Ética

Há um crime contra todos os brasileiros que o Estado comete impunemente e que, por força de lei, já nem constitui crime. A Federação, os Estados e municípios devem bilhões de reais a milhares de credores.

Em meus debates, observei que muitos interlocutores confundem Direito com ética e consideram que ambas as normas, tanto as jurídicas como as éticas são coercitivas. Como cidadão, sinto-me obrigado apenas a respeitar as normas jurídicas, que são universais. Quanto às éticas, tenho compromisso apenas com minha ética, que pode coincidir - ou não - com a ética das pessoas que me cercam. Quem mais se indigna com esta afirmação são meus leitores católicos. Alegam que a ética é uma só, que suas normas são universais e que sou adepto do relativismo moral. Praga que, segundo eles, católicos, ameaça as bases do Ocidente. Daí basta apenas um passo para chamar-me de ateu. O que de fato sou. Mas a acusação vai além. Que, sendo ateu, não tenho ética. Pois o fundamento de toda ética é Deus. E logo lançam mão de Dostoievski, citando uma frase que o russo nunca escreveu: "se Deus não existe, tudo é permitido".

Ora, se transgrido um preceito legal, sou passível de uma punição, imposta pelo Estado. Se transgrido um preceito ético, que não alcançou a condição de lei, o Estado nada tem a ver com isso. Posso sofrer, isto sim, uma sanção da comunidade onde vivo, ou de meu pequeno círculo de amizades. Neste caso, posso avaliar a conveniência ou não de receber esta sanção, compará-la com o prazer ou benefício que a transgressão me dá e tomar uma decisão. Mas transgredir um preceito ético jamais será crime.

Há um crime contra todos os brasileiros que o Estado comete impunemente e que, por força de lei, já nem constitui crime. A Federação, os Estados e municípios devem bilhões de reais a milhares de credores. São os precatórios, isto é, dívidas confirmadas por sentença judicial. Estas dívidas do Estado podem ter sua origem em imóveis desapropriados, por exemplo, ou vantagens salariais devidas e não pagas. Há milhares de pessoas às quais o Estado deve até mesmo milhões de reais, individualmente. Muitos desses credores são pobres. Embora os precatórios tenham transitado em julgado e não admitam mais recursos por parte do devedor, estes credores esperam o pagamento há anos e não têm esperança alguma de recebê-lo em vida.

Conheço não poucas pessoas próximas a mim que têm a receber mais de um milhão de reais da União. Diga-se de passagem, sou uma delas. Não há mais instâncias às quais recorrer. Mas a União simplesmente não paga e estamos conversados. Herdei o precatório de minha mulher, que morreu sem ver a cor do que lhe era devido. Estou certo que também morrerei sem ver esta cor. O precatório será herdado por minha filha. E tenho dúvidas de que ela um dia seja paga. Os auditores fiscais da Receita Federal já entraram inclusive com uma ação junto à OEA para responsabilizar o Estado brasileiro como criminoso, mas ninguém em sã consciência acredita que este recurso extremo terá algum resultado.

Para legalizar o calote, está em tramitação no Senado a PEC (proposta de emenda constitucional) nº 12, que dará à prefeitura de São Paulo 45 anos para quitar seus débitos baseados em sentenças judiciais. O governo do Espírito Santo teria 140 anos para liquidar compromissos desse tipo. Mas se você deve ao Estado, o Estado não espera nem 45 nem 140 anos para garantir seu pagamento. Não espera nem mesmo um segundo. Você é tributado na fonte. O projeto desta PEC é iniciativa de uma figura impoluta da República, o então presidente do STF, Nelson Jobim. Foi encampada pelo também impoluto presidente do Senado, Renan Calheiros, hoje atolado até o pescoço em denúncias de recebimento de propinas.

Leio no Estadão: "Com a PEC nº 12, governadores e prefeitos ganham imunidade para continuar lesando milhares de credores do setor público, sem risco de novos processos, de confisco de receita ou de intervenção, bastando que atendam àqueles limites de pagamento. Mais que isso: os novos prazos de pagamento, sustentados por um dispositivo constitucional, contribuirão para desvalorizar os créditos contra Estados e municípios. Muitos desses créditos têm sido vendidos no mercado, naturalmente com deságio, que de certo aumentará, se os credores ficarem mais desprotegidos. Além disso, governadores e prefeitos serão estimulados a praticar novos calotes. Se vítimas dos novos golpes conseguirem apoio judicial a suas pretensões, nenhum governante precisará ficar preocupado. Os novos precatórios entrarão na fila, para liquidação - quem sabe? - dentro de várias décadas".

Segundo o Supremo Tribunal Federal (STF), há um total de precatórios (inclusive alimentares) de R$ 62,39 bilhões devidos por Estados e municípios. Só em São Paulo foi encontrado um débito estadual de R$ 12,98 bilhões. Os precatórios municipais, no Estado, totalizavam naquela ocasião R$ 10,89 bilhões. Com a aprovação da PEC n° 12, o calote torna-se perfeitamente legal. Pagar ou não pagar é uma questão delegada ao campo da ética. E contra as transgressões às normas éticas não há punição alguma. Ouve-se de vez em quando sugestões obscenas para resolver o problema. Os Estados pagariam os precatórios com 70% de deságio e você desiste de qualquer ação de cobrança. Se a União lhe deve um milhão de reais, receba 300 mil e agradeça ao bom deus dos credores. Se não topar, não recebe nada.

Quando o Estado busca legalizar um calote deste porte, pouco ou nada podemos esperar do Direito. Restaria, quem sabe, apelar a ética. Mas onde terá se refugiado a ética?

Pelo jeito, junto à bandidagem. O Estadão deste domingo traz diálogos divinos entre os implicados na operação Hurricane. Ler estes diálogos, ultimamente, tem sido um de meus lazeres diletos. O cerne da questão é o dinheiro, mas ninguém pronuncia esta palavra. Tudo são metáforas. Juízes e advogados falam em oxigênio, material de campanha, carvão, elogio, paetês, presentinho, coisica. Este, por exemplo, captado por uma escuta telefônica, é de um primor inigualável de honestidade. Dinheiro aqui se chama "o meu" e "o seu":

- A gente acerta aquilo que se conversou, os 30%. Eu abro a porta e digo a você: tá o meu e tá o seu aqui.

- Bota 50%.

- Não, Sérgio, não quero usurpar.

Os interlocutores são o advogado Sérgio Luzio e José Luiz Rebello, ligado a donos de bingos, sobre um valor a ser pago. O advogado é generoso. Seu cúmplice é comedido. Se a União não tem escrúpulo algum em usurpar o cidadão, Sérgio não quer usurpar seu colega de corrupção. Contenta-se com 30%. A União, quando acena com alguma proposta, quer apenas... 70%.

Em outra negociação que prima pela ética, Virgílio Medina, irmão do ministro mercador de sentenças, foi procurado por uma pessoa de Juiz de Fora, também envolvida no esquema. Virgílio agradece e dispensa o intermediário, pois estava negociando com Luzio: "Tem de ter uma transparência, uma ética".

Lá pelas tantas, o empresário Jaime Dias, inconformado com a cassação da liminar comprada e concedida pelo ministro Paulo Medina, afirma:

- Como é que vão cassar uma decisão de ministro do STJ em matéria que não é constitucional?

- Com quem você vai reclamar? - pergunta José Renato Granado, seu interlocutor, também preso pela PF.

- Daqui a pouco, não vai mais existir Direito - diz Dias.

- Não existe mais estado de Direito - concorda Granado.

Só resta a ética, senhores.

O Vaticano defende com unhas e dentes seu mercado. O que Bento e Kasper parecem esquecer é que, em seus primórdios, o cristianismo não passava de uma seita dissidente do judaísmo.

Bento XVI considerou ser justa preocupação para a Igreja o "proselitismo agressivo das seitas", referindo-se evidentemente às diferentes denominações evangélicas que hoje roubam ovelhas de seu rebanho. Este foi um dos propósitos de sua viagem, previsto desde dois anos atrás. Em outubro de 2005, o cardeal Walter Kasper, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, dizia à imprensa internacional reunida em Roma que a agressividade e o proselitismo das seitas neopentecostais eram os motivos principais que induziram o papa a escolher o Brasil para sua viagem à América Latina. A verdade é que a Igreja Católica não tem muita autoridade moral para se queixar. Os evangelistas se apropriam hoje do Novo Testamento com a mesma nonchalance que os católicos se apropriaram do Velho.

Falar em proselitismo agressivo de seitas soa muito estranho numa Igreja que quer firmar concordata com o Brasil, tornando o ensino de religião obrigatório nas escolas públicas. Proselitismo é coisa de evangélicos, que trabalham madrugadas afora para conquistar mentes. O Vaticano quer moleza. Se conseguir torcer o pepino desde menino, amém! Vale inclusive golpe baixo, introduzir o ensino obrigatório da religião - católica, é claro - no ensino público.

O Vaticano defende com unhas e dentes seu mercado. O que Bento e Kasper parecem esquecer é que, em seus primórdios, o cristianismo não passava de uma seita dissidente do judaísmo. Ainda hoje há cristãos desavisados que julgam que Cristo era cristão. (Sem falar nos que têm certeza de que Cristo era católico). Ora, Cristo nunca foi cristão. Era judeu. Em sua época, não existia nada que se pudesse chamar cristianismo. A palavra cristianismo nem existe na Bíblia. Encontramos, isto sim, a palavra "cristãos". Mas apenas nos Atos, II, 25, bem depois da morte de Cristo: "Partiu, pois, Barnabé para Tarso, em busca de Saulo; e tendo-o achado, o levou para Antioquia. E durante um ano inteiro reuniram-se naquela igreja e instruíram muita gente; e em Antioquia os discípulos pela primeira vez foram chamados cristãos".

Como esta seita, liderada por um judeu com mania de Messias, seguido por um punhado de iletrados, conseguiu expulsar os deuses pagãos do universo mediterrâneo e tornar-se, ao longo dos séculos, uma das religiões dominantes do planeta? Esta pergunta sempre me intrigou. Não é difícil encontrar resposta. O historiador Paul Veyne, em L’Empire Gréco-romain (Paris, Éditions du Seuil, 2005), nos esclarece melhor a questão. Se os deuses pagãos não permitiam que se abusasse de seu nome em falsos juramentos ou que um celerado conspurcasse seus santuários com sua presença impura, a moralidade dos mortais não lhes dizia respeito. Um romano podia fazer uma prece: Vênus, tu cujo poder reina sobre terra e mares, acaba com nossas guerras civis. Subentendia-se: se não o fazes, teu poder será posto em dúvida. Ou ainda: Zeus, me ajuda, senão serás considerado uma nulidade. Ou seja, havia uma relação mais ou menos de igual para igual entre deuses e homens.

"Em revanche, o que não oferecia o paganismo era o amor de um Deus amoroso. Não havia relações sentimentais com estes poderosos estrangeiros que viviam antes de tudo para si mesmos (...) O paganismo ignora toda relação interna de consciências entre deuses e homens. O cristianismo terá sido uma religião mais amorosa, mais apaixonante, terá tido a espécie de sucesso de um best-seller que prende você pelas entranhas por seu calor ético, por seu deus temível mas amoroso, com o qual se pode conversar intimamente".

