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Janer Cristaldo

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

Terça, 02 Janeiro 2007 21:00

Aos Leitores Ádvenas da Bíblia

Os natais se repetirão ad aeternum e a imprensa continuará afirmando ad aeternum esta inverdade. Os crentes adoram mentiras.

Não poucos leitores reclamaram da afirmação que fiz em "Marta, Marta...", de que Jesus nasceu não em Belém, mas em Nazaré. Alguns alegaram que a Igreja Católica situa seu nascimento em uma gruta na igreja da Natividade, em Belém, onde uma estrela de prata de cinco pontas marcaria o local exato do nascimento. Ora, a Igreja afirma muitas coisas que nada têm a ver com o Livvo. Outros, leitores ádvenas da Bíblia, apegam-se a afirmações dos evangelistas que, se analisadas em seu contexto histórico, não fazem sentido algum.

Mais uma vez o sr. Janer Cristaldo mete os pés pelas mãos em uma tentativa mais do que imprecisa de manifestar seu ateísmo desassossegado (uma alma visivelmente deprimida)” – afirma um certo Dr. Leadnet, de óbvio pseudônimo. “Ao afirmar, falsamente, que o Senhor Jesus Cristo não nasceu em Belém, mas em Nazaré, o pseudo-teólogo ateu Janer desconsidera o que dizem as Sagradas Escrituras e manifesta amarga incredulidade (um problema seu e que não nos diz respeito, a nós leitores do MSM)”.

É comum, neste tipo de leitor, a velha prática stalinista de primeiro desqualificar o adversário, para só depois entrar no mérito da discussão. Sou então uma alma deprimida, um pseudo-teólogo ateu e manifesto amarga incredulidade. Conseqüentemente, não tenho autoridade alguma para comentar a Bíblia. Continua o sedizente Dr. Leadnet:

Senão vejamos: “E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”. (Miquéias 5:2). Este poderoso trecho bíblico não somente profetiza o nascimento do Senhor Jesus Cristo em Belém, como também atesta Sua divindade: “e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”. E aqui vemos o cumprimento literal da profecia de Miquéias: “Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, em dias do rei Herodes, eis que vieram uns magos do Oriente a Jerusalém. E perguntavam: Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo. Tendo ouvido isso, alarmou-se o rei Herodes, e, com ele, toda a Jerusalém; então, convocando todos os principais sacerdotes e escribas do povo, indagava deles onde o Cristo deveria nascer. Em Belém da Judéia, responderam eles, porque assim está escrito por intermédio do profeta: E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as principais de Judá; porque de ti sairá o Guia que há de apascentar a meu povo, Israel.” (Mateus 2:1-6)”.

Vários outros leitores, daqueles que só encontram na Bíblia o que o padre diz para encontrar, alegam a mesma coisa. Que segundo os Evangelhos de Mateus e Lucas, Jesus nasceu em Belém. Que “não há motivos para duvidar do relato de um contemporâneo de Jesus (Mateus) e de alguém que viveu pouco tempo depois, conhecendo diversas pessoas que haviam convivido com ele (Lucas)".

Não é bem assim. Os Evangelhos não podem ser lidos ao pé da letra. Profecia é uma coisa, fato histórico é outra. O fato inconteste, aceito pelos historiadores, é que Jesus nasceu na obscura Nazaré, pequena e desconhecida cidade da Galiléia. Nos Evangelhos, é chamado o tempo todo de nazareno. Em sua cruz, Pilatos manda inscrever: "Jesus nazareno, rei dos judeus".

Verdade que Mateus escreve: "Tendo, pois, nascido Jesus em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes ...." E acrescenta: "Ouvindo, porém, que Arquelau reinava na Judéia em lugar de seu pai Herodes, temeu ir para lá; mas avisado em sonho por divina revelação, retirou-se para as regiões da Galiléia, e foi habitar numa cidade chamada Nazaré; para que se cumprisse o que fora dito pelos profetas: Ele será chamado nazareno". Pois dissera Miquéias: "Mas tu, Belém Efrata, posto que pequena para estar entre os milhares de Judá, de ti é que me sairá aquele que há de reinar em Israel". No fundo, Mateus trazia no sangue esta tendência do jornalismo contemporâneo, de adaptar os fatos à visão que se tem do mundo. Quis adaptar o nascimento a antigas profecias. A realidade que se lixasse.

Escreve Renan, em A Vida de Jesus: "Cristo nasceu em Nazaré, pequena cidade da Galiléia, desconhecida até então. Toda sua vida foi designado pelo nome de Nazareno e só por um esforço que não se compreende é que se poderia, segundo a lenda, dá-lo como nascido em Belém. Veremos adiante o motivo dessa suposição, e como ela era conseqüência necessária do papel messiânico que se deu a Jesus".

Segundo Renan, Nazaré não é citada nem no Antigo Testamento, nem por Josefo, nem no Talmude. Enquanto Nazaré da Galiléia era um vilarejo anônimo, Belém da Judéia portava o prestígio de antigas profecias. Nazaré era aldeia era desprovida de qualquer prestígio. Tanto que, em João 1:46, Natanael pergunta: “Pode haver coisa bem vinda de Nazaré?” Que nascesse em Belém, portanto. A estrela de prata pregada na igreja da Natividade em Belém, não passa de um wishful thinking. Nazarenos nascem em Nazaré.

Lucas também adere à lenda do nascimento em Belém: "Naqueles dias saiu um decreto da parte de César Augusto, para que todo o mundo fosse recenseado. Este primeiro recenseamento foi feito quando Cirino era governador da Síria. E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. Subiu também José, da Galiléia, da cidade de Nazaré, à cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam ali, chegou o tempo em que ela havia de dar à luz, e teve a seu filho primogênito; envolveu-o em faixas e o deitou em uma manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem".

Os evangelistas, ao situarem o nascimento de Cristo no reinado de Herodes e evocarem o recenseamento de Cirino, desmontam a própria tese. Diz Renan:

"O recenseamento feito por Cirino, do qual se fez depender a lenda que ajunta a jornada a Belém, é posterior, pelo menos dez anos, ao ano em que, segundo Lucas e Mateus, nascera Jesus. Com efeito, os dois Evangelhos põem o nascimento de Jesus no reinado de Herodes (Mateus,II, 1,19,22; Lucas, I, 5). Ora, o recenseamento de Cirino foi feito só depois da deposição de Arquelau, isto é, dez anos depois da morte de Herodes, no ano 37 da era de Ácio. A inscrição pela qual se pretendia outrora estabelecer que Cirino fizera dois recenseamentos é reconhecida como falsa. O recenseamento em todo caso não teria sido aplicado senão às partes reduzidas à província romana, e não às tetrarquias. Os textos pelos quais se pretende provar que algumas das operações de estatística e registro público, ordenadas por Augusto, chegaram até o reinado de Herodes, ou não têm o alcance que se lhes quer dar, ou são de autores cristãos que colheram esse dado no Evangelho de Lucas".

Desde há séculos, Vaticano, livros e jornais afirmam que Cristo nasceu em Belém. Não nasceu em Belém. Todos os jornais do mundo, nestes dias, afirmam que Cristo nasceu em Belém. Os natais se repetirão ad aeternum e a imprensa continuará afirmando ad aeternum esta inverdade. Os crentes adoram mentiras. Uma imprensa que não ousa desagradar seus leitores continuará repetindo sempre a mesma mentira.

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Para quem lê francês e quiser entender a fundo os Evangelhos, segue de presente o clássico de Renan, La Vie de Jésus.

Domingo, 31 Dezembro 2006 21:00

Marta, Marta...

O Natal rega os sistemas vasculares de todo o Ocidente. Mas se faço a defesa do capitalismo, nos natais sou o anticapitalista por excelência. Nestes dias, o sistema não recebe um vintém a mais de meus bolsos.

Convencionou-se no Ocidente, desde há muito, que Natal é época de presentes. Se um dia a data teve algum significado religioso, hoje é sinônima fundamentalmente de comércio. Ora, o significado religioso é falso. Se o Natal pretende marcar o nascimento do Cristo, a Bíblia não fixa data alguma para este nascimento. A data só foi fixada no ano 350, pelo papa Júlio I ou, segundo outros historiadores, em 354, pelo papa Liberius. A intenção era cobrir as comemorações pagãs, pelos povos do hemisfério Norte, do solstício de inverno e de adoração do sol. E principalmente o Dia do Nascimento do Sol Invicto, proclamado no 25 de dezembro, no ano de 274, pelo imperador Aureliano.

Assim, se algum cristão acha que está comemorando o nascimento do Cristo, em verdade está participando de uma farsa. Os cronistas choramingas de final de ano, que deploram o festival de consumo justo no dia em que nasceu aquele pobre menino numa manjedoura, podem tirar seus cavalinhos da chuva, porque naquele dia, se nasceu algum Jesus na Galiléia, nada tem a ver com aquele da cruz. E tem mais: não nasceu em Belém, como repete toda a grande imprensa e até mesmo jornais sérios. Nasceu em Nazaré. E só mais um pouquinho: não nasceu no ano em que a Igreja diz ter nascido. Segundo Renan, o grande historiador do cristianismo, o nascimento “teve lugar durante o reino de Augusto, em torno do ano 750 de Roma, provavelmente alguns anos antes do ano 1 da era que todos os povos civilizados fazem datar a partir do dia em que ele nasceu”.

