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Janer Cristaldo

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

Segunda, 05 Novembro 2007 21:00

Fossem as Coisas Só de Cama...

Em qualquer denúncia contra a polícia ou contra funcionários da FEBEM, a razão sempre esteve com os menores. Exceto agora. Ao denunciar Anderson Marcos Batista, de 25 anos, Lancellotti declarou ter sido extorquido em 50 mil reais.

O padre Júlio Lancelotti falou pela primeira vez, nesta sexta-feira, desde as denúncias de que teria sofrido extorsão de ex-interno da Febem (atual Fundação Casa). Ele negou as acusações de corrupção de menores e do desvio de dinheiro de ONGs para pagar as supostas extorsões. Lancelotti falou a um público de 200 pessoas da paróquia São Miguel, na zona leste de São Paulo, que prestaram solidariedade ao religioso em frente à casa dele.

Falou, mas não convenceu. Para o padre Júlio Lancellotti, os meninos de rua e menores infratores sempre gozaram de fé pública. Em qualquer denúncia contra a polícia ou contra funcionários da FEBEM, a razão sempre esteve com os menores. Exceto agora. Ao denunciar Anderson Marcos Batista, de 25 anos, Lancellotti declarou ter sido extorquido em 50 mil reais. Ao surgirem à tona alguns mimos feitos a seu pupilo, como um Mitsubishi Pajero e outros carros, o padre tentou uma conta de chegar: teria sido extorquido em 80 mil reais. Sua defesa, mais prudente, propõe um elastério maior: 150 mil reais. Batista não deixa por menos: foram cerca de 800 mil reais. Atribui essa benevolência toda a favores sexuais prestados ao padre.

Pela primeira vez na história da imprensa, um egresso da FEBEM deixa de ter razão. Os defensores dos ditos direitos humanos e apoiadores incondicionais do padre desmentem Batista e o acusam de estar tentando lavar dinheiro oriundo do tráfico de drogas. Batista tem um argumento considerável em mãos. Em declarações à polícia, disse poder dar detalhes físicos do corpo do padre.

Quando estourou a affaire – por iniciativa do padre, diga-se de passagem – pensei com meus botões: trata-se de um caso óbvio de chantagem sexual. Homem algum, em sã consciência, vai repassar tal montante de dinheiro a um marginal só porque este marginal o ameaça de denunciá-lo por abuso sexual. Assim sendo, a vida seria bem mais fácil para todos os marginais. A menos, é claro, que o abuso tenha ocorrido. Se abuso houve, é claro que não foi um só. Um sacerdote com a sexualidade à flor da pele, tendo à sua disposição um serralho todo, não iria se contentar com um só concubino. O segundo já surgiu. Chama-se Marcos José de Lima e vive do tráfico.

No ano passado, Lancellotti procurou por duas vezes a polícia para denunciá-lo por chantagem. Em depoimento às autoridades policiais, em setembro passado, Lima disse que sempre recebia dinheiro do sacerdote e que este o ajudava por ter com ele um relacionamento sexual. O montante em dinheiro desta outra chantagem ainda desconhecemos. Se bem conheço os bois com que lavro, outros casos surgirão. Uma testemunha, por enquanto sob sigilo, já declarou ter visto o santo homem aos beijos e abraços com outro menor.

Que temos a ver com a sexualidade deste cidadão? Com a sexualidade do cidadão Lancellotti, a rigor, nada. Homossexualismo é atitude hoje apenas condenada por moralistas psicologicamente perturbados, tipo Olavo de Carvalho ou Julio Severo, que ainda não fizeram as pazes com o próprio sexo. Práticas homossexuais não constituem crime para nosso Código Penal, exceto quando envolvem violência ou menores. O que parece ser o caso. Se assim se for, a sociedade toda tem muito a ver com a sexualidade do cidadão Lancellotti.

Já o padre Lancellotti é um caso à parte. Os sacerdotes católicos contemporâneos parecem ter esquecido que, por ocasião de suas ordenações, fizeram três votos, sendo um deles o de castidade. Um padre, a rigor, não pode sequer masturbar-se. Está pecando contra a castidade. Certo, pecado não é crime. O Código Penal não contempla a figura do pecado. Mas estamos falando de outra instância, a religiosa. De acordo com a doutrina comum dos teólogos, o voto é um ato de culto a Deus. O Código Canônico o define como a promessa deliberada e livre de um bem possível e melhor, feita a Deus – não aos homens – que deve ser cumprida em razão da virtude da religião.

Segundo meu dicionário de Direito Canônico, existe verdadeiro voto quando aquele que o emite é sujeito capaz, com conhecimento suficiente daquilo que promete e liberdade para fazê-lo. É claro que, no momento de sua ordenação, padre Lancellotti dispunha desses requisitos. Igualmente, requer-se que o prometido não seja um simples desejo ou um vago propósito, mas uma promessa que comporte a obrigação de cumpri-la. Não terá sido por vagos propósitos que o vovente Lancellotti emitiu seu voto de castidade. A promessa deve ser feita em honra de Deus, enquanto supremo Senhor de todas as criaturas, quer dizer, que constitua um ato de latria.

Largo meu dicionário e pego meu Código de Direito Canônico, Can. 1191 - § 1. Votum, idest promissio deliberata ac libera Deo facta de bono possibili et meliore, ex virtute religionis impleri debet.

Traduzindo: O voto, isto é, a promessa deliberada e livre de um bem possível e melhor, feita a Deus, deve ser cumprido em razão da virtude da religião.

Ou seja: do ponto de vista penal, nada temos a ver com a vida sexual do padre. Desde que esta sexualidade se exerça com adultos, é claro. Já do ponto de vista canônico, o padre Lancellotti cometeu uma inominável ofensa ao Deus a quem jurou castidade.

As coisas de cama são segredo de quem ama – poetava Carlos Drummond, outro come-quieto, como bom mineiro que era. Fossem as coisas apenas de cama, os feitos de São Lancellotti seriam da órbita exclusiva de canonistas e teólogos. Ocorre que a affaire envolve altas somas de dinheiro, somas às quais o padre não teria acesso com seus magros ganhos. Como lidava com ONGs, fica mais ou menos evidente de onde saiu a grana que tão felizes deve ter feito Batista e Lima. O sigilo fiscal do padre deve ser quebrado e as próximas semanas nos prometem dados no mínimo surpreendentes.

A corrupção, ao que tudo indica, vazou dos corredores do Congresso e agora inunda as naves das catedrais. Como São Lancellotti é militante das esquerdas e apóia incondicionalmente o PT, diversos movimentos ligados ao obscurantismo fazem sua defesa incondicional. Fosse um padre ou militante da Opus Dei o alvo destas acusações, já teria sido jogado à fogueira pela imprensa.

Quarta, 31 Outubro 2007 21:00

Melhor Napalm

As esquerdas são divertidas. Sempre defenderam a bandidagem, alegando que a criminalidade é decorrência da miséria.

As esquerdas são divertidas. Sempre defenderam a bandidagem, alegando que a criminalidade é decorrência da miséria. Quando o governador Sérgio Cabral Filho, do Rio de Janeiro, defende o aborto como método de redução da violência no Estado e diz que a favela da Rocinha, na zona sul, é uma "fábrica de produzir marginal", é um deus-nos-acuda. Cabral apoiou-se no livro Freakonomics, dos americanos Steven Levitt e Stephen J. Dubner, que relacionam a legalização do aborto nos Estados Unidos à queda da criminalidade em áreas pobres, embora ressaltem que essa associação suscita um debate ético.

Segundo o Estado de São Paulo, entidades não-governamentais e moradores de favelas acusaram o governador de criminalizar a miséria e de distorcer o discurso do movimento pró-aborto, que defende a interrupção da gravidez como direito da mulher de ter autonomia sobre seu corpo, não como forma de combate à violência.

"Com essas declarações o governo escancara que defende a criminalização da pobreza. Como o Estado não tem política para incorporar o pobre, melhor que nem nasça. A política é de extermínio", disse Camilla Ribeiro, da ONG Justiça Global. "Para os mais ricos, o Estado se faz protetor; para os mais pobres, predador. Para se justificar, faz uma representação do favelado como o outro, de onde emana todo o mal", afirmou o professor Rodrigo Torquato da Silva, morador da Rocinha há 36 anos.

Segundo Adriana Gragnani, do núcleo de Estudos da Mulher e Relações de Gênero da Universidade de São Paulo, Cabral baseou-se em idéias ultrapassadas, dos anos 60. "Essa tese de diminuir o número de pobres para combater a violência, seja por aborto ou contraceptivos, é antiga. Na verdade você diminui a pobreza elevando o nível de vida da população".

Ora, vamos aos fatos. Nem de longe me ocorre defender a visão das esquerdas, de que a criminalidade é fator decorrente exclusivamente da miséria. Criminosos, os temos em todas as classes sociais, da mesma forma que pessoas honestas às quais jamais ocorreu cometer crimes para levar vida melhor. Mas é óbvio que as favelas são fábricas de marginais. Fabricam marginais a tal ponto que nem a polícia consegue entrar nos morros, a não ser que com muitos homens e armamento pesado. Desde há muito as favelas brasileiras são verdadeiros bantustões, onde estão confinadas populações majoritariamente negras, de modo geral a serviço do tráfico, ou pelo menos como muralha de proteção ao tráfico. Os bantustões foram pseudo-estados criados pelo regime do apartheid na África do Sul, de forma a manter os negros fora dos bairros e terras brancas, mas suficientemente perto delas para servirem de fontes de mão-de-obra barata. No Brasil, esta mão-de-obra inativa foi açambarcada pelo tráfego.

São as classes altas as maiores responsáveis pelo consumo de drogas? Sem dúvida. Mas quem as fornece é a favela. Também é óbvio que a miséria e a prolificidade desvairada favorece a criminalidade. Se uma família pode sustentar uma criança e tem no entanto sete ou oito, é óbvio que a maioria, senão todos, irão para a escola das ruas. Nesta escola não se aprende exatamente etiqueta e bons modos.

Aí surge a televisão como elemento catalisador da violência. A telinha está ao alcance de qualquer marginal e analfabeto e exibe, sem pudor algum, um mundo de sonho, maravilhas tecnológicas, ambientes luxuosos e mulheres sensuais. Que resta ao pobre diabo que perambula pelas ruas senão o ressentimento? O tráfico é uma saída ao alcance de sua mão. Paga melhor do que recebem muitos profissionais liberais e não exige maiores qualificações. É claro que a favela é uma fábrica de delinqüentes.

Desde há muito defendo a idéia de que o luxo e ostentação exibidos pela televisão constitui uma das principais causas da violência no país. A telinha promete o paraíso e o pobre diabo habita no inferno. "Eu também quero", dirá o pobre diabo. Ocorre que ele não tem como comprar. Então mata e rouba.

Que fazer? Censurar a televisão? Nada disso. O que urge - e que a meu ver jamais acontecerá no Brasil - é eliminar a miséria do país. Não digo a pobreza, mas a miséria. Não sou adepto da igualdade social. Os revolucionários de 89 não me consultaram - e nem mesmo consultaram os franceses - quando empunharam como bandeira Liberté, Egalité, Fraternité. Liberdade e fraternidade, tudo bem. Já igualdade são outros quinhentos. Pobres e ricos sempre existirão em todos os países do mundo. O que não pode existir é homens e mulheres, velhos e crianças, jogados à intempérie das ruas, morando em condições mais do que precárias e comendo mal e sem satisfazer o estômago. Gente que se refugia no sono e mesmo com o ruído do tráfego faz força para não acordar. Porque acordar é ter de enfrentar a realidade.

Há um setor da opinião pública que não gosta de ouvir verdades. Um dia antes das declarações de Sérgio Cabral, o secretário da Segurança, José Beltrame, disse que "um tiro em Copacabana é uma coisa e na favela da Coréia é outra". Foi outro deus-nos-acuda. Mas é óbvio que um tiro em Copacabana é uma coisa e na favela é outra. Da mesma forma que o massacre de dez mil pessoas em Darfur é uma coisa e a morte de um soldado em Israel é outra. Como um acidente de metrô com dois ou três feridos em Berlim ou Paris é uma coisa e uma tragédia com ônibus ou trens que mate uma centena de pessoas na Índia ou no Paquistão é outra.

Ao Ocidente, tanto faz como tanto fez que centenas ou milhares de pessoas morram na África ou no Oriente. Já a morte de um soldado em Israel ou um pequeno acidente de metrô na Europa, isto nos toca mais. Nenhum leitor tem dificuldade em admitir estas duas últimas proposições. Difícil é aceitar a primeira. Está muito próxima de nós e deixa transparecer a idéia de que não há tratamento igual para quem vive na favela e para quem vive em Copacabana.

Ora, é claro que não há. Que mais não seja, nas esquinas de Copacabana não há - pelo menos por enquanto - traficantes entrincheirados com armamento bélico de alto calibre à espreita dos policiais. No dia em que houver, e este dia talvez não esteja longe, um tiro em Copacabana será tão banal quanto um tiro na favela. As balas perdidas já estão preparando o clima para os dias futuros.

De fato, o aborto não é a solução. Aborto é meia-sola. Solução seria o planejamento familiar, a contenção da miséria. Mas também é difícil admitir que famílias de classes privilegiadas tenham acesso a aborto seguro, enquanto os pobres estão expostos à sanha de carniceiros. Os católicos são cegos e surdos à esta disparidade, preferem ver mulheres morrendo ou na cadeia em vez de terem direito a um aborto tranqüilo e obviamente se escandalizam quando surge alguém empunhando o óbvio em público.

Enquanto isto, a violência e a miséria são nosso quinhão. A diminuição da natalidade pode até diminuir o tráfico. Mas jamais acabará com o tráfico. O traficante circula no morro como peixe dentro d'água.

Se algum governador quiser acabar definitivamente com o tráfico nas favelas, a meu ver só há uma solução: napalm.

Domingo, 28 Outubro 2007 21:00

E Se Africano Fosse Mais Inteligente?

A África - e particularmente a África muçulmana - vive ainda na era das teocracias, lapidações e ablação de clitóris.

Leio manchete na Folha de São Paulo de quinta-feira passada:

AFRICANO É MENOS INTELIGENTE, DIZ NOBEL

Na linha fina, o redator já toma suas precauções e emite opinião antecipada sobre a notícia, como se o leitor fosse incapaz de julgá-la por si só:

Americano James Watson, co-descobridor da estrutura do DNA, dá declaração de cunho racista a jornal

Vamos à notícia:

Uma entrevista do biólogo James Watson, 79, com declarações racistas anteontem a um jornal britânico atraiu uma enxurrada de críticas de cientistas, sociólogos, políticos e ativistas de direitos humanos. Watson, ganhador do Prêmio Nobel por ter descoberto a estrutura do DNA juntamente com Francis Crick, em 1953, afirmou ao jornal britânico The Sunday Times que africanos são menos inteligentes do que ocidentais e, em razão disso, se declarou pessimista em relação ao futuro da África.

Todas as nossas políticas sociais são baseadas no fato de que a inteligência deles [dos negros] é igual à nossa, apesar de todos os testes dizerem que não”, afirmou o cientista. “Pessoas que já lidaram com empregados negros não acreditam que isso [a igualdade de inteligência] seja verdade”.

A declaração verbal foi apenas um jeito um pouco menos delicado de expor o que ele já havia escrito em seu recém-lançado livro Avoid Boring People (Evite Pessoas Chatas): “Não há razão firme para crer que as capacidades intelectuais de pessoas geograficamente separadas evoluam de maneira idêntica. Nosso desejo de considerar poderes iguais de raciocínio como uma herança universal da