Esta idéia de um best-seller apaixonante será retomada mais adiante por Veyne, em seu último ensaio, Quand notre monde est devenu chrétien (312-394), lançado em Paris em fevereiro passado. Sem Constantino, diz o autor, o cristianismo não teria sido mais que uma seita de vanguarda. O grande sucesso da nova doutrina residiria em ser uma religião de amor, uma invenção coletiva de gênio: "a misericórdia infinita de um Deus que se apaixona pelo destino da humanidade - mais ainda, pelo destino das almas, uma a uma, a minha, a tua, e não apenas pelo destino dos reinos, dos impérios ou da humanidade em geral; um Pai cuja lei é severa, que faz você andar na linha, mas que, como o deus de Israel, está sempre pronto a perdoar".

Veyne propõe um paralelo para mostrar o abismo que separa o cristianismo do paganismo. Uma mulher do povo pode contar seus infortúnios familiares à Madona. Se ela os contasse a Hera ou Afrodite, a deusa se perguntaria qual maluquice havia passado pelo cérebro daquela idiota que vinha lhe falar de coisas que não lhe diziam respeito.

Por outro lado, o cristianismo era um organismo completo, o que não existia no paganismo. Como este, "possuía seus ritos, mas também uma porção de outras coisas que o paganismo não tinha: sacramentos, livros santos, reuniões litúrgicas, a propaganda oral pelas homilias, uma moral, dogmas. Do mesmo modo que era preciso confessar sua fé e respeitar a lei divina, era preciso crer nos dogmas e nos relatos sagrados, na Queda, na Redenção, na Ressurreição. Um cristão que atravessava uma crise de fé não dispunha do recurso que tinham os pagãos, o de considerar como invenção de poetas tudo aquilo que lhes parecia inacreditável em seus mitos".

Outro fator fundamental para a saúde da nova doutrina seria a máquina colossal posta em movimento por Constantino, após sua conversão. Ao legalizar a Igreja, concedendo-lhe privilégios e fazendo dela sua religião pessoal, o imperador "fortificará um organismo completo, desfechará um formidável mecanismo que iria enquadrar e cristianizar pouco a pouco a massa da população e mesmo enviar missionários aos povos estrangeiros. Pois o cristianismo tinha ainda uma outra particularidade, o proselitismo, enquanto o paganismo e o judaísmo raramente procuraram persuadir os outros a adotar suas divindades".

Para Veyne, a conversão de Constantino é facilmente explicável. Para quem queria ser um grande imperador, era preciso um deus grande, um deus gigantesco que se apaixonasse pela humanidade, que despertasse sentimentos mais fortes que os deuses do paganismo, que viviam para eles mesmos. Esse Deus desenvolvia um plano não menos gigantesco para a salvação eterna da humanidade. Ele se imiscuía na vida de seus fiéis, exigindo deles uma moral estrita.

Mil e setecentos anos depois, Bento XVI dá-se ao luxo de classificar como seitas as demais religiões que reivindicam o legado de Cristo. É confortável caminhar pela História com as costas quentes, protegidas por quase dois milênios de idade. No entanto - e aqui as hipóteses não são de Veyne, mas minhas - se essa idéia de amor está na raiz do sucesso da antiga seita, esta mesma idéia é responsável por sua decadência.

O Deus único que oferece amor, cobra amor de volta. Ciumento, não admite outros deuses. Manda os seus chacinar tribos, destruir ídolos e altares e interdita outras crenças. Esta prepotência de Javé se manifesta no Cristo, quando mostra suas garras: "quem não está comigo, está contra mim". Desconheço frase que resuma, com tanta síntese, o fanatismo ancestral dos cristãos. É o mesmo fanatismo de Ratzinger, quando declara: "A Igreja Católica é a mãe de todas as igrejas cristãs. Por isso, outras igrejas não devem ser consideradas irmãs da Igreja Católica". Ou seja, não passam de seitas.

No transcurso da história, os monoteísmos se revelaram - e ainda hoje se revelam - produtores de guerras, massacres, genocídios. Se a humanidade um dia tomou gosto pela idéia do deus único, muito cedo repensou a proposta. O próprio cristianismo observou este fenômeno em seu corpo doutrinal. Lá pelas tantas, os fiéis estavam cultuando três deuses, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. O paganismo, expulso pela porta, voltou voando pelas janelas.

Para suprimir este retorno a crenças pagãs, o primeiro Concílio de Nicéia, realizado em 325 - sob a égide de Constantino, é claro - decretou o dogma da Trindade. Deus é três mas é um só. Não tente entender: é mistério. Não tente descrer: é dogma. Isso sem falar em Maria, que goza de uma condição de deusa, à semelhança dos outros três. O Ocidente monoteísta tem hoje quatro deuses. Isso sem falar nos santos, uma espécie de delegação das divindades. A miríade de santos católicos dilui a camisa-de-força do monoteísmo.

Os deuses gregos morreram. Morreram de rir - dizia Nietzsche - ao ouvir que no Ocidente havia surgido um que se pretendia único. É o mesmo Nietzsche, junto com Kierkegaard, que denuncia a perversidade desta idiossincrasia cristã, a do amor ao próximo. É idéia que destrói o conceito de amizade. Amamos quem elegemos para amar. Não necessariamente quem é próximo.

O best-seller fez sucesso, mas a fórmula está gasta. A Europa, que um dia se chamou Respublica Christiana, está exportando o antigo achado para o Terceiro Mundo. Não por acaso, o Brasil foi contemplado com a primeira grande viagem de Ratzinger.

Sexta, 18 Maio 2007 21:00

Falta a Pá de Cal

A queda do Muro foi um grande baque para as esquerdas. Mas pouco afetou os comunistas do continente. A ressurreição de Cuba, após a morte de Fidel, será a pá de cal nas ideologias marxistas na América Latina.

Já falei de minha viagem à Romênia, em 1981, durante a ditadura de Ceaucescu, oito anos antes da queda do Muro e dez anos antes do desmoronamento da URSS. Foi a pior das viagens que fiz e, ao mesmo tempo, a mais importante.

A pior viagem, pelo desconforto. Estava em um hotel de primeira classe. (Nos países socialistas, os hotéis eram de primeira ou de segunda classe, nenhuma classificação a mais). Estava em um dos melhores hotéis do país, pagava em dólares e, na hora de comer, não tinha muita opção. No almoço, me davam um papelucho mimeografado e sujo, para optar entre frango ou porco na janta. De nada adiantava escolher frango. Só tinha porco. Para o café, eu tinha de escolher entre café ou chá. De nada adiantava escolher café. Só tinha chá. E da China. Quanto ao açúcar, uma pedrinha. Para conseguir duas, só subornando o garçom. O leitor pode então ter uma idéia de como vivia o cidadão romeno que, sob o tacão de Ceaucescu, nem tinha como reclamar.

A mais importante viagem, pela experiência de ver in loco um regime socialista. Se eu pedia uma informação a um nativo, mal eu me afastava do fulano saltava do nada um soldado com uma metralhadora de baioneta calada e um cão policial. E passava a identificar e interrogar o coitado. Mas o que mais evidenciava o socialismo era o total desabastecimento dos supermercados e bares. Nas gôndolas vazias dos mercados, nada que incitasse ao consumo. Gêneros alimentícios, nenhum. Em compensação, abundavam baldes, pás, vassouras, enxadas. Em bares de praia, nada para comer. Nem para beber. Os distribuidores nada haviam trazido, portanto nada havia para vender. Mas os bares estavam abertos. Os garçons eram funcionários públicos e sua função era abrir os bares. Mesmo que nada houvesse para ser oferecido aos clientes. Certo dia, vi chegar uma paleta de carne em um mercado. Uma multidão de romenos disputou-a a tapas, grama a grama. Claro que disputavam a carne os que tinham poder aquisitivo suficiente para comprá-la.

Sinal indefectível do socialismo, a falta de papel higiênico. Não sei por quê, mas este é um dos primeiros estragos do regime. Nos anos 70 e 80, todo turista que ia aos países socialistas era recomendado a levar consigo papel higiênico. Como não me preveni, todo santo dia eu tinha de lutar por alguns centímetros de papel na portaria do hotel. Rolo, que é bom, nem em sonhos.

O mesmo que ocorre em Cuba. Com uma diferença. Castro isolou setores da ilha para uso exclusivo dos turistas, e nestes sempre se encontra alguma coisa. Quando Hugo Chávez começou a falar de seu socialismo bolivariano, disse a amigos: agora é só esperar pelo desabastecimento. Não demorou muito. Leio na Folha de São Paulo de quinta-feira passada que hoje, na Venezuela, a escassez afeta pobres e ricos. Produtos como carne, feijão preto, leite e açúcar são raros nas prateleiras. Em alguns casos, é necessário pagar gorjeta. Culpado pela situação? Segundo o governo, são os pérfidos Estados Unidos, que querem desestabilizar o país.

Anteontem à tarde, mercado Luvebras, no afluente bairro La Castellana, zona leste da capital venezuelana. Dois funcionários puxam um carrinho carregado de carne em bandejas. Atraem imediatamente a atenção dos clientes, na maioria mulheres de classe média alta. Sem disfarçar a ansiedade, os clientes se aglomeram em torno dos funcionários e se acotovelam para pegar seus pedaços de carne de boi e de frango da prateleira numa velocidade mais rápida do que a reposição. Alguns avançam diretamente no carrinho, outros levam o quanto conseguem segurar. Em pouco tempo, o balcão refrigerado volta a ficar vazio.

Exatamente o que vi na Romênia, há 26 anos.

Cinco estações de metrô mais a leste, na populosa região pobre do Petare, a loja do Mercal, a rede de supermercados pública, sofre com a falta de produtos e clientes. Assim como no primo rico, faltam carne, ovos, leite, feijão preto e queijo branco, embora tenha açúcar, limitado a um quilo por cliente.

E, conseqüência indefectível do socialismo, a falta de papel higiênico. "Aqui, não se consegue nada há três semanas", diz um cliente. "A cada dia é mais difícil encontrar carne, papel higiênico, leite". Segundo funcionário de um supermercado localizado em área nobre da cidade, a escassez é medida pelo volume de trabalho. Nos últimos dias, passou meio período sem fazer nada, já que sua função é abastecer as prateleiras. Como na Romênia. Sem abastecimento, não há trabalho. Mas o trabalhador tem de bater ponto. Para um cliente conseguir carne no mercado é preciso pagar propina para o açougueiro. "Eles vão lá, deixam a lista do que querem junto com um dinheirinho", diz o funcionário. Como eu fazia na Romênia para conseguir uma pedrinha a mais de açúcar ou um bom vinho.

