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Janer Cristaldo

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

Sexta, 23 Março 2007 21:00

Eruv, o Jeitinho Judaico

Ortodoxia cansa. As gerações contemporâneas não aceitam mais regras elaboradas há milênios. Há muitas pessoas que crêem em Deus, mas não conseguem admitir um deus que proíbe o prazer.

O recente pronunciamento de Bento XVI que situa o segundo casamento como uma praga social ainda vai dar muito o que falar. Um cronista católico pretendeu que Sua Santidade, ao dizer piaga, pretenderia dizer chaga, sentido que a palavra também admite em italiano. Revelou-se mais papista que o papa: a tradução para o português da bula papal falava claramente em praga. Praga ou chaga, seja como for, o documento condena quem um dia fez uma escolha que não deu certo e busca numa segunda união aquela felicidade à qual todo ser humano tem direito. “Não é bom que o homem esteja só”, disse Jeová no Gênesis. O mesmo não pensa a Igreja. Se um católico não acertou da primeira vez, deve permanecer só, irremediavelmente só, para o resto de seus dias. A punição, em verdade, é anódina, quase simbólica: privação da comunhão. Como se estivesse preocupado em beber sangue e comer carne quem quer apenas um corpo para afagar.

Bento nega o sacramento da comunhão a divorciados que se tenham casado de novo. Àqueles cujo casamento fracassou, o papa aconselha a “esforçarem-se por viver a sua relação segundo as exigências da lei de Deus, como amigos, como irmão e irmã; deste modo poderão novamente abeirar-se da mesa eucarística”. Ou seja, nada de sexo. E este é o nó górdio que até hoje a Igreja não ousou desatar.

Toda a doutrina da Igreja, desde os apóstolos até o Bento, condena com veemência os ditos prazeres da carne. Só podem existir dentro do matrimônio. “É melhor casar do que abrasar-se”, dizia Paulo, que só via como mitigar o abrasamento com o casamento. “Para evitar toda impudicícia, que cada homem tenha sua mulher e cada mulher seu marido”. A eleição de uma virgem como modelo de todas as virtudes é sintomática: a mulher perfeita não pode ter sexo. Mais ainda, além de virgem é mãe. Ou melhor: apesar de mãe, é virgem. Se é difícil para a razão humana aceitar esta aporia, ela é enfiada goela abaixo através do dogma. Roma locuta, causa finita. É dogma e fim de papo.

Fossem só as restrições ao segundo casamento... Mas não. É proibido o sexo antes do casamento. Mesmo no casamento, o sexo não pode ser apenas prazer, mas deve ter como finalidade a procriação. Mais ainda, sexo só pode ser entre homem e mulher. Como se sexo entre homem e homem e entre mulher e mulher não fosse também prazeroso. E nisto reside o mal: para a Igreja, a finalidade do sexo não é o prazer. Portanto, nada de anticoncepcionais. Muito menos preservativo. Preservativo previne a Aids? Não importa. Que morram as gentes. Profilaxia é pecado.

Os sacerdotes devem fazer voto de castidade. Isto é, estão mortos para a vida sexual. Em princípio, são castrados para a eternidade. Costuma-se dizer que a carne é fraca. Pelo contrário. A carne é forte. Tão forte que a maioria dos padres que abandona o sacerdócio o faz para casar-se. E os que não abandonam, buscam refrigério ao abrasamento nos coroinhas e meninos da paróquia. Não foi por falta de aviso. Na Epístola aos Romanos, Paulo acusa os pagãos: “Os varões, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, varão com varão, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro”. Para Paulo, todo amor é pecaminoso, a carne é contrária ao espírito e o casamento é um remédio para a fornicação. Isto é, um mal menor.

Não sei o que pensam hoje os padres da masturbação. Em meus dias de guri, era pecado mortal e passaporte para o inferno. E lá iam os coitados dos adolescentes, enrubescidos, para o confessionário, contar ao padre suas práticas solitárias. A Igreja instalava uma maquininha de tortura na cabeça de cada crente e deixava a ele a iniciativa de acioná-la. O confessor, excitado, com voz sussurrante, queria saber: quando? Onde? Como? Chegou até o final? Quantas vezes? Os confessores foram, sem dúvida alguma, os precursores do sexo por telefone.

No fundo, o pecado bíblico de Onan. Ocorre que Onan não se masturbava pelo prazer de masturbar-se. Encarregado, conforme os costumes da época, de dar descendência a seu irmão morto, sabendo que a posteridade não seria a sua, preferia jogar sua semente na terra. Não era uma questão de prazer, mas de herança. Jeová não gostou e também o fez morrer.

Ortodoxia cansa. As gerações contemporâneas não aceitam mais regras elaboradas há milênios. Há muitas pessoas que crêem em Deus, mas não conseguem admitir um deus que proíbe o prazer. Se a virgindade de Maria é um dogma para a Igreja, a castidade não é. Castidade é palavra que não ocorre uma única vez na Bíblia. Segundo Guy Bechtel, o essencial da teoria cristã sobre a carne não vem de Jesus. Foi elaborada pelos diferentes pais da Igreja e particularmente por Santo Agostinho. Algum dia, algum papa terá de usar de suficiente jogo de cintura sob pena de a Santa Madre submergir na História.

Comentei há pouco as absurdas prescrições dos judeus ortodoxos durante o shabat. Entre elas, as de não acender luzes, não carregar objetos, nem mesmo a chave da porta, não apertar o botão do elevador, não cozinhar, não abrir a torneira de água quente, não rasgar papel higiênico, e por aí vai. Interdições sem sentido algum, decorrentes das filigranas teológicas elaboradas pelos rabinos a partir de textos de três mil anos atrás, quando não havia luz elétrica, nem chave de porta, nem elevador nem botão de elevador, muito menos torneira de água ou papel higiênico. Os rabinos, dizia, hoje estão preocupados em como fazer com que os adolescentes entendam a proibição ao celular e à internet aos sábados.

Os judeus, em sua sabedoria milenar, já encontraram a solução. Escreve-me uma amiga da Finlândia:

Você conhece o conceito de eruv? Esse é de rolar de rir. O eruv é uma cerca, real ou simbólica, que cria uma área dentro da qual são permitidas certas atividades que as leis judaicas proíbem. O eruv pode envolver uma casa, um jardim, ou até um bairro inteiro. Foi o jeito que inventaram de aplacar os rabinos ortodoxos e aliviar as restrições do shabat ao mesmo tempo. Um amigo judeu americano (judeu reformista - tão diferente dos ortodoxos como eu e você) contou que, outro dia, o eruv de sua cidade, Sharon, em Massachusetts, rompeu-se. Os fanáticos estavam em polvorosa. Outro amigo reformista diz que o preço dos imóveis dentro dos eruvin de Nova York é astronômico. Parece aquela história dos muçulmanos segundo a qual beber álcool dentro de casa, com as cortinas fechadas, não faz mal, porque Alá não está vendo”.

A ortodoxia judaica cria sérios problemas aos próprios crentes. Empurrar em público um carrinho de bebê, uma cadeira de rodas e mesmo carregar nas mãos o livro de orações são atos proibidos no dia dedicado a descansar. Não se pode nem mesmo carregar um lenço no bolso. Azar seu, se estiver resfriado. Dentro do eruv, estes preceitos estão dispensados, já que a área delimitada é considerada tão privada como o lar. Em Londres, em 2002, foi instalado um eruv, limitado por 84 postes ligados por fios de náilon. A área cobre um perímetro de 17 km. Existem hoje eruvin não só em Israel, como também Austrália, Bélgica, França, Itália, África do Sul, Estados Unidos e até mesmo em Gibraltar. O de Estrasburgo abrange o Parlamento Europeu e o Tribunal de Direitos Humanos. O de Washington, a Casa Branca.

Leio ainda que há uma discussão entre rabinos sobre a condição de Manhattan. “Limites topográficos naturais como rios, penhascos e ravinas podem formar um ou mais lados legítimos de um eruv. Por esta razão, é possível considerar, segundo a perspectiva talmúdica, toda a ilha de Manhattan um eruv”.

Gostei da malandragem rabínica. Uma zona franca onde se pode burlar a ortodoxia. Bem que a Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana poderia ter mais jogo de cintura e criar alguns eruvin católicos cristandade afora, onde se pudesse pecar com gosto e sem remorso.

Se os milenares seguidores do Pai encontraram um jeitinho, porque não os do Filho?

Quinta, 15 Março 2007 21:00

Ainda as Mulheres e o Islã

Ora, no Islã basta que o marido repudie a mulher três vezes para que o divórcio se consume.

Uma mulher precisa ser muito vagabunda, em qualquer acepção da palavra, para decidir não trabalhar só porque o marido pode prover tudo – escrevi há pouco. Recebi mail machucado de uma amiga, que não se sente vagabunda de forma alguma, só porque optou por interromper o trabalho para cuidar dos filhos. Ora, eu não me referia a estas. Interromper o trabalho significa que a pessoa trabalhava, tinha uma profissão e a exercia. Eu falava, isto sim, destas senhoritas que jamais pensaram em exercer uma profissão qualquer porque acham que ao amo e senhor cabe seu sustento. Elas são legião. Um dia a casa cai, a mulher se vê no olho da rua e acaba apelando à única profissão que – pelo menos teoricamente – não exige formação alguma, a prostituição. Não tenho dados, mas é de supor-se que sejam estas moças as que mais alimentam o mercado da carne paga.