Em nossos dias, Natal está mais relacionado a TVs, DVDs, PCs, notebooks, MP3, celulares e máquinas de fotografia digitais do que ao nazareno. Só que isto não é farsa. É fato. Natal é a grande festa, não da cristandade, mas dos shoppings. Ganhar presentes é bom? Quem ganha sempre gosta. Dar presentes é bom? Também. Existe um inegável prazer em dar. Pelo menos para quem pode dar-se a este luxo. Até mesmo pessoas pobres reservam seu 13º salário – quando o recebem – para investir em presentes. Não gosto de shoppings. Ocorre que um deles instalou-se a uma quadra de meu prédio e, nestes dias, tenho visto multidões saindo de lá com um ar de beatífica felicidade no rosto.

Felicidade besta? Pode ser. Mas felicidade. Neste país em que um governo demagogo enfia a mão no bolso de pobres e ricos – e muito mais no dos pobres que no dos ricos – para entregar seus suados ou não suados ganhos a deputados e senadores corruptos, a bugres ociosos e bandoleiros do MST, a quilombolas e invasores de prédios, melhor que o contribuinte consuma seus trocados em futilidades. Ao menos está tendo algum prazer.

O cronista é um defensor do consumismo, já estará pensando o leitor que não me conhece. Sem me conhecer, tem toda a razão. Defendo a sociedade de consumo. Todo consumo, por idiota que seja, gera empregos. Você quer este Natal regado a bons vinhos, champanhes e perus? Não se iniba, só porque a grande maioria do país não tem acesso a vinhos, champanhes e perus. Ao fazer sua festa, você está dando trabalho a todos os profissionais do ramo, tanto aos que produzem tais mercadorias como aos que as embalam, transportam e comercializam. As sociedades de consumo vão muito bem, obrigado. O que vai mal são as sociedades onde não há consumo algum. Cristo? Ah! Se os jornais não insistissem cada ano em lembrar – erroneamente – que ele nasceu no 25, ninguém lembrava mais.

O cronista é um consumista, já estará pensando aquele mesmo leitor que não me conhece. Por não me conhecer, não tem razão alguma. Nunca tive carro, nem jamais senti necessidade de tais geringonças. Não tenho sítio nem casa de praia, adereço de todo profissional bem sucedido. Diga-se de passagem, detesto sítios. Quando algum amigo me convida para visitar o seu, peço que o ponha em CD-Rom, e eu o visitarei na tela de meu computador. Nunca usei relógios caros e, nos últimos anos, desisti de qualquer relógio. Não freqüento restaurantes de luxo nem consumo bebidas na faixa dos três, quatro ou mais dígitos. Se um assaltante passar algum dia aqui em casa, sentirá a desagradável sensação de ter perdido seu tempo. Sim, tenho computador. É meu instrumento de comunicação e trabalho.

Fora comer e beber, sem o que não existo, meu consumo nada tem de supérfluo. Meus gastos são geralmente em livros e música, e não vejo isto como consumismo. Livros, compro para estudar e tentar entender o mundo que me cerca. Música, para tornar a vida um pouco mais alegre. Gosto de ópera. (Mas também de Inesita Barroso e Miguel Aceves Mejía). Fora isto, não compro quase nada. Conheço pessoas que se sentem no nirvana quando saem a comprar roupas. Para mim, é uma tortura. Enfim, mais dia menos dia, alguma roupa tenho de comprar. É meu dia aziago do ano. Gosto de dar presentes, mas jamais dou presente algum no Natal. Tampouco recebo presentes no Natal. Nenhum amigo seria tão indelicado para cometer tal gafe. Por que dar presentes em um dia preciso, quando o bom do presente é o imprevisto?

Quando vejo essas multidões natalinas, correndo como formigas ante a ameaça de um temporal, não posso deixar de deplorar a miséria humana. São pobres diabos que, por força da propaganda, se sentem compelidos a comprar e comprar e comprar. Que mania é essa de ter de comer peru no Natal, quando se pode comê-lo o ano todo? Que tem a ver o peru com Cristo? A instituição do Papai Noel é significativa. Parece que a cristandade, envergonhada de associar o consumo ao nascimento do filho de Deus, delegou esta função ao Santa Klaus.

Se isto os faz felizes, que direito temos de condená-los? Sejam felizes, caros. Natal é isso mesmo. Não estão cometendo nenhum crime. Pelo contrário, estão azeitando a economia do país. O Natal rega os sistemas vasculares de todo o Ocidente. Mas se faço a defesa do capitalismo, nos natais sou o anticapitalista por excelência. Nestes dias, o sistema não recebe um vintém a mais de meus bolsos.

Enquanto os cristãos compram desesperadamente, eu, o ateu, me dedico ao recolhimento. Nas últimas décadas, sempre estive em algum distante lugar do mundo, com minha Baixinha adorada. Como não é fácil jantar nessa data, geralmente nos muníamos de um bom vinho, pão, queijo e patês e os degustávamos no quarto do hotel. Foram certamente os melhores vinhos e os melhores pães e queijos que tive em minha vida. Foram também os melhores natais. Hoje, sem Baixinha, gosto de ficar sozinho ou com pessoas muito próximas. Mas o vinho não tem aquele mesmo sabor, nem mesmo o pão.

Nestes dias, não posso deixar de lembrar o homenageado da data: “Marta, Marta, estás ansiosa e perturbada com muitas coisas; entretanto poucas são necessárias, ou mesmo uma só”.

Dito isto, boas festas a todos!

Segunda, 25 Dezembro 2006 21:00

Herói é Quem Mata Mais

Castro e Pinochet tomaram o poder pelas armas – e pelas armas o mantiveram. Mataram, aprisionaram e torturaram seus opositores. Pinochet morreu na semana passada. Castro pode morrer semana que vem. E aqui terminam as semelhanças.

Nas últimas décadas, a história da América Latina foi marcada por uma polarização emblemática, Fidel Castro e Augusto Pinochet. O continente teve muitos golpes, contragolpes e ditaduras, na Bolívia, Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Venezuela, Nicarágua. Mas a discussão sempre girou em torno dos ditadores de Cuba e Chile. Bastava alguém acusar Castro, o interlocutor logo brandia Pinochet. E vice-versa. Os debates, seja na antiga imprensa como na Internet, tornaram-se monótonos e previsíveis.

Castro e Pinochet tomaram o poder pelas armas – e pelas armas o mantiveram. Mataram, aprisionaram e torturaram seus opositores. Pinochet morreu na semana passada. Castro pode morrer semana que vem. E aqui terminam as semelhanças. Começam então as diferenças.

Pinochet se manteve 17 anos no poder e o entregou após ter sido derrotado em eleições que tiveram um caráter plebiscitário. Castro se mantém há 47 anos no poder e, pelo menos teoricamente, só o largará ao morrer. Responsabiliza-se Pinochet por três mil mortes. A Castro, são debitadas 17 mil. Pinochet construiu as bases de um Chile rico, hoje a economia mais próspera da América Latina. Castro levou Cuba a uma miséria humilhante, só superada pelo Haiti no continente. Pinochet foi relegado ao círculo dos infames. Castro foi entronizado no panteão dos heróis.

Não tem muito a ver com a história, mas não posso deixar de lembrar a clarividência de Eça de Queiroz, quando escreveu, em 1890: “Sempre haverá Chiles ricos e Nicaráguas grotescos”. Volto a Pinochet. Pelo jeito, não é herói por ter matado tão poucos. Castro, mais ousado, que matou mais de cinco vezes mais, é o líder inconteste das esquerdas latino-americanas. Stalin, que matou vinte milhões, foi adorado no mundo todo como um deus e mereceu, no século passado, a comenda de “Paizinho dos Povos”. Quando morreu, os comunistas não conseguiam acreditar em sua morte, afinal um deus não pode morrer. Apesar de seus crimes terem sido sobejamente denunciados, a partir de 1949 – e sobretudo no 20º Congresso do Partido Comunista Soviético, em 54 – até hoje, 2006, goza da admiração de ilustres intelectuais brasileiros, como Oscar Niemeyer e Ariano Suassuna.

Mao, após ter matado 70 milhões de chineses, ainda é adorado na China. E não só na China. Jung Chang e seu marido, o britânico Jon Hallliday, em recente visita ao Brasil, nos contam uma história emblemática. Depois da visita de Nixon à China, em 1972, o pintor americano Andy Warhol decidiu que “arte é moda. Mao está na moda. Então Mao é moda”. Pintou então um quadro que o celebrava como herói, obra que foi vendida por 17 milhões de dólares. Quando a casa de leilões Christie’s vendeu esse quadro, um jornalista telefonou aos leiloeiros, oferecendo uma foto de Stalin. “Desculpe – respondeu uma funcionária – não trabalhamos com Hitler ou Stalin”. Pelo jeito, não mataram o suficiente para merecer a glória no mundo das artes.

Como dizia Jean Rostand, biólogo francês: “quem mata um é assassino, quem mata milhões e conquistador, quem mata todos é deus”. A questão parece ser de dígitos. Matar algo em torno a três quatro dígitos não rende culto. Os militares brasileiros só mataram 300. São uns assassinos. Castro chegou aos cinco dígitos. Líder Máximo. Pol Pot conseguiu seis dígitos. Herói. Stalin e Mao alcançaram os oitos dígitos. Divinos.

Castro e Pinochet são seqüelas da Guerra Fria, quando Moscou e Washington disputavam a hegemonia do planeta e, como não poderia deixar de ser, da América Latina. O século passado foi encerrado com um fecho de ouro, a queda do Muro de Berlim e o desmoronamento da URSS. Com a China comunista rumando a uma espécie de ditadura capitalista e o Leste europeu liberto da tirania de Moscou, só restaram dois países obsoletos regidos por um sistema comunista. Era de esperar-se que, com o século, morresse também a Guerra Fria. No entanto ela sobrevive neste nosso continente que vive a reboque da História e parece não ter ainda chegado ao século XXI.

A morte de Pinochet foi comemorada com muita alegria. “O diabo terá um dia ruim, pois vão tomar dele a presidência do inferno”, disse o escritor mexicano Carlos Fuentes. “A morte ganhou da justiça”, disse o escritor comunista uruguaio Mario Benedetti. Para Massimo d’Alema, ministro italiano das Relações Exteriores, “o que nos faz diferentes em relação a Pinochet e às pessoas que pensam como ele é que nós respeitamos a vida humana, incluindo a vida de Pinochet”. O que não parece ser o caso.

Para Fernando Henrique Cardoso, “o julgamento da História será implacável com Pinochet”. Para Lula, Pinochet representou “um período sombrio”. Para José Serra, “foi-se alguém que não vai deixar nenhuma saudade. É um homem identificado com a repressão, identificado com a tortura e também com a corrupção, pois revelou-se um grande corrupto, além de um grande repressor. Um ditador implacável que infelicitou a nação chilena e deu um mau exemplo para a América Latina e para o resto do mundo”.

Deus não joga mas fiscaliza. Quis o Senhor que, nestes dias da morte de Pinochet, Fidel Castro esteja perto da sua. Será interessante ver o que têm a dizer Lula, Fernando Henrique, José Serra, e demais personalidades bafejadas pela mídia, sobre a morte do homem que matou 17 mil de seus compatriotas, manteve a ferro e fogo o poder por 47 anos, suprimiu a liberdade de expressão e de imprensa, governou sua ilha como um déspota e levou seu país à miséria.

Conseguirá FHC dizer que o julgamento da História será implacável com Castro? Dirá Lula que seu amigo representou um período sombrio? Ousará Serra afirmar que Castro não deixa saudades?

Quem viver, verá. E verá – disto estou certo – que estes senhores no fundo continuam enamorados das ditaduras comunistas.

Sexta, 15 Dezembro 2006 21:00

De Ratramno a Radberto

Nunca imaginei que teologia pudesse suscitar maiores discussões nos dias que correm. No entanto, meu artigo sobre o filioque rendeu-me não poucos mails.

Nunca imaginei que teologia pudesse suscitar maiores discussões nos dias que correm. No entanto, meu artigo sobre o filioque rendeu-me não poucos mails. Como me dizia uma leitora, nada como uma querela teológica para esquentar os tamborins. O que mais preocupou os leitores não foi a questão do Espírito Santo proceder do Pai ou do Pai e do Filho, e sim o fato de o comungante comer carne e não pão, beber sangue e não vinho, durante o sacramento da Eucaristia. O leitor Douglas Ferreira Gonçalves não aceita a definição de dogma da transubstanciação da carne, mas sim da transubstanciação do pão e do vinho. Bom, depende do ponto de vista. Olhando de aquém, o pão se transubstancia em carne. Olhando de além, a carne se transubstancia em pão. Dá no mesmo. Bonnet blanc, blanc bonnet, como dizem os franceses.

Mas não vamos nos perder em bizantinices. Ok! Aceito a definição do leitor. O que não dá para aceitar é o que segue: “Transubstanciação não significa ‘a conversão literal do pão e do vinho na carne e no sangue de Cristo’, mas sim a conversão da substância (transubstanciação) do pão e do vinho no próprio Cristo, que está presente de forma real sob as espécies do pão e do vinho, que continuam a mesma. Mudança de substância, e não de espécie. Portanto não faz sentido em falar em ‘ato de canibalismo’, pois o que o fiel recebe é pão e vinho em espécie, e não carne. Como pode ver, nós Católicos não só aceitamos o Dogma da Transubstanciação como o compreendemos, ao contrário do senhor que não o aceita e nem o compreende”.

O leitor incorreu em heresia e não está sabendo disso. Vamos às origens do dogma. Recorro a meus dicionários de teologia e de heresias. Desde a antiguidade, os crentes mantinham que Cristo estava presente na eucaristia mas poucos haviam tentado definir exatamente o que significava a “presença de Cristo”. Muitos se conformavam com crer que de alguma forma comungavam com o Salvador. Em meados do século IX, um abade de Corbie (norte da França), Radberto, sentiu a necessidade de entender com maior exatidão o sacramento em questão. Radberto decidiu que a tradicional referência ao pão e ao vinho da comunhão como “carne e sangue” de Cristo não era meramente simbólica, e que na missa os comungantes consumiam realmente a carne humana e o sangue de Jesus. O pão e o vinho, embora não mudassem em aparência, convertiam-se milagrosamente em substância e tornavam-se os elementos materiais do corpo do filho de Maria. Os cristãos somente receberiam os benefícios espirituais de sua participação no sacramento se acreditavam que esta transformação invisível se havia operado durante a cerimônia.

Quando Radberto publicou esta interpretação canibalística da missa houve um clamor de protestos entre os teólogos de toda Europa. O rei Carlos, o Calvo, solicitou ao monge Ratramno um exame da doutrina de Radberto e um comentário da mesma. Ratramno rechaçou a doutrina do abade sobre a missa. Como todos os cristãos de sua época, não via inconveniente em admitir que Cristo estivesse presente na eucaristia, mas acreditava que a natureza desta presença era um mistério divino que não podia reduzir-se à transformação literal do pão e do vinho. Além disso, continuava a argumentação, o Cristo presente na eucaristia é seu corpo divino, não a encarnação nascida em Belém (sic!) muitos séculos antes. No entanto, foi a noção de Radberto que se converteu no dogma da Igreja católica romana. O vago “mistério” da presença de Cristo que Ratramno ensinava era mais difícil de entender, para as massas populares que a idéia chocante, mas simples, de que “presença de Cristo” significava presença corporal.

Ratramno, que expôs sua doutrina no livro De Corpore et Sanguinis Domini, não foi condenado por herege em vida. Pelo contrário, continuou sendo um teólogo respeitado e até sua morte, em 868, participou de outras controvérsias da época. No entanto, quando se reacendeu o debate sobre a eucaristia no século XI, a maioria se inclinou em favor das proposições de Radberto. A obra de Ratramno foi condenada e queimada no Sínodo de Vercelli (1050). Na época, sua autoria já fora esquecida e os conciliares a atribuíram a João Escoto Erígena, um contemporâneo de Ratramno.

Ou seja: na missa come-se a carne de Cristo e não um símbolo da carne de Cristo. Bebe-se o sangue de Cristo e não um símbolo do sangue de Cristo. E quem nisto não crer é herege. A hipótese que o leitor aventa, a de que “o que o fiel recebe é pão e vinho em espécie, e não carne”, é herética. Mais precisamente, provém de Lutero, que rejeitava explicitamente a transubstanciação, ao afirmar que o pão e o vinho continuavam sendo plenamente pão e vinho, sendo ao mesmo tempo plenamente carne e sangue de Jesus. Se, para Lutero, os fiéis participam verdadeira e literalmente do corpo de Cristo durante a comunhão, isto não quer dizer que o pão se converta em corpo, e o vinho em sangue. O pão continua sendo pão, e o vinho, vinho – esta é a tese do leitor – mas agora estão também neles o corpo e o sangue do Senhor, e o crente se alimenta deles ao tomar o pão e o vinho. A esta tese deu-se o nome de consubstanciação.

Vamos aos textos do magistério da Santa Madre. O dogma da transubstanciação, se foi aventado no concílio de Latrão (1215), só toma corpo no concílio de Trento (1551). Na encíclica Ecclesia de Eucharistia, no capítulo 1 § 15, lemos: “Pela consagração do pão e do vinho se opera a transformação de toda substância do pão na substância do corpo do Cristo nosso Senhor e de toda a substância do vinho na substância de seu sangue; esta transformação, a Igreja católica a chamou justa e exatamente de transubstanciação”.

Que mais não seja, o cânon 1° da 13ª sessão do concílio assim proclama:

Se alguém nega que o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, com sua Alma, e a Divindade, e conseqüentemente Jesus Cristo todo inteiro, estão contidos verdadeiramente, realmente, e substancialmente no Sacramento da Muito Santa Eucaristia; mas diz que eles lá estão somente como em símbolo, ou ainda em forma, ou em virtude: seja anátema.

O leitor que se pretende católico está assumindo uma doutrina luterana. Vamos ao significado da palavra anátema. No Novo Testamento, o anátema é uma sentença de maldição em relação a uma doutrina ou pessoa, especialmente no quadro de uma heresia. O anátema é suprimido da comunidade dos fiéis. Para os católicos e ortodoxos, o anátema se traduz pela excomunhão dita “maior”, ou seja, a de maior força e solenidade que os outros tipos de excomunhão.

O leitor está confundindo consubstanciação com transubstanciação. Ocorre que, para o católico, o problema tem apenas duas faces: canibalismo ou heresia. Tertius non datur. Houvesse ainda algum rigor no magistério da Santa Madre, Douglas já estaria excomungado. O que me espanta nisto tudo, é que caiba a um apóstata ministrar lições de boa teologia a quem se diz católico.

Há outros dogmas divertidos na mitologia cristã. Segundo a Bíblia, só três personagens subiram aos céus. Elias, no Antigo Testamento, e Cristo e Maria no Novo. A ascensão de Elias, em um carro de fogo, não gerou dogma. Dogmas foram a Assunção de Maria, curiosamente só oficializado em 1950, pelo papa Pio XII. A virgem, toda gloriosa, sobe aos céus, e a Igreja só reconhece o fato dois mil anos depois. Um outro dogma mais complicado é a Ascensão de Cristo, que "ressuscitou dentre os mortos e subiu ao céu em Corpo e Alma." Os teólogos, especialistas em filigranas, tiveram de discutir um grave problema. Cristo era judeu. Como todo judeu, havia sido circuncidado. Ao subir aos céus, teria deixado o prepúcio na terra?

Volto a meus tratados históricos. Não foi decretado dogma algum em torno ao prepúcio de Cristo, mas o assunto foi muito discutido na Idade Média. Em 1351, argumentava-se que o sangue versado pelo Cristo durante a Paixão havia perdido toda divindade, havia se separado do Verbo e restado sobre a terra. Clemente VI ouviu com horror esta assertiva. Reunindo uma assembléia de teólogos, combateu esta doutrina e conseguiu que ela fosse condenada. Os inquisidores receberam em toda parte a ordem de abrir procedimentos contra aqueles que tivessem a audácia de sustentar esta heresia. Ocorre que os franciscanos discordavam do papa e diziam que o sangue de Cristo podia muito bem ter ficado na terra., pois o prepúcio extirpado por ocasião da circuncisão fora conservado na igreja de Latrão e era venerado como relíquia, sobre os próprios olhos do papa e dos cardeais e mesmo as gotas de sangue e água que corriam sobre a cruz estavam expostas aos fiéis em Mantova, Bruges e em outros lugares. Mais de um século depois, em 1448, o franciscano Jean Bretonelle, professor de teologia na Universidade de Paris, submeteu a affaire à faculdade, declarando que esta questão provocava discussões em La Rochelle e em outros lugares. Uma comissão de teólogos foi nomeada e, após graves debates, tomaram uma solene decisão, declarando que não era contrário à fé crer que o sangue versado durante a Paixão tivesse ficado sobre a terra. Por analogia, o prepúcio também. Ou seja, se Cristo foi aos céus, o Sagrado Prepúcio ficou entre nós.

Mas isto já é outro assunto.

Terça, 12 Dezembro 2006 21:00

O Papa e o Filioque

A viagem de Bento XVI à Turquia seria bem mais produtiva, se se reunisse com os ortodoxos e decidisse de vez a gravíssima questão do filioque. Discussões bizantinas são menos nocivas à humanidade que rendições incondicionais.

Se há algo que me diverte na história da Igreja Católica, são os dogmas. Verdades reveladas por deus, são imutáveis e definitivos. Justo por isto nos causam tanta perplexidade. Os dogmas são mais de quarenta e os católicos em geral não os conhecem. Um dos que gosto de enunciar é o da transubstanciação da carne, promulgado oficialmente em 1551 pelo Concílio de Trento. Os católicos, de modo geral, acreditam que o pão e vinho consagrados durante a missa são símbolos do corpo e sangue de Cristo. Ora, quem assim pensar, está cometendo heresia. Para o Magistério da Igreja, transubstanciação significa a conversão literal do pão e do vinho na carne e no sangue de Cristo. Sei que é duro, para um homem contemporâneo, admitir que a cada comunhão está praticando um ato de canibalismo. Mas dogma é dogma e estamos conversados.

Outro dogma divertido é o da Santíssima Trindade. Javé, o deus ancestral dos judeus, passa a partilhar sua divindade com o Jesus dos cristãos e mais um terceiro personagem imaterial, o Espírito Santo, que os textos joaninos preferem chamar de Paráclito. Mas o deus hebraico, nos textos antigos, não tem filho algum. Quem reivindica essa paternidade – à revelia do pai, diga-se de passagem – é o Cristo. O feroz Javé assume então a face de um pai amoroso. Ocorre que aí já temos dois deuses. Isso sem falar no Espírito, o ruah hebraico, que pode ser traduzido como ar em movimento, hálito ou vento. Para Harold Bloom, em seu excelente Jesus e Javé, a unificação destes três em um só, isto é, o dogma da Trindade, “sempre constituiu a linha crucial de defesa da Igreja contra a imputação judaica e islâmica de que o cristianismo não é uma religião monoteísta”. É um achado da Igreja, saliente-se, pois a palavra trindade não consta da Bíblia. O máximo que encontramos é Javé falando no plural, ou Paulo apresentando Jesus e o Espírito como intimamente ligados a Deus, indicando assim que, na Divindade, Deus, Jesus e o Espírito formam uma unidade. Tudo isto para fugir a qualquer semelhança com as tríades divinas das religiões pagãs, em que um deus-pai, uma deusa-mãe e um filho formam uma família de deuses, sendo muitas vezes mencionados juntos, como Osíris, Isis e Hórus no Egito. Ou o deus lunar, a deusa solar e a estrela Vênus na Arábia. Ou ainda Brama, Rudra e Vixnu da Índia.

Tivessem os teólogos se contentado com este malabarismo conceitual para construir um sistema religioso monolítico, até que o dogma da Trindade não seria de difícil intelecção. Ocorre que os teólogos são minudentes e uma complicada peripécia iria provocar uma violenta cisão na cristandade em 1054.

Segundo o Evangelho de João, o Espírito Santo procede do Pai. Assim o entendeu o Credo niceno-constantinopolitano, que no ano de 381 já repetia esta profissão de fé. Sabe-se lá porque cargas d’água, os latinos acrescentaram ao Credo a partícula filioque, professando que o Espírito procede do Pai e do Filho. Os cristãos orientais acusaram então os latinos de haver alterado os símbolos da fé. Em 444, Cirilo da Alexandria afirmava que o "Espírito é o Espírito de Deus Pai e, ao mesmo tempo, Espírito do Filho, saindo substancialmente de ambos simultaneamente, isto é, derramado pelo Pai a partir do Filho”. São inúmeros os teólogos que eram do mesmo aviso. Mas os cristãos gregos não conseguiam aceitar a polêmica conjunção, o e (que, em latim). O caldo engrossou quando o Concílio de Toledo, em 589, oficializou o símbolo da fé com o filioque, e considerou anátema a recusa da crença de que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Não bastasse o absurdo conceito do três-em-um – inteligível se levamos em conta a preocupação de fugir ao politeísmo – discutia-se agora a relação de um com os outros dois. Pensamento dogmático é assim mesmo. O debate percorreu os séculos. As comunidades se cindiram em 1054 e até hoje não chegaram um acordo sobre esta questão literalmente bizantina. Ainda recentemente, em 1995, João Paulo II tentava esclarecer a questão do filioque com o patriarca Bartolomeu I, numa tentativa de melhorar as relações com os orientais.

Na semana passada, Bento XVI viajou ao país que sediou a cisão milenar. Mas não foi lá para discutir o filioque. Antes fosse. Papa penitente, Bento foi em verdade desculpar-se junto aos muçulmanos pela gafe cometida ao citar Manuel 2º, imperador cristão ortodoxo que na Idade Média dominava Bizâncio, área que compreende a atual Turquia. "Mostre-me tudo o que Maomé trouxe de novidade, e encontrarás apenas coisas más e desumanas, como sua ordem de espalhar com a espada a fé que ele pregava", disse o Manuel. Cá entre nós, dou toda razão ao imperador e o citaria com gosto. Ocorre que não sou o guia espiritual de uma religião, hoje em conflito aberto com o Islã. Um papa, a meu ver, deveria medir melhor as conseqüências de suas palavras.

“Estou feliz de vir à terra da antiga cultura islâmica”,disse o papa. Que tenha elogiado o país que o recebe, por que não? Daí a dizer que gostaria de ver a Turquia na União Européia é imiscuir-se nas questões seculares do continente. Os muçulmanos constituem hoje uma séria ameaça à Europa e aos valores dela oriundos, como democracia, livre expressão de pensamento, liberdade de imprensa, liberdade de crença, direitos humanos. Defender a inclusão da Turquia no continente é levar mais dezenas de milhões de inimigos para dormir em casa. Sem falar que o pontífice parece não mais lembrar seus dias de cardeal Ratzinger, quando se opunha com firmeza à entrada da Turquia na comunidade européia. Junto com o múfti Ali Bardakoglu, o papa leu declarações previamente redigidas, enfatizando a necessidade de conciliação entre as duas religiões. Pior ainda, Bento rezou voltado para Meca, como rezam os muçulmanos. Os muçulmanos já rezaram, é verdade, voltados para Israel. Mas não espere nenhum ocidental que um imã ore voltado para Roma.

Ora, é mais fácil decidir se o Espírito Santo procede apenas do Pai ou se procede do Pai e do Filho que esperar que as duas religiões se conciliem. Cristianismo e islamismo geraram culturas antagônicas. Se o cristianismo já aceita Estados laicos, os muçulmanos só admitem Estados teocráticos. Se no Ocidente vige o conceito de democracia, no Oriente só encontramos ditaduras. Se no Ocidente as mulheres são donas do próprio nariz e trabalham ombro a ombro com o homem, no mundo islâmico a mulher é uma espécie de escrava de luxo, que sequer tem o direito de escolher marido. Se entre nós a mulher é dona de seu corpo e não abdica do direito a uma vida sexual livre, nas culturas muçulmanas tem de submeter-se à excisão do clitóris e infibulação da vagina.

As duas religiões são irreconciliáveis, como irreconciliáveis são as culturas por elas geradas. Convidar brutos para um bom convívio é como oferecer o pescoço à espada do inimigo. A viagem de Bento XVI à Turquia seria bem mais produtiva – ou pelo menos não tão prejudicial ao Ocidente – se se reunisse com os ortodoxos e decidisse de vez a gravíssima questão do filioque. Discussões bizantinas são menos nocivas à humanidade que rendições incondicionais.

Terça, 28 Novembro 2006 21:00

Dia da Suequinha

Chamem como quiserem o 20 de novembro. Eu prefiro chamá-lo de dia da Suequinha.

Diga-se o que quiser de Marx, não podemos negar que fosse um intuitivo. Viu o universo de ricos e pobres de suas época e nesta dicotomia encontrou as bases de seu pensamento. Deu-lhes nomes mais solenes – proletariado e burguesia – e criou a ideologia mais assassina do século XIX, que produziu no século seguinte nadas menos que cem milhões de cadáveres. A humanidade tomou vergonha, o Muro foi derrubado, a União Soviética desmoronou e o comunismo passou a ser cultuado apenas em ilhotas do Terceiro Mundo. Operários se deram conta de que era melhor conviver com patrões que lutar contra eles. Desmoralizada a luta de classes, os velhos apparatchiks se sentiram desempregados. Uma nova luta precisava ser criada.

O leitor que tiver acesso a bancos de dados de jornais poderá comprovar facilmente. Depois de 89, palavras como proletariado e burguesia começaram a minguar nos noticiários. Ao mesmo tempo, aumentou espantosamente a incidência de palavras como racismo, racista, ódio racial. Ou uma nova luta se estabelecia ou os velhos apparatchiks morriam de fome. Neste Brasil inculto, que elegeu e reelegeu um analfabeto como presidente, estes profissionais que só encontram lugar em países que vivem a reboque da História investiram tudo na nova luta. O senador Paim Filho, por exemplo, restabeleceu o conceito de raça, conceito este sempre negado pelos movimentos negros, e pretendeu instituir a carteirinha de negro. Não bastasse isso, a lei 10.639, de 2003, instituiu o Dia da Consciência Negra e fez desta data um feriado nacional. O feriado mal havia sido notado por coincidir com sábados e domingos. Assim foi que, somente neste ano da graça de 2006 acabamos descobrindo que o racismo foi oficializado no Brasil. O racismo negro, bem entendido, pois jamais ocorreria aos brancos criar um Dia da Consciência Branca. E se o criassem, seriam imediatamente denunciados na Justiça como racistas.

Pouco de novo se tem a dizer a respeito desta história antiga. Mas a cada vez que a estupidez emerge, urge denunciá-la. O dia é uma homenagem a um dos símbolos da resistência negra no país: Zumbi de Palmares, que foi degolado em 20 de novembro de 1695. Até há bem pouco, a data celebrada pelos negros era o 13 de maio, quando, em 1888,a princesa Isabel decretou a libertação dos escravos. Isso de branca libertar negros, ainda mais quando se tratava de uma princesa, não gera luta racial. Era preciso encontrar um negro, de preferência um mártir. Mesmo que nos quilombos existissem escravas brancas. Mas este dado, stalinisticamente, deve ser apagado da História. Não fica bem à imagem de um herói libertador de negros ter escravas brancas. Por outro lado, não vejo porque não unificar a grande Parada Negra às paradas gays de São Paulo. Afinal, Zumbi era chegado às práticas nefandas, como se dizia na época, tanto que mereceu o apelido de Suequinha.

Cerca de doze mil pessoas participaram, nesta última segunda-feira, da primeira Parada Negra, na avenida Paulista, região central de São Paulo. Após a parada ocorreu a 3ª Marcha da Consciência Negra. A festa já acontece em 232 municípios brasileiros. Agências bancárias e dos correios permaneceram fechadas nos municípios que decretaram feriado devido à data. Ai daqueles que um dia pensarem em uma parada branca. Serão imediatamente anatematizados e jogados no rol dos racistas, nazistas e fascistas.

Esta manifestação só serve para incentivar o racismo no país. Bem entendido, jamais teremos um dia da consciência mulata. Os negros racistas brasileiros, à semelhança dos negros racistas americanos, não aceitam a idéia de mulato. Aceitar o conceito de mulato significa admitir que no Brasil negros e brancos se miscigenaram sem maiores problemas, e isto significa dizer que no Brasil não há racismo, ou pelo menos não hás um racismo mais pronunciado. Isto não serve aos velhos comunistas, sempre entrincheirados na antiga idéia de luta de classes.

É sempre bom lembrar que os negros não chegam a constituir seis por cento da população nacional. Os mulatos chegam a 38%. Até o Supremo Apedeuta já assumiu esta idéia de que estes mulatos não existem, e andou colocando o Brasil como segundo país negro do mundo, depois da Nigéria. Chamem como quiserem o 20 de novembro. Eu prefiro chamá-lo de dia da Suequinha. Quem quiser empunhar Zumbi como herói da libertação dos negros, terá também de empunhar outras bandeiras, que não sei se todo o pequeno contingente negro da população terá coragem de empunhar.

Segunda, 20 Novembro 2006 21:00

Com a Nonchalance de Um Deus

Que um tirano mate, isto nada tem de original. Faz parte de sua estratégia para manter-se no poder. O que mais me causa espécie em Mao foi um episódio de seu regime que bem demonstra a insanidade de homens que se atribuem poderes absolutos.

Há mais de vinte anos não leio ficções. Já fui devoto do gênero e traduzi uma boa dezena delas ao brasileiro. Acabei cansando. O autor faz das tripas coração para criar um universo imaginário. Como este universo é de mentirinha, ele não está limitado pelas contingências da realidade. No entanto, a realidade acaba superando de longe todas as ficções.

Qual ficcionista conseguiria criar personagens como Hitler, Mao, Stalin, Pol Pot? Nenhum. Na hora de matar, embora possa matar e permanecer impune, o autor de ficções é tímido. Verdade que o Hagiógrafo conseguiu criar um que matou todos menos um. Mas não é todos os dias que se escreve uma ficção como a Bíblia. “Quem mata um é assassino, quem mata milhões é conquistador, quem mata todos é Deus” – escreveu o biólogo Jean Rostand. No século passado, assistimos a conquistadores que mataram com a nonchalance de um Deus.

Costumamos empurrar a barbárie para épocas remotas da História. No entanto, o século em que mais se massacrou em todos os tempos foi o passado, este no qual todos nascemos. Outra característica do XX, é que estes grandes assassinos foram cultuados como heróis, modelos de virtude e mesmo como deuses. Quando surgiram as notícias da morte de Stalin, não poucos comunistas não acreditaram. Um deus não pode morrer.

Se você nada conhece de Josiph Vissarionovitch Djugatchivili, nada entendeu da história recente. Este senhor, conhecido também por Koba ou Stalin, "o de aço", matou mais que Hitler e só não conseguiu matar mais que Mao. Ostenta em seu currículo a modesta cifra de 20 milhões de cadáveres. Houve época em que não era fácil encontrar uma biografia de Stalin no Brasil. A primeira biografia importante, a de Boris Souvarine, escrita originalmente em francês e editada em Paris em 1939, jamais chegou até nós. Consta ter existido uma tradução em russo, editada em único exemplar, para uso exclusivo de Stalin. Ignora-se o destino do tradutor.

Outra importante biografia, a de Adam B. Ulam, em dois volumes e editada pela primeira vez nos Estados Unidos em 1973, tampouco chegou até nós. Tive acesso a elas porque vivia em Paris. Este ano, tivemos nas livrarias brasileiras pelo menos três biografias do ditador georgiano, a do britânico Simon Sebag Montefiore e a dos irmãos russos Roy e Zhores Medvedev e a de Isaac Deutscher.

Estão surgindo no Brasil biografias das mais completas destes grandes assassinos. Ainda há pouco, li uma outra de Stalin, assinada por Simon Sebag Montefiore, intitulada Stalin, a Corte do Czar Vermelho, 860 páginas. Editada originalmente em 2003, esta biografia é trabalho invejável de um jovem pesquisador (o autor nasceu em 1965), que narra o dia-a-dia, cada frase, cada gesto de Stalin. Montefiore parece ser um observador onisciente e onipresente. O livro é lido com o sabor de um romance. Com um detalhe: os horrores nele narrados - com fria objetividade - nada têm de fictícios. É leitura que recomendo vivamente, particularmente aos jovens, em especial àqueles que nunca ouviram falar de Stalin. Se você quiser entender o século passado, leia o livro de Montefiore. Voltarei ao assunto.

Mal larguei Stalin, foi lançado Mao, a História Desconhecida, 960 páginas, de Jung Chang e Jon Halliday. Estas duas obras, ambas lançadas pela Companhia das Letras, preenchem uma lacuna enorme no estudo dos tiranos do século passado. Decididamente, nenhuma mente seria capaz de conceber ficcionalmente a trajetória destes monstros que foram cultuados como deuses.

Em Mao, a História Desconhecida, vemos Stalin amplamente superado por seu discípulo chinês, Mao Tse Tung. O nome duplo Tse Tung significa “brilhar sobre o Leste”. De início vemos uma diferença básica entre ambos. Se Stalin passou a matar uma vez instalado no poder, matar foi o método empregado por Mao para chegar ao poder. Nesta biografia, é interessante ver Mao lutando contra Chiang Kai-Shek, Stalin apoiando Mao e Chiang Kai-Shek ao mesmo tempo, os Estados Unidos apoiando Mao, e Chiang Kai-Shek permitindo a progressão da Longa Marcha, marcha tão exitosa que começou com 80 mil homens e acabou com dez mil.

O Livro Negro do Comunismo debita a Mao 65 milhões de cadáveres em tempos de paz. Jung Chang fala em 70 milhões. 65 ou 70, não se tem notícia na História de homem que, sozinho, tenha matado tanto. Entre 58 e 61, no Grande Salto para a Frente, 28 milhões de chineses morreram de fome. Segundo a autora, foi a maior epidemia de fome do século XX – e de toda história registrada da humanidade. A China produzia carne e grãos, mas Mao exportava estes produtos para a União Soviética, em troca de armas e tecnologia nuclear. Segundo o homem que brilhava sobre o Leste, as pessoas “não estavam sem comida o ano todo – apenas seis ou quatro meses”.

Para Mao, morrer fazia parte da vida. É preciso que as pessoas partam para dar lugar às que chegam. Claro que jamais lhe ocorreu perguntar se alguma pessoa aceita partir antes do devido tempo. “Vamos considerar quantas pessoas morreriam se irrompesse uma guerra – diz Mao –. Há 2,7 bilhões de pessoas no mundo. Um terço poderia se perder; ou um pouco mais, poderia ser a metade. Eu digo que, levando em conta a situação extrema, metade morre, metade fica viva, mas o imperialismo seria arrasado e o mundo inteiro se tornaria socialista”.

A partir de 1953, foi imposto o confisco em todo o país, a fim de extrair mais alimentos para financiar o Programa de Superpotência. A estratégia era simples: deixar para a população apenas o suficiente para que permanecesse viva e tomar todo o resto. Segundo Chang, Mao via vantagem práticas nas mortes em massa. “As mortes trazem benefícios” disse em 1958. “Elas podem fertilizar o solo”. Os camponeses receberam ordens para plantar sobre os túmulos. Usar luto foi proibido e até mesmo derramar lágrimas, pois segundo Mao a morte deveria ser celebrada.

O homem que brilha sobre o Leste não se contentou em matar e torturar. Procurou também humilhar a inteligência. Em 1966, durante o Grande Expurgo, fez arrastar e maltratar professores e funcionários da universidade de Pequim diante da multidão. “Seus rostos foram pintados de preto e puseram chapéus de burros em suas cabeças. Forçaram-nos a ajoelhar-se, alguns foram espancados e as mulheres foram sexualmente molestadas. Episódios semelhantes se repetiram em toda a China, provocando uma cascata de suicídios”.

Os Guardas Vermelhos invadiram casas onde queimaram livros, cortaram pinturas, pisotearam discos e instrumentos musicais – conta-nos Yung Chang – destruindo tudo em geral que tivesse a ver com cultura. Confiscaram objetos valiosos e espancaram seus donos. Ataques sangrentos a residências varreram a China, fato que o Diário do Povo saudou como “simplesmente esplêndido”. Muitos dos que sofreram os ataques foram torturados até a morte em seus lares. Alguns foram levados para câmaras de tortura improvisadas em antigos cinemas, teatros e estádios. Guardas Vermelhos vagando pelas ruas, fogueiras de destruição e gritos das vítimas: esses eram os sons e as cenas das noites do verão de 1966.

Que um tirano mate, isto nada tem de original. Faz parte de sua estratégia para manter-se no poder. O que mais me causa espécie em Mao foi um episódio de seu regime que bem demonstra a insanidade de homens que se atribuem poderes absolutos. Sigo ainda o relato de Yung Chang. “Um dia, Mao teve a brilhante idéia de que uma boa maneira de manter os alimentos seguros era se livrar dos pardais, pois eles comiam grãos. Então designou esses passarinhos como uma das Quatro Pragas que deveriam ser eliminadas, junto com ratos, mosquitos e moscas, e mobilizou toda a população para sacudir paus e vassouras e fazer uma algazarra gigantesca, a fim de assustar os pardais e impedi-los de pousar, de tal modo que eles cairiam de fadiga, seriam capturados e mortos pelas multidões”.

Vi certa vez um documentário sobre esta insânia. Milhares de chineses perseguiam pardais por ruas, árvores e telhados, businando, batendo latas e tambores. Que Mao matasse, até que se entende. O mais difícil de entender é ver um líder levando milhões de chineses a matar pássaros... no grito. O problema é que estes pássaros, além de comer grãos, eliminavam muitas pragas, “e não é preciso dizer que muitas outras aves morreram na farra da matança. Pragas que eram mantidas sob controle pelos pardais e outros pássaros floresceram, com resultados catastróficos. Os argumentos dos cientistas de que o equilíbrio ecológico seria afetado foram ignorados”.

Resultado da Grande Matança de Pardais: o governo chinês acabou pedindo, em nome do internacionalismo socialista, que os russos enviassem 200 mil pardais do leste da União Soviética assim que possível. E durante anos houve quem cultuasse no mundo todo, como salvador da humanidade, este assassino ridículo.

Quarta, 15 Novembro 2006 21:00

Ingenuidade e Malandragem

Não é preciso ser um especialista em geografia política para perceber que nos países ricos a corrupção é ínfima, enquanto impera em países pobres. Seria a honestidade uma virtude típica de ricos?

Pesquisa divulgada na semana passada pela ONG Transparência Internacional mostra que o País teve uma "piora significativa" no nível de percepção de corrupção. Na pesquisa anterior, o Brasil ficou em 62º lugar em uma lista de 159 países. Agora, caiu para 70º em 163 nações pesquisadas. Entre as nações percebidas como menos corruptas, estão empatadas Finlândia, Islândia e Nova Zelândia, com 9,6 pontos. Dinamarca, Cingapura, Suécia, Suíça, Noruega, Austrália, Holanda. Entre os últimos da lista, por ordem decrescente: Guiné Equatorial, Uzbequistão, Bangladesh, Chade, Congo, Sudão, Guiné, Iraque, Mianmá, Haiti. O Brasil divide o 70º lugar com China, Egito, Gana, Índia, México, Peru, Arábia Saudita e Senegal. Para fazer o ranking mundial, a Transparência Internacional usa como base de dados várias pesquisas feitas em diferentes países por instituições como o Banco Mundial, o Fórum Econômico Mundial e agências de avaliação de risco. A pontuação vai de zero (pior situação) a dez (situação ideal).

Não é preciso ser um especialista em geografia política para perceber que nos países ricos a corrupção é ínfima, enquanto impera em países pobres. Seria a honestidade uma virtude típica de ricos? Ou ricos não precisam ser desonestos? Estas perguntas não têm muito sentido, afinal mesmo nos países pobres quem se beneficia da corrupção são sempre os ricos. Melhor buscar por outro lado. Entre os países menos corruptos, Cingapura à parte, predomina uma cultura protestante. Entre os mais corruptos estão os muçulmanos. Os católicos Brasil, México e Peru dividem o meio de campo com China, Egito e Arábia Saudita.


Em meus dias de Suécia, vivi em uma sociedade onde a honestidade era a regra. O Estado confiava no cidadão e o cidadão confiava no Estado. O mais odiado dos crimes, naqueles dias, era a sonegação de impostos. Quem sonegava estava cometendo um crime de lesa-igualdade. O problema é que o imposto de renda podia chegar até 95% e houve inclusive o caso caricatural da escritora Astrid Lindgren em que chegou a 102%. Personalidades como Ingmar Bergman ou Ronnie Peterson chegaram inclusive a trocar de país para fugir à fúria tributária do Estado sueco.

Havia uma ingenuidade muito grande nesta confiança do Estado no cidadão, mesmo estrangeiro. Bastava um migrante dizer que era perseguido político e as autoridades acreditavam piamente em suas declarações. (Hoje, diante da invasão muçulmana, os suecos devem estar se arrependendo amargamente disto). Se os suecos eram ingênuos, nós latinos, brasileiros, somos malandros. Sem malandragem, não há corrupção.

Em minha volta ao Brasil, após um ano de Estocolmo, tive uma percepção brutal destas duas mentalidades. Volto a contar episódio que já devo ter contado e que gosto de recontar. Certo dia, f ui postar uma carta. Na fenda de uma caixa automática, pus uma moeda de duas coroas. Em vez de uma cartela com selos, recebi de volta um impresso com um pedido de desculpas. Não havia mais selos na caixa. Para recuperar minhas coroas - ou os selos - teria de telefonar para um número X.

Decidi pagar para ver. Estava na Suécia há menos de um mês e falava o sueco precariamente. Os problemas começaram com meu nome, que na língua lá deles se pronuncia Ianér. Do outro lado da linha, uma voz me pediu para soletrá-lo. E como é que se diz jota em sueco? Pacientemente, a moça aventou outras palavras. Confirmei a letra que, descobri então, pronunciava-se "ií". Mas o pior estava por vir. Eu morava na Öregrundsgatan, informação que tampouco foi fácil de passar. Muito bem - disse a moça - amanhã, às 11hs, o senhor receberá o equivalente, em selos, a duas coroas. O senhor prefere a série do rei ou a série da ponte?

Recém-chegado naquelas bandas, apenas balbuciando o idioma local, eu preferia mesmo era piedade. Qualquer uma, respondi. Dia seguinte, mal passavam dois ou três minutos das onze, o carteiro enfia um envelope em minha porta. Nele vinham os selos, série do rei, com um compungido pedido de desculpas dos Correios.

Estou na Europa! - pensei, incrédulo. Este terá sido o episódio mais marcante de meus dias de Suécia. Lá, o Estado respeitava os direitos mínimos do cidadão. Encerradas minhas deambulações por aqueles nortes, voltei ao Brasil. Em Porto Alegre, fui telefonar de um orelhão e a máquina engoliu a ficha. Chamei a CRT, expliquei o caso, perguntei como devia fazer para telefonar. Ora, ponha outra ficha - me respondeu a moça.

Subi em meus tamancos. Eu quero a minha ficha de volta. A moça disse nada poder fazer. Pedi para falar com seu superior. Ela me passou alguém que também me sugeriu pôr outra ficha. Respondi que não pretendia pôr ficha nenhuma, queria a minha de volta, etc., pedi falar para com seu superior, falei com outro superior, repetiu-se toda a lengalenga e esta terceira e última instância me bateu o telefone na cara. Indignado, fui à televisão reivindicar meus direitos. O próprio jornalista que comentou o fato deveria estar pensando que eu havia voltado pirado da Escandinávia, contaminado talvez por alguma escandinavite aguda. Nada disso. Eu havia vivido em um país onde o cidadão era respeitado. O Estado confiava que o cidadão era honesto e lhe retribuía na mesma moeda.

Este clima de confiança mútua perpassa – ou perpassava - as relações entre Estado e cidadão na Suécia. Lembro de quando fui renovar minha permissão de permanência. O policial, ao saber que eu era brasileiro e jornalista, me ofereceu imediatamente asilo político. Ora, eu saíra pela porta da frente de meu país, não queria asilo político. Eu saíra do país do carnaval e do futebol e havia chegado no país de Bergmann, Karin Boye, Lagerkvist. Queria, isto sim, asilo afetivo e espiritual. Recusei. Os brasileiros da colônia estocolmense, todos malandros, ao saber de minha recusa, quase me lincharam. "Cara, tens idéia do que estás perdendo?"

Olhemos para a tabela da Transparência Internacional: a distância entre país de corrupção mínima e país de grande corrupção tem as mesmas proporções da distância entre país desenvolvido e subdesenvolvido. Só que na razão inversa: mais corrupto é o país, mais subdesenvolvido ele é. Com sua ingenuidade, os suecos construíram um país rico e hoje invejado, apesar de seus atuais problemas, decorrentes da imigração árabe e africana. Com nossa malandragem, construímos este nosso monstrengo, onde cinturões de miséria e ressentimento estão estrangulando aos poucos os centros urbanos. Em nada surpreendem, neste ranking da corrupção, as posições de Brasil e Suécia.

Segunda, 06 Novembro 2006 21:00

Ridículo Se Instala na Casa Branca

Nestes dias de dificuldades eleitorais, melhor faria Bush se propusesse uma ligeira modificação em seu plano. Que proibisse o sexo para maiores de 70. Aposto que o Partido Republicano arrebanharia o voto de toda a velharada do país.

A gente morre e não vê tudo. No século passado, tive a ocasião de deslumbrar-me com não poucas novidades. Começou com o rádio, que já existia quando eu nasci. Mas não em minha geografia. O primeiro rádio que ouvi era para mim um poço de mistérios. (De certa forma, até hoje continua sendo). Descobri depois o cinema, a televisão e o computador. Quando já me parecia que não teria maiores novidades até o fim de meus dias, leio que o governo americano sugere que a população comece a ser sexualmente ativa aos 30 anos. O novo programa de educação para a abstinência, do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) dos Estados Unidos tem um orçamento de US$ 50 milhões, de acordo com as agências. Segundo os jornais, a mensagem é simples: se a pessoa não tem relações sexuais, não corre o risco de adquirir doenças, nem as mulheres o de engravidar sem desejá-lo. Para esta filosofia, nenhum outro método seria mais profilático e contraceptivo que a abstinência sexual.

Cinqüenta milhões de dólares investidos em marketing para a pregação da castidade! Esta meus olhos não esperavam ver nos dias que me restam de vida. Nem o Vaticano ousaria apostar tão alto. Autoridades do HHS dizem que não é uma obrigação, mas uma opinião para combater "um alarmante crescimento no número de nascimentos fora do casamento". A impressão que estes senhores nos passam é que nunca ouviram falar de métodos anticoncepcionais. No entanto, é óbvio que ouviram. O que o novo programa esconde é uma ideologia puritana e perversa de condenação ao prazer, típica destes dias de Bush.

O presidente americano quer nada menos que toda a população adulta dos Estados Unidos - até os 30 anos - se prive do mais intenso dos prazeres que tem o ser humano em sua curta existência. Que se privem deste prazer justamente nos anos de mais vigor sexual. Consegue o leitor imaginar, em pleno século XXI, um marmanjo de 30 anos que não tem idéia do que seja uma mulher na cama? Existem, é verdade. Comentei outro dia o caso de um numerário da Opus Dei que só conheceu mulher aos 30. Mas estes coitados são anomalias, pertencem ao mundo da exceção. O espécime mais próximo de nós, a quem Bush talvez erigisse um monumento, é o grande líder das esquerdas e guru de Tarso Genro, Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança. Foi desvirginado aos 37 anos, já no declínio de seu vigor sexual, por Olga Benario, oficial do Exército Vermelho. Outro exemplo destes anormais foi Louis Althousser, aquele senhor que já sexagenário estrangulou a própria mulher. Em suas memórias, o filósofo - também comunista, como Prestes - conta que aos 27 anos andava com aquela coisa ereta entre as pernas e não sabia que fazer com ela.

Pode-se imaginar uma mulher virgem até os 30 anos? Que insanas razões podem exigir que esta mulher desperdice o auge de sua sexualidade? Vai viver de autocarícias seus melhores dias? Pode-se imaginar alguém casto em uma sociedade onde os apelos sexuais infestam as ruas, jornais, revistas, filmes, publicidade?

A mesma filosofia de abstinência inspira o plano de 15 bilhões de dólares prometidos por Bush para combater a Aids na África. Lembro que há alguns anos, um desses presidentes africanos que nos parecem tão caricatos andou recomendando a castidade para os habitantes de seu país. A medida soou ao mundo como algo de um ridículo atroz. O ridículo instalou-se agora em Washington, na Casa Branca.

De nada adianta expulsar a natureza pela porta, diziam os antigos. Ela volta a galope pela janela. Sexo é um desejo imperioso. Tão imperioso que a ele sucumbem homens que, por seus ofícios, deveriam manter-se castos. Aí estão, e precisamente nos Estados Unidos, os milhares de casos de religiosos pedófilos, cujas indenizações milionárias estão esvaziando as burras das dioceses. Em todos os cantos do mundo, poderosos expostos à censura pública perdem cargos e têm suas carreiras destruídas por não conseguirem controlar o próprio desejo. Se pessoas que têm tudo a perder perdem tudo por alguns minutos de prazer, não será certamente uma multidão anônima, que nada tem a perder, que aceitará seguir os preceitos de Bush.

O puritanismo religioso condenou multidões, em décadas passadas, a uma vida insípida e assexuada. Quem reivindicasse sua sexualidade ou simplesmente a praticasse era ipso facto um fora-da-lei. Este puritanismo tornado lei gerava um fruto imediato, a hipocrisia. Os machos mantinham uma castidade de fachada e, na calada da noite, se refestelavam nos bordéis. As mulheres tinham de permanecer em casa e aquela que ousasse ter um orgasmo arriscava ser chamada de puta. Estes tempos já vão longe e Bush quer a eles retornar.

A mentira sempre foi energicamente reprovada nas sociedades protestantes. Nixon caiu não pela invasão de Watergate, mas por ter mentido sobre a invasão. Clinton balançou não por seu apreço a uma felação, mas por ter tentado vender a idéia de que sexo oral não é necessariamente sexo. Mas algo mudou nos Estados Unidos nestes últimos anos. Bush mentiu para invadir o Iraque e permanece no cargo. Se das mentiras de Nixon ou Clinton não decorreu nenhuma morte, as mentiras de Bush provocaram a morte de dezenas de milhares de americanos e iraquianos.

Apoiado pela pior das direitas, a direita religiosa, Bush quer vender ao país todo uma mentira colossal, a mentira da castidade. Ora, homem algum é casto. Até pode ser que um anacoreta, à força de muito cilício e autoflagelação, consiga reprimir sua sexualidade. Mas aí não temos mais um homem e sim um aleijão psíquico.

Enquanto o presidente americano prega a castidade para os jovens, nem os velhos conseguem conter-se e os escândalos sexuais saltam como pipocas numa panela. Recentemente, o senador republicano pela Florida, Mark Foley, presidente do Comitê contra a Pedofilia, foi flagrado enviando mensagens pornográficas a meninos que trabalham no Congresso. O reverendo Ted Haggard, presidente da Associação Nacional de Evangélicos dos Estados Unidos, pai de cinco filhos e opositor ferrenho do casamento gay, teve de renunciar a seu cargo depois de ser acusado de pagar para ter relações sexuais com outro homem nos últimos três anos. Ah, estes senhores que investem ferozmente contra o homossexualismo... No fundo o que mais almejam é o afago de um efebo.

Nestes dias de dificuldades eleitorais, melhor faria Bush se propusesse uma ligeira modificação em seu plano. Que proibisse o sexo para maiores de 70. Aposto que o Partido Republicano arrebanharia o voto de toda a velharada do país. Digamos que um senhor de idade provecta se visse assediado por alguma eventual ancionófila. Temeroso ante seu desempenho, poderia alegar, aliviado: "Adoraria, filha, mas não posso. Sou um cidadão cumpridor das leis".

Segunda, 30 Outubro 2006 21:00

Triste País Este Meu

Em um sistema democrático, bem ou mal o presidente representa as aspirações da nação toda. Triste país este meu, que elege e reelege um bronco sindicalista.

Sempre vivi em conflito com o Brasil. Em verdade, sou mais platino que brasileiro. Nasci na pampa, a mais ou menos um quilômetro da Linha Divisória entre Brasil e Uruguai. Com meus pais, falava português. Com minha ama, doña Catulina, falava espanhol. Na estrada, em frente a nosso rancho havia um desses marcos divisores de fronteira, em concreto. Meu pai costumava colocar-me nos ombros para que eu subisse até o topo do marco. Mandava que eu me virasse para o nascente e dizia: "fala para os homens do Uruguai, meu filho". Depois fazia virar-me para o poente: "Fala agora para os homens do Brasil". Nasci entre duas culturas e o primeiro grande poema de minha infância foi o Martín Fierro. Meu pai era camponês sem maiores luzes, mas conhecia de cor dezenas de sextilhas de Hernández. Pergunte hoje a um professor universitário quem foi José Hernández. Poucos saberão responder.

Entender o mundo foi algo que sempre me fascinou. O aprendizado da leitura me absorveu a tal ponto que eu entrava noite adentro lendo à luz das brasas do fogão. As seleções do Reader's Digest, não sei como, chegavam até aqueles rincões. Não sei se algum leitor ainda lembra delas. Tinham o formato de um pequeno livro e o texto era disposto em seis colunas. Em minha sofreguidão, eu lia as linhas na horizontal, pulando de uma coluna para outra. Não era tarefa fácil, após a leitura, ordenar o texto todo. Fiz o primário em escola rural. Minha alegria de fim de ano era saber que no ano seguinte eu receberia novos livros.

Desde pequeno, tive a intuição de que um homem vale pelo que conhece. No ginásio, me fascinou o estudo de inglês, francês e latim. Sentia-me como que travestido falando uma língua estrangeira. Não o espanhol, é claro, que nunca foi estrangeira para mim. Enquanto meus colegas e parentes se dedicavam a projetos mais práticos, como o de ganhar dinheiro e comprar coisas, eu me preocupava em ler mais para entender melhor o universo que me cercava. Um dos apelidos que me pespegaram em meus dias de Porto Alegre foi "Pra-que-dinheiro?". Eu não entendia muito bem para quê.

Os livros foram minhas armas para enfrentar o mundo. Com eles enfrentei a arrogância dos padres, dos marxistas, dos acadêmicos. Nos dias em que estava abandonando a fé cristã, que me fora enfiada a machado na cabeça, um padre foi enviado à minha cidadezinha para reconduzir ao rebanho a ovelha prestes a perder-se. Conversamos um dia inteiro, esvaziando várias jarras de água. "Com que autoridade - me perguntava o padre Firmino - ousas contestar o que homens ilustres afirmaram?" Contesto, padre, com a autoridade da razão, da lógica e de minhas leituras. Eu teria 17 anos. Graças a meus livros, enfrentava com serenidade aquele Torquemada cinqüentão. A leitura me havia salvo do obscurantismo.

O valor que mais cultivo é o conhecimento. Certa vez, em uma audiência judicial, um juiz me defendeu como me defenderia minha mãe. "Este homem nunca teve tempo de ganhar dinheiro, passou sua vida estudando". Estudando, continuo até hoje. Não tenho maior apreço por quem ostenta fortuna ou poder. Vivemos dias em que sucesso é um valor. Conheço pessoas de bom nível cultural que invejam o Supremo Apedeuta: "Ele teve sucesso". Tenha o sucesso que tiver, pessoa inculta para mim não vale um vintém. Respeito o analfabeto que não teve condições de alfabetizar-se. Não tenho respeito algum por quem, tendo a chance de educar-se, não se educou. Tenho mais respeito por minha faxineira, que surpreendi outro dia lendo Machado de Assis. Quem me acompanha sabe que abomino aquele carioquinha. Mas melhor ler Machado que não ler nada. Urge acabar com esse mito de que alguém vale alguma coisa só porque é presidente da República, bispo de Roma ou sabe chutar uma bola.

Falava de meu conflito com o Brasil. Quando fugi para a Suécia, fugia de duas coisas: carnaval e futebol. Mas por mais que um homem fuja, sempre carrega nas costas seu passado. Os suecos me interrogavam sempre sobre ... carnaval e futebol. Em todas minhas viagens, a peste Brasil sempre viajou grudada à minha pele. Seja nas fronteiras políticas do mundo socialista, seja nas fronteiras hipotéticas do Saara, ao mostrar o passaporte verde nunca faltou um policial analfabeto que me dissesse: "Brassil? Pelê, cafê, sambá".

Nunca tive razões para orgulhar-me de meu país. Tampouco encontro homens em sua história a quem possa conferir a comenda de herói. Tivemos alguns homens de visão, é verdade, Hipólito da Costa (que nasceu na Colônia do Sacramento, atual Uruguai), José Bonifácio, Silva Paranhos. É muito pouco para país tão grande. Santos Dumont? De acordo. Mas Dumont é fruto da cultura francesa, não da nossa. Meus heróis estão em outras culturas. Alexandre, Sócrates, Cervantes, Schliemann, Fernão de Magalhães, Nietzsche, Mozart, Pessoa, Hernández. Entre meus numes tutelares não há nenhum brasileiro.

Viajando, aprendi a gostar deste país. Gosto de repetir uma frase de Chesterton: "não se conhece uma catedral permanecendo dentro dela". Precisei sair para entender melhor a terra em que nasci. Se aqui existem mares de burrice, há também ilhas de inteligência. Se há miséria, há também riqueza. Se há feiúra, há também beleza. Todo país é lindo quando nele existe uma mulher a quem amamos. Essa mulher eu a tive e era daqui. Tivesse eu nascido no Congo ou em Ruanda, teria fortes razões para partir e não mais voltar. Mas ao Brasil dá pra voltar. Que o digam os exilados de 64, que nos cafés de Paris ou Berlim juravam só voltar de metralhadora em punho. Mal Figueiredo decretou a anistia, voltaram chorando a cântaros. Quando passamos muito tempo longe do Brasil, sempre dá um nó na garganta ao voltar. Se choramos ao voltar, é porque o país é viável.

Sempre nos doem na alma as mazelas do país do qual gostamos. Gostar do Brasil é viver de alma machucada. Temos tudo para ser ricos e - ilhas à parte - vivemos atolados na miséria. Eleições são momentos em que brota, no peito de quem gosta de sua pátria, um raminho de esperança: quem sabe, desta vez saímos do barro. Esse raminho, em meu peito há muito murchou. Faz hoje dezesseis anos que não voto, por não conseguir vislumbrar candidato em quem confiar meu voto. Se por um lado não voto, por outro sempre espero apreensivo o resultado das urnas.

Há quatro anos, foi eleito presidente da República um homem que se gaba de sua incultura. Parafraseando Lula: nunca houve na história deste país tamanho acinte à inteligência. Sua eleição gerou um clima funesto no país. Para "ter sucesso" não era mais necessário ter cultura. Analfabeto mesmo serve, desde que minta à vontade, conforme o gosto das gentes. Não bastassem suas demonstrações quase que diárias de analfabetismo, não bastasse a roubalheira institucionalizada de seu governo, não bastassem suas mentiras deslavadas e continuadas, candidatou-se novamente à Presidência da República.

Nos tempos d'antanho, para justificar suas vontades, os poderosos costumavam dizer: Deus quer, Deus quis, em nome de Deus. O tal de Deus parece andar um tanto fora de moda. Hoje, os poderosos ou candidatos ao poder dizem: em nome do povo, o povo quer, o povo diz. Soaria um tanto obsoleto, tanto para Lula quanto para Alckmin, dizer: eu sou o candidato de Deus. Mas não têm maiores pudores em afirmar que são o candidato do povo. As duas palavrinhas - Deus e povo - continuam sendo de difícil definição e têm tantas acepções quanto as bocas dos que as pronunciam. Jamais vi ou li uma definição de povo que satisfizesse a todas as mentes. Mas uma coisa é certa. Passe numa segunda-feira de manhã em um parque público ou em uma praia. Você pode não saber o que é povo. Mas é óbvio que o povo passou por ali. Nesta segunda-feira, Lula acordou reeleito presidente da República. Ontem, o povo passou pelas urnas.

Ainda na semana passada, o candidato derrotado dizia que o PT "está fazendo apologia da mentira. Os petistas podem mentir. Não, o brasileiro não gosta de mentiroso. Nada se sustenta em cima da mentira. Mentira é desvio". Santa ingenuidade tucana. Esta coisa informe que se chama povo parece ter-se indignado com as palavras de Alckmin. E correu às urnas para desmenti-lo: "somos brasileiros e gostamos de mentirosos, sim senhor. Quem disse que nada se sustenta em cima da mentira? Mentira não é desvio. Mentira é direito sagrado de todo cidadão".

Em um sistema democrático, bem ou mal o presidente representa as aspirações da nação toda. Triste país este meu, que elege e reelege um bronco sindicalista. Disse certa vez um político inglês que a Inglaterra era bem sucedida porque seus cidadãos honestos tinham a mesma audácia que os canalhas. Claro que no Brasil existirão não poucos homens honestos. O problema é que carecem de audácia, virtude que nunca faltou aos canalhas.

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