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Janer Cristaldo

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

Terça, 22 Janeiro 2008 21:00

Dormindo Com o Inimigo

Quando um turco se sente à vontade espancando um cidadão do país que o acolhe e se sente autorizado a chamá-lo de “alemão de merda”, os alemães já perderam a batalha.

Quem me acompanha sabe que, desde há muito, não nutro pelo Brasil esperança alguma. Apesar do cocoricó presidencial, o país afunda no caos a cada dia que passa. A guerrilha católica dos sem-terra, financiada pelo próprio governo, continua tomando terras, destruindo laboratórios, invadindo próprios da União. Os indígenas, apoiados por ONGs alienígenas, continuam ocupando territórios onde jamais viveram, fazendo reféns, interrompendo estradas, matando garimpeiros. Surgiu agora o movimento dos quilombolas. Qualquer negro – ou branco que se declare negro – pode sair a reivindicar terras nas quais nunca viveu. O tráfico tomou conta das favelas, transformando-as em bantustões onde a polícia só entra com reforços. Mananciais que deveriam ser áreas preservadas estão tomados por milhões de pessoas. O caos é tal que ultimamente surgiram até mesmo falsas favelas. Ou seja, vivaldinos montam barracos vazios junto a áreas de potencial valorização, para depois serem indenizados com o tal de cheque-despejo.

Quer dizer, o Brasil não tem cura. Estes problemas todos só tendem a agravar-se e eu não acredito que, no próximo século, o país conserve esta geografia à qual estamos habituados. Aliás, desde há muito defendo o separatismo. Se este país fosse dividido em quatro ou cinco, todos viveriam melhor. (De minha parte, esteja onde estiver, renuncio ao nome Brasil. Quem quiser que o leve). Se nunca consegui crer em um futuro glorioso para meu país, quando Lula foi eleito minha desesperança resvalou mais alguns metros rumo ao abismo. Com sua reeleição, não sobrou nada. Disto o Supremo Apedeuta não tem culpa. A culpa é deste poviléu infame que nele depositou seu voto. A desgraça do Brasil não é a saúva, como pensava Lobato. É o brasileiro.

Não, não deposito esperança alguma em meus compatriotas. Mas sempre me entusiasmei com a Europa. Lá pelo início dos 70, ainda jovem, conheci um continente cujos países respeitavam o cidadão, cujas cidades eram lindas, limpas e amenas, onde se podia passear à noite sem ter medo da própria sombra, onde havia boa imprensa e liberdade de expressão. Eram países onde me agradaria viver, e acabei vivendo em três deles: Suécia, França e Espanha. Eram países pelos quais valia a pena lutar. Estou usando os verbos no passado, embora essas condições ainda existam. Mas, ao que tudo indica, não existirão por muito tempo mais.

Acabei de ler um livro deprimente. Não que o livro seja em si deprimente. Deprimentes são os fatos narrados no livro. Falo de Os últimos dias da Europa – Epitáfio para um velho continente, do historiador alemão Walter Laqueur. Desde meus dias de Paris, nos anos 70, comecei a intuir que os muçulmanos ameaçavam o velho continente. Em 23 de março de 1979, eu escrevia minha primeira crônica sobre o assunto: “Islã preocupa franceses”. Na época, havia apenas uma apreensão. Hoje, existe a consciência de um desastre sem volta. Tive uma aguda percepção disto quando li, no jornal sueco Aftonbladet, há uns quatro ou cinco anos, esta manchete:

Stockholmarnas farligaste gator

Ou seja, as ruas mais perigosas de Estocolmo. Ora, quando vivi lá, em 71/72, não havia uma única rua perigosa na cidade. Agora, o Aftonbladet listava mais de cem. Que ocorrera de lá para cá? A invasão muçulmana. Laqueur, com sua visão privilegiada de cidadão da Alemanha, traça em seu livro um panorama desolador. É triste ver um continente, que sempre cultivou os ideais de liberdade, tendo seus judiciários, executivos e legislativos rendidos à barbárie islâmica.

“Quanto estamos preparados para suportar de uma pequena parcela de jovens violentos, freqüentemente de origem estrangeira?” perguntou recentemente Roland Koch, destacado membro do Partido Democrata Cristão alemão. Koch foi delicado. Seria mais preciso se falasse em jovens violentos de origem turca ou árabe. Melhor ainda se dissesse jovens muçulmanos. A Alemanha tem 15 milhões de habitantes de origem imigrante. Os muçulmanos são apenas 3,5 milhões. Mas jamais teremos notícias de agressões generalizadas da parte de imigrantes latinos ou brasileiros, chineses ou hindus.

Koch foi aplaudido por seus colegas ao exigir uma repressão aos “jovens criminosos estrangeiros”. (Leia-se criminosos árabes e turcos). Grupos de imigrantes e rivais políticos disseram que ele está brincando com fogo em um debate que revela a xenofobia. Ou seja, enunciar uma verdade singela passou a ser sinônimo de xenofobia. Cabe dizer que esta palavra é um neologismo que não corresponde muito bem à realidade que pretende expressar. Etimologicamente, xenofobia seria medo ao estrangeiro. Ora, não é que os europeus temam os estrangeiros. O que sentem, não pelo estrangeiro, mas por certo tipo de estrangeiros – leia-se muçulmanos – antes de ser medo é simplesmente asco.O pronunciamento foi motivado pela agressão a um aposentado de 76 anos, que sofreu uma fratura no crânio ao ser espancado por um alemão de 20 anos descendente de turcos e um imigrante grego de 17 anos em 20 de dezembro passado, depois de pedir a eles que parassem de fumar em um vagão do metrô em Munique, onde é proibido fumar.

Segundo o Der Spiegel, o aposentado se recuperou após um período no hospital e lembra de como cuspiram nele e o chamaram de “alemão de merda” antes de o chutarem na cabeça. A polícia prendeu os agressores logo depois e o caso foi encerrado como um ataque covarde por parte de dois criminosos violentos com longa ficha policial.

Em Os últimos dias da Europa, Walter Laqueur analisa os problemas da imigração africana e muçulmana na França, Alemanha, Reino Unido e Espanha. Para dar uma idéia do livro, vou ater-me ao Estado alemão que, a crer-se no relato do autor, rendeu-se definitivamente à barbárie islâmica.Os alemães começaram a receber turcos na segunda metade dos anos 50, em virtude de falta de mão-de-obra. Eram os gastarbeiter – trabalhadores convidados – que acabaram sendo hóspedes definitivos. Nos anos 70, a migração prosseguiu. Muitos pediram asilo político, quando em verdade fugiam das condições econômicas de seu país.

Os assistentes sociais “mostraram aos turcos como manipular a rede de seguro social – ou seja, como tirar o máximo de ajuda financeira e de outros tipos do Estado e das autoridades locais, dando um mínimo de contribuição ao bem comum”. O mesmo, diga-se de passagem, ocorreu na Dinamarca. Assistentes sociais adoram subdesenvolvidos.Ao contrário dos que imigraram para a França ou Grã-Bretanha, que de alguma forma arranhavam o francês ou o inglês, os turcos não falavam alemão e se isolaram em seus guetos. Seus filhos podiam até ir para as escolas alemãs, mas as filhas não podiam participar de atividades esportivas, excursões com as turmas ou aulas de biologia em que se falasse de sexo. “Insistiam no ensino islâmico na escola e ia aos tribunais para garantir seus direitos. Por fim, conseguiram. As autoridades alemães contrataram professores de religião, em sua maioria estrangeiros fundamentalistas e que que ou não falavam alemão ou tinham um domínio mínimo do idioma”. Como as autoridades alemães achavam que o ensino religioso devia ser ministrado em alemão, a isto se opuseram as organizações religiosas turcas e o próprio governo da Turquia. “Os tribunais alemães, na dúvida, decidiam em favor dos muçulmanos. Rejeitavam as denúncias de não-muçulmanos com relação ao barulho provocado pelos alto-falantes das mesquitas, que amplificavam as convocações e preces dos muezins”.

As conquistas turcas avançaram. Metin Kaplan, um criminoso turco condenado a quatro anos por incitamento ao assassinato, recebeu da cidade de Colônia mais de duzentos mil euros a título de assistência social. A Milli Goerus, organização turca incrustada na Alemanha, tem como projeto um país que viva segundo as estritas leis do Islã, mesmo que para isso seja preciso fazer certas concessões até que os muçulmanos constituam maioria. O grupo tem em torno de 220 mil militantes e dirige cerca de 270 mesquitas na Alemanha. “Ela visa substituir a ordem secular no país em que vivem por uma outra baseada na sharia – a lei islâmica – , primeiramente naquelas regiões em que os muçulmanos são maioria, ou uma minoria representativa, e posteriormente à medida que seu espaço se expanda”.