A Venezuela, antes de ser um país, é um poço de petróleo. Nos anos 70 e 80, era um dos países mais prósperos da América Latina. Bastaram alguns anos de "socialismo bolivariano" para ser reduzida a um clone de Cuba. Chávez entrará para história como o primeiro governante a levar um poço de petróleo à miséria. A Bolívia irá pelo mesmo caminho. Como os ditadores têm uma tradição de longevidade neste continente, estes países terão ainda de esperar algumas décadas para voltar a uma economia de mercado.

Cuba, a meu ver, está muito perto disto. Morto o grande ícone da revolução, os cubanos, famintos de capitalismo, reerguerão a ilha em pouco tempo. A queda do Muro foi um grande baque para as esquerdas. Mas pouco afetou os comunistas do continente. A ressurreição de Cuba, após a morte de Fidel, será a pá de cal nas ideologias marxistas na América Latina.

Sábado, 12 Maio 2007 21:00

Europa Rechaça Tabagismo e Cristianismo

Os fatos confirmam uma minha antiga tese, a de que a Europa está se libertando aos poucos de dois grandes males da humanidade, o cristianismo e o tabagismo.

A partir das 5 horas do último dia do mês de abril, está proibido fumar em lugares públicos - bares, restaurantes e locais de trabalho - na Irlanda do Norte. Na Escócia, o fumo foi proibido nestes locais em março do ano passado e, no País de Gales, um mês depois. No próximo mês de julho, será a vez da Inglaterra proibir o cigarro. O governo britânico proibirá o fumo também em todas as embarcações que naveguem por águas territoriais do Reino Unido. A Irlanda - leio nos jornais - foi o primeiro país a vetar totalmente o tabaco em locais públicos, em março de 2004. O exemplo foi seguido pela Noruega, Espanha, Itália, Malta, Suécia, Escócia, Gales, Letônia e Lituânia. Mês passado, os 16 Estados da Federação Alemã aprovaram a proibição do fumo em restaurantes, com algumas exceções.

Os dias não são propícios para fumantes na Europa. Em fevereiro último, eu estava em Paris quando o fumo foi vetado em lugares públicos. Foi concedido um prazo adicional de onze meses para cafés, restaurantes (em ambientes separados), cassinos e discotecas. Dia 1º de janeiro do ano que vem, fim da tolerância. Nalgum jornal francês, li algo sobre um certo “cabinet suédois” que certos cafés estariam pensando em instalar. A reportagem não explicava em que consistia, mas pelo que entendi seria uma espécie de banheiro concebido exclusivamente para fumar. Porque nos banheiros propriamente ditos também não se poderá fumar. Curioso imaginar os clientes indo de vez em quando ao "cabinet", para exonerar-se de suas vis necessidades.

Os fumantes estão sendo tratados como leprosos na Europa atual. Em aviões, não se fuma mais. Em trens, se antes havia um vagão para fumantes, agora não há mais. Nas gares e aeroportos, também é proibido fumar. Alguns aeroportos reservam um pequeno espaço para os leprosos, que ficam como que engaiolados para a contemplação piedosa dos demais usuários. Eu, que defendo o sagrado direito de todo cidadão adulto chupar câncer, acho que a Europa exagera. Não vejo maiores inconvenientes de fumar em grandes espaços como aeroportos e gares. Mas os governos europeus deixam claro a seus súditos e demais visitantes que o continente já não tolera o tabagismo. O fato é que estas determinações complicam a vida até mesmo do não-fumante. Se você não fuma e seu companheiro ou companheira de viagem é fumante compulsivo, prepare-se para não poucas incomodações.

No fundo, têm razão. O cigarro está matando demais. Ainda em Paris, testemunhei um episódio que dá plenas razões aos adversários do fumo. Um senhor de uns 60 anos, que só conseguia respirar plugado a um tubo de oxigênio, carregado nesses porta-malas de rodinhas, entrou num tabac. São os quiosques onde se vende cigarro na França. Sei lá porque razões, seu símbolo é um acrílico em forma de carotte (cenoura). Se você quiser cigarro, busque a carotte nas ruas. Pois aquele velhote trôpego, que só conseguia respirar com um tubo de oxigênio, entrou no tabac e pediu dois Gauloises, o mata-ratos francês. Enfim, talvez tivesse também sua razão. Se estava para morrer, por que privar-se de seus prazeres?

O tabagismo, para quem não sabe, é o principal legado dos indígenas da América Latina ao mundo. Claro que nenhum rousseauniano defensor do bon sauvage gosta de ouvir isto. Jean Nicotin - daí nicotina - era embaixador francês em Portugal em meados do século XVI e levou uma folha da planta que receberia seu nome para a rainha Catarina de Médicis. O tabagismo, no fundo, é uma vingança póstuma do índio colonizado. Ao mesmo tempo em que a Europa tenta exorcizá-lo, uma outra droga está perdendo seu poder no velho continente, o cristianismo.

Nestes mesmos dias, os jornais trazem também outra notícia alvissareira da Europa. Em crise, as paróquias estão vendendo igrejas. A perda de clientela está levando padres e pastores europeus a comercializar prédios para fins residenciais. "Cada vez mais, o fenômeno da venda de igrejas vem ganhando força em vários países europeus diante da redução drástica de fiéis nos últimos dez anos nos templos". Se por um lado o maior número de vendas ocorre na Inglaterra, Escócia, Suíça e países escandinavos - redutos fundamentalmente protestantes ou luteranos - o fenômeno também se manifesta nas católicas Itália e Espanha.

Segundo o jornal The Times, mais de mil igrejas poderiam fechar ou ser vendidas nos próximos dez anos na Inglaterra. Sir Roy Strong, líder religioso de destaque, chegou a propor que pequenas igrejas dividam seus espaços com centros comunitários e mercados para agricultores. Em Kent, uma das igrejas da região já se transformou em um local de vendas de produtos naturais. Em Yorkshire Dale, a transformação de uma igreja em templo muçulmano gerou protestos, mas acabou sendo aprovada. Territórios sagrados estão passando a ser anunciados nos classificados de imóveis. Por outro lado, candidato é o que não falta para transformar um antigo templo em sua moradia. Há quem ache agradável morar em um local onde tantas pessoas viveram grandes momentos, como casamentos ou batizados.

Os fatos confirmam uma minha antiga tese, a de que a Europa está se libertando aos poucos de dois grandes males da humanidade, o cristianismo e o tabagismo. Ao que tudo indica, estas tendências estão contaminando o Brasil. Já não são poucas as restrições ao cigarro nas capitais do país. Quanto à religião, quem o afirma é uma fonte insuspeita, Don Odilo Scherer, novo arcebispo metropolitano de São Paulo. Nestes dias em que o maior traficante internacional de drogas está por chegar com toda pompa a São Paulo, o príncipe da Igreja, preocupado com o que chama de "fuga silenciosa de católicos", disse a respeito da atual migração religiosa: "É um fenômeno que atinge não somente a igreja católica. A migração religiosa afeta a todos. Estamos nos debruçando sobre a compreensão desse fenômeno, que nos incomoda". Continuou ainda o purpurado: "A oferta é muita. Vivemos no Brasil o efeito da modernidade. As pessoas se assumem como autônomas e livres do ponto de vista religioso".

E depois ainda há quem diga que os jornais só trazem notícias ruins.

Sábado, 05 Maio 2007 21:00

Hoy es Fiesta

Hoy es fiesta. Quando evoco Madri, esta é a primeira imagem que me vem à mente. Em verdade, lá é festa todo dia.

Quem me acompanha, sabe de minha paixão pela Espanha e particularmente por Madri. Camilo José Cela dizia ser a Espanha o país mais lindo do mundo. Assino embaixo e acrescento: e Madri é a cidade mais linda da Espanha.

Não falo do aspecto físico, arquitetônico, da cidade. Neste sentido, se ficarmos só nas capitais, eu diria que Paris e Roma batem Madri de longe. Até mesmo a modernosa Estocolmo, espalhada pelo continente e por mais quatorze ilhas, a meu ver tem mais charme que Madri. Já nem falo de Amsterdã, milagre do engenho humano. Nem mesmo de Praga, vista por alguns como a Paris do Leste. Nem de Viena, imperial e solene. Em minhas primeiras viagens, eu imaginava que os mais belos cafés do mundo eram os de Paris e Madri. Ledo engano de viajante imaturo. São os de Viena. Se você quiser fazer uma viagem de sonho, vá até lá e passe duas ou três semanas apenas visitando os cafés. Vale a viagem.

Mas falava de Madri. Se você conhecê-la por fora, a cidade não impressiona muito. Pelo menos para quem já conhece as demais capitais européias. É preciso conhecê-la por dentro. Seu encanto reside nos madrilenhos e na vida callejera. Se você sair para a rua às nove da noite, pode até pensar que a vida noturna já morreu. Nada disso. É que eles ainda não saíram de casa. Nem pense em almoçar ao meio-dia, os restaurantes estão desertos. Eles começam a pensar no assunto a las dos del medio día. Neste intervalo, o comércio fecha as portas. Para abrir lá pelas quatro e meia ou cinco, que ninguém é de ferro. Afinal, temos ainda a siesta, ritual único na Europa, recuperação para enfrentar a noite. Há horas a Comunidade Européia tenta regularizar o horário de comércio e bancos na Espanha e abolir a siesta. Mas Madri resiste: No pasarán!

Já vivi madrugadas esplêndidas em Madri, a temperatura a menos de zero grau e os madrilenhos fervilhando pelo casco viejo da cidade. Nada de automóveis. Homens e mulheres, velhos e crianças, todos a pé. O que costumo chamar de geografia etílica é um quadrilátero relativamente pequeno, que se estende da Plaza Mayor até Paseo de Recoletos - passando por Plaza del Angel e Lavapiés - voltando por Fuencarral e fechando na Plaza de Oriente, frente ao Palácio Real. Dentro deste quadrilátero você tem o melhor de Madri. Fora dele até pode ter coisas interessantes. Mas não interessam muito.

A estratégia é ir de tasca em tasca, umas tapas aqui, outras lá adiante, até finalmente sentar para jantar. A pequena distância entre um e outro bar estimula os vecinos - os habitantes da cidade - a caminhar. Há uma certa histeria nas noites madrilenhas. Uma das coisas que mais me fascina é ver a velharada em massa nas ruas e bares. A impressão que me fica é que ninguém senta diante de uma televisão naquelas bandas. Nota-se também um certo narcisismo na hora da bona-xira. Os espanhóis parecem ter elegido a cidade como uma espécie de espaço teatral e gostam de mostrar à platéia como comem bem.

Um amigo me contou um daqueles episódios que marcam a vida de um viajante. Estava em um cabaré de luxo e uma senhora já idosa e finésima o abordou e entregou-lhe um cartão:

- En su casa, Usted tiene la mujer de su vida. En nuestra casa, tenemos la mujer de sus sueños.

Elegância que não vamos encontrar em qualquer cidade do mundo. Quando se vive algum tempo numa cidade, sempre fica um episódio que nos marca fundo. Minha marca foi outra. Já vivia em Madri há uns bons seis meses, quando um amigo de Paris veio visitar-me. Pensei brindá-lo com algo típico. Em Maravillas, meu bairro, havia um pequeno restaurante muito ligado às lides taurinas, que servia um excelente rabo de toro. Lá por las nueve de la tarde, como dizem os madrilenhos, rumamos à tasca. Mal entramos, um venenciador nos recebeu com dois finos em punho.