Ao falar de vagabundas, eu me referia àquela brasileira casada com um muçulmano que recentemente afirmou: “Mas se a mulher não precisa trabalhar, já que o marido pode prover tudo, por que ela vai trabalhar?" É que talvez ela ainda não conheça certas práticas jurídicas do Islã. Já contei esta história cinco anos atrás. Como curta é a memória das gentes, cabe repeti-la.

Aconteceu na Arábia Saudita, em 79, em uma copa de futebol. O fato foi relatado no jornal Al Medina, de Riad. Abdul Rahman El Otaibi, rico comerciante, assistia o jogo entre a equipe Ittihad, de Djeddah, e a equipe Ahli, de Riad. Abdul torcia por Ittihad, sua mulher preferia encorajar os Ahli. Para desgraça da senhora El Otaibi, seu time marcou um gol. Ela vibra e Abdul pronuncia a fórmula ritual:

- Em nome de Alá, eu te repudio.

O jogo continua. Os Ahli fazem um segundo gol, a senhora Otaibi não se controla e aplaude seu time. Abdul repete a fórmula:

- Em nome de Alá, eu te repudio.

Para suprema desgraça da senhora Otaibi, em uma dessas jogadas que nem mesmo um ficcionista ousaria criar, quis o destino que os Ahli marcassem um terceiro gol. Ela vibra. Abdul pronuncia pela terceira vez a fórmula fatídica:

- Em nome de Alá, eu te repudio.

Ora, no Islã basta que o marido repudie a mulher três vezes para que o divórcio se consume. A partir do terceiro gol, a senhora Otaibi estava no olho da rua. O caso acabou na corte corânica de Meca. Para sua sorte, em algum lugar disse Maomé: “o divórcio não será válido se for pronunciado sob o império de cólera extrema”.

Em severo editorial, o Al Medina anatematizava não o Corão, evidentemente, mas o futebol: “até quando nossa obsessão pelo futebol continuará a destruir o caráter sagrado de nossa família?

Ainda em janeiro passado, o Corriere della Sera nos contava uma versão mais ágil do divórcio árabe. Uma professora de Literatura em Genova, casada em segundo matrimônio com um marroquino, descobriu-se divorciada por celular. Recebeu um singelo SMS com a mensagem: EU TE REPUDIO, EU TE REPUDIO, EU REPUDIO. O divórcio estava consumado. No ano passado, um tribunal de Manila, Filipinas, reconheceu que o direito dos maridos ao divórcio se poderá efetivar via SMS. A tecnologia unida à barbárie torna tudo mais rápido.

É a chamada lei dos três talaks (repúdio). Pronunciado três vezes o repúdio pelo marido, a mulher está divorciada. Claro que o inverso é inimaginável. Mulher vale sempre metade no Islã. Se o Corão reconhece às mulheres o direito à herança, os doutores da lei decidiram que a mulher só pode receber metade da parte devida ao homem. O testemunho de um homem vale pelo testemunho de duas mulheres. Um homem pode ter quatro mulheres. A mulher, um homem só.

A amiga que me escreve, corroborando o que tenho escrito sobre a condição da mulher árabe, me fala de uma reportagem que viu na televisão sueca. Na Arábia Saudita, uma mulher que fora raptada, espancada e estuprada por sete homens foi condenada a 90 chicotadas por ter estado sozinha com os sete homens. É realmente invejável a condição da mulher sob o Islã.

Há uns trinta anos, tive oportunidade de conhecer três países islâmicos, Egito, Argélia e Tunísia. A misoginia é flagrante. Raras mulheres nas ruas e quase sempre com véus. Em Argel, estive em época em que os fundamentalistas ainda não haviam mostrado suas garras. Se na casbá o véu era regra, nas proximidades da universidade já se podia ver rostos femininos. Mais tarde os ativistas muçulmanos começaram a jogar ácido no rosto das mulheres sem véu, e suponho que hoje mulher alguma se arrisque a ser desfigurada. É preciso muito ódio ao sexo feminino para deformar um rosto. Durante a guerra contra os franceses, as mulheres tiveram ocasião de exercer sua independência: eram muito eficazes para carregar bombas. Terminada a guerra, que voltem para a cozinha fazer cuscuz. Aliás, esta situação se repete atualmente. Na hora de explodir-se, as muçulmanas têm os mesmos direitos que os homens.

Nos bares, imensos e espaçosos, centenas de machos tomando café, chá ou fumando narguilé. Nem sombra de mulher. Uma turista, acompanhada por um homem, e se não estiver de pernas à mostra, até que pode entrar. Mas não se sentirá nada bem. O bar é território exclusivamente masculino e mulheres lá não são bem-vindas. Um amigo me lembra que na década passada, a mulher do embaixador do Brasil na Arábia Saudita apanhou publicamente da polícia de Riad, por não estar portanto o famigerado véu num centro comercial. Claro que tudo ficou por isso mesmo.

No Cairo, naquelas noites de inverno a sufocantes 30 graus, milhares de homens passeando abraçadinhos, braços no ombro, na cintura, mãozinha com mãozinha, dedinhos entrelaçados. Nem sombra de mulher. Eventualmente, um vulto velado correndo para casa. Homofilia, diriam os mais gentis. Os cultores de eufemismos que me desculpem: aquilo é homossexualismo. Ora, quem me conhece sabe muito bem que nada tenho contra homossexuais. Mas as mulheres não precisavam ser expulsas dos bares e das ruas, ora bolas.

Isso sem falar na infibulação da vagina e na ablação do clitóris. Estas mutilações estão hoje em todos os jornais. Mas nos anos 70, quando escrevi sobre o assunto no Brasil, fui tomado por delirante. Acusavam-me de estar denegrindo o islamismo. Hoje, sabe-se que a praga está se espalhando pela Europa, Estados Unidos e Canadá.

Muitas são as diferenças entre Islã e Ocidente. Mas a condição da mulher é o ponto nevrálgico. Enquanto este contencioso não for resolvido, não se pode falar em diálogo. Ocorre que jamais será resolvido.

À brasileira que louvou a condição da mulher muçulmana, seria interessante perguntar se permitiria que suas filhas fossem castradas e mutiladas para o prazer.