Laqueur nos traz relatos insólitos dos bairros de Kreutzberg, Wedding, Neukoelln e outros habitados por turcos. Neles existem bancos, agências de visagem, lojas e consultórios médicos turcos. “Rapazes param as pessoas nas ruas e lhes dizem que, se não são muçulmanas, devem deixar as redondezas. As crianças alemãs têm sido expulsas de playgrounds. Na escola, os não-muçulmanos são pressionados a jejuar durante o ramada, as garotas não-muçulmanas são coagidas a usar roupas parecidas com as das garotas muçulmanas ou, pelo menos, saias, calças ou camisetas que não sejam consideradas indecentes. Pais de estudantes tiveram conhecimento de que, sejam quais forem as orientações que a escola lhes dê, a mesquita e suas aulas têm sempre a prioridade”.

Ou seja, tá tudo dominado. Os alemães já não mandam mais no próprio país. Seus próprios filhos têm de submeter-se a evitar determinados bairros e aos costumes islâmicos. E a Alemanha continua convidando muçulmanos para seu leito. A Lei de Cidadania de 2000 tornou mais fácil para os turcos obter a cidadania alemã. “Cerca de 160 mil têm se beneficiado anualmente desse direito”. Não bastasse isto, o governo alemão gasta atualmente cem milhões de euros por ano para promover a integração… com o inimigo.

A situação na França, Reino Unido e Espanha não é menos alentadora. Para aqueles que, como eu, um dia se fascinaram pela Europa, recomendo vivamente a leitura de Laqueur. Quando um turco se sente à vontade espancando um cidadão do país que o acolhe e se sente autorizado a chamá-lo de “alemão de merda”, os alemães já perderam a batalha. Laqueur já aventa a possibilidade de regiões binacionais autônomas na França. Os muçulmanos poderiam fazer concessões com relação à sharia, e as autoridades francesas poderiam desistir do velho modelo republicano, com uma clara divisão entre Igreja e Estado. Em meio a isso, os judeus que se cuidem. Talvez muito em breve sejam forçados a um novo êxodo da Europa.

Me sinto até feliz por não me restarem mais muitos anos de vida. Me doeria profundamente ver aquele continente que tanto adoro totalmente rendido aos bárbaros. Eu não verei este horror, ainda resta muito de bom na Europa nas próximas duas ou três décadas. Mas minha filha certamente o verá.

Quinta, 17 Janeiro 2008 21:00

Lobato e Obama

O escritor que antecipou a Internet chama-se Monteiro Lobato, e o fez em seu livro O Presidente Negro, publicado em 1926.

Comentei outro dia artigo do Estadão, em que Leyla Perrone-Moisés, professora emérita da Fefeleche, vê Jorge Luís Borges como o profeta da Internet. A professora cita ainda Christophe Rollason, que considera a biblioteca borgiana como uma prefiguração da internet, a partir de uma observação feita por Ignacio Ramonet, o editor comunista de Le Monde Diplomatique: “Como na Biblioteca de Babel, muitas informações se encontram na rede, com todas as suas variantes e aproximações; nada garante a veracidade dos dados; um boato e uma informação se equivalem!” Para Perrone Moisés, Rollason estende a comparação, observando que os “homens da biblioteca” seriam hoje os cibernautas.

Pura bobagem. O escritor que antecipou a Internet chama-se Monteiro Lobato, e o fez em seu livro O Presidente Negro, publicado em 1926. Esta observação, eu a fiz em artigo publicado em finais do século passado. Fui o único jornalista a perceber o fato. O que significa que, ou os estudiosos de Lobato eram pouco familiarizados com a Internet, ou os internautas eram pouco familiarizados com a obra de Lobato. Repito isto aqui porque já li um cronista do Estadão – Matthew Shirts – falando no assunto, sem citar quem levantou a lebre. Antes que algum arguto pesquisador uspiano ou algum cronista tucanopapista pretenda ter descoberto a América, vou antecipando: fui eu quem a descobriu.

Mas não era disto que queria falar. E sim de Obama Barack, o candidato negro que está despontando como um dos favoritos à Presidência dos Estados Unidos. Se vencer, a fortuna literária de Lobato subirá vários pontos na Bolsa da Literatura. Pois foi nosso taubateano quem primeiro previu – em 1926, na mesma obra citada - um presidente negro para os Estados Unidos.

Reproduzo parte de meu artigo. Para Miss Jane, personagem de Lobato, os negros se batiam por uma solução muito mais viável: queriam a divisão do país em dois, o sul para os negros e o norte para os brancos, já que a América surgira do esforço conjunto de ambas as raças. Se não era possível gozarem juntas da obra feita em comum, o razoável seria dividir o território em dois pedaços. Temos então, já no início deste século, um escritor brasileiro antecipando as propostas de líderes negros contemporâneos como Farrakhan. É bom lembrar que nessa época Lobato ainda não havia viajado para os Estados Unidos.

Os brancos nada queriam ceder de seu status quo e o problema tornava-se ameaçador. É quando surge um candidato capaz de unir o eleitorado negro: Jim Roy, de tez levemente acobreada, parecendo um mestiço de senegalês e pele-vermelha. A cor de sua pele em nada lembrava os negros de hoje (isto é, 1926). Na época, a ciência havia resolvido o caso de cor pela destruição do pigmento. Jim Roy, negro de raça puríssima e cabelo carapinha, era “horrivelmente esbranquiçado”. O espírito visionário de Lobato antecipa, en passant, a tendência negra americana que gerou um Michael Jackson, por exemplo. Inaugurando, já no início do século, a atual categoria do “politicamente incorreto”, diz o estupefato sr. Ayrton:
– Barata descascada, sei...
No entanto, nem os recursos da ciência faziam os negros deixarem de ser negros na América. Os brancos não lhes perdoavam aquela camouflage da despigmentação.

Jim Roy, líder do partido Associação Negra, não chega a ser uma ameaça para o poder. Representa cem milhões de negros, contra 200 milhões de brancos. Ocorre que entre os brancos surge uma séria dissidência, um partido de mulheres. Os velhos partidos Democrático e Republicano haviam-se fundido num forte bloco sob a denominação de Partido Masculino, liderado por Kerlog, presidente em exercício e candidato à reeleição. Este bloco não tinha certeza da vitória, pois o partido contrário, o Feminino, dispunha de maior número de vozes, lideradas por miss Evelyn Astor. As estatísticas davam ao Partido Masculino 51 milhões de votos; ao Feminino 51,5 milhões e à Associação Negra, 54 milhões. A eleição dependia pois da atitude de Jim Roy.

Aproximam-se as eleições. Que, no ano da graça de 2.228, ocorrem em poucos minutos, em função de avanços tecnológicos previstos por Lobato, que anunciam nosso mundo de hoje, 1998.

A possibilidade de “radio-transportar” os dados – antecipação da Internet pelo autor – opera uma reviravolta nas eleições de 2.228, nos Estados Unidos. Jim Roy vai explorar com habilidade este dado novo, a velocidade. As eleições haviam sido marcadas para as 11h da manhã e durariam apenas 30 minutos. O candidato da Associação Negra avisa os agentes distritais que só às 10h anunciará o nome em que os negros devem votar. Ao anunciá-lo, a desconfortável surpresa: Jim Roy se anuncia como candidato.

Para pasmo de todos, depois de 87 presidentes brancos, surgia o primeiro presidente negro, eleito por 54 milhões de irmãos de sangue. Os partidos Masculino e Feminino haviam mais ou menos empatado, com algo em torno de 50 milhões e meio de votos. Passada a perplexidade, negros e brancos caem na realidade do dia seguinte. Para Kerlog, 87º presidente dos Estados Unidos e candidato derrotado, surge uma dor de cabeça histórica: ele vê na vitória negra a América transformada num vulcão e ameaçada de morte. Considera que se não forem mantidas presas as rédeas dos dois monstros – a ebriedade negra e o orgulho branco –, a chacina será espantosa. Seis líderes brancos reúnem-se em convenção e discutem uma solução para o impasse. A solução, mantida em sigilo, é aceita por unanimidade. Na época, John Dudley, inventor e um dos membros da convenção, descobrira os raios Omega, que tinham a propriedade miraculosa de modificar o cabelo africano. Com o tratamento, o mais rebelde pixaim se tornava não só liso, mas também fino e sedoso como o cabelo do mais apurado tipo de branco. Os raios Omega influíam no folículo e eliminavam o encarapinhamento, último estigma da raça negra, que já havia resolvido o problema da pigmentação.

Ainda não recuperados das emoções da vitória, cem milhões de criaturas agradeciam aos céus a nova descoberta, que redundaria em um aperfeiçoamento físico da raça. O pigmento fora destruído mas o esbranquiçamento da pele não revelava cor agradável à vista. Com os raios Omega, tinham esperança de obter com o tempo a perfeita equiparação cutânea.

Em todos os bairros de todas as cidades, a Dudley Uncurling Company estabeleceu Postos Desencarapinhantes, que se multiplicaram ao infinito, como se uma força oculta empurrasse a empresa do inventor dos raios Ômega ao desencarapinhamento da América Negra no menor espaço de tempo possível.

Era dos mais simples o processo. Três aplicações apenas, de três minutos cada uma, ao custo de dez centavos por cabeça, faziam com que os negros acorressem aos postos como cães famintos. Os brancos, inicialmente irritados com o que chamavam de “a segunda camouflage do negro”, acabaram se divertindo com o espetáculo da súbita transformação capilar de cem milhões de criaturas.

Na véspera do dia da posse, Jim Roy, em sua residência particular, sonhava o maior sonho já sonhado no continente, quando seu criado lhe anuncia a visita de “um homem branco natural”. Era o presidente Kerlog, o adversário derrotado. Que anuncia ao líder negro não existir moral entre raças, como não há moral entre povos. Há vitória ou derrota.

– Tua raça morreu, Jim...

Os raios Omega de John Dudley tinham uma dupla virtude: ao mesmo tempo que alisam os cabelos, esterilizavam o homem. No dia em que seria empossado o 88º presidente dos Estados Unidos, o primeiro presidente negro da América, Jim Roy aparece morto em seu gabinete de trabalho. Os negros pensaram imediatamente em crime e chegou a haver um movimento de revolta. Mas o fatalismo ancestral superou o ódio e o imenso corpo sem cabeça recuou instintivamente e repôs-se no humilde lugar de onde a vitória de Roy o tirara. Procederam-se novas eleições e Kerlog foi reeleito por 100 milhões de votos. A vida da América voltou à normalidade.

Enfim, o final proposto por Lobato seria inviável nos dias atuais. Mas o taubateano continua sendo o primeiro escritor no mundo a prever um presidente negro para os Estados Unidos.

Quarta, 09 Janeiro 2008 21:00

Como Nascem as Religiões

Ou seja, nada mais fácil do que criar uma religião. Desde que se respeite um pressuposto: urge que exista uma sólida base de ignorância.

Em crônica anterior, prometi falar dos cargos cult. É como se convencionou chamar certas práticas religiosas de movimentos proféticos e salvíficos nascidos do confronto espiritual entre os indígenas das ilhas melanésias e os colonos europeus. Segundo a Encyclopédie des Religions, de Gerhard J. Bellinger, este nome genérico provém de um desses movimentos originado nas ilhas Salomão, em 1931-1932. Segundo outros, tais cultos só teriam surgido quando a marinha americana começou a desmantelar as suas bases aeronavais no Pacífico Sul e o fluxo de mercadorias usado para manter os nativos satisfeitos foi cortado. O termo cargo (em inglês, mercadoria, carga) sublinha o fato de que esses movimentos são fortemente ligados à espera de um avião-milagre, de cargas e de expedição de mercadorias, que chegam às ilhas por via marítima ou aérea. Os cultos do cargo traduziriam a esperança que têm os indígenas de cor de ter acesso aos bens e à tecnologia dos estrangeiros brancos.

A coisa parece ter funcionado mais ou menos assim: os nativos viam chegar alimentos, mercadorias, máquinas, objetos, mas jamais viam os colonizadores fabricando tais mercadorias ou objetos. Viam-nos apenas construindo aeroportos, erguendo postes, rabiscando papéis ou debruçados sobre caixas de metal de onde saem ruídos estranhos. Concluíram então que estes gestos eram rituais mágicos para a obtenção das cargas. E passaram a mimetizar as práticas dos brancos para também obtê-las.

Como mencionei estes cultos em crônica passada, o leitor Vinicius Arcaro me enviou texto de um livro que foi bestseller em meus dias de universidade. Trata-se de O Despertar dos Mágicos, de Louis Pauwels, Jacques Bergier, uma espécie de vigarice ao estilo de Eram os Deuses Astronautas?, livro da mesma época escrito pelo hoteleiro suíço Erich von Däniken. Li o livro na época e esta prática melanésia deve ter-me passado despercebida. Talvez porque a tomasse como mais um delírios dos autores. Vamos ao texto:

Em 1946, as patrulhas do governo australiano, ao aventurarem-se nas altas regiões incontroláveis da Nova Guiné, ali encontraram tribos agitadas por um grande vento de excitação religiosa: acabava de nascer o culto do "cargo". O "cargo" é um termo inglês que designa as mercadorias comerciais destinadas aos indígenas: latas de conserva, garrafas de álcool, candeeiros de parafina, etc. Para esses homens ainda na idade da pedra o súbito contacto com semelhantes riquezas não podia deixar de ser profundamente perturbador. Seria caso que os homens brancos pudessem ter fabricado tais riquezas? Impossível.

É evidente que os Brancos são incapazes de construir com as próprias mãos um objeto maravilhoso. Sejamos positivos, era mais ou menos o que pensavam os indígenas da Nova Guiné: já alguma vez se viu um homem branco fabricar fosse o que fosse? Não, mas os Brancos dedicam-se a tarefas muito misteriosas: vestem-se todos da mesma maneira. Por vezes sentam-se diante de uma caixa de metal sobre a qual há mostradores e escutam ruídos estranhos que de lá saem. Fazem sinais sobre folhas em branco. Trata-se de ritos mágicos, graças aos quais obtêm dos deuses que estes lhes enviem o cargo.

Os indígenas resolveram então copiar esses "ritos": experimentaram vestir-se à européia, falaram para dentro de latas de conserva, espetaram troncos de bambu sobre as suas choupanas, a imitarem antenas. E construíram falsas pistas de aterragem, na expectativa do cargo".

Em Quest in Paradise (apud Dawkins), David Attenborough descreve o novo culto:

Eles (os brancos) construíam mastros altos com fios ligados a eles; ficavam sentados ouvindo pequenas caixas que brilhavam e emitiam barulhos curiosos e vozes abafadas; convenciam o povo local a usar roupas idênticas e o faziam marchar para lá e para cá – e seria quase impossível imaginar uma ocupação mais inútil do que essa. O indígena então percebe que a resposta para o mistério está na sua cara. Essas ações incompreensíveis são os rituais utilizados pelos brancos para convencer os deuses a enviar a carga. Se o indígena quiser a carga, também ele tem de fazer aquelas coisas”.

Ainda segundo Attenborough, “antropólogos perceberam dois focos distintos na Nova Caledônia, quatro nas Salomão, quatro em Fiji, a maioria delas bastante independente e sem ligação entre si. A maioria dessas religiões afirma que um messias específico trará a carga quando o apocalipse chegar”.

Ou seja, nada mais fácil do que criar uma religião. Desde que se respeite um pressuposto: urge que exista uma sólida base de ignorância. Os cultos do cargo têm um valor antropológico extraordinário, ao demonstrar como nascem as religiões.

Domingo, 30 Dezembro 2007 21:00

Papa Paga Mico na Missa do Galo

A cada Natal, tão certo como o sol se põe, se repete o erro: desde há séculos, Vaticano, livros e jornais afirmam que Cristo nasceu em Belém. Não nasceu em Belém.

A cada Natal, tão certo como o sol se põe, se repete o erro: desde há séculos, Vaticano, livros e jornais afirmam que Cristo nasceu em Belém. Não nasceu em Belém. Todos os jornais do mundo, nestes dias, afirmam que Cristo nasceu em Belém. Os natais se repetirão ad aeternum e a imprensa continuará afirmando ad aeternum esta inverdade.

Este ano, temos uma novidade. Enquanto dezenas de milhares de peregrinos rumaram a Belém, para visitar a Igreja da Natividade, onde o Cristo teria nascido, o monumental presépio que é montado todo ano na praça São Pedro foi ambientado pela primeira vez, desde que existe, em Nazaré. A decisão foi tomada pelo Governo do Estado da Cidade do Vaticano, encarregado da montagem do presépio, inspirado desta vez no Evangelho de Mateus, que situa o nascimento de Jesus na casa de José, em Nazaré. Nos Evangelhos de Lucas, Marcos e João o local indicado é uma gruta em Belém. O Vaticano informou que o presépio deste ano terá três ambientes: a sala da Natividade, a carpintaria de São José e uma hospedaria, símbolo da vida coletiva da época.

Sempre defendi a tese de que Jesus nasceu em Nazaré. Ou melhor, não que eu a defenda. Quem a defende, em verdade, é Ernest Renan, como veremos adiante. Por ter situado o nascimento do Cristo em Nazaré, tive uma crônica censurada no jornal católico conservador Mídia Sem Máscara, o que fez com eu me afastasse daquele site papista. Hoje, é o Vaticano que afirma o nascimento de Jesus em Nazaré. O que desautoriza as pretensões da Igreja da Natividade, em Belém, pretensões estas que, curiosamente, sempre foram apoiadas pelo próprio Vaticano. Dentro da igreja, ficaria a gruta onde, segundo a tradição, nasceu Jesus. Há inclusive uma estrela marcando o ponto exato onde o nascimento ocorreu.

Escrevia-me, no ano passado, um leitor: “Senão vejamos: “E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”. (Miquéias 5:2). Este poderoso trecho bíblico não somente profetiza o nascimento do Senhor Jesus Cristo em Belém, como também atesta Sua divindade: “e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”. E aqui vemos o cumprimento literal da profecia de Miquéias: “Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, em dias do rei Herodes, eis que vieram uns magos do Oriente a Jerusalém. E perguntavam: Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo. Tendo ouvido isso, alarmou-se o rei Herodes, e, com ele, toda a Jerusalém; então, convocando todos os principais sacerdotes e escribas do povo, indagava deles onde o Cristo deveria nascer. Em Belém da Judéia, responderam eles, porque assim está escrito por intermédio do profeta: E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as principais de Judá; porque de ti sairá o Guia que há de apascentar a meu povo, Israel.” (Mateus 2:1-6)”.

Vários outros leitores, daqueles que só encontram na Bíblia o que o padre diz para encontrar, alegam a mesma coisa. Que segundo os Evangelhos de Mateus e Lucas, Jesus nasceu em Belém. Que “não há motivos para duvidar do relato de um contemporâneo de Jesus (Mateus) e de alguém que viveu pouco tempo depois, conhecendo diversas pessoas que haviam convivido com ele (Lucas)”.

Não é bem assim. Vou repetir mais uma vez, e talvez tenha de repeti-lo a cada fim de ano: os Evangelhos não podem ser lidos ao pé da letra. Profecia é uma coisa, fato histórico é outra. O fato inconteste, aceito pelos historiadores, é que Jesus nasceu na obscura Nazaré, pequena e desconhecida cidade da Galiléia, que sequer consta do Antigo Testamento. Nos Evangelhos, é chamado o tempo todo de nazareno. Em sua cruz, Pilatos manda inscrever: “Jesus nazareno, rei dos judeus”.

Verdade que Mateus escreve: “Tendo, pois, nascido Jesus em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes ….” E acrescenta: “Ouvindo, porém, que Arquelau reinava na Judéia em lugar de seu pai Herodes, temeu ir para lá; mas avisado em sonho por divina revelação, retirou-se para as regiões da Galiléia, e foi habitar numa cidade chamada Nazaré; para que se cumprisse o que fora dito pelos profetas: Ele será chamado nazareno”. Pois dissera Miquéias: “Mas tu, Belém Efrata, posto que pequena para estar entre os milhares de Judá, de ti é que me sairá aquele que há de reinar em Israel”. No fundo, Mateus trazia no sangue esta tendência do jornalismo contemporâneo, de adaptar os fatos à visão que se tem do mundo. Quis adaptar o nascimento a antigas profecias. A realidade que se lixasse.

Escreve Renan, em A Vida de Jesus: “Cristo nasceu em Nazaré, pequena cidade da Galiléia, desconhecida até então. Toda sua vida foi designado pelo nome de Nazareno e só por um esforço que não se compreende é que se poderia, segundo a lenda, dá-lo como nascido em Belém. Veremos adiante o motivo dessa suposição, e como ela era conseqüência necessária do papel messiânico que se deu a Jesus”.

Segundo Renan, Nazaré não é citada nem no Antigo Testamento, nem por Josefo, nem no Talmude. Enquanto Nazaré da Galiléia era um vilarejo anônimo, Belém da Judéia portava o prestígio de antigas profecias. Nazaré era aldeia era desprovida de qualquer prestígio. Tanto que, em João 1:46, Natanael pergunta: “Pode haver coisa bem vinda de Nazaré?

Que nascesse em Belém, portanto. A estrela de prata pregada na igreja da Natividade em Belém, não passa de um wishful thinking. Nazarenos nascem em Nazaré. Lucas também adere à lenda do nascimento em Belém: “Naqueles dias saiu um decreto da parte de César Augusto, para que todo o mundo fosse recenseado. Este primeiro recenseamento foi feito quando Cirino era governador da Síria. E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. Subiu também José, da Galiléia, da cidade de Nazaré, à cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam ali, chegou o tempo em que ela havia de dar à luz, e teve a seu filho primogênito; envolveu-o em faixas e o deitou em uma manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem”.

Os evangelistas, ao situarem o nascimento de Cristo no reinado de Herodes e evocarem o recenseamento de Cirino, desmontam a própria tese. Diz Renan: “O recenseamento feito por Cirino, do qual se fez depender a lenda que ajunta a jornada a Belém, é posterior, pelo menos dez anos, ao ano em que, segundo Lucas e Mateus, nascera Jesus. Com efeito, os dois Evangelhos põem o nascimento de Jesus no reinado de Herodes (Mateus,II, 1,19,22; Lucas, I, 5). Ora, o recenseamento de Cirino foi feito só depois da deposição de Arquelau, isto é, dez anos depois da morte de Herodes, no ano 37 da era de Ácio. A inscrição pela qual se pretendia outrora estabelecer que Cirino fizera dois recenseamentos é reconhecida como falsa. O recenseamento em todo caso não teria sido aplicado senão às partes reduzidas à província romana, e não às tetrarquias. Os textos pelos quais se pretende provar que algumas das operações de estatística e registro público, ordenadas por Augusto, chegaram até o reinado de Herodes, ou não têm o alcance que se lhes quer dar, ou são de autores cristãos que colheram esse dado no Evangelho de Lucas”.

Se o Vaticano hoje se rende a Renan, o desastrado bispo de Roma desautorizou o presépio instalado sob seu papado. Na madrugada deste Natal, na homilia da Missa do Galo, Bento XVI lembrou o nascimento de Jesus, como Maria lhe envolveu em um pano e lhe deitou em um presépio, “porque não havia lugar na pousada onde pretendiam alojar-se”.

Sua Santidade precisa decidir-se. Afinal, nasceu na casa de Maria e de José, como indica o presépio montado na praça São Pedro, e neste caso não teria precisado buscar pousada alguma? Ou nalguma gruta em Belém, onde a rejeitada parturiente teve de abrigar-se? O Vaticano está precisando contratar urgentemente um bom roteirista.

Seja como for, seria bom que a Santa Sé avisasse o Sumo Pontífice de suas decisões, para não deixar o papa pagando mico nas frias madrugadas de Roma.

Sexta, 21 Dezembro 2007 21:00

A Guerra dos Deuses

Cientes disto, as religiões já oferecem um farto cardápio de crenças. Se você quer outros deuses, nem precisa buscar outros templos.

Voltando ao Deus à la carte. Na crônica anterior, escrevi que me incluía entre os que pensam que a vida não tem sentido algum. Um leitor me pergunta: “Se a vida é sem sentido (e sou um dos que também nisso acredita) por que então continuamos vivos?”

Minha frase estava incompleta. Sim, a vida não tem sentido em si. Mas tem o sentido que a ela damos. Esta primeira percepção, eu a tive lendo um autor hoje fora do mercado, Somerset Maugham, nascido no século XIX na embaixada britânica em Paris. Não saberia dizer se o local de nascimento determina a vida de uma pessoa, em todo caso Maugham foi um dos escritores mais cosmopolitas do século passado. Em A Servidão Humana, Philip, o personagem central, recebe um tapete, com o recado de que nele encontraria o sentido da vida. Guarda o tapete por longos anos para finalmente descobrir o enigma: o tapete não tinha sentido algum. Como a vida.

Isto não exclui, é claro, que Maugham tenha dado um sentido à sua. Se a vida em si não tem sentido, nada impede que seja plena e rica. Uns se dedicam a fazer poemas, outros a fazer pães, uns fazem revoluções, outros fazem pontes e estradas, há quem crie filosofias e quem construa religiões. São maneiras de enfrentar o vazio. E há também os que buscam deuses.

Outro dia, em discussões internéticas, ouvi de um amigo um depoimento singular. Ele e sua mulher foram às compras em busca de um deus. Pesquisaram o mercado, não encontraram deus que agradasse e voltaram pra casa sem adquirir nada. Confesso que fiquei surpreso com tal atitude, da qual jamais havia ouvido falar. O que só confirma minha tese do deus à la carte. Se nenhum deus me agrada, então não compro. Quem sabe ano que vem a indústria das crenças lança no mercado um modelito mais conveniente.

Reagindo às angústias da procura, as religiões se adaptam. Por exemplo, o tal de Santo Daime. É um culto sem pé nem cabeça, criado por um seringueiro da Amazônia, cujas cerimônias consistem na ingestão da ayahuasca, beberagem feita de um cipó, que produz vômitos e diarréias, as chamadas “peias”. A nova empulhação cultua o Cristo,a Virgem… e a floresta amazônica, ecologia oblige. Pelo jeito, as tais de peias não eram muito convincentes a ponto de por si só arrebanhar acólitos. O Santo Daime então adaptou-se.

A Folha de São Paulo, em sua edição de domingo passado, traz uma reportagem das mais significativas sobre a nova religião – ou coisa que o valha. O Santo Daime assumiu elementos de hinduísmo, umbanda e hare krishna. Deus para todos os gostos. Aqui pertinho de São Paulo, em Nazaré Paulista, a escola espiritual tem dois gurus, um tal de Sri Prem Baba, o mestre da cerimônia, que pelo jeito é tupiniquim com nome indiano para melhor enganar. Mais o guru Sri Hans Raj Maharaji, que vive na Índia, mas já apita no Santo Daime. Mais o sedizente mestre Raimundo Irineu Serra, seringueiro brasileiro neto de escravos, que morreu em 1971, e teria sido o fundador da doutrina do Santo Daime.

Na zona sul de São Paulo – continua a reportagem – no Centro Espírita Sete Pedreiras, a miscigenação de crenças se repete, com orixás da umbanda, santos católicos e retratos de daimistas posicionados em lugares estratégicos do terreiro. A fusão resulta na umbandaime, que promove a mistura entre a doutrina do daime com a religião afro-brasileira. Para o antropólogo Edward MacRae, da Universidade Federal da Bahia, assim como outras religiões o Santo Daime também tem a propriedade de aglutinar elementos de outras crenças, como umbanda, traços indígenas, cristãos, afro e esotéricos, ocidentais ou orientais. Mais um pouco de criatividade vocabular e teremos o catodaime, o krishnadaime, o budidaime. O fenômeno já existe, só falta batizá-lo.

Sincretismo, direis! Nada de novo sob o sol. O cristianismo apoderou-se do Livro dos judeus, temperou-o com elementos da mitologia grega e do paganismo e voilà: temos uma nova religião. Nada se cria, tudo se copia. Mesma vigarice dos tais de Osho, Maharishi Yogi, Sathya Sai Baba, Dalai Lama e outros escroques que servem coquetéis de hinduísmo, budismo e cristianismo para enganar Oriente e Ocidente. Nestes dias de globalização, o Santo Daime quer globalizar-se e abre um grande leque de opções, para consumo dos pobres de espírito.

Já tem até budista e hare krishna tomando chá de cipó. Para a monja tibetana Ani Sherab, o chá “oferece mais clareza para expressar e reconhecer a verdade. Com o daime, recebo muitas bênçãos e ensinamentos dos budas”. Líderes das comunidade hare krishna desaprovam o daime, mas não negam que alguns membros consumam o chá. Para o professor de português Pandita, 51, Krishna se revela de formas diferentes. “O daime pode ser uma delas.”

Nas cerimônias – diz a reportagem – manifesta-se a salada toda. O altar é de Ganesh, deus hindu do sucesso. O som oriental de cítaras é substituído por maracás indígenas e mantras em sânscrito se sucedem a hinos em português. Não faltam sequer as entidades de umbanda. Segundo a mãe-de-santo Maria Natalina, “a ayahuasca proporciona sensibilidade maior. É um instrumento de contato superior com os orixás”.

Para o professor Antônio Flávio Pierucci, da USP, na tentativa de competirem umas com as outras, as religiões acabam se anulando, copiando fórmulas e formatos e, com isso, perdem sua verdadeira identidade. “É como ocorre no comércio alimentício. Tem o McDonald’s e o Bob’s. (…) No fundo, todas alegam que Deus é um só. Mas, na verdade, o que existe é uma guerra entre deuses”.

Como dizia, o Ocidente está caindo em pleno politeísmo. Cientes disto, as religiões já oferecem um farto cardápio de crenças. Se você quer outros deuses, nem precisa buscar outros templos. O nosso os oferece. A necessidade de crer do bicho-homem não recua diante de absurdo algum. Mais adiante, conto sobre o culto dos carregamentos, praticado por indígenas da Melanésia.

Domingo, 16 Dezembro 2007 21:00

Um Deus à La Carte

No Ocidente, temos hoje milhões de deuses, talvez mais que os milhões de deuses do Oriente. Uma cabeça, um deus.

Curioso para saber o que se fala a meu respeito, dei um googlada no universo blogueiro. Nossa, mudaram os tempos! Ninguém mais me chama de comunista, como já fui chamado em priscas eras. Muito menos de agente do DOPS, do SNI ou da CIA, epítetos aos quais também já fiz jus. Houve época em que me foi pespegada a alcunha Robin Hood às avessas, o que tira de todos e não dá nada a ninguém. Um publicitário teve inclusive um achado dos bons: Savonarola às avessas, que nos condena por não pecarmos.

Coisas da época da Guerra Fria. Mudam os tempos, mudam os insultos. Sou visto hoje, fundamentalmente como… ateu. Mais ainda, como ateu militante. Bom, ateu eu o sou desde meus tenros anos e não vejo isto como ofensa. Mas definir alguém como ateu é muito pobre. Significa apenas que a pessoa nega a existência de deus. Ora, uma negação não passa de uma negação. Não serve para definição. É algo como afirmar: o Cristaldo não gosta da literatura do Machado. Isto pouco ou nada diz a meu respeito. Se alguém dissesse que sou marxista ou anarquista, positivista ou espírita, tomista ou cartesiano, estaria de fato esboçando uma definição. Ocorre que não sou nada disto.

Em minhas universidades, estudei Filosofia. E principalmente História da Filosofia. Se foi estudando a Bíblia e História das Religiões que me tornei ateu, certamente foi a História da Filosofia que me afastou da filosofia. O sentido da vida é este, diz um pensador. Não, o sentido da vida é aquele, diz outro. Sem falar nos que pretendem – e entre eles me incluo – que a vida não tem sentido algum. Uns afirmam que a História ruma para lá. Já outros pensam que ruma para cá. Cada filósofo constrói seu sistema e busca legar um ismo ao pensamento humano. Ora, a vida é bem mais simples. O homem é um bicho que nasce, cresce e morre e fim de papo. Em meio a isso, trabalha e luta, constrói e destrói, faz pontes e poemas, romances e óperas, constrói cidades, barcos e aviões, sofre e se alegra, chora e ri, faz guerra e confraterniza… e vai pra tumba. Não vejo mistérios na vida. Os sistemas filosóficos só servem para confundir. Não tenho filosofia alguma.

Quanto ao ateu militante, é calúnia soez. Não sou militante de doutrina nenhuma, aliás não professo doutrina nenhuma nem nunca convidei ninguém a partilhar de minhas crenças. Apenas as exponho e não peço a quem quer que seja que me siga. Ateísmo não constitui doutrina, mas exige uma certa fortaleza de espírito. A maior parte das pessoas não consegue viver sem bengalas metafísicas. Jamais me ocorreria chutar a bengala de quem dela necessita para viver. Nunca disse a alguém: larga tua religião e vem gozar a vida.

Mas não renuncio ao direito de crítica às religiões. Assim como critiquei com veemência as ideologias deste século e do passado, critico as religiões e particularmente o catolicismo, que conheço melhor que muito bispo. A época, no entanto, é hostil a quem ousa criticar religiões. Sinal dos tempos: passei minha juventude discutindo com os comunistas. Hoje, meus desafetos são os cristãos. Se sentem mais donos da verdade que os comunistas. Na época da universidade, se disséssemos a um marxista que não éramos marxistas, ele nos olhava com piedade. “Esse pobre diabo não entendeu o sentido da História”. Com a Queda do Muro e o desmoronamento da União Soviética, o famoso sentido da História foi pras cucuias.

A bandeira dos fanáticos foi resgatada e passou a ser empunhada por católicos. A começar pelo atual papa, o Bento, que julga que fora do cristianismo não há salvação. Ser ateu, para muitos católicos contemporâneos, é sinônimo de ser analfabeto e nada entender do mundo.

Em minhas discussões, tenho ouvido argumentos que jamais imaginava ouvir. Tenho discutido com jovens que defendem – sem pejo algum – a Inquisição. Nem os padres de minha época de jovem ousaram tanto. Preferiam desviar do assunto. Já vi comunista defendendo matanças, mas nunca ouvi um comunista defender a tortura. Os comunistas sempre torturaram às escondidas, sinal que viam na tortura algo abjeto. A Inquisição louvava a tortura, como um instrumento para a salvação das almas. Os jovens defensores da Inquisição – e outros não tão jovens – consideram que a legalização da tortura pelos inquisidores foi um considerável avanço na área do Direito.

Nesses debates, tomei ciência de outros fatos não menos significativos. Descobri, por exemplo, que a maioria dos católicos pouco ou nada conhece da doutrina que professa. (Não por acaso, recente pesquisa feita na França revelou que apenas um católico em cada dois acredita em Deus). Eu, ateu – analfabeto por definição – preciso ensinar-lhes pacientemente os dogmas e sua história, o magistério da Igreja e os próprios fatos da Bíblia. Percebi que são raríssimos os católicos que um dia leram a Bíblia e mais raros ainda os que a lêem com isenção. Basta começarmos a citar os massacres de Jeová e não falta quem salte: estás citando fora do contexto. Mas que contexto, meu caro? Em que contexto é justificável genocídio, massacre de tribos, matança de inocentes?

Outra descoberta curiosa, que mereceria aliás um denso ensaio, é que voltamos definitivamente ao politeísmo. Monoteísmo não satisfaz. Os homens, lá no fundo, são nostálgicos do paganismo. Constantino percebeu isso quando os primeiros cristãos passaram a cultuar três deuses, o Pai, o Filho e o Paráclito. Conclamou então um concílio e, sob sua sombra, foi decretado o primeiro dogma da igreja nascente, o da Trindade. Ou seja, que o Pai e o Filho e o Paráclito, mesmo sendo três eram um só. Entenda como quiser. Mas creia. Pois é dogma e portanto ultrapassa o humano entendimento. É pegar ou largar.

Não adiantou. A Igreja criou os santos, uma forma de delegar deidade. Ao que tudo indica, os santos não foram suficientes para saciar a sede de deuses. Em meus debates, jamais discuti a existência ou não de deus. É beco sem saída. Uns querem provar deus a partir da fé, outros a partir da lógica e nunca se chega a conclusão alguma. O que questiono, isto sim, é em qual deus os crentes crêem. Pois só na Bíblia há vários. O Jeová que encerra o Velho Testamento não é o mesmo que o abre. No Gênesis, deus é bastante antropomórfico e chega a lutar a tapa com Jacó. Mais ainda: não era lá tão poderoso, pois sequer consegue vencer a luta. Há uma grande distância entre esse deus fajuto e o poderoso Senhor dos Exércitos, que manda matar, arrasar e não deixar vivo ser que respire.

Perguntando sobre em qual deus as pessoas acreditam, cheguei a uma descoberta surpreendente: os católicos – ou os que se dizem católicos – criaram deuses à la carte. Cada um tem um deus particular, reminiscência talvez dos manes, lares e pênates romanos. É um deus camarada, compreensivo, que mantém um papo ameno com quem o porta e sempre o absolve. Isso de punição é coisa do Livro antigo. Se você acha que só os antigos profetas tinham privilégio de conversar com deus, está muito enganado. Estes religiosos contemporâneos falam com deus a toda hora. No fundo, uma espécie de alter ego. As pessoas falam consigo próprias e consideram que estão falando com Deus.

No Ocidente, temos hoje milhões de deuses, talvez mais que os milhões de deuses do Oriente. Uma cabeça, um deus. Com uma diferença. Os milhões de deuses do Oriente têm existência oficial, enquanto que os milhões de deuses cultuados pelos crentes de cá têm existência mais ou menos clandestina. São deuses prêt-à-porter, cada um servindo como uma luva a seu portador. Assim, quando evoco o velho Jeová, que está na origem do cristianismo, sou visto como um perigoso ateu militante que quer minar as bases do Ocidente.

Ora, nada disso. Apenas estou conclamando os crentes à coerência, ou seja, à volta ao monoteísmo.

Terça, 11 Dezembro 2007 21:00

Uma Romena em Toledo

Sempre que vou à Espanha, reservo um dia para Toledo. Graças aos trens de alta velocidade, a antiga capital espanhola está agora a 25 minutos de Madri. Em Toledo, tenho dois compromissos solenes: um almoço na Casa Aurélio e uma visita à catedral, uma das mais soberbas da Europa. Mas atenção! Há três restaurantes na cidade com esse nome, sendo que dois deles ficam na rua Sinagoga. A cozinha é a mesma nos três e excelente. Mas a casa da Sinagoga 1 é a mais aconchegante. Pelo menos para mim, já que suas paredes são revestidas de estopa e de arreios e instrumentos do campo. Uma vez no Aurélio, só consigo ver três pratos à minha frente, o cochinillo, o cordero lechal e a perdiz toledana.

Mas não consigo optar. Vou direto ao cochinillo. Enfim, como nunca viajo só, minha parceira geralmente pede um lechal e fazemos um intercâmbio cultural. Tudo isto regado a um Marqués de Cáceres. Ou de Riscal. Ou melhor, a um Marqués de Cáceres mais um Marqués de Riscal. De modo que quando chego à catedral, sempre tenho a nítida impressão que suas naves estão girando suavemente. Minha Baixinha adorada também chegava à catedral no mesmo estado - como direi? - de espírito que eu. Na última vez que esteve lá, sufocada pela beleza, começou a chorar. Uma senhora aproximou-se dela, quis saber se não sentia mal. Nada disso. Ela se sentia bem demais, e por isso chorava. A beleza, quando em excesso, sempre nos fez chorar.

Outro ritual que sempre cumpro em Toledo é subir a pé aquele penhasco do Tajo. Que é o mesmo Tejo que banha Lisboa. É a maneira que encontro de medir minha forma física. Enquanto puder chegar ao Zocodovar a pé, é porque sou jovem. Sem falar que a subida, mais ou menos uma hora penhasco acima, é belíssima. Confesso que desta última vez, em março passado, preferi tomar um ônibus. Estava com las bisagras emohecidas – como diriam os espanhóis. Isto é, com as dobradiças enferrujadas. Um problema de joelho me fez pensar duas vezes antes da empreitada. Mas Toledo não perde por esperar. A próxima vez será a pé.

Mas não era disto que pretendia falar. E sim da Romênia, que surge de repente nos grupos de mais alto IDH, da ONU, um pouco antes do Brasil. A ONU que me desculpe, não acredito. Aliás, em editorial publicado hoje, o Estadão punha em dúvida esta classificação. “Causa compreensível estranheza encontrar o Brasil abaixo de países como a Romênia, Albânia e Macedônia - que despejam sem cessar legiões de imigrantes na Europa Ocidental – para não falar de Líbia, Tonga, Maurício e assimilados”. Causa estranheza mesmo. Talvez a explicação esteja na antiga mania de maquiar dados, típica dos antigos países socialistas.

Bom, eu estava na Casa Aurélio fingindo que lia o cardápio – pois não preciso de cardápio para saber o que quero quando estou lá – e fui atendido por uma espanhola adorável, jovenzinha e linda, doce e falando um impecável espanhol de Castilla, la Vieja. Aquela garçonete era um valor agregado ao cochinillo e ao vinho. Sem falar que a proximidade física de uma mulher bonita é sempre agradavelmente perturbadora. Puxei de minha melhor pronúncia para não fazer feio ante a moça e – surpresa! – descubro que ela era romena e estava há apenas dois anos na Espanha. Não sei o que me deu, afinal eu ainda nem degustara o riojano, mas fiquei comovido até o âmago.

Já falei de minhas desventuras na Romênia, o país mais miserável do continente europeu que me foi dado conhecer. De repente, ali na minha frente, eu via uma cidadã romena, jovem e linda, feliz da vida, perfeitamente integrada à vida espanhola e mais, falando aquele espanhol divino. Escapara do inferno, pensei, e tinha agora um futuro risonho pela frente. Falei de meus dias em Bucareste, Mangalia e Constanza nos anos 80 e ficamos um bom tempo conversando. Bom, me disse a moça, “as coisas melhoraram um pouco de lá para cá. Se voltares a Mangalia, não vais reconhecer a cidade”. Mas é claro que ela não trocaria o novo país pelo antigo. Com a vantagem de que, com o fim do comunismo, sempre podia voltar para rever parentes e amigos.

Ela voltou a seus afazeres. Éramos três. O Rioja chegou, o cochinillo, o lechal e a toledana também. Não consegui conversar muito com minhas parceiras de viagem. No fundo, eu vibrava com a vida nova da menina. Certamente teria um namorado que a queria bem, estava fazendo universidade, um dia teria ou não teria filhos, mas já tinha um belo futuro assegurado nel país más lindo del mundo, como dizia Camilo José Cela. Durante uma viagem longa por vários países, nossa sensibilidade se torna a cada dia que passa mais aguda, e eu estava num daqueles dias de lágrimas a flor da pele. Eu estava feliz com a felicidade dela. Quando o maître me trouxe a conta, pedi:

- Traeme también la rumana.

Ela veio. Acho que sabia o que a esperava. Abracei-a com todos meus braços e beijei-lhe as faces. Sem falar. Se falasse, ela ouviria uma voz quebrada pelo pranto. Síndrome de Stendhal ou efeito dos Riojas? Não sei. E fui visitar a catedral tomado por insólita alegria interior.

Quarta, 28 Novembro 2007 21:00

Filho de Verissimo Verissiminho É

Como seu pai, Luís Fernando quer fraudar o relato histórico, omitindo os crimes do comunismo. Filho de Verissimo, Verissiminho é.

Lá por 2003, comentei Lágrimas na Chuva, de Sérgio Faraco, editado no ano anterior em Porto Alegre. O livro relata período de pouco mais de ano vivido pelo autor em Moscou, em 1963 e 64. "Depois de uma série de conflitos com chefetes políticos ligados aos partidos brasileiro e soviético" – diz-nos o editor na orelha – "Faraco foi internado em regime de reclusão, sob pesada bateria de medicamentos, numa clínica de reeducação. Era este, na época, um procedimento de rotina em relação àqueles que se rebelavam contra o ultra-esquerdismo do Partido".

Ora, quais foram os gestos de rebeldia do heróico mártir gaúcho? Pelo que lemos em sua memória, foram basicamente duas atitudes: mantinha relações com uma russinha e insistia em escutar Wagner a todo volume em seu dormitório. Fora isso, em uma viagem à Armênia, demonstrou insólita coragem ao perguntar a um mandalete local como podiam avançar na automação do que quer que fosse, se as moradias não dispunham de vasos sanitários e as necessidades eram feitas nos quintais, em latrinas. A tradutora nem sabia o que era latrina. Ou seja, os armênios não haviam chegado sequer ao conceito de latrina. Em função disto, o rebelde escritor foi enviado a uma clínica de reeducação, onde dispunha de quarto individual, com chuveiro e vaso sanitário (um progresso em relação à Armênia) e mais uma enfermeira que vinha pegar-lhe a mãozinha quando deprimido. Gulag classe A, com direito a cafuné. Pra dissidente algum botar defeito.

Há quatro décadas, Faraco sentiu na carne o preço a ser pago, na União Soviética, por pequenas molecagens. Escritor, não lhe terá sido difícil imaginar o quanto custava qualquer discordância com a linha do Partido. Quarenta anos depois, já em idade provecta, a tardia madalena alegretense demonstrou sua coragem denunciando fato ocorrido nos 60. Seu depoimento, se feito na época, seria de extraordinário valor para sua geração. Seria o relato insuspeito de um militante comunista que, em sua viagem iniciática ao paraíso soviético, fora tratado como doente mental apenas por escapadelas a uma disciplina absurda, típica de seminários católicos. Seria oportuníssimo, logo após 64.

Isto foi o que comentei na ocasião. Mas a questão tinha implicações bem mais graves. Faraco relata que Erico Verissimo perguntou-lhe se não pensava escrever sobre sua estada na União Soviética. "Respondi que, de fato, tinha essa intenção, embora minha experiência não fosse edificante. Ele ficou pensativo, depois disse que, se era assim, talvez fosse ainda menos edificante narrá-la, enquanto vivíamos, no Brasil, sob uma ditadura militar. Ele tinha razão" – diz Faraco. Ora, os militares lutavam para que o Brasil não virasse o imenso gulag que o futuro escritor então testemunhara. Em função de um regime que jamais o pôs na prisão, mesmo sendo comunista, Faraco silencia sobre o regime comunista que o internou em um hospital psiquiátrico, mesmo sendo comunista.

A história se repete. Em 1929, o escritor romeno Panaïti Istrati publicou Vers l’autre flamme, primeira denúncia do stalinismo no Ocidente. Os originais deste livro levaram Romain Rolland, seu padrinho literário em Paris, a aconselhá-lo: "Isto será uma paulada a toda Rússia. Estas páginas são sagradas, elas devem ser consagradas nos arquivos da Revolução Eterna, em seu Livro de Ouro. Nós lhe estimamos ainda mais e lhe veneramos por tê-las escrito. Mas não as publique jamais". Istrati teve suas Obras Completas publicadas pela Gallimard, exceto Vers l’autre flamme. Que só foi republicado, na democrática Paris ... em 1980. Anos 60, Brasil. Erico Verissimo, conivente com a barbárie comunista, repassa a Faraco o covarde conselho.

Escritor, Faraco intuiu o que Erico há muito já intuíra. Se dissesse uma só palavrinha contra a Santa Madre Rússia, adeus editoras, adeus honras literárias, adeus imprensa amiga, adeus resenhas e teses universitárias. O gaúcho de Alegrete, que não teve sequer a hombridade de despedir-se da humilde moscovita que o aquecera nos seus dias cinzas às margens do Volga, baixa a crista. Mas seu livro tem um grande mérito: nos revela a cumplicidade com a tirania do escritor gaúcho tido como campeão da liberdade. Não por acaso, a universidade e imprensa gaúchas idolatram Erico.

Luis Fernando Verissimo, escrevi outro dia, ainda deve estar em estado de choque com a reportagem de Veja sobre os 40 anos da morte de Che Guevara. Pelo jeito, de fato está. No Estadão de quinta-feira passada, o filho do Erico se lamuria. Começa comentando o filme Viva Zapata, que termina com a morte do personagem numa emboscada dos 'federales'.

"O antigo aliado que o traiu, um intelectual vivido no filme por Joseph Wiseman, insiste para que os soldados não deixem escapar com vida o cavalo branco de Zapata. 'Matem o cavalo! Matem o cavalo!', grita, em vão. A última cena do filme é a do cavalo branco solto numa montanha, um símbolo não muito sutil do espírito que sobreviveu ao sacrifício do seu dono para inspirar outras gerações e outras revoltas. O intelectual entende que símbolos são perigosos e que não basta abater o homem para anular o exemplo. É preciso trucidar a sua memória, emporcalhar a sua legenda e apagar qualquer vestígio simbólico da sua rebeldia".

Armada a premissa maior do silogismo, o cronista marxista petista diz ao que vem:

"Parecido com o que está sendo feita entre nós com o Che Guevara, que, de acordo com a revisão atual, não só cheirava mal como era um péssimo caráter. É difícil entender por que estão tentando matar este particular cavalo branco agora. Se Che simbolizava alguma coisa, nos últimos anos, era a absorção de todas as formas de revolta pela cultura pop. O ex-ícone da esquerda era visto principalmente nas paredes e camisetas de gente que jamais sonharia em ir para as montanhas, a não ser pelo fondue de queijo. E no entanto o empenho em desmitificá-lo, e desmistificá-lo, é evidente. Do que será que estão com medo? O que assombra tanto o neomacarthismo, a ponto de atirarem com tanta fúria contra um defunto de 40 anos? Talvez seja o caso de rever o significado da figura do Che, e do seu exemplo de idealismo e inconformismo, entre as novas gerações. Talvez a direita esteja vendo um cavalo branco solto por aí que nós não vemos".

Ora, não é bem matar cavalos brancos o que se quer. O que está acontecendo é que, só agora, quarenta anos depois da morte do bandoleiro, estão surgindo jornalistas com suficiente coragem para revelar sua verdadeira face, a de um assassino frio a serviço de uma ideologia assassina. Da mesma forma, muito anos foram necessários para que viessem à tona as matanças de Stalin. E também as de Lênin. Estamos emergindo de um século em que a mentira teve plena vigência e celerados receberam honras de santos.

Por que tanto empenho em desmitificar e desmistificar Che? Porque desmitificar e desmistificar é necessário. Não é bom que a humanidade tenha por santos assassinos com as mãos sujas de sangue. É trabalho de todo historiador – e deveria também ser de todo jornalista – denunciar as mitificações e mistificações. Ninguém está com medo. Pelo contrário. O medo foi esconjurado e as novas gerações de jornalistas não têm porquê defender as bandeiras espúrias que renderam prestígio e fortuna aos velhos jornalistas. Ninguém está vendo cavalos brancos soltos por aí. O que está se vendo é o colossal embuste que há quatro décadas vem enganando gerações.

Como seu pai, Luís Fernando quer fraudar o relato histórico, omitindo os crimes do comunismo. Filho de Verissimo, Verissiminho é.

Quarta, 21 Novembro 2007 21:00

Múmias Temem Virar Pó

Luis Fernando Verissimo, ao que tudo indica, ainda deve estar em estado de choque com a reportagem de Veja sobre os 40 anos da morte de Che Guevara.

Luis Fernando Verissimo, ao que tudo indica, ainda deve estar em estado de choque com a reportagem de Veja sobre os 40 anos da morte de Che Guevara. A bem da verdade, até eu estou perplexo. Pois nestas últimas quatro décadas as redações sempre esteve dominada pelas esquerdas, até mesmo em jornais tidos como de direita. A reportagem de Veja rompeu com meio século de silêncio em torno aos assassinatos do bandoleiro argentino.

Eu, no entanto, estou agradavelmente perplexo. Não é o caso de Verissimo. Em entrevista aberta à platéia, quinta-feira passada, no Memorial da América Latina, o escritor analisou a mudança ideológica dos jornalistas. E desenvolveu uma bizarra teoria para explicá-la:

- Antigamente, as redações tinham máquinas de escrever. Era um barulho infernal. Tenho até uma teoria para explicar essa mudança da esquerda para a direita nas redações. Nos últimos anos, os jornais e as revistas brasileiras deram uma guinada à direita. Mas, quando comecei no jornalismo, todos nós éramos de esquerda. A gente aceitava o fato de ser direita quando era do editor pra cima. Hoje, é o contrário. Do editor pra baixo, os jornalistas preferem ser de direita. Isso tem muito a ver com a mudança das máquinas de escrever para os computadores. Como as redações eram barulhentas e agitadas, os jornalistas se identificavam mais com os trabalhadores das fábricas. Hoje, com os computadores, as redações parecem bancos. Limpas, aquele silêncio… Sei que é uma teoria meio forçada…

Ou seja, a máquina de escrever induz a uma produção de jornalismo de esquerda. Já o computador, este leva os profissionais a um pensamento de direita. Vou até dar uma achega à teoria do cronista. Vai ver que isto ocorre porque os computadores são basicamente um produto do imperialismo ianque. Provavelmente vêm com algum vírus embutido que empurra o pensamento do jornalista para a destra. Fossem os PCs um achado da finada União Soviética, provavelmente só produziriam textos de sinistra.

O mundo mudou e o cronista não viu. Com a queda do Muro, o desmoronamento da URSS e a penúria de Cuba, o comunismo virou mala-sem-alça. Antes de 90, existia ainda uma poderosa máquina publicitária que mantinha em formol um cadáver já rumo à putrefação. No Ocidente – confortavelmente distanciado daquelas tiranias – não faltavam intelectuais que faziam carreira e fortuna em cima dos “nobres ideais” do socialismo. Em verdade, os ideais não deixavam de ser nobres. Os métodos é que eram vis e tirânicos.

A massa de informações que está vindo à tona com a abertura dos arquivos de antigos países comunistas não mais permite absolver tiranos como Stalin, Lênin, Mao, Hodja, Ceaucescu, Pol Pot. Quem, há 50 anos, ousaria acusar estes assassinos de assassinos. Houve escritores corajosos, é verdade, já nos anos 30, que ousaram denunciar os crimes do stalinismo. Mas foram apedrejados pela imprensa internacional e tidos como inimigos da humanidade. Hoje, estão surgindo excelentes biografias destes ditadores e seus massacres não podem mais ser ignorados.

Verissimo se diz um gaúcho desnaturado, que não gosta de lembrar da última vez em que montou num cavalo. Antes continuasse montando cavalos e não tivesse feito carreira montado no pensamento assassino que dominou o século passado. Costumo afirmar que múmia não se dobra. Se dobrar, se esfarela. Múmias como Veríssimo, Niemeyer, Ariano Suassuna, Zuenir Ventura, Carlos Heitor Cony continuarão sempre cultuando – aberta ou secretamente – o Paizinho dos Povos. É claro que Verissimo não pode conferir razão a estes novos jornalistas, que ele qualifica como de direita. Dar-lhes razão equivaleria a afirmar: tudo o que escrevi é lixo. Um jovem ainda tem tempo pela frente para chegar a esta constatação. Um macróbio, não.

Mas a constatação do cronista é reconfortante. Como pessoa ligada aos meios de comunicação, está sentindo que sua era morreu junto com o stalinismo. Restam focos da infecção mundo afora, é verdade. Mas marxismo é bandeira que não mais se sustenta.

Os jovens que hoje escrevem nas redações de jornais, sem estarem atados a uma carreira ou obras escoradas no totalitarismo, renderam-se finalmente ao óbvio. Múmia que é múmia não se rende. Arrisca virar pó.

Fico grato pela difusão que Reinaldo Azevedo tem dado à minha trouvaille. É bom que a palavrinha chegue à grande imprensa.

A Folha de São Paulo de hoje traz reportagem que muito me alegra. Pela primeira vez na grande imprensa, surge a palavra apedeuta como definição de Lula. No ano mesmo de sua eleição, em crônica intitulada "Eu sou o que sou", publicada no Baguete Diário, jornal eletrônico de Porto Alegre (29/03/2002), pareceu-me oportuno qualificá-lo como apedeuta:

"Até hoje as esquerdas são pródigas em contar piadas sobre a falta de cultura de Costa e Silva. Mas Costa e Silva fez Escola Militar, cujo acesso não é para qualquer apedeuta".

Em 19 de agosto do mesmo ano, no mesmo jornal, na crônica intitulada "O neoaparatchik", voltei ao tema:

"Existe uma raça de apedeutas que se sentem muito eruditos quando usam proparoxítonas ou quadrissílabos. No debate organizado pela Folha de São Paulo, na segunda feira-passada, ele se superou. Lá pelas tantas, arrotou erudição: 'Entretanto, há coisas a serem feitas concomitantemente'. Embriagado pelo próprio verbo, feliz pelo heptassílabo, perguntou ao interlocutor: 'Gostou do concomitantemente?'"

Em 17 de março de 2003, no artigo "Armadilha para negros", publicado no jornal eletrônico MSM, escrevi:

"O atual presidente da República está longe de ser o primeiro apedeuta a assumir o poder neste país. Câmara e Senado estão repletos de analfabetos jurídicos, que nada entendem da confecção de leis nem sabem sequer distinguir lei maior de lei menor".

Na tradução do artigo para o inglês, "A Trap for Blacks", publicada na revista Brazzil, de Los Angeles, o tradutor teve um feliz achado: First Ignoramus.

Our current President is far from being the first ignoramus to take office in this country. Both the House and the Senate are full of juridical illiterates who understand nothing about lawmaking and can't even distinguish major from minor laws.

Em 01 de agosto de 2004, no artigo "In Brazil, Good News Is No News", publicado na mesma revista, eu escrevia:

For sure, Brazil's government would take pleasure in installing its own peculiar form of dictatorship. Marxism has always run in the veins of the Workers' Party. It's in the DNA. Not by chance, every so often, ghostwriters for President Lula, the Supreme Ignoramus, find room to insert a Stalinist author amidst his fastidious speeches.

E mais adiante:

Nor do I deem possible that any party, no matter how obsolete, can drag this country into a communist regime. Will the Supreme Ignoramus manage to transform this pluralistic society into a single party regime? Do away with elections and replace them with a one candidate farce?

Em "Fala, ó metamorfose ambulante", publicado também no MSM, em 20 de setembro de 2004, lá está:

"Durante solenidade em Brasília, o Supremo Apedeuta disse que 'o ser humano não tem que ter medo de ser uma eterna metamorfose ambulante', fazendo referência a um dos sublimes autores que embasam sua erudição".

Em julho de 2006, na mesma Brazzil, eu escrevia:

Again, the quotas. The white guild wants to protect the corporation. While the country was getting thrilled and distracted by the World Cup, the project was approved almost clandestinely in Congress. It now depends only on a veto or an approval by the Supreme Ignoramus, the president. It's amazing that such a rule would appear now in these Internet days, a time in which any citizen can start his blog and do journalism the way he pleases.

Em suma, para meu prazer, a expressão foi fazendo fortuna na mídia eletrônica. Tanto o Supremo Apedeuta como o Supreme Ignoramus. Nada lisonjeia tanto um jornalista como ver seus achados correndo mundo. Em agosto de 2006, o ator Carlos Vereza, em entrevista a Jô Soares, largou pela primeira vez a expressão na televisão. No dia 21 do mesmo mês, o cronista chapa-branca tucano papista Reinaldo Azevedo escrevia em seu blog:

Memórias do PT 3 - Vereza e a "glamourização do Apedeuta". Reparem na platéia
O ator Carlos Vereza era um dos entusiasmados assinantes da extinta Primeira Leitura. Chegamos a nos falar duas vezes. Ele tinha grande admiração pela revista. No auge do mensalão, foi entrevistado no Programa Jô Soares e fez um discurso muito interessante. O vídeo está em dois tempos, vejam até o fim. Num dado momento, Vereza diz que "Lula é a glamourização do apedeuta (uma palavrinha importante para nós, hehe), a glamourização da ignorância". E tanto ele como Jô Soares falam do partido "tentacular". Prestem atenção à reação da plateía. Como foi que a oposição deixou passar aquele momento???


Bom, a palavrinha importante para nós não é achado do Vereza. De 2003 para cá, escrevi pelo menos 21 crônicas, onde uso as expressões apedeuta ou Supremo Apedeuta. Mais tarde, lendo ao azar a revista tucana Primeira Leitura, vi que o jornalista chapa-branca tucanopapista a empregava várias vezes. Maravilha, pensei, minha trouvaille já é de conhecimento dos partidos de oposição. Ocorre que, conversando com outros jornalistas, fiquei sabendo que o autor do artigo reivindicava a autoria da expressão. Na ocasião, escrevi:

- Alto lá, senhor Reinaldo Azevedo. Supremo Apedeuta é cria minha, e isto qualquer pesquisa rápida no Google pode comprovar. Use e abuse da expressão, quantas vezes quiser, divulgue-a aos quatro ventos, isto só me faz feliz. Mas não pretenda tê-la criado. Isto é muito feio para um jornalista. Ou, para usarmos uma palavra da moda, é antiético. E não fica bem para o porta-voz de um partido que pretende dar um banho de ética no partido que se dizia dono da ética tomar atitudes assim antiéticas. O Supremo Apedeuta é meu.

Na reportagem de hoje da Folha, leio:

"Apedeuta"
Em seu blog, Reinaldo Azevedo não vive sem provocar polêmicas. Entre suas expressões favoritas estão "chutar o traseiro dos adversários" e "petralha', neologismo que diz ser "a variação petista dos Irmãos Metralha: sempre de olho na caixa-forte". A palavra campeã de audiência é a usada para se referir ao presidente Lula: "apedeuta" (pessoa sem instrução, ignorante).


Fico grato pela difusão que Reinaldo Azevedo tem dado à minha trouvaille. É bom que a palavrinha chegue à grande imprensa. É bom também saber que o cronista tucanopapista se inspira na leitura de cronistas independentes, que não são capachos de partido nenhum.

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