Venenciador é um profissional que se especializa em servir jerez. Veste-se com uma espécie de traje de luces, aquelas vestes de toureiro. O fino é um copinho fino - daí o nome - onde se serve o jerez. Com uma haste de mais ou menos um metro, com outro copinho fino na ponta, ele apanha o jerez em uma barrica, e o despeja de uma altura de mais de metro no fino propriamente dito. Sem derrubar uma gota. É uma arte fascinante, mais ou menos perdida na Espanha atual.

O bar estava tomado por bailaoras y cantaores, que cantavam sevillanas. Fomos recebidos por uma saraivada de palmas y taconeos. Mal nosso jerez evaporava, o venenciador mergulhava o copinho no tonel e repunha a dose. Tudo isso, tendo como pano de fundo o alarido infernal das sevillanas.

Mas meu propósito era comer. Chamei o garçom. Temos rabo de toro?

- Hoy no se come. Hoy es fiesta.

Muy bien. Vamos então continuar a fiesta. Entre um fino e outro, hipnotizados, contemplávamos os meneios das bailaoras e os piropos dos cantaores. Acontecera que um toureiro amigo da casa havia matado cinco ou seis touros naquela tarde. A festa era em sua homenagem. Lá pela meia-noite, preocupado com o estômago, pedi a conta.

- Hoy no se paga. Hoy es fiesta.

Como não morrer de amores por uma cidade que acolhe o estrangeiro em suas festas íntimas, o recebe com a finesse de um venenciador, oferece-lhe seus melhores vinhos e suas mais lindas canções e mulheres, sem cobrar nada por isso?

Hoy es fiesta. Quando evoco Madri, esta é a primeira imagem que me vem à mente. Em verdade, lá é festa todo dia.

Sexta, 27 Abril 2007 21:00

Senhor Jesuis Quer Sua Grana

Não bastasse esta exploração vil dos baixos instintos do povo, que constitue crime óbvio contra a economia popular, um destes senhores, o senador Marcelo Crivella, quer agora enfiar a mão no bolso inclusive dos não-crentes.

Por vezes, nas madrugadas, dedico alguns bons minutos aos programas dos pastores evangélicos que inundam a televisão aberta. É prática que recomendo ao leitor. Se as novelas consistem em ficções bobas para agrado de desmiolados, nos programas religiosos não há ficção alguma. É a realidade nua e crua: hábeis comunicadores extorquindo o último centavo de uma massa de crentes analfabetos ou semi-alfabetizados. Há milagres a granel. Pelo simples fato de comparecer ao culto, paralíticas passam a caminhar, ceguinhas passam a ver, cancerosos se curam de câncer, aidéticos se curam de Aids. Expulsam-se também demônios do corpo de endemoniados. Aleluia! Louvado seja o Senhor Jesuis!

Confesso que até hoje não entendi esse “senhor Jesuis”. Talvez seja recurso fonético dos pastores da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) para diferenciar-se das vigarices milenares daqueles outros da ICAR (Igreja Católica Apostólica Romana) , que por sua também exploram o cadáver do Senhor Jesus. Sem o "i". O programa que mais me fascina é aquele da IURD, o Congresso Empresarial dos 318 pastores. São 318 pastores que intercedem ante o Altíssimo pela sua fortuna e prosperidade. E porque 318? Porque no Gênesis lemos:

"Ouvindo, pois, Abrão, que seu irmão estava preso, levou os seus homens treinados, nascidos em sua casa, em número de trezentos e dezoito, e perseguiu os reis até Dã. Dividiu-se contra eles de noite, ele e os seus servos, e os feriu, perseguindo-os até Hobá, que fica à esquerda de Damasco. Assim tornou a trazer todos os bens, e tornou a trazer também a Ló, seu irmão, e os bens dele, e também as mulheres e o povo".

O roteiro é divino. Público alvo, pequenos e médios empresários. De preferência, empresárias. Você tem uma dívida de três milhões de reais? Basta pedir a intercessão dos 318 pastores e dia seguinte você está fora do vermelho e cheio de grana no bolso. Você tem um carro caindo aos pedaços que não lhe dá nenhum prestígio? Freqüente as vigílias e logo o bom Deus lhe dará uma BMW. Os depoimentos se multiplicam e as benesses são sempre as mesmas: prosperidade na empresa, dinheiro na conta corrente, carro novo, casa na praia, jardim e piscina, em suma, todas essas pequenas ambições da pequena burguesia ascendente. A "reportagem" se dá ao luxo de entrevistar os abençoados por Deus no estacionamento do templo. Cada um, cada uma, sentado ao volante de um flamante carro de prestígio. Graças ao Senhor Jesuis!

Por enquanto, ainda não ouvi: "Depois que encontrei o senhor Jesuis, fiz um cruzeiro pelas ilhas gregas!" Como só vejo esporadicamente tais programas, não duvido que tal depoimento já tenha ocorrido. Se não ocorreu, ocorrerá. O Senhor Jesuis faz maravilhas.

Perplexo! É como fico. Não se vê um só assento vazio nos templos. Vazia deve ser a vida daquelas quatro ou cinco mil pessoas que lotam cada galpão. Que perdem noites de repouso ou lazer, convivência com a família, para ouvir o bíblico besteirol de um vigarista bem falante. Não por acaso evangélicos e católicos estão agora disputando acirradamente as mentes dos bugres no Brasil. Os criadores de religiões desde há muito sabem que, nos dias atuais, só podem esperar colheita se semearam entre os brutos. Nestes dias em que a Polícia Federal parece ter tomado vergonha e está colocando juízes e desembargadores na cadeia, é difícil entender como os 318 pastores ainda não estão vendo o sol quadrado. Ou será que temos de esperar que a polícia americana ponha estes senhores onde merecem estar?

Não bastasse esta exploração vil dos baixos instintos do povo, que constitue crime óbvio contra a economia popular, um destes senhores, o senador Marcelo Crivella, pastor da IURD, quer agora enfiar a mão no bolso inclusive dos não-crentes. Não bastasse esta corrupção propiciada pela lei Rouanet, que permite o financiamento do teatro, do cinema e agora da literatura pelo contribuinte, o pastor Crivella considera que as religiões estão entre os elementos culturais de uma nação. E apresentou projeto no sentido de que a lei Rouanet passe a despejar abundantes benesses sobre os templos da IURD.

A propósito, o senador e pastor começa a surgir como um dos personagens da operação Hurricane, que está desmantelando a máfia dos bingos e caça-níqueis no país. Íntimo do juiz Ernesto Dória, desembargador do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, que hoje curte o xilindró, Crivella chegou a sugerir-lhe que se candidatasse a "vereador ou deputado pela nossa Igreja", a IURD. Em um dos diálogos grampeados pela Polícia Federal, o ilibado juiz comenta que se Lula vencesse a disputa no Rio, Crivella sairia fortalecido. "Tá colocando 4 milhões e meio de gente, quase 5, pra votar no Lula. Tá uma máfia humana".

Como se algum animal organizasse máfias! É claro que o Supremo Apedeuta será sensível a tal afago. O projeto do senador e pastor já foi aprovado pela Comissão de Educação do Senado. A matéria vai a plenário e ainda precisa ser votada na Câmara.

Sexta, 20 Abril 2007 21:00

O Visionário de Taubaté

Em homenagem aos 125 anos do nascimento de Monteiro Lobato.

Quando nos deparamos com algum evento insólito na sociedade ou na área da tecnologia, logo saímos à busca de precursores ou anunciadores. Em geral os buscamos entre os ficcionistas anglo-saxões ou germânicos, afinal toda literatura de antecipação tem suas raízes nos Estados Unidos ou Europa. No entanto, nestas terras de Pindorama, já em 1926, um visionário de Taubaté antevia nada menos que a radicalização da questão negra nos Estados Unidos, a discussão separatista no Brasil, o voto eletrônico, o teletrabalho, a Internet e suas conseqüências. Falamos de Monteiro Lobato, é claro, e de sua obra mais premonitória, O Presidente Negro ou O Choque das Raças. Como este livro hoje só pode ser encontrado em sebos ou bibliotecas, não serei mesquinho em citações.

Estamos no ano 2.228. Nos Estados Unidos, a elite governante está alarmada: as estatísticas apontam uma população de 108 milhões de negros para 206 milhões de brancos. Como o coeficiente de natalidade negra continua subindo, o instinto de preservação dos brancos se eriça em legítima defesa. Fala-se em uma "solução branca" e uma "solução negra". A solução branca é, obviamente, expatriar os negros. Quem propõe este panorama é Miss Jane, personagem de Lobato na ficção citada.

Na mesma época, o antigo Brasil está cindido em dois países, um centralizador de toda a grandeza sul-americana, filho que era do imenso foco industrial surgido às margens do rio Paraná e o outro, uma república tropical, agitando-se ainda em velhas convulsões políticas e filológicas, discutindo sistemas de voto e a colocação dos pronomes da semimorta língua portuguesa. De clima temperado, o Brasil branco fundia no mesmo bloco a Argentina, o Uruguai e o Paraguai. Os portugueses, aclimatados na zona quente, haviam-se mesclado com o negro, formando um povo de mentalidade incompatível com a do sul.

Miss Jane é filha de um cientista de origem americana radicado no Brasil, o professor Benson, que pode obter um corte anatômico do futuro através de uma espécie de globo cristalino chamado porviroscópio. (Esta idéia será retomada por Jorge Luís Borges, como veremos adiante). Através deste aparelho Jane perscruta o mundo do século 23. A ação do romance transcorre em 1926. O Sr. Ayrton, seu interlocutor brasileiro, manifesta tristeza ante o futuro do país. Jane, pelo contrário, considera um erro inicial a mistura de raças e acha que a divisão do país constituí uma solução ótima, a melhor possível. Pois "a muita terra não é o que faz a grandeza de um povo e sim a qualidade de seus habitantes".

Esta idéia de um fracionamento territorial do Brasil não é nova nos dias de Lobato. Em Cartas Inéditas de Fradique Mendes, escritas nos estertores do século passado, Eça de Queiroz já antecipava esta possibilidade, em texto intitulado A Revolução no Brasil. Para o escritor português, com o Império acaba também o Brasil, que ficaria fragmentado em Repúblicas independentes, em virtude da divisão histórica das províncias, das rivalidades entre elas, da diversidade do clima, do carácter e dos interesses e a força das ambições locais. Uma vez separados, os estados não poderão manter paz entre si, em função das delimitações de fronteira, questões hidrográficas e alfândegas. "Cada estado, abandonado a si, desenvolverá uma história própria, sob uma bandeira própria, segundo o seu clima, a especialidade de sua zona agrícola, os seus interesses, os seus homens, a sua educação e a sua imigração. Uns prosperarão, outros deperecerão. Haverá talvez Chiles ricos e haverá certamente Nicaráguas grotescos. A América do Sul ficará toda coberta com os cacos dum grande Império!"

Se o Brasil ainda não se dividiu - apesar de todos os anos surgirem "nações" indígenas, com pretensões de autonomia -, aí estão os Chiles ricos e os Nicaráguas grotescos, confirmando a aguda intuição de Eça. Mas voltemos a O Presidente Negro.


A inflação do pigmento - Para Miss Jane, a América seria a privilegiada zona que havia atraído os elementos mais eugênicos das melhores raças européias. O Mayflower trouxera homens de uma têmpera superior que não hesitaram um segundo "entre abjurar das convicções e emigrar para o deserto". As leis de imigração se tornam seletivas e as massas que procuravam a América, já em si boas, são peneiradas. A Europa é drenada de seus melhores elementos e no novo mundo resta a flor dos imigrantes. Ocorre então o que Miss Jane chama de "o erro inicial": entra no país, à força, o negro arrancado da África. O Sr. Ayrton observa que o mesmo erro foi cometido no Brasil, mas nossa solução foi admirável: em cem ou duzentos anos teria desaparecido o nosso negro em virtude de cruzamentos sucessivos com o branco.
Miss Jane não julga admirável tal solução, mas medíocre, pois estraga as duas raças ao fundi-las. Prefere que ambas se desenvolvam paralelas dentro do mesmo território, separadas por uma barreira de ódio, a mais profunda das profilaxias. Para ela, o ódio impede a miscigenização e mantém as raças em estado de relativa pureza.

- Não há mal nem bem no jogo das forças cósmicas. O ódio desabrocha tantas maravilhas quanto o amor. O amor matou no Brasil a possibilidade de uma suprema expressão biológica. O ódio criou na América a glória do eugenismo humano...
Os exemplares mais belos, fortes e inteligentes eram descobertos onde quer que se encontrassem e atraídos para a Canaã americana. Estando o país bastante povoado, fecha-se as portas ao fluxo europeu e a nação passa a crescer apenas vegetativamente.

É quando surge a inflação do pigmento. As elites pensantes haviam-se convencido que a restrição da natalidade se impunha, pois qualidade vale mais que quantidade. Rompe-se então o equilíbrio: "Os brancos entraram a primar em qualidade, enquanto os negros persistiam em avultar em quantidade. Mais tarde, quando a eugenia venceu em toda a linha e se criou o Ministério da Seleção Artificial, o surto negro já era imenso".

Urge desembaraçar-se dos negros. A solução branca é simples: exportar, despejar os cem milhões de negros americanos no Vale do Amazonas. O que não era fácil "não só em virtude de tremendas dificuldades materiais como por ferir de face a Constituição Americana".

Monteiro Lobato escreveu seu romance - ou ensaio, como quisermos - no início deste século. Ao transportar a ação da obra para três séculos depois, fazia ficção. Mas, bom conhecedor da história dos Estados Unidos, escorava-se em projetos nada ficcionais já alimentados pelos americanos.

Um país para os negros americanos - Entre 1840 e 1860, um obscuro tenente da Marinha dos Estados Unidos, Matthew Fontaine Maury, funcionário do Departamento de Cartas e Instrumentos do Departamento da Marinha de Washington, pensou seriamente no assunto. O projeto do oficial americano era simples e pragmático: uma vez alforriados os escravos negros de seu país, estes seriam enviados para colonizar a Amazônia brasileira. A república da Libéria, na África, resultou de um destes projetos.

E por que não colonizar a região amazônica com brancos? Maury empunhava argumentos de ordem geográfica, Se o europeu e o índio haviam lutado com suas florestas por 300 anos sem imprimir-lhe a menor marca, sua vegetação só poderia ser subjugada e aproveitada, seu solo só poderia ser retomado à floresta, aos répteis e aos animais selvagens e submetido ao arado e à enxada, pela mão-de-obra do africano. "É a terra dos papagaios e macacos e só o africano está à altura da tarefa que o homem aí tem de realizar".

O projeto de Maury, em verdade, só tinha de original a insistência em colonizar a Amazônia com os negros libertos. Desde os últimos anos da década de 1830, os Estados Unidos pretendiam a abertura da navegação do rio Amazonas a todas as nações. Antes do oficial sonhador, um certo Joshua Dodge pretendia estabelecer 20 mil imigrantes norte-americanos nas margens do Amazonas. Todos se comprometendo a reconhecer a soberania brasileira, pelo menos nos primeiros anos de colonização.

No fundo, à semelhança do que foi feito com o Texas, pretendia-se anexar a região aos Estados Unidos. A estratégia era simples. Bastaria comprar alguns brasileiros em Manaus, que passariam a ser "legítimos representantes de uma República da Amazônia, que se declararia estado independente do Império do Brasil, inclusive por discordar da forma como o país era governado, com sua monarquia".

Caso o governo brasileiro enviasse navios e tropas para restabelecer sua soberania, os cidadãos do novo estado amazônico independente apelariam para a proteção norte-americana. E uma força de proto-capacetes azuis se apresentaria na foz do Amazonas para "proteger a vida e os bens ameaçados dos cidadãos americanos".

Quem nos conta este quase desconhecido projeto de expansão americana é a professora Nícia Vilela Luz, em A Amazônia para os Negros Americanos. Neste ensaio, a autora mostra que muitos americanos, bem antes da eclosão da Guerra Civil, achavam ser mais interessante libertar todos os escravos e enviá-los para fora da América. O intérprete maior desta vontade é o tenente Maury:

"Preocupava-o o problema do negro nos Estados Unidos, tendo em vista a abolição da escravidão que se aproximava inexoravelmente. Convencido da superioridade do branco, só podia admitir o negro na condição de escravo e nunca numa posição de igualdade com o branco. Que fazer então com essa população negra uma vez posta em liberdade e cuja multiplicação ainda poderia submergir a raça branca?"

Para Maury, "Deus em Sua própria e sábia providência ditará o destino a ser cumprido pelas raças preta e branca, seja ele qual for".

"E Deus preservara a Amazônia deserta e desocupada para que os problemas do Sul pudessem ser resolvidos - prossegue Vilela Luz -. Acuados ao Norte onde não encontrariam mais terras do Mississipi por desbravar nem mais campos de algodão por subjugar, os sulistas, para se livrarem do seu excesso de população negra, salvando ao mesmo tempo sua economia e sua 'peculiar' instituição, encontrariam a safety valve mais ao Sul, no vale amazônico. Era 'o único raio de esperança' a iluminá-los naquele momento dramático em que se discutia o destino do regime da escravidão nos Estados Unidos".

Estados desunidos - Voltemos à ficção de Lobato. Para Miss Jane, os negros se batiam por uma solução muito mais viável: queriam a divisão do país em dois, o sul para os negros e o norte para os brancos, já que a América surgira do esforço conjunto de ambas as raças. Se não era possível gozar juntas da obra feita em comum, o razoável seria dividir o território em dois pedaços. Temos então, já no início deste século, um escritor brasileiro antecipando as propostas de líderes negros contemporâneos como Farrakhan. É bom lembrar que nessa época Lobato ainda não havia viajado para os Estados Unidos.

Os brancos nada queriam ceder de seu status quo e o problema tornava-se ameaçador. É quando surge um candidato capaz de unir o eleitorado negro: Jim Roy, de tez levemente acobreada, parecendo um mestiço de senegalês e pele-vermelha. A cor de sua pele em nada lembrava os negros de hoje (isto é, 1926). Na época, a ciência havia resolvido o caso de cor pela destruição do pigmento. Jim Roy, negro de raça puríssima e cabelo carapinha, era "horrivelmente esbranquiçado". O espírito visionário de Lobato antecipa, en passant, a tendência negra americana que gerou um Michael Jackson, por exemplo. Inaugurando, já no início do século, a atual categoria do "politicamente incorreto", diz o estupefato sr. Ayrton:

- Barata descascada, sei...

No entanto, nem os recursos da ciência faziam os negros deixarem de ser negros na América. Os brancos não lhes perdoavam aquela camouflage da despigmentação.
Jim Roy, líder do partido Associação Negra, não chega a ser uma ameaça para o poder. Representa cem milhões de negros, contra 200 milhões de brancos. Ocorre que entre os brancos surge uma séria dissidência, um partido de mulheres. Os velhos partidos Democrático e Republicano haviam-se fundido num forte bloco sob a denominação de Partido Masculino, liderado por Kerlog, presidente em exercício e candidato à reeleição. Este bloco não tinha certeza da vitória, pois o partido contrário, o Feminino, dispunha de maior número de vozes, lideradas por miss Evelyn Astor. As estatísticas davam ao Partido Masculino 51 milhões de votos; ao Feminino 51,5 milhões e à Associação Negra, 54 milhões. A eleição dependia pois da atitude de Jim Roy.

Aproximam-se as eleições. Que, no ano da graça de 2.228, ocorrem em poucos minutos, em função de avanços tecnológicos previstos por Lobato, que anunciam nosso mundo de hoje, 1998.

A vitória negra - É esta possibilidade de "radio-transportar" os dados que opera uma reviravolta nas eleições de 2.228, nos Estados Unidos. Jim Roy vai explorar com habilidade este dado novo, a velocidade. As eleições haviam sido marcadas para as 11h da manhã e durariam apenas 30 minutos. O candidato da Associação Negra avisa os agentes distritais que só às 10h anunciará o nome em que os negros devem votar. Ao anunciá-lo, a desconfortável surpresa: Jim Roy se anuncia como candidato.

Para pasmo de todos, depois de 87 presidentes brancos, surgia o primeiro presidente negro, eleito por 54 milhões de irmãos de sangue. Os partidos Masculino e Feminino haviam mais ou menos empatado, com algo em torno de 50 milhões e meio de votos. Passada a perplexidade, negros e brancos caem na realidade do dia seguinte. Para Kerlog, 87º presidente dos Estados Unidos e candidato derrotado, surge uma dor de cabeça histórica: ele vê na vitória negra a América transformada num vulcão e ameaçada de morte. Considera que se não forem mantidas presas as rédeas dos dois monstros - a ebriedade negra e o orgulho branco -, a chacina será espantosa. Seis líderes brancos reúnem-se em convenção e discutem uma solução para o impasse. A solução, mantida em sigilo, é aceita por unanimidade. Na época, John Dudley, inventor e um dos membros da convenção, descobrira os raios Omega, que tinham a propriedade miraculosa de modificar o cabelo africano. Com o tratamento, o mais rebelde pixaim se tornava não só liso, mas também fino e sedoso como o cabelo do mais apurado tipo de branco. Os raios Omega influíam no folículo e eliminavam o encarapinhamento, último estigma da raça negra, que já havia resolvido o problema da pigmentação. Lobato, em sua ficção, está antecipando a "escova progressiva" dos dias atuais.


A solução branca - Ainda não recuperados das emoções da vitória, cem milhões de criaturas agradeciam aos céus a nova descoberta, que redundaria em um aperfeiçoamento físico da raça. O pigmento fora destruído mas o esbranquiçamento da pele não revelava cor agradável à vista. Com os raios Omega, tinham esperança de obter com o tempo a perfeita equiparação cutânea.

Em todos os bairros de todas as cidades, a Dudley Uncurling Company estabeleceu Postos Desencarapinhantes, que se multiplicaram ao infinito, como se uma força oculta empurrasse a empresa do inventor dos raios Ômega ao desencarapinhamento da América Negra no menor espaço de tempo possível.

Era dos mais simples o processo. Três aplicações apenas, de três minutos cada uma, ao custo de dez centavos por cabeça, faziam com que os negros acorressem aos postos como cães famintos. Os brancos, inicialmente irritados com o que chamavam de "a segunda camouflage do negro", acabaram se divertindo com o espetáculo da súbita transformação capilar de cem milhões de criaturas.

Na véspera do dia da posse, Jim Roy, em sua residência particular, sonhava o maior sonho já sonhado no continente, quando seu criado lhe anuncia a visita de "um homem branco natural". Era o presidente Kerlog, o adversário derrotado. Que anuncia ao líder negro não existir moral entre raças, como não há moral entre povos. Há vitória ou derrota.

- Tua raça morreu, Jim...

Os raios Omega de John Dudley tinham uma dupla virtude: ao mesmo tempo que alisam os cabelos, esterilizavam o homem. No dia em que seria empossado o 88º presidente dos Estados Unidos, o primeiro presidente negro da América, Jim Roy aparece morto em seu gabinete de trabalho. Os negros pensaram imediatamente em crime e chegou a haver um movimento de revolta. Mas o fatalismo ancestral superou o ódio e o imenso corpo sem cabeça recuou instintivamente e repôs-se no humilde lugar de onde a vitória de Roy o tirara. Procederam-se novas eleições e Kerlog foi reeleito por 100 milhões de votos. A vida da América voltou à normalidade.

Estrangulada a circulação da seiva, a raça extinguiu-se num crepúsculo indolor.
Nem exportação para a Amazônia, nem divisão do país, nem esbranquiçamento com a eliminação do pigmento e da carapinha. Mas extinção pura e simples de uma raça para o pleno desabrochar da Super-Civilização Ariana...

Em sua autobiografia, Testamento para El Greco, Nikos Kazantzakis nos fala de certos lábios e pontas de dedos sensíveis que sentem um formigamento ao aproximar-se a tempestade. Monteiro Lobato, criador sensível, sentia aproximar-se a catástrofe, o mais colossal empreendimento de extermínio em massa já ousado na História. Antes de morrer, ainda viu o bisturi germânico tentando extirpar uma etnia. Só enganou-se quanto à geografia.

Nestes dias de junho de 98, a imprensa internacional nos traz uma espantosa confirmação da hipótese de Lobato. Dan Goosen, cientista responsável por um laboratório secreto durante o apartheid na África do Sul, revela que o governo daquele país tentou desenvolver uma bactéria que poderia ser mortal ou causar infertilidade somente em pessoas com pigmentação de pele escura. Em declarações à Comissão da Verdade e Reconciliação para a África do Sul (CVR), disse um outro pesquisador, o dr. Daan Jordan: "Meu trabalho era desenvolver um produto que reduzisse a taxa de natalidade da população negra". Este produto, que não chegou a ser desenvolvido, seria distribuído entre os negros, possivelmente misturado à cerveja de sorgo ou à farinha de milho (consumidos basicamente pela população negra) ou usado em uma campanha de vacinação. Por pouco, a vida não imitou a arte.

Taubateano antecipa a Internet - Além de aventar uma possível evolução da questão negra nos Estados Unidos, Lobato angustiava-se com o desperdício de energia e "os milhões de veículos atravancadores de espaço" - e isso nos primórdios do século - necessários para o deslocamento do homem até o trabalho ou lazer. Via a salvação na "fecunda descoberta das ondas hertzianas e afins". O trabalho, o teatro, o concerto passam então a vir ao encontro do homem. As condições do mundo se transformam quando a maior parte das tarefas, industriais e comerciais começam a ser feitas de longe pelo que Lobato chama de "rádio-transporte".

Há três quartos de século, antes mesmo de sua viagem aos Estados Unidos, Lobato antevia o fim da maneira de fazer jornalismo da época e antecipava o que hoje é rotina em qualquer redação deste final de milênio. Através de miss Jane, o escritor de Taubaté começa a descrever a sociedade americana do futuro:

"Pelo sistema atual - Lobato refere-se a 1926, quando ainda escrevia no Estado de São Paulo - o colaborador ou escreve em casa o seu tópico ou vai escrevê-lo na redação; depois de escrito, passa-o ao compositor; este o compõe, passa-o ao formista, este o enforma e passa-o ao tirador de provas; este tira as provas e manda-o ao revisor; este o revê e envia-o ao corretor; este faz as emendas e... e a coisa não acaba mais! É uma cadeia de incontáveis elos, isto dentro das oficinas, pois que o jornal na rua dá início à nova cadeia que desfecha no leitor - correio, agentes, entregadores, vendedores, o diabo".

Toda essa complicação desapareceria. Cada colaborador do Remember, jornal criado na ficção lobatiana, "radiava" de sua casa - como estou fazendo agora -, numa certa hora, o seu artigo, e imediatamente suas idéias surgiam impressas em caracteres luminosos na casa dos assinantes.

Numa época em que computador, fibras óticas e satélites pertenciam ao universo mental de visionários, Lobato fala de rádio-transporte. Se substituirmos esta expressão por modem, temos o criador de Bentinho e Jeca Tatu antecipando, há sete décadas, um jornal que já existe. Seus correspondentes há muito enviam seus "caracteres luminosos" para suas redações. Daí ao leitor recebê-los numa tela em sua casa, basta uma decisão administrativa, já tomada por centenas de empresas no Brasil e no mundo ocidental. E quando o acervo da literatura universal estiver digitalizado, poderá consultar, de sua casa, todas as bibliotecas do mundo.

Além da era da roda - "As ruas tornaram-se amáveis, limpas e muito mansas de tráfego" - continua Lobato -. "Por elas deslizavam ainda veículos, mas raros, como outrora nas velhas cidades provincianas de pouca vida comercial. O homem tomou gosto no andar a pé e perdeu os seus hábitos antigos de pressa. Verificou que a pressa é índice apenas de uma organização defeituosa e anti-natural. A natureza não criou a pressa. Tudo nela é sossegado".

Esta previsão, melhor creditá-la ao pendor utópico do escritor, que não chegou a vislumbrar este lado provinciano do brasileiro, que se sente despido e humilhado se não tiver uma carroça sobre quatro rodas. Enfim, para sonhar não se paga imposto. Mas Lobato vai mais longe. Miss Jane considera superada a revolução da roda. Segundo a moça, "o homem deu o primeiro grande passo em matéria de transporte com a invenção da roda. Mas ficou nisso. Repare que a nossa civilização industrial se cifra em desenvolver a roda e extrair dela todas as possibilidades. Daqui a séculos, quando for possível ao homem uma ampla visão de seu panorama histórico, todo este período que vem do albor da história e ainda vai prolongar-se por muitas gerações receberá o nome de Era da Roda".

O rádio matará a roda, segundo Miss Jane. "A roda, que foi a maior invenção mecânica do homem e hoje domina soberana, terá seu fim. Voltará o homem a andar a pé. O que se dará é o seguinte: o rádio-transporte tornará inútil o corre-corre atual. Em vez de ir todos os dias o empregado para o escritório e voltar pendurado num bonde que desliza sobre barulhentas rodas de aço, fará ele o seu serviço em casa e o radiará para o escritório. Em suma: trabalhar-se-á à distância".

Lobato fala em rádio, o must dos anos 20. Se não podia prever as nuvens de terabytes diariamente transmitidas de um ponto a outro do planeta pela WEB, intuiu muito bem suas conseqüências. O teletrabalho - trabalho "radiado" para o escritório, como diria Lobato - já é um fenômeno em expansão. Hoje, qualquer trabalhador intelectual, desde que tenha um telefone por perto, pode enviar sua produção para qualquer canto do mundo, refugiado num chalé no Itatiaia ou em busca de solidão e deserto em Tamanrasset. Jornais impressos a milhares de quilômetros de suas redações há muito não constituem mais novidade.

Segundo o historiador francês Roger Chartier, a revolução hoje em curso é muito mais ampla que a de Gutenberg, de 1455, "pois transforma as próprias formas de transmissão do escrito. A passagem do livro, do jornal ou do periódico, como os conhecemos hoje, para a tela de computador, rompe com as estruturas materiais do texto escrito. A única comparação histórica possível é a revolução no início do cristianismo, nos séculos II e III, quando o livro da Antiguidade, em forma de rolo, deu lugar ao livro herdado por Gutenberg, o códice, com folhas e páginas reunidas em cadernos".

Habitantes deste final de milênio, somos testemunhas privilegiados da revolução intuída por Lobato. Revolução das boas, sem sangue e sem volta. Sem sequer imaginar a existência de computadores, o escritor paulista anuncia a Internet. Cabe lembrar que, em 1996, o Brasil foi um dos primeiros países do mundo a instituir o voto informatizado, instituição já em funcionamento nesta ficção escrita há sete décadas.


A biblioteca de Borges - Também ao sul do Equador, um vizinho nosso, situado às margens do Prata, imaginava um acervo que hoje começa a tomar corpo com a Internet. Falava de uma biblioteca em forma de esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono. Sua circunferência é inacessível. Existe ab aeterno e nela não há dois livros idênticos. É ilimitada e periódica. Assim definia o Jorge Luis Borges, em um conto datado de 1941, "A Biblioteca de Babel". Em alguma prateleira de algum hexágono existiria um livro que era a chave e o compêndio de todos os demais. "Algum bibliotecário o terá percorrido e é análogo a um deus".

Na Babel de Borges, há um grave problema de comunicação. A Biblioteca abarca todos os livros. Todo conhecimento humano está disperso pelos hexágonos. O problema é encontrar o que se busca. Milhares de funcionários lutam, se estrangulam e morrem em busca dos livros nos corredores da biblioteca, muitas vezes derrubados por homens de hexágonos remotos. Outros enlouquecem. O autor exagera, o que é direito de todo ficcionista. Mas em muitas bibliotecas contemporâneas os funcionários já usam bicicletas ou patins para buscar os livros.

Em 41, estávamos a meio século da Internet. Hoje, aos buscadores desta ficção de Borges bastaria digitar um endereço eletrônico e teriam em segundos os livros desejados, sem a necessidade de estrangular-se ou enlouquecer, pedalar ou patinar, subir escadas ou cair em poços sem fundo. Hoje, um leitor de qualquer parte do mundo, com uma placa modem em seu computador, pode acessar a Congress Library em Washington, a Bibliothèque Nationale em Paris ou a Biblioteca Nacional de Madri. Ou as bibliotecas da USP, Unesp e Unicamp em São Paulo. Por enquanto, apenas bibliografia, é bom salientar. Mas a tendência é colocar o próprio livro à disposição do usuário, o que está sendo feito pelo projeto Gutenberg e a ABU , entre outros sites. Nestes últimos, estão a seu alcance, desde Plutarco e Platão, até Descartes ou Marx, passando pela Bíblia, Voltaire ou Dostoievski. Por enquanto em francês e inglês, mas já estão sendo digitalizados acervos em português e espanhol.

Teoricamente, já se pode pensar na biblioteca total de Borges. Chegar lá é uma questão de tempo. A biblioteca faraônica iniciada por François Mitterrand - Tontonkhamon, para os inimigos íntimos - em Paris, concebida para armazenar acervos futuros, com seus quatro prédios mastodônticos em forma de livro, já nasce mais ou menos obsoleta. Seu design pertence ao passado.

A pergunta "quantos livros tem sua biblioteca?" inclusive perdeu o sentido e não mais permite uma resposta precisa. Vivemos uma época em que ninguém sabe de quantos livros dispõe em seu gabinete de trabalho. Os livros ao alcance de sua mão - ou de seu mouse - são tantos quanto os que estão digitalizados e disponíveis na grande rede, esteja você morando em qualquer aldeia do fim do mundo. Desde, é claro, que tenha uma linha telefônica por perto.

Borges plagia Lobato - Borges, sonhador irrecuperável, antecipa em suas ficções a biblioteca sonhada por todo bibliófilo, hoje em construção. Mas o autor vai mais longe em seu desejo de futuro. Em "El Aleph", conto publicado em 1949, Borges nos fala do peculiar poeta Carlos Argentino, que se propõe nada menos que "versificar toda a redondez do planeta". Carlos, que está construindo sua obra a partir de seu quarto, entra em pânico quando lhe noticiam a demolição de sua velha casa na Calle Garay. Pois nela, em algum ponto de uma escada no porão, existe um aleph, "o lugar onde estão, sem confundir-se, todos os lugares do mundo". A partir daquela pequena esfera, de dois ou três centímetros de diâmetro, Carlos Argentino perscrutava o mundo, a fonte de seu poema colossal. Vejamos a descrição do aleph, feita por Borges em 1949.

O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava ali, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (a face do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu claramente a via desde todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a alba e vi a tarde, vi as multidões da América, vi uma teia prateada no centro de uma negra pirâmide, vi um labirinto rompido (era Londres), vi intermináveis olhos imediatos perscrutando-se em mim como em um espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu, vi em um pátio da rua Soller os mesmos ladrilhos que há trinta anos vi no saguão de uma casa em Fray Bentos, vi racimos, neve, tabaco, veios de metal, vapor de água, vi convexos desertos equatoriais e cada um de seus grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, vi o altivo corpo, vi um câncer no peito, vi um círculo de terra seca em uma vereda, onde antes houve uma árvore, vi um sítio em Adrogué, um exemplar da primeira versão inglesa de Plínio, a de Philemon Holland, vi ao mesmo tempo cada letra de um volume (quando criança, eu me maravilhava com o fato de que as letras de um volume fechado não se misturassem e se perdessem no transcurso da noite), vi a noite e o dia contemporâneo, vi um pôr-de-sol em Querétaro que parecia refletir a cor de uma rosa em Bengala, vi meu dormitório sem ninguém, vi em um gabinete de Alkmaar um globo terrestre entre dois espelhos que o multiplicavam ao infinito, vi cavalos de crinas enredadas. Em uma praia do mar Cáspio vi a alba, vi a delicada ossadura de uma mão, vi os sobreviventes de uma batalha, enviando cartões postais, vi em uma vitrine de Mirzapur um baralho espanhol, vi as sombras oblíquas de fetos no chão de uma estufa, vi tigres, êmbolos, bisões, maremotos e exércitos, vi todas as formigas que há na terra, vi um astrolábio persa, vi em uma caixa do escritório (e a letra me fez tremer) cartas obscenas, incríveis, precisas, que Beatriz havia dirigido a Carlos Argentino, vi um adorado monumento em La Chacarita, vi a relíquia atroz do que deliciosamente havia sido Beatriz Viterbo, vi a circulação da morte, vi o Aleph, desde todos os lados, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph e no Aleph a terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto, e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetural, cujo nome os homens usurpam, mas que nenhum homem mirou: o inconcebível universo.

Contemporaneamente, não falaríamos em aleph, mas em webcams, a rede incipiente de câmeras onde, se não podemos ver o universo em sua totalidade, podemos bisbilhotar cada vez mais seus pontos mais longínquos. Hoje, de minha mesa de trabalho, posso ver o quarto de Jennifer e a praça do Kremlin, uma ponte em Liljestrom, na Suécia, e a faina diária de uma formiga, uma universidade imersa na escuridão no norte da Noruega e um papagaio na Austrália, a torre Eiffel e as lavas candentes de um vulcão. Sem falar, é claro, nos livros da biblioteca de Babel em construção.

Monteiro Lobato, para consultar o futuro, cria em O Presidente Negro um aparelho semelhante, o porviroscópio, uma espécie de globo cristalino, através do qual Miss Jane perscruta o mundo do século 23. O professor Benson obtem, neste aparelho,

uma corrente contínua, que é o presente. Tudo se acha impresso em tal corrente. Os cardumes de peixe que neste momento agonizam no seio do oceano ao serem apanhados pela água tépida do Golfo, o juiz bolchevista que neste momento assina a condenação de um mujik relapso num tribunal de Arkangel; a palavra que, em Zorn, neste momento, o kronprinz dirige ao ex-imperador da Alemanha, a flor do pessego que no sopé do Fushiama recebe a visita de uma abelha; o leucócito a envolver um micróbio malévolo que penetrou no sangue dum fakir da Índia; a gota d?água que espirra do Niágara e cai num líquen de certa pedra marginal; a matriz de linotipo que em certa tipografia de Calcutá acaba de cair no molde; a formiguinha que no pampa argentino foi esmagada pelo casco do potro que passou a galope; o beijo que num estudio de Los Angeles Gloria Swanson começa a receber de Valentino...

A forma como o visionário de Taubaté descreve o universo vislumbrado no porviroscópio é quase idêntica à descrição do Aleph, publicada 23 anos mais tarde. O achado de Borges revela-se uma paráfrase do texto lobatiano. Se considerarmos que Borges conhecia a literatura de Lobato, e que este viveu em Buenos Aires em 1946, três anos antes da publicação de "El Aleph", é bastante pertinente supormos que o autor argentino andou bebendo na cacimba de nosso taubateano. Enquanto os sedizentes modernistas de 22 papagueavam Marinetti, Marx e outros doutrinadores totalitários europeus, Lobato, o escritor excluído do universo intelectual pelos seus contemporâneos, olhava meio século adiante.

 
 
(publicado em junho de 1998).
Quarta, 11 Abril 2007 21:00

Do Apreço ao Novel Ministro da Justiça

Não é possível entender que um homem culto e bem informado preste culto, hoje, a Vladimir Ilitch Ulianov. A menos que não seja culto nem informado.

Interrogado sobre quais pensadores mais admira, em entrevista para as Páginas Amarelas de Veja desta semana, o ministro da Justiça, Tarso Genro, respondeu: "Até meus 30 ou 35 anos, eu era admirador de Lenin, que conseguiu introduzir, num país atrasado, princípios políticos e organização política moderna, que, mais tarde, se revelaram como uma Revolução Francesa tardia. Reconheço que, do modelo stalinista, resultou o stalinismo, mas também resultou a formação de um Estado democrático de direito originário das dores desse parto".

Como se o leninismo ou o stalinismo tivessem parido qualquer Estado democrático de direito. A infeliz Rússia, que do tzarismo caiu no comunismo, até hoje nem tem idéia do que seja um Estado democrático. Desmoronado o regime marxista, a Rússia luta hoje não para chegar ao século XXI, mas pelo menos ao XX. E ninguém em sã consciência vai pretender que o regime autocrático de Putin seja uma democracia.

Comunismo, onde quer que tenha ocorrido, significou ditadura, prisão, tortura, matança de milhões, miséria. De lá para cá decorreram 70 anos após as primeiras purgas de Stalin, 58 anos após a affaire Kravchenko, 51 anos após as denúncias de Kruschov no XX Congresso do PCUs, 18 anos após a queda do Muro de Berlim, 16 anos após o desmantelamento da União Soviética. E este senhor ainda ousa afirmar que do modelo stalinista resultou algo positivo! Estamos mal servidos de ministro da Justiça.

O ministro parece estar com sérios problemas de memória. Seus trinta anos ocorreram em 77. Seus 35, em 82. Ora, tenho em mãos uma ode a Lênin de sua lavra, em parceria com seu irmão, Adelmo Genro Filho, intitulada Lenin: coração e mente, datada de 2003, publicada pela Editora Expressão Popular, de São Paulo. (Curioso observar que os irmãos marxistas se apropriam de uma expressão de Nixon a propósito da Guerra do Vietnã para titular seu livro). Nesta ode, em prefácio redigido pelos próprios autores, podemos ler:

"De qualquer forma, os autores convergem num ponto essencial: a vida e a obra de Lênin são imprescindíveis para a compreensão da grande revolução do Século XX e o seu legado é irrenunciável para a formação de um verdadeiro partido revolucionário do proletariado, livre da burocracia e do dogmatismo, que desconfiam da inteligência e condenam a iniciativa; livre do esquematismo e das 'verdades absolutas' que impedem o desenvolvimento revolucionário do marxismo".

Ora, já em 77 há muito se sabia dos métodos terroristas postulados por Lenin. Já em 1905, mais precisamente no dia 11 de abril, em um congresso para a unificação do partido, Lenin pregava o terror em massa e a expropriação de terras dos camponeses. Eram também conhecidas suas ordens de execuções sumárias. Em 1918, ordenou enforcar 100 kulaks e confiscar seus grãos. Ordenou também o massacre da família dos Romanoff, a matança e banimento para a Sibéria de camponeses. Lenin sempre louvou o terror e sempre teve a violência e a ditadura como fixações, a ponto de os mencheviques terem-no declarado como um autêntico renegado do marxismo. Tais fatos não podiam ser ignorados por dois pesquisadores que se debruçaram sobre a vida e obra do terrorista russo.

O ensaio tem pretensões catequéticas, no melhor estilo católico apostólico romano: "Este livro tem um endereço: visa principalmente subsidiar os operários avançados, os estudantes e intelectuais comprometidos com a transformação do mundo e todas aquelas pessoas que lutam por uma sociedade sem classes e sem opressão, a única formada por homens verdadeiramente livres".

Como se uma biografia de Lenin pudesse servir de auxílio a quem quer que queira formar uma sociedade sem classes e sem opressão, formada por homens livres. Nos anos 60, em minha cidadezinha, conheci operários semi-alfabetizados que, iludidos pelas fotos idílicas de revistas como China e Unión Soviética, julgavam que o regime comunista havia construído uma sociedade ideal onde imperavam a igualdade e a justiça. Estes operários acreditavam piamente na causa marxista e por ela lutavam. Eram honestos, mas desinformados. Sem falar que viviam nos 60, quando televisão era luxo e nenhum jornal de porte chegava até Dom Pedrito. (A bem da verdade, mesmo hoje ainda não chegam). Já não é fácil conferir honestidade a um advogado cosmopolita e bem informado, autor de vários livros, quando este senhor pretende que o leninismo possa construir uma sociedade sem classes e sem opressão.

Como o livro foi escrito a quatro mãos e Adelmo Genro morreu em 88, é de supor-se que os textos sejam todos anteriores a essa época. Mas se Tarso os publica em 2003, é porque os considera válidos em 2003. Ou seja, o novel ministro da Justiça, em pleno século XXI, faz a apologia de um dos mais brutais tiranos de inícios do século passado. Em 2003, Tarso tem 56 anos, e não os 30 ou 35 que alega na entrevista de Veja, como idade-limite para cultuar o terror. O ministro da Justiça, há apenas quatro anos, tinha como guru o responsável primeiro pelas grandes matanças do século passado. Pois hoje se sabe que Stalin não foi um desvio do leninismo, mas sua seqüência lógica. Lenin só não matou mais porque teve vida curta no poder. Sobreviveu apenas sete anos à Revolução.

Sempre que ouço relatos de madalenas arrependidas, costumo perguntar quando as madalenas se arrependeram. A primeira denúncia do comunismo surge em 1929, com o livro de viagens Vers l?autre flamme, do escritor romeno de expressão francesa Panaïti Istrati. Viajou com Nikos Kazantzakis, escritor cretense apaixonado pelo comunismo, pela Rússia e demais repúblicas socialistas. Enquanto Kazantzakis só via maravilhas, Istrati só via miséria. "Não se faz omelete sem quebrar ovos", dizia Kazantzakis. "Estou vendo apenas ovos quebrados e nenhuma omelete", objetava Istrati. Após publicar seu livro, Panaïti foi excluído do mundo dos vivos.

Alertas não faltaram ao longo das décadas. Nos anos 30, tivemos as denúncias de André Gide, Albert Camus, Ernesto Sábato, Arthur Koestler, George Orwell, Ignazio Silone e tantos outros que foram crucificados por seus contemporâneos. Em 1949, após a affaire Kravchenko, desfechado pela publicação de Eu escolhi a liberdade, não mais era possível a um homem honesto optar pelo marxismo.

Certo, Tarso nasceu em 47. Mas Tarso é homem que lê. Impossível que não tenha tido notícia destas bibliografias em seus anos de jovem ou de adulto. Eu também nasci em 47. Desde muito cedo, li filosofia marxista. Considerei-a uma resposta por demais rude a meu intelecto. Quando me falavam das maravilhas do paraíso soviético, eu tinha apenas uma singela pergunta: mas se o regime é tão lindo, por que é proibido viajar ao exterior?

Não é possível entender que um homem culto e bem informado preste culto, hoje, a Vladimir Ilitch Ulianov. A menos que não seja culto nem informado. Ou que ainda alimente sonhos de um totalitarismo que pertence ao passado. Qualquer das hipóteses não o recomenda como ministro da Justiça.

Terça, 03 Abril 2007 21:00

Dura Competição Entre Ministros

Às vezes faz bem um bárbaro entrar a cavalo com uma lança ensangüentada em um salão onde damas da corte dançam minueto.

Às vezes faz bem um bárbaro entrar a cavalo com uma lança ensangüentada em um salão onde damas da corte dançam minueto. A frase não é minha, mas de Ernesto Sábato. Ocorreu-me pela primeira vez, quando li frase atribuída ao deputado Clodovil Hernández, que dizia estar certo de sua eleição, porque "o povo é burro e vota em qualquer um". Seja ou não a frase de autoria do exótico deputado, é candidata a um lugar de destaque neste século que recém começou. A meu ver, deveria ser transcrita em bronze, não só em todos os legislativos do país, como também no Palácio da Alvorada, onde reside sua mais alta comprovação.

De novo me ocorre a imagem, agora que o vereador Agnaldo Timóteo, ao comentar a proposta da ministra Marta Suplicy, do Turismo, de acabar com o turismo sexual no Brasil, disse singelamente: "sexo é bom". A afirmação é de uma obviedade atroz, pelo menos para quem gosta do que a vida tem de bom. Mas o mundo está cheio de Estados e religiões absolutamente convictas de que sexo é mau, sujo e feio. Pior: ainda hoje, em pleno século XXI, há países onde se mata quem faz sexo fora das regras estabelecidas.A frase é absolutamente acaciana. Mas duvido que um político, algum dia, a tenha proferido em alguma tribuna no Brasil.

O vereador, em linguagem tosca, diz o que todo mundo sabe mas nem todos querem admitir: "Ninguém nega a beleza da mulher brasileira. Hoje as meninas de 16 anos botam silicone, ficam popozudas, põem uma saia curta e provocam. Aí vem o cara, se encanta, vai ao motel, transa e vai preso? Ninguém foi lá à força. A moça tem consciência do que faz. O cara não sabe por que ela está lá. Ele não é criminoso, tem bom gosto. Há demagogia e frescura. Meninos de 16 anos votam, transam, constituem família. E meninas não deixam de fazer sexo. Sexo é bom."

Não é o que pensa a ministra: "O Brasil não é um destino de turismo sexual. Existem países que são, o Brasil não é". Embora as declarações do vereador não tenham, em princípio, nada a ver com a prostituição, as de Marta Suplicy a ela se referem. Pois turismo sexual implica prostituição.

Santa ingenuidade, a da ministra petista. Turismo tem muitas facetas. Há quem viaje para ver paisagens ou monumentos, outros viajam em busca de cultura, outros para comer e beber e outros para curtir sexo. Ou para usufruir tudo isso ao mesmo tempo. Um dos ícones mais poderosos exportados pelo Brasil é o carnaval. Ora, que é o carnaval senão samba, nudez, glúteos, rebolado? Pretende a ministra que os turistas que aqui chegam se contentem em contemplar o lado espiritual das cabrochas? Pretende que um turista solteiro que faz um pacote de um mês passe um mês em jejum em um país erotizado? Ou só devem viajar ao Brasil pessoas com parceiros? Ou monges beneditinos? Ocorre que até os religiosos há muito jogaram ao lixo o voto de castidade.

Se for honesto comigo mesmo, tenho de convir que minha primeira viagem, nos anos 70, foi determinada por sexo. Eu vivia num Brasil católico demais para meu gosto e a Suécia enviava mensagens eróticas ao mundo todo. Calou fundo na época a frase de uma atriz: "quando o sol cai sobre os fjords, que nos resta senão fazer amor?" Era lá mesmo que eu queria estar. Antes de lá chegar, já ansiava por aqueles invernos eternos. O país vendia agressivamente uma imagem de paraíso sexual, para atrair duas coisas necessárias à sua economia: turistas e mão-de-obra imigrante. Ora, eu não viajava para comprar sexo. Queria-o sem pagar. Não era turista nem imigrante, queria conhecer um país e considero que a melhor maneira de conhecer um país é ter o afeto de alguém desse país. Mas no fundo o que me puxava ao reino dos Sveas era a ancestral pulsão, sem a qual a vida não existe.

Lembro-me que uma das imagens da época mostrava uma motorista de seios nus conduzindo um ônibus. Claro que era ficção, mas era ficção poderosa. Prospectos do Svenska Institut - uma espécie de departamento para relações com o estrangeiro - convidavam gentes de todos azimutes a conhecer "as adoráveis louras nórdicas". A Suécia foi o primeiro país da Europa a liberar a pornografia e oferecer aos turistas liveshows, sexo ao vivo. As prostitutas foram glorificadas e assumiram um status quase de assistentes sociais. De repente, Estocolmo, lá no extremo norte da Europa, foi tomada por congressos e simpósios de médicos, dentistas, engenheiros, enfim, de profissionais de todas as áreas. A pornografia, uma indústria que tem uma mão de obra abundante e não exige maior especialização, trouxe divisas e mais riqueza ao país.

Lentamente, a pornografia foi descendo rumo ao Sul. Dinamarca, Holanda, Alemanha, França. Na Alemanha, Beate Ushe, uma ex-piloto da Luftwaffe, prevendo a chegada da onda pornô, produziu toneladas de revistas e filmes eróticos, antes mesmo de a pornografia ser legalizada. Quando a lei foi aprovada no Parlamento, no dia seguinte as cidades foram inundadas de sexshops, livros, filmes e revistas. As católicas Espanha e Itália hesitaram alguns anos, mas acabaram sendo engolidas pelo maremoto. Os europeus viam o novo mercado com pragmatismo. Enquanto isso, aqui no Brasil, os militares viam na pornografia um diabólico plano comunista para minar os pilares do Ocidente e a polícia mandava para a cadeia quem era flagrado com as famosas "revistinhas suecas".

Hoje, até a comunista Cuba tem a prostituição como um poderoso fator de captação de divisas. Quando um jornalista perguntou a Castro porque as universitárias tinham de prostituir-se na ilha, el Comandante respondeu, impertérrito: "Não é bem assim. Aqui, até as prostitutas têm nível universitário".

Enquanto a ministra diz que o Brasil não é um país de turismo sexual, seu partido, o PT, elabora uma cartilha para o bom exercício da profissão de prostituta. Ora, estamos no Ocidente, onde mulher nenhuma é lapidada por entregar-se a seus desejos, onde cidadão algum está proibido de entregar-se ao bom folguedo. Muitas pessoas facilmente esquecem que prostituição não é crime no Brasil. Se a ministra quiser proibir o turismo sexual, podia começar proibindo o turismo. É a única maneira de proibir o sexual.

Seria interessante saber como a ministra vai impedir a entrada de turistas que busquem sexo no Brasil. Ou em que figura penal vai enquadrar o estrangeiro que for flagrado na cama com uma menina. Quem um dia foi aos Estados Unidos, no formulário para visto teve de responder estas perguntas, típicas de protestantes que acreditam na palavra dada: "Pretende entrar nos Estados Unidos para praticar violações no controle de exportação, ou atividades subversivas ou terroristas, ou qualquer outra atividade ilegal? É membro ou representante de alguma organização terrorista atualmente designada pelo Secretário de Estado dos Estados Unidos? Alguma vez participou de perseguições sob a orientação do Governo Nazista da Alemanha, ou participou de genocídio?"

Ora, até o bin Laden responderia não a todos os itens. Imagino que a ministra pretenda inserir em algum formulário para visto perguntas como: você pretender entrar no Brasil para fazer sexo com as brasileiras? É membro de algum clube de pedófilos? Se pretende fazer sexo, prefere qual faixa etária? Se fizer, será sexo pago ou gratuito? Você jura que não vai fretar meninas muito novinhas?

Em verdade, o que parece estar ocorrendo no Brasil é uma dura competição entre ministros para ver quem consegue dizer mais bobagens que o presidente. Ontem foi a Matilde, que afirmou que negro pode ser racista. Hoje é a Marta. Quem será o próximo? Conhecendo os bois com que lavro, muito em breve teremos outras pérolas.

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