Quarta, 07 Março 2007 21:00

As Últimas da Eurábia

Costumo afirmar que quem não conhece a França deve conhecê-la logo, antes que se transforme em país islâmico.
Costumo afirmar que quem não conhece a França deve conhecê-la logo, antes que se transforme em país islâmico. Pois não é que leio no Jerusalém Post, de Israel, um artigo de Michael Freund, alertando que quem não conhece Paris deve ir logo antes que a torre Eiffel se transforme em minarete? A preocupação parece não ser só minha. Freund cita um relatório da Rand Corporation, segundo o qual “em toda a Europa, as taxas de natalidade estão em queda livre e o tamanho das famílias se reduz. A taxa de fertilidade total é hoje de menos de dois filhos por mulher em cada Estado membro da União Européia”. Cita também o livro América Alone, onde o canadense Mark Steyn se pergunta: “ Qual é o percentual da população muçulmana em Roterdã? 40%. Qual é o nome masculino mais comum na Bélgica? Mohammed. Em Amsterdã? Mohammed. Em Malmö, Suécia? Mohammed”.
Isso sem falar na denúncia feita no ano passado pelo The Daily Telegraph, de Londres: Mohammed e sua outra grafia mais corrente, Muhammad, são atualmente nomes de bebês mais correntes na Inglaterra e no país de Galles que George.
Seja como for, nesta minha última viagem, nada vi de alarmante. Ocorre que me refugiei o tempo todo em bares e restaurantes, e os filhos de Alá abominam esses antros de perversão. Neles existe álcool e Alá não gosta de álcool. Tampouco li catálogos telefônicos. Além disso, não me afastei de um círculo imaginário de um quilômetro de raio, tendo a Notre Dame como centro. Não que tenha como norte este ícone da cristandade. Mas diria que o melhor da geografia culinária e etílica de Paris fica dentro desse círculo. Nem em sonhos me ocorreu perambular pela periferia. Assim sendo, da ameaça árabe não vi nem sombra. Mas ela lá está, formando um círculo de ressentimento em torno a Paris. Quando menos se espera, começam as depredações e incêndios de carros. Que o parisiense já passou a considerar como algo tão inevitável como as greves de metrô ou dos sistemas aéreo ou ferroviário.
Se não vi nem sombra da ameaça islâmica, informações sobre ela não me faltaram. No Monde, leio que os muçulmanos britânicos querem que a escola se adapte à moral islâmica. Um documento de 72 páginas emitido pelo Conselho Muçulmano Britânico solicita que as escolas públicas respeitem o conceito muçulmano de "haya" (pudor): “o caráter misto da escola deve ser excluído dos esportes coletivos que envolvem contatos físicos, tais como o futebol e o basquete. O MCB pede que os alunos possam se vestir em cabines individuais e sejam dispensados de tomar banho depois do esporte caso essa atividade expuser o seu corpo à vista das outras crianças, isso porque o Islã proíbe estar nu diante dos outros ou ver a nudez dos outros. As aulas de natação ministradas aos rapazes e às meninas juntos são inaceitáveis por razões de decência".
Mais ainda: “Se a escola não puder separar os sexos, as crianças devem ser dispensadas dessas aulas. O mesmo com as aulas de dança, esta última não sendo uma atividade normal para a maioria das famílias muçulmanas. A dança, sublinha o MCB, não é compatível com as exigências do pudor islâmico, isso porque ela pode revestir conotações e dirigir mensagens sexuais". Os mulás britânicos parecem esquecer que a dança de ventre tem suas origens na cultura árabe.
Nem o Vaticano, em sua campanha histérica pela castidade, ousaria pedir tanto. “A educação sexual, obrigatória no curso secundário, deve, segundo o MCB, ser ensinada aos alunos por professores do mesmo sexo. A utilização de objetos ou de esquemas que representem os órgãos genitais para ilustrar aulas sobre a contracepção ou sobre os preservativos é totalmente inapropriada, uma vez que isso incentiva um comportamento moralmente inaceitável".
O Courrier International, em edição que tem como chamada “Islã-Ocidente – Diálogos de Surdos”, traz uma edição de 20 páginas sobre o problema. Ainda na Grã-Bretanha, ocorreu o inverso do que está acontecendo em países como a França e Itália. Em vez de as alunas muçulmanas portarem véu, desta vez foi uma professora, em Blackburn, que insistiu em portar o niqab, véu negro que cobre o rosto todo, deixando apenas uma fenda para os olhos. Os alunos reclamaram que não podiam seguir seus ensinamentos, dada a dificuldade de ver o rosto, as expressões faciais, as articulações das palavras. A professora recusou-se a retirar o véu, alegando seu direito de escolher as vestes que lhe convinham e a presença de colegas masculinos na escola, diante dos quais ela não pode se desvelar sem trair os preceitos do Islã. A escola teve de suspendê-la de suas funções.
Consultadas, as autoridades muçulmanas afirmaram que o niqab, véu integral, não é o hidjab, que cobre somente os cabelos. E que nenhum dos dois é uma obrigação do Islã, sendo seu porte uma escolha pessoal. Mesmo assim, a professora processou a escola na justiça e está tentando mobilizar a opinião pública, apresentando-se como vítima de discriminação religiosa.
O maior acinte ao Ocidente não ocorreu na Europa, mas nos Estados Unidos. No aeroporto de Minneapolis, nos Estados Unidos, os choferes de táxi muçulmanos se recusam a transportar passageiros que portem bebidas alcoólicas ou estejam acompanhados de cães, mesmo que estes cães sejam guias de cego. O cão é um animal maldito para os muçulmanos, assim como o porco. Só falta os cabeças-de-toalha se recusarem a transportar o passageiro que porte presunto ou que se dirija a um bar. Os mortos de fome do mundo árabe são bem recebidos no Ocidente, adquirem direito a emprego e se dão ao luxo de transportar quem não fira suas crenças estúpidas. E as autoridades não cassam o direito deste animal dirigir um táxi.
Está entrando no vocabulário da mídia ocidental a palavra islamofobia. Por isto se entenderia uma ojeriza ao Islã, o que fere o étimo da palavra. Fobia quer dizer medo, o que é completamente diferente. Não é que o Ocidente tenha medo do Islã. Em verdade, tem nojo. Ninguém está preocupado com fanáticos que viram o traseiro pra lua para cultuar seu deus. Que virem o traseiro à vontade e na direção que quiserem. O que não se admite é que pretendam impor regras ao Ocidente. E isto é o que pretendem os muçulmanos em sua arrogância fundamentalista.
Não há um diálogo de surdos, como pretende gentilmente o Courrier International. O surdo é um só. É uma cultura teocrática, que não entende que Estado é uma coisa e religião é outra. O Ocidente, equivocado, tenta dialogar com fanáticos.
Ora, com fanáticos não há diálogo algum.
Sexta, 02 Março 2007 21:00

De Charlatão a Santo

Para quem conhece o laxismo dos católicos brasileiros, o resultado da enquete não chega a surpreender: os católicos franceses são tão relapsos quanto os nossos.

Quando jovem, muito convivi com católicos, e dos mais praticantes. Na pequena cidade onde me eduquei, a igreja estava sempre cheia aos domingos. Mesmo durante a semana, a missa das seis sempre tinha boa freqüência. Os fiéis se confessavam, comungavam e rezavam. Havia ainda sessões de terço e semanas de pregação. Mas minha adolescência já está longe e aquela cidadezinha também. Religião, idem. Mas, cá e lá, sempre encontro católicos, e alguns inclusive fazem parte de minhas mesas de botequim. Mas já não vejo, nos católicos de hoje, aquele santo zelo que animava os antigos.

São crentes que há muito não se confessam nem comungam, muito menos vão a missas. Comparecem à igreja em ocasiões especiais, tipo batismo ou casamento, eventualmente uma missa do galo. Tampouco lêem a Bíblia. Se lhes perguntarmos o que significa a palavra “católico”, não sabem responder. Crêem vagamente num deus que, teoricamente, premia os justos e castiga os maus, embora o dia-a-dia mostre justamente o contrário. Se o papa condena o aborto, são contra o aborto. Pelo menos enquanto a filha adolescente não engravidar de um marginal. Se o papa condena o homossexualismo, eles também condenarão o homossexualismo. Desde que não tenham um filho ou filha homossexual, é claro. Se interrogados sobre sua religião, dirão sem hesitar: “sou católico”. Mas não têm idéia alguma do deus no qual dizem crer, muito menos dos dogmas da igreja que seguem. Católico é palavra que serve para responder formulários por default. Declaram-se católicos, apenas isto.

Nesta última viagem, revisitei templos que adoro. Adoro principalmente por sua arquitetura, seus vitrais, sua estética e, last but no least, seus órgãos. Sempre que passo em Paris, dou um alô à Notre Dame, onde aos domingos, às cinco da tarde, sempre há um concerto de órgãos. Passando pela Madeleine, peguei um pedaço de missa magnífica, para órgão e coral. Em Toledo, não deixei de rever aquela catedral comovente. Minha Baixinha, que a adorava, costumava chorar ao passear por suas naves. Certa vez, uma senhora a abordou, perguntou se estava se sentindo bem. Ora, estava se sentindo tão bem que chorava. É catedral que comove qualquer ateu. Mas, atenção: quaisquer desses templos magníficos abrigam hoje mais turistas do que crentes. Os turistas os invadem, em busca de beleza e música sacra. Os crentes constituem alguns gatos pingados, em geral restritos a alguma capela das catedrais.

Na França, só um francês entre dois ainda se declara católico. E só um católico entre dois crê em Deus. Esta é a chamada de capa do Le Monde des Religions, suplemento do jornal francês Le Monde, de janeiro-fevereiro deste ano. Estes dados são fruto de uma pesquisa levada a cabo pelo instituto de sondagens CSA. A conclusão é que se a imagem da Igreja e do papa continuam boas, a esmagadora maioria dos fiéis toma distância em relação ao dogma e permanece aberta ao diálogo com outras religiões. Que significa ser católico? Ir à missa? Ser batizado? Levar os filhos ao catecismo? A estas definições institucionais, os pesquisadores preferiram uma definição sociológica: é católico todo aquele que se declara como tal.

Para quem conhece o laxismo dos católicos brasileiros, o resultado da enquete não chega a surpreender: os católicos franceses são tão relapsos quanto os nossos. Apenas 8% assistem a uma missa por semana. 46% só a assistem em ocasiões especiais, como batismos, casamentos, enterros. 16% rezam todos os dias. 30% jamais rezam. Apenas 52% crêem que Deus existe. Mas atenção: destes, se 26% têm certeza de sua existência, outros 26% a julgam provável. 31% não sabem que dizer, 10% acham que é pouco provável e 7% crêem que não existe. Para 26%, não há nada após a morte. Para 53%, “deve existir qualquer coisa, mas não sei o quê”. Apenas 10% acreditam na ressurreição dos mortos; 8% acreditam na reincarnação na terra em uma outra vida e 3% não se pronunciam.

Ou seja, não há mais uma crença unificada. Tem-se uma Igreja à la carte, onde cada um escolhe partes nas quais crer. Há inclusive quem se cale na hora de rezar o credo, para não mentir. Pois não é fácil crer na ressurreição da carne ou na vida eterna. Se a França foi um dia considerada “la fille aînée de l’Eglise”, hoje é um país onde se pratica um catolicismo inconseqüente, de fachada. O mesmo se poderia dizer dos demais países da Europa, onde as igrejas, antes locais de culto e prece, passaram a ser monumentos de consumo turístico. Portugal, um dos últimos bastiões do catolicismo, acaba de manifestar-se em plebiscito a favor do aborto, em flagrante desafio ao Vaticano. Faltam agora apenas Irlanda e Polônia.

Debilitada na Europa moderna, a Igreja se volta para o Terceiro Mundo. A primeira grande operação de marketing do papado de Bento XVI é sua viagem ao Brasil, quando tirará do bolso pontifical o primeiro santo cem por cento tupiniquim. Era o que o Brasil patrioteiro há muito esperava. O personagem a ser santificado é o frade franciscano Antonio de Santana Galvão, morto em 1822. Sua grande virtude, pelo que sabemos, é ter distribuído a doentes pílulas de papel de arroz, onde está escrita uma prece em latim confirmando a virgindade de Maria. Junto com a pílula, você engole um dogma de brinde. Frei Galvão teria feito, depois de morto, os dois milagres necessários para a canonização, sendo um deles a gravidez de uma mulher que não conseguia ser mãe. Mesmo no século XXI, a Igreja continua negando a ciência. Pois todo milagre é uma negação da ciência. Como médico venal é o que não falta neste mundo para atestar milagres, mal começa uma campanha no Vaticano para canonizar um beato, os milagres logo saltam como cogumelos após a chuva. No caso de frei Galvão, a Igreja vai carregar um ônus pesado. Pois está canonizando um charlatão. Os fabricantes de objetos sacros estão esfregando as mãos de contentes. Com o anúncio do novo santo, multiplicaram-se por milhares as estatuetas de frei Galvão. E das pílulas de papel de arroz. Em verdade, não são comerciáveis. Mas graças a elas frei Galvão acabou prestando um grande reforço ao mercado turístico nacional. Em países incultos, até mesmo pilulinhas de papel têm um alto valor agregado.

Mas o Vaticano parece ter perdido todo e qualquer pudor histórico. Está em marcha nestes dias o processo de canonização de madre Tereza de Calcutá, vigarista de alto bordo e apoiadora de ditadores como Envers Hodja e Baby Doc. Dado o ceticismo dos europeus em relação à Santa Madre, é para o Terceiro Mundo que migrarão os santos. Como o Brasil tem uma oferta colossal de crentes, dispostos a rezar para quem quer que seja, a safra de santos promete ser farta nas próximas décadas.

Quinta, 22 Fevereiro 2007 21:00

Melhor Que Viajar...

Viajar, dizia, é bom. Mas melhor mesmo é viajar sem roteiro ou obrigação alguma.

... só mesmo viajar sem compromissos de turista. Marujo de primeira viagem que chega a Paris tem de fazer a via sacra: Louvre, d’Orsay, Pompidou, Champs-Elysées, Opera, Arco do Triunfo, Montmartre, Notre Dame, torre Eiffel. Você pode até mesmo não subir, mas terá de no mínimo de dar uma olhadela na dama de ferro. De minha parte, acho que levei uns trinta anos para decidir-me a subir na torre. Quando vivia em Paris, sempre me pareceu de uma vulgaridade extrema, um lugar comum abominável, subir na torre Eiffel. Alguns anos mais tarde, concluí que era preconceito meu. Juntei minha Baixinha sob o braço e fomos até lá, dispostos a cumprir o ritual de milhões de turistas. Não deu. Havia filas de mais de duas horas em três patas da torre. Na quarta pata, destinada aos atletas que topavam subir a pé, havia pelo menos quatrocentas pessoas. Claro que não subimos. Anos mais tarde, viajando com minha filha, levei-a até a torre, com o devido alerta de que para nela subir seriam necessárias boas horas em pé na fila. Milagre dos milagres, naquele dia as filas estavam curtas. Foi assim que, visitando Paris quase todos os anos, só depois de uns 30 subi na torre Eiffel, quase por acaso.

Nesta viagem, meu descompromisso com monumentos foi total. Verdade que acabamos sempre tropeçando neles, ou Paris não seria Paris. Desta vez, dediquei-me a meu esporte predileto, a visita a livrarias, bares e restaurantes. Fiquei quase todo tempo no miolo da cidade, raramente me afastando além de um quilômetro da Notre Dame. Para a torre Eiffel só fiz um vago aceno, e isso de muito longe. Montmartre nem pensar. D’Orsay e Louvre, só de passagem rumo a algum boteco. Me afastei um pouco, é verdade, para mostrar a minhas companheiras de viagem La Défense, esta Paris insólita e com ares de Nova York. Fora isso, não arredei pé do centro da cidade.

De cara, um choque: a P.U.F., aquela acolhedora e farta livraria da Place de la Sorbonne, com cinco andares de livros, não existe mais. Eu, que adorava sentar-me na terrasse do bar contíguo, paquerando os últimos lançamentos na vitrine enquanto degustava uma Leffe, perdi um de meus prazeres na Lutécia. Na esquina, agora existe uma loja de confecções baratas. Se bem que o fim de uma livraria não faz nem mossa na cidade. Paris oferece ainda mais de quatro centenas. Mais as FNACs, megamagazines dedicados à música, livros e eletrônicos. Em matéria de livros, CDs e DVDs, a quantidade é tal que chega a assustar o cliente. Melhor ir logo às estantes especializadas, escolher o que se quer e fugir às pressas das tentações das compras por impulso. Sem falar que livro pesa na volta.

Quanto a bares e restaurantes, Paris parece sempre a mesma. Quando a visito, posso me dar ao luxo de eleger casas com mais de século. Lá estão, imutáveis, como se o tempo não tivesse passado, o Dôme, Deux Magots, la Rotonde, cafés sempre charmosos mas que prefiro evitar, por demais turísticos. Mesmo assim, tentei o Deux Magots, numa tarde de sábado ensolarada. Mesa na terrasse, só com milagre. Dentro do café, só com muita sorte. No Chez Lipp, em frente ao Deux Magots, só com hora e meia de espera. Dura é a luta pela comida em Paris. Melhor tentar o Procope, fundado em 1686 e tido como o mais antigo café do mundo. Foi freqüentado por La Fontaine, Molière, Racine, Rousseau, Voltaire, Diderot, d’Alembert e demais enciclopedistas, Balzac, Victor Hugo, Verlaine, George Sand, Anatole France. Nele, Benjamin Franklin trabalhou na redação da declaração de independência dos Estados Unidos. Numa vitrine, há um chapéu de Napoleão Bonaparte, que o teria deixado como garantia de uma dívida. Instalado em uma antiga casa de banhos turca, tem interiores belíssimos e – surpresa! – cardápio com preços relativamente humanos, pelo menos para Paris, onde você pode comer bem por algo em torno de 20 euros, vinho à parte. Restaurantes de São Paulo, com menos de 50 anos de idade, freqüentados por gente da laia de Sarney, Delfim Netto, José Dirceu ou Marta Suplicy, cobram cinco vezes mais que isso.

Ali por perto, no mercado Saint Michel, está o sempre refinado Aux Charpentiers, restaurante ligado ao movimento Compagnonnage e reputado por sua cuisine du terroir, isto é, cozinha das diversas regiões da França. Refestelei-me em seus boudins e andouilletes, sabores que me faltam no Brasil. Freqüento estas casas há mais de três décadas e são sempre iguais. Neles só mudam os preços e os garçons. É de supor-se que desde séculos tenham a mesma configuração e esta é a magia das capitais européias, a sensação de transportarmo-nos para séculos passados ao entrar em um restaurante. São Paulo pode ter quatrocentos anos, mas aqui só resta um restaurante com mais de cem anos, o Carlino, e assim mesmo em instalações recentes.

Se Paris me agrada, Madri me fascina. Lá também estive, sem compromisso algum com monumentos. Me dediquei a revisitar os cafés e restaurantes onde um dia fui feliz. Eles estão todos concentrados em um quadrilátero relativamente pequeno, que se pode percorrer a pé numa noite sem maiores esforços. Isto gera um hábito muito madrilenho, o de tomar alguns tragos em uma tasca, outros em outras e ir assim de bar em bar, até o momento de finalmente sentar em algum restaurante para comer. Difícil conceber os madriles sentados à noite frente a uma televisão. Estão todos na rua, celebrando o bom vinho e a boa comida.

Pelo Prado, só passei rumo ao Gijón, secular café literário do Paseo de Recoletos. Em meus dias de Madri, este café impediu-me qualquer visita à Biblioteca Nacional. Sempre que me dirigia à biblioteca, do outro lado da Recoletos, o café, com suas mesas de mármore, me convidava a uma pausa. E como sempre estava cercado de colegas de curso, nossas tertúlias se prolongavam até las nueve de la tarde, como dizem os madriles, quando qualquer esforço de leitura seria vão. Além disso, na biblioteca tinha-se de esperar mais de hora por uma comunicação. No Gijón, a comunicação com o garçom era quase imediata. Senti uma falta terrível de Madri quando estive em Nova York. Lá, mal pedia uma cerveja, a garçonete me perguntava: “Só?”. E já vinha com a conta em punho. No Gijón, quando pensava em levantar o traseiro após duas ou três horas de boa charla, o garçom perguntava, surpreso: “Já?”

A uns cem metros do Gijón, o esplêndido El Espejo, cujos candelabros se refletem ao infinito por um jogo de espelhos justapostos. Frente ao restaurante, seu pavilhão no centro do Paseo de Recoletos, também belíssimo. Ou seja, num trecho de menos de trezentos metros, você tem programa para muitos dias de Madri. Isso sem falar no Sobrino de Botín, que se pretende o restaurante mais antigo do mundo. Data de 1725 e tem dois pratos que se impõem a qualquer outra escolha: o cochinillo e o cordero lechal. O cochinillo é um leitãozinho de pouco mais de vinte dias, cuja carne se desmancha na boca. O lechal é igualmente tenro. Se o leitor é pessoa atenta, já estará se perguntando como pode o Botín ser o mais antigo restaurante do mundo, já que o Procope data de 1686. O garçom prontamente lhe explicará. O Botín é o mais antigo sem interrupção de seus serviços. O Procope sucumbiu à concorrência e faliu em 1874, só voltando a funcionar algumas décadas depois.

Adoro esses três restaurantes, mas meu predileto é o café El Oriente, frente ao Palácio Real. O café tem esse nome por oposição ao palácio, que fica no Ocidente. Colunatas de mármore, mesas idem, cadeiras forradas de veludo vermelho e uma iluminação macia que convida à leitura e à boa charla. Mas o melhor está embaixo, no restaurante propriamente dito, uma cave de um mosteiro do século XVII. Tem três salas, uma bastante grande e duas menores. Numa destas duas, el Rey costuma receber estadistas. Se você quiser comer na mesa em que come o rei da Espanha, problema algum. Basta reservá-la. A única exigência é que você esteja acompanhado por três ou quatro pessoas, que a mesa comporta seis. Preços? Não são exatamente palatáveis, mas nada que um operário espanhol não possa permitir-se uma vez por mês.

Sem ser exatamente um defensor da monarquia, não me desagrada partilhar da real bona-xira algumas vezes ao ano. Na Espanha, estive também em outros restaurantes freqüentados pela realeza e gostei de constatar que seus cardápios estavam ao alcance do bolso de plebeus. E se alguém pensa que isto é conquista da atual Espanha, em muito se engana. Conheço a Espanha desde 1971, quatro anos antes da morte de Franco. Mesmo sob a ditadura, os espanhóis gozavam da mesma boa vida de hoje.

Viajar, dizia, é bom. Mas melhor mesmo é viajar sem roteiro ou obrigação alguma.

Quarta, 14 Fevereiro 2007 21:00

Uma Idéia Cambaleante

Parece que a idéia de Deus anda um pouco vacilante nos dias que correm. Não passa mês sem que a imprensa chame alguém de prestígio para provar que a figurinha existe.

Parece que a idéia de Deus anda um pouco vacilante nos dias que correm. Não passa mês sem que a imprensa chame alguém de prestígio para provar que a figurinha existe. Há duas semanas, Veja convocou nada menos que um cientista, o biólogo americano Francis Collins, diretor do Projeto Genoma e um dos responsáveis pelo mapeamento do DNA humano, em 2001. Até os 27 anos, Collins não acreditava em Deus: "Não passava de um rapaz insolente. Estava negando a possibilidade de haver algo capaz de explicar questões para as quais nunca encontramos respostas, mas que movem o mundo e fazem as pessoas superar desafios".

O douto cientista não deixa por menos: todo ateu é um insolente. Torquemada não diria melhor. E continua: "A busca por Deus sempre esteve presente na história e foi necessária para o progresso". Pelo jeito, fez gazeta nas aulas de História. A idéia de Deus é dogmática e contrária a toda transformação. As igrejas sempre se opuseram ao progresso. A humanidade só conseguiu avançar desvencilhando-se da idéia de Deus. "Civilizações que tentaram suprimir a fé e justificar a vida exclusivamente por meio da ciência – como, recentemente, a União Soviética de Stalin e a China de Mao – falharam". O Dr. Collins está precisando de algumas aulas de lógica. Se a União Soviética de Stalin e a China de Mao afundaram, não foi por ausência de Deus. Mas pela inércia inerente aos regimes comunistas. Se falharam, foi por não saber exercitar a democracia e não por não ajoelhar-se ante um deus qualquer. Por outro lado, a China tem tido, nos últimos anos, um estrondoso sucesso econômico. Certamente não terá sido por voltar a acreditar em Deus.

Continua o cientista: "Precisamos da ciência para entender o mundo e usar esse conhecimento para melhorar as condições humanas. Mas a ciência deve permanecer em silêncio nos assuntos espirituais". Onde está escrito isto? Em que tratado de gnoseologia? Em que tábuas da lei? A ciência, ou analisa todos os fenômenos que nos intrigam, ou não é ciência. Tentando ainda defender seu peixe, Collins afirma: "Apesar de tudo o que já aconteceu, coisas maravilhosas foram feitas em nome da religião. Pense em Madre Teresa de Calcutá ou em William Wilberforce, o cristão inglês que passou a vida lutando contra a escravatura". Wilberforce, vá lá. Mas madre Teresa é comprovadamente uma vigarista internacional. Chamar madre Teresa de coisa maravilhosa é coisa de intelectual que vive encerrado em uma torre de marfim e desconhece o mundo em que vive.

Collins ainda diz acreditar na Ressurreição. E não só: "Também acredito na Virgem Maria e em milagres". Ora, cientista que acredita em milagres descrê da ciência. Existindo o milagre, não existem leis. Não existindo leis, não existe ciência. "Quem é cristão acredita nesses dogmas – ou então não é cristão". É interessante a proposição do cientista. Porque a ciência não pode aceitar dogmas. Daí decorre que nenhum cristão pode ser cientista.

Collins certamente entende de seu campo, a biologia. Quando inventa de filosofar, revela-se um desastre. O time dos defensores do Altíssimo – como disse recentemente um sedizente filósofo – está demonstrando cansaço. Talvez seja por isso que volta cada vez mais freqüentemente à baila o argumento atribuído a Dostoievski, a necessidade moral de Deus. Como aquelas velhas patranhas tomistas de causa não-causada já não convencem ninguém, recorre-se agora à suposta argumentação de um ficcionista.

Isto é uma bobagem que os católicos gostam muito de empunhar. Querem colocar Deus como fundamento de toda ética, como se não pudesse existir ética sem a crença em Deus. "Se Deus não existe, tudo é permitido". Esta frase é imputada a Dostoievski, em Os Irmãos Karamazov. Ora, ele jamais escreveu isto. Foi Sartre quem disse que ele havia escrito. Quem cita esta frase são geralmente pessoas que nunca leram Dostoievski e o citam de ouvir falar. Recentemente, me dei ao trabalho de reler Os Irmãos Karamazov para ver se Dostoievski havia realmente escrito tal bobagem. Encontrei mais de 270 referências a deus – seja o próprio, seja em expressões como "meu Deus", e não encontrei nada semelhante.O mais próximo que existe é isto:

- Ivan Fiodorovitch ajuntou entre parêntesis que lá está toda a lei natural, de maneira que se você destrói no homem a fé na sua imortalidade, não somente o amor nele perecerá, mas também a força de continuar a vida no mundo. Mais ainda, não existiria nada mais que fosse imoral ; tudo será autorizado, mesmo a antropofagia. E não é tudo : ele acaba afirmando que para todo indivíduo que não crê em Deus nem em sua própria imortalidade, a lei moral da natureza deveria imediatamente tornar-se o inverso absoluto da precedente lei religiosa ; que o egoísmo, mesmo levado ao crime, deveria não somente ser autorizado, mas reconhecido como uma solução necessária, a mais razoável e quase a mais nobre. Após um tal paradoxo, julgai, senhores, julgai o que nosso caro e excêntrico Ivan Fiodorovitch julga bom proclamar e suas eventuais intenções .

Mais adiante, Mitia se pergunta :

- Mas então, que se tornaria o homem, sem Deus e a imortalidade? Tudo é permitido e, conseqüentemente, tudo é lícito? (...) Que fazer, se Deus não existe, se Rakitine tem razão ao pretender que é uma idéia forjada pela humanidade ? Neste caso, o homem seria o rei da terra, do universo. Muito bem ! Mas como ele seria virtuoso sem Deus ?

Ou seja, a pergunta não é exatamente sobre Deus, mas sobre Deus e a imortalidade. E imortalidade significa punições e recompensas. Os teístas querem ver nos personagens de Dostoievski a impossíbilidade de uma ética sem Deus. No entanto, o que o autor empunha é a promessa de céu... ou de inferno. O fundamento de sua moral – ou da de Ivan Karamazov, como quisermos – não é exatamente Deus, mas a esperança ou o medo. Neste sentido, nós, ateus, não temos preocupação alguma. Não temos medo de nenhum inferno nem precisamos de recompensas futuras para sermos éticos. No fundo, o que o católico Dostoievski quer dizer é que todo ateu é necessáriamente imoral.

E isto é uma solene besteira.

Sexta, 09 Fevereiro 2007 21:00

Pombinha Manca

A pomba está sempre tranqüila, nada abala sua serenidade. Seu ruflar é carícia, não luta para manter-se no ar.

Como são as mulheres em Paris? – me pergunta um leitor. Pelo que vejo, e nada diferem das mulheres de Porto Alegre. Duas pernas, um par de seios, uma boca, dois olhos, dois braços, das mãos, cinco dedos em cada, e assim por diante. Se vestem de um jeito muito sacana, é verdade, e em geral falam francês. Exceto no modo de vestir e de falar, nada vi de diferente nas mulheres de Paris ou Porto Alegre, Estocolmo ou rio. Assim leitor, eu diria que as mulheres de Paris, em princípio, de especial nada têm. Riem quando estão alegres, choram quando estão tristes, gemem quando... Prefiro falar de pombas.

Adoro pombas. Seu arrulho, se a muitos pode parecer fúnebre, a mim me parece carinhoso. Arrulhasse minha garganta como a de uma pomba, seria aquele rum-rum meu mais profundo diálogo com uma companheira. Acho que mais não se precisa dizer. Era muda, uma das mulheres mais inteligentes que conheci. Ao readquirir o dom da voz, readquiriu também o da palavra, e passou a complicar tudo. Foi o fim de nosso arrulhar.

Não me parece ser por azar que a pomba é um símbolo da paz. A pomba está sempre tranqüila, nada abala sua serenidade. Seu ruflar é carícia, não luta para manter-se no ar. Certa vez, na Piazza São Marco, ofereci ao pombaredo um pacotinho de pipocas. Fui assaltado por bandos, pousavam em meus braços e meu chapéu sem a menor cerimônia. Mas suas bicadas eram gentis, tinham mais o ar de quem pede do que o ar de quem toma.

Semana passada, no parque Montsouris, vi uma ironia do universo. Não era um par de xipófagos, tampouco o terneiro de duas cabeças ou cinco pernas. Mas os deuses foram indubitavelmente mesquinhos com aquela pomba.

Era manca.

Podia voar, é verdade. Mas caminhava pelo parque, insistindo em exibir ao mundo seu aleijão. Era tra nqüila, como todas as pombas. Mancava resolutamente, com a paz dos justos, capengueava rumo aos jardins, rumo a seus insondáveis projetos.. E sua cauda assumia um trágico rebolado.

Ah! Pombinha manca, quanto me doeu te ver mancar! Tenho visto homens sem pernas, outros sem braços, e a estes chamamos heróis de guerra. Seu aleijão, chamamos heroísmo, pois se batem em nome de nomes. Ou infortúnio, deserdados que foram pelo deus Acaso. Mas em nome de que bate uma pomba suas asas? Sei, tuas asas ainda batem firme, mas por quer insistes em caminhas, que queres dizer com eu mancar?

Volto às mulheres. Moro ao lado da Cité Universitaire e o metrô que me deixa em casa é pródigo em mulheres lindas. Não francesas, mas geralmente estrangeiras que enfrentam Paris no peito e na raça. E para enfrentar Paris, toda estrangeira se mune de um mínimo de confiança física. Se escrevo que toda moça que enfrenta Paris mete os peitos pra frente e vpái, não estou usando uma imagem.

Tomei ontem o metrô Cité-Universitaire, e à minha frente sentaram-se duas mulheres. Uma linda, alta, fornida, um poderoso par de coxas. Soberba. De botas. Me olhava de cima. E que me restava senão olhar de baixo? Esta contre-plongée já me deliciava.

Ao lado da moça alta e soberba, sentou-se uma velhota, baixinha e feia. Como a pombinha de Montsouris, também mancava. Perguntou-me as horas, tinha pressa de chegar a qualquer parte. Disse-lhe as horas e ela ficou resmungando qualquer coisa para si própria. Assim como destoava do universo a pombinha manca, assim destoava de Paris a velhota baixinha e feia. Mas a alta e soberba só só me inspirava desejo, vontade de refocilar-me naquelas botas que subiam até o regaço.

E a pombinha manca, rumo a seus mancos destinos, me encheu de ternura e entendimento.

(Paris, 02/03/78)

Quarta, 31 Janeiro 2007 21:00

Chez Moi

Quando o leitor estiver lendo esta, estarei refestelado em alguma terrasse em Paris, talvez numa manhã ensolarada, sob uma temperatura de uns dez graus, com uma Leffe em punho e livros e jornais do dia sobre a mesa.

Quando o leitor estiver lendo esta, estarei refestelado em alguma terrasse em Paris, talvez numa manhã ensolarada, sob uma temperatura de uns dez graus, com uma Leffe em punho e livros e jornais do dia sobre a mesa. Esta é minha concepção de paraíso. Se a vida lá nas altas esferas for assim, até posso repensar minhas posturas atéias. Desde que a imprensa celestial seja livre, é claro. Porque a ler o Osservatore Romano todo santo dia prefiro as chamas do inferno.

Leffe, se alguém não sabe, é uma cerveja belga, minha predileta. Tem três versões: blonde, brune, triple e radieuse. A meu lado estarão duas amigas, por coincidência uma blonde e a outra brune, para melhor combinar com as Leffe. Viajar sozinho não tem graça. Há quem goste. Não é meu caso. Me sinto mal quando estou cercado de coisas que me encantam e não tenho com quem dividi-las. O leitor que ainda não viajou deve estar me invejando.

Mas quem o inveja, no fundo, sou eu. Paris é meu segundo lar. Vivi quatro anos nesta cidade, apenas um ano a menos que em Dom Pedrito, onde fiz meu ginásio. Nos últimos 35 anos, devo ter estado aqui pelo menos em 30. Me sinto em casa. Já nem vejo a Notre Dame ou Tour Eiffel quando passo por elas. Certa vez, numa dessas idas e vindas, minha Baixinha adorada me observou: "Notaste que estás passando frente à Notre Dame?" Não, eu nem havia notado. Era como se sempre tivesse passado por ali. Paris tem para mim uma sensação de déjà-vu.

O deslumbramento daquela tarde, em 1971, quando fui entrando de trem, pouco a pouco, na cidade, morreu e morreu para sempre. A arquitetura antiga, os telhados e chaminés, conferiam com as lembranças de meu imaginário, nutrido pelos Mistérios de Paris, de Eugène Sue. A Paris dos romances de capa e espada, dos três mosqueteiros, desfilava com vagar ante meus olhos. Em verdade, não seria exagerado afirmar que Paris, mesmo para o viajor iniciante, terá sempre um ar de déjà-vu. As imagens de Paris são universais e estão no inconsciente de praticamente todos os mortais. Sob os telhados e chaminés havia, é claro, uma outra Paris, moderna e agitada, que já não era a dos romances de capa e espada. Mas a primeira impressão batia com os antigos relatos.

Invejo quem ainda não conhece Paris, dizia. Chegar lá pela primeira vez é sensação que se tem uma só vez na vida, eu já a tive e nunca mais a terei. É algo que se deve fazer preferentemente quando jovem. Por uma razão muito simples. Se você já chegar velho em Paris, será tomado por um arrependimento doloroso: "meu Deus, por que não vim antes?"

As melhores refeições de meus dias parisienses, eu as tive graças ... a um quadro comunista gaúcho. Era médico, dono de um hospital e a cada ano viajava à Europa, ora com a própria mulher, ora com uma scort a tiracolo. Me convidava para restaurantes que meu magro orçamento de bolsista não permitia. E assumia a conta com prazer. No fundo, acho que gostava de minhas críticas ao comunismo. Perguntei-lhe, certa vez: por que os homens viajam? Respondeu-me:

- Os homens viajam para comer.

Matutei durante muitos anos sobre esta resposta, dita com a segurança de autoridade no assunto. Na época, eu imaginava que os homens viajavam atrás de mulheres fascinantes, pois foram elas que me levaram à Suécia. Com a passagem dos anos, quem sabe aprender aprende. (Ou não aprende nunca mais). Certa vez, me perguntava um jovem como eram as mulheres em Paris. Bom, respondi, têm dois braços, duas pernas, um par de seios e outro de nádegas, uma cabeça e tronco, um rosto, dois olhos nos quais às vezes temos vontade de naufragar, conversam como araras quando gostam de com quem estão conversando, riem quando acham graça, gemem quando sofrem ou amam. Viaje por onde quiser e o fenômeno será sempre o mesmo.

Já um Pata Negra, um cochinillo, um cordero lechal ou pascual, na Espanha, uma cataplana de frutos do mar em Lisboa, um boudin aux pommes ou umas andouilletes em Paris, um cotechino ou um c ulatello di Zibello na Itália, comer salmão ou arenque no café da manhã nos países do Norte, degustar um surströmming na Suécia (desaconselho a quem não é chegado a emoções fortes) – para isto é preciso viajar. Os franceses têm um conceito que me agrada muito, é o de cuisine du terroir. São as cozinhas regionais. Quando ouço falar em cozinha internacional, só posso entender aquela cozinha abominável que as empresas aéreas oferecem aos clientes, quando voam a dez mil metros de altura entre um continente e outro. Cozinha internacional é como deus: não existe. E se alguém me fala com entusiasmo de cozinha internacional, eu o deploro. Passou pela vida e não comeu.

Não que eu seja um glutão. Nada disso. Como muito pouco. Mas gosto de experimentar o que não conheço. Ainda não tive a chance de degustar os famigerados ovos de mil anos dos chineses. Suponho que, pelo menos por curiosidade, os enfrentaria. Tampouco imagine o leitor que entre mulher e comer, prefiro a comida, nada disso. Se tivesse de optar entre uma coisa e outra, morreria feliz de fome. Mas o turismo gastronômico sempre foi mais intenso que o sexual. Turismo sexual é coisa de bobalhões que ainda não entenderam que a mulher mais interessante é a que está a nosso lado.

Em meus primeiros anos na Europa, sentei o traseiro em universidades e bibliotecas, freqüentei cinematecas e museus, ouvi palestras e fui a exposições. Estes tempos são findos. Nos últimos quinze ou vinte anos, tenho me dedicado à flânerie, este prazer que há muito perdemos nas cidades brasileiras. Flanar por ruas e vielas, curtir a arquitetura e as cores locais, sair de um café e rumar a outro, e ler – sobretudo ler – cardápios. O cardápio, esse singelo papelucho que recebemos nos restaurantes, é uma revolução na história da restauração. Se antes os comensais tinham de comer indistintamente o que havia nas tables d'hôte, com a introdução do cardápio operou-se o milagre: em uma mesa de quatro pessoas, cada uma delas pode comer uma cozinha distinta.

Considero os restaurantes uma das mais gratas invenções da humanidade. Você chega em um país estranho, onde não conhece ninguém, e lá encontra uma equipe de funcionários prontos a recebê-lo com fidalguia e com a melhor cozinha e bebida do país. A humanidade precisou de séculos para chegar lá. Nestes dias, revisitarei com gosto estas grandes invenções da humanidade. Penso até mesmo revisitar em Madri alguns museus que adoro, los Museos del Jamón. Jamón, em espanhol, é presunto. É uma cadeia de restaurantes, cujos tetos e paredes estão forrados de presuntos. Sob os presuntos, comemos, bebemos, conversamos e namoramos. Certa vez, li num jornal a notícia de que um homem morrera soterrado por presuntos. Só pode ser na Espanha, pensei. Era.

Não deve ser morte desagradável, morrer sob o odor dos Pata Negra. Bom, não pretendo ser soterrado por presuntos. Apenas curtir esta vida da forma que me parece a mais requintada. Viajando. Salud, leitor!

Quinta, 25 Janeiro 2007 21:00

Ecce Homo

Se um articulista não pode responder a um crente analfabeto que o insulta sob pseudônimo, é porque está na hora de cair fora.

Leitores querem saber porque razões meu artigo “Aos leitores ádvenas da Bíblia” foi vetado no Mídia sem Máscara. Bom, eu também gostaria de saber. Na crônica, eu não atacava crença alguma, apenas afirmava que Cristo nasceu em Nazaré e não em Belém. Este era o cerne do artigo. Se por isto foi censurado, o editor está sendo mais ortodoxo que o Vaticano. Pois o nascimento de Cristo em Belém não é dogma. Logo, afirmar que nasceu em Nazaré não é heresia alguma. E mesmo que fosse: por que não poderia eu cometer uma heresia? Afinal não vivemos mais nos tempos da Idade Média, quando os hereges não escapavam da fogueira. Em correspondência datada do dia 05 passado, o editor me assegurou que viria explicar-me pessoalmente porque o artigo não tinha sido publicado. Continuo sentado, esperando.

"Artigos com o perfil deste que vc enviou não serão publicados no MSM durante algum tempo” – escreveu-me o editor. “Assim que possível, informarei o motivo. Adianto apenas que é uma decisão temporária". Ora, adoro escrever artigos com aquele perfil. Se aceitasse a censura daquele, teria de aceitar a dos demais. Por outro lado, alegar decisão temporária também é ridículo. Por que o artigo não poderia sair hoje, mas amanhã quem sabe? Além do mais, o artigo era resposta a uma carta de um leitor, que se protegia sob pseudônimo. Pelo que li de sua carta, é mais um desses crentes analfabetos que da Bíblia nada entendem. Em verdade, além de censurar-me, o editor me negou direito a resposta. Se um articulista não pode responder a um crente analfabeto que o insulta sob pseudônimo, é porque está na hora de cair fora.

No início desta semana, o leitor Eduardo Alex quis saber junto ao MSM porque não mais faço parte do jornal. “Foi com surpresa que acessei o blog do Janer e descobri que ele não faz mais parte da equipe de articulistas desse site. E conforme foi por ele explicado, o motivo seria censura. O que aconteceu? O MSM resolveu deixar aflorar o seu lado fundamentalista cristão e decidiu alijar de seu meio aquele que talvez seria o mais livre articulista? Ora, resolveram agir como aqueles que o sr. Olavo sempre tachou de censores por se negarem publicar certos artigos seus? É necessária uma boa explicação aos leitores desse sítio”.

Resposta da editoria: “Primeiro, que o MSM é livre para publicar o que bem entender. Isso não é censura, apenas opção editorial, como pode ser feito em qualquer órgão de mídia. Se a cada vez que deixarmos de publicar artigos de um colunista estivermos exercendo "censura", então devemos abrir mão do site e entregá-lo aos colunistas, pois estaríamos abrindo mão da administração”.

Curioso que esse argumento não foi aceito quando Olavo de Carvalho teve artigos seus vetados no Globo, Zero Hora, Época e Istoé. Estes jornais foram acusados de censura. Pelo jeito, deveriam abrir mão da administração e entregar suas páginas ao Olavo. Continua ainda o editor: “Lamentamos que o sr. acredite piamente na versão do colunista, que está simplesmente procurando autopromoção. Por fim, o Sr. Janer Cristaldo preferiu sair do MSM por opção pessoal. Ninguém o obrigou a isso”.

De fato, saí por opção pessoal. Tive uma crônica censurada e não tenho mais idade para ter crônicas censuradas. Ainda mais em dias de Internet. Se censurar aqui, eu publico acolá. Mas ao afirmar que estou procurando autopromoção, o editor já partiu para o ataque pessoal. É muito vil, da parte de quem foi beneficiado durante anos com minhas colaborações, agredir-me às escondidas junto a leitores. Sim, às escondidas, porque se o leitor não me enviasse a resposta da editoria, dela eu não ficaria sabendo. Vileza do editor.

É muito difícil entender porque uma afirmação como a de que Cristo nasceu em Nazaré possa ser passível de censura. Outros leitores acreditam que há outros motivos. Um deles afirma que teria sido a denúncia em meu blog do plágio atroz cometido pelo articulista Carlos Illich Azambuja, em seu artigo “A historiografia comunista: a era dos extremos”. Mas a denúncia não foi minha, e sim de Marco Aurélio Antunes. Leitor atento, por ocasião do artigo Marco acabara de ler o autor plagiado, Stéphane Courtois. Azambuja, que se diz historiador, nem ao menos pediu desculpas aos leitores. O MSM recebeu a denúncia do plágio. Não a publicou. Protegeu o plagiário. Da mesma forma, sei que o jornal tem recebido várias cartas de apoio a meu nome. Não publicou nenhuma. Além de censurar-me, está censurando leitores.

Anselmo Heidrich, outro ex-colaborador do MSM, que também foi censurado, tem outra hipótese: “Por isto, aposto, este foi o maior "pecado do Janer", desdenhar do tal Foro, que para Carvalho foi um chute no seu principal dogma”.

Heidrich se refere ao Foro de São Paulo, essa boceta de Pandora da qual sairiam todos os males que destruirão a América Latina. É uma hipótese a ser considerada. A influência decisiva do Foro de São Paulo – bem como a de Gramsci – na luta pela comunização do continente se tornaram dogmas para Olavo de Carvalho e seus discípulos. Ora, eu não acredito nem em Deus, nem no Espírito Santo, nem na Santíssima Trindade, nem na importância conferida a Gramsci ou ao Foro de São Paulo. Pelo jeito, sou cinco vezes ateu.

Estas hipóteses merecem alguma consideração. Pelo menos enquanto Paulo Zamboni não esclarecer o porquê da censura à minha crônica. Sempre me senti um estranho no ninho no MSM. Mas esta estranheza me agradava. Gosto de ser estranho no ninho. Por outro lado, eu conferia diversidade ao jornal. Em meio ao pensamento uniforme da direita religiosa, o leitor encontrava um oásis de livre pensar.

Com minha ausência, o MSM assume aquele tom monocórdio típico dos jornais de esquerda: basta ler um artigo e todos estão lidos. Porque todo mundo pensa igual. A máscara caiu. Os pretensos liberais não passavam de católicos dogmáticos. Já pelo próprio nome, eu entendia o MSM como um jornal que denunciava as mentiras da imprensa. Como passei boa parte de minha vida denunciando essas mentiras, nosso amor foi à primeira vista. Enquanto denunciei as mentiras do comunismo e das esquerdas em geral, leitores e editores do jornal vibraram. Quando passei a denunciar as mentiras do cristianismo, ouvi regougos de mal-estar. Denunciar as mazelas do marxismo é bom, digno e justo. Denunciar as mazelas do cristianismo, anátema seja.

Foi bom enquanto durou. É pena que o namoro tenha chegado ao fim. Se o MSM protege plagiários e censura articulistas honestos, nada posso fazer. De minha parte, sentirei falta do MSM. Particularmente daquelas cartas cheias de ódio de leitores fanáticos. Confesso que adoro quando me insultam. Não que seja masoquista. É que o leitor que insulta, insulta porque não tem argumentos. Adoro ouvir leitores irados, impotentes ante a lógica, esbravejando quais mocinhas histéricas. Sem dúvida alguma, vou sentir falta deles.

Last but not least, em resposta a leitores que acham que tenho um lado divino e outro demoníaco, escrevi: "Eu sou um só. Quem quiser uma parte, tem de levar o todo." Comentário de Olavo de Carvalho nos scraps de sua página no Orkut: “Foi o pretexto mais filosófico que já vi alguém inventar para dar o cu”.

Eis o homem!

Terça, 09 Janeiro 2007 21:00

País Palhaço

As autoridades estimulam o ilícito. Criam leis e instituições inviáveis que para nada servem. O que só serve para desmoralizar leis e instituições. Dá pra viver em país assim? O mais incrível é que dá. Não sei como, mas dá.

Por ocasião dos ataques do PCC em São Paulo, entre 12 e 21 de maio do ano passado, que produziram nada menos que 492 mortes, jamais ocorreu ao presidente da República falar em terrorismo. Tratou o problema como uma questão de bandidagem e inclusive ofereceu apoio do Exército ao prefeito da cidade e ao governador do Estado, ambos da oposição. Estávamos em pleno período eleitoral e esse apoio desmoralizava o adversário. Que, percebendo a armadilha, recusou-o. Agora, com as 18 mortes no Rio em dezembro, o Supremo Apedeuta fala taxativamente em terrorismo. E de novo oferece apoio armado do Exército. Só que desta vez ocorreu um imprevisto: Sérgio Cabral, o governador do Rio, não só aceitou o apoio como o pediu. Com essa, o Supremo não contava.

Pânico no Planalto. De repente, a União descobre que não tem estrutura para alojar e muito menos transportar soldados até o Rio. Além do mais, os gatos pingados que conseguirem realizar essa façanha extraordinária de chegar até a cidade que necessita de socorro não participarão de ações em favelas e áreas de risco. Também está descartada a participação das Forças Armadas no patrulhamento das ruas da cidade.Ou seja, estarão em toda parte, exceto onde são necessários. Patrulhar favelas em Port-au-Prince, no Haiti, o Exército brasileiro pode. No Rio, não. Um ofício da Presidência da República fala na "intensificação da atuação na proteção de suas áreas [das Forças Armadas] no Estado", o que deve significar uma presença mais ostensiva dos militares nas proximidades dos quartéis. Quer dizer: se você quiser segurança, vá passear perto dos quartéis.

Foi criada há pouco uma coisa chamada Força Nacional, com policiais de todos os Estados que podem ser chamados a qualquer momento para atender às necessidades de segurança dos Estados. Mas os profissionais da Força Nacional não receberam treinamento adequado para a ação repressiva em favelas. A Força alega, além disso, que não haveria como providenciar, com rapidez, passagens aéreas dos agentes para Brasília e daí para o Rio. Se a tal de Força Nacional não consegue sequer locomover-se para onde se faz necessária, para que existe? Para escorchar ainda mais o contribuinte? Entre militares, a dita força é tão reputada a ponto de ser chamada "Força Nacional Tabajara", "Força Nacional da Mentira" e "polícia cenográfica".

Na madrugada de quinta-feira passada, no Rio de Janeiro, um grupo de seis turistas alemães, croatas e austríacos, logo após desembarcar no Galeão, foi assaltado por uma quadrilha em um dos acessos a São Cristóvão. Os turistas foram obrigados a descer e entregar documentos, dinheiro, jóias e câmeras. Os criminosos fugiram. Que faz a prefeitura do Rio? Para amenizar o prejuízo dos seis turistas europeus, ofereceu-lhes um passeio de lancha de duas horas aos fortes Santa Cruz, São João e Laje, ao Museu de Arte Contemporânea, à ponte Rio-Niterói e à Ilha Fiscal. Neste domingo, um canadense foi morto ao reagir a um assalto em Fortaleza. Se a moda pega, não me espantaria que oferecessem ao cadáver um tour pelas praias do Estado. Quanto a turistas ou cidadãos brasileiros, estes podem ser assaltados à vontade que jamais ganharão um passeio-consolação pela baía de Guanabara. Brasileiro que se lixe. Brasileiro não traz divisas.

Em meio a este festival de besteiras, José Serra, o novo prefeito de São Paulo, sanciona uma lei para tentar acabar com os caça-níqueis espalhados por São Paulo. Agora os bares, restaurantes e outros estabelecimentos que tiverem o equipamento serão multados e as máquinas removidas, mesmo que desligadas ou até desmontadas. A lei já está em vigor, mas ainda precisa ser regulamentada com a definição de valores das multas e pessoal responsável por fiscalização e apreensão. O texto da lei prevê punição tanto para donos quanto locatários e depósitos dos aparelhos. É o que leio nos jornais.

Só que há um detalhe: estas máquinas caça-níquel já são consideradas contravenção por uma lei federal de 1995. Como o jogo do bicho, os infratores podem ser julgados em Juizados Especiais Criminais e, tanto jogador como apontador pegos em flagrante, são levados para a delegacia e prestam esclarecimento para que seja lavrado um tal de Termo Circunstanciado, que suponho que sirva apenas para registrar que os infratores foram pegos em flagrante, e nada mais que isso. Em meu bairro – que é um bairro nobre – em meia hora de caminhada você tropeça com uma dezena de botecos e padarias com máquinas caça-níqueis e apontadores do bicho, todos operando a portas abertas, sem que polícia alguma os perturbe.

A propósito, alguém ainda lembra da indignação presidencial quando Waldomiro Diniz, assessor especial do ministro José Dirceu, foi pego em flagrante extorquindo dinheiro de um empresário para o caixa 2 do PT? O Supremo Apedeuta, com a fúria dos justos, resolveu acabar com os bingos no dia seguinte e arrotou decreto proibindo a jogatina. Providência típica de marido que tira o sofá da sala porque sua mulher o traiu no sofá. Que é feito hoje dos bingos? Passam bem e muito bem. Funcionam a portas abertas, em prédios faraônicos, em todas as grandes cidades do país.

José Serra, o prefeito que sancionou a nova lei contra os caça-níqueis, é o mesmo senhor que, quando ministro da Saúde, baixou uma portaria ou coisa que o valha determinando a proibição da venda de álcool líquido nas farmácias e supermercados. Ora, o álcool líquido é algo necessário para a limpeza doméstica. Há alguns anos, saí à procura do dito nos supermercados e farmácias de meu bairro e nada feito. “Está proibido por lei”, me diziam os funcionários, com uma cara de quem acredita em leis. Claro que atrás disso havia um poderoso lobby do álcool gel.

Fui então procurar pessoa sensata, a dona Maria. Dona Maria tem uma quitanda a duas quadras aqui de casa. Lá havia álcool líquido à vontade. “Mas, dona Maria, a senhora não sabe que a venda do álcool líquido está proibida por lei?” “Não tenho a mínima idéia” – me respondeu –, “aqui não passou ninguém pra me avisar”. Sem que tenha sido revogada a dita lei, supermercados e farmácias adotaram a filosofia da dona Maria. Hoje você encontra o produto em qualquer esquina. Mas a lei que o proíbe continua em vigor.

Por outro lado, o Estado de São Paulo vem há anos embalando uma situação de trágicas conseqüências futuras. Mais de três milhões de pessoas já invadiram áreas de preservação, como a represa de Guarapiranga, que abastece a capital. São ocupações ilegais, promovidas por candidatos a vereadores e a deputados em busca de votos. Pois bem: na calada do final de ano, a Câmara Municipal aprovou a isenção de pagamento do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) aos moradores ilegais dessas áreas.

Na represa Guarapiranga – segundo o Estado de São Paulo – vivem hoje cerca de 1,5 milhão de pessoas, praticamente metade em condições irregulares. A maior parte já não paga IPTU, e não existe matrícula do imóvel regularizado na Secretaria de Finanças. A ocupação ilegal da região de mananciais ameaça o futuro abastecimento da cidade. Seus vereadores criam leis para estimular a ocupação ilegal.

As autoridades estimulam o ilícito. Criam leis e instituições inviáveis que para nada servem. O que só serve para desmoralizar leis e instituições. Dá pra viver em país assim? O mais incrível é que dá. Não sei como, mas dá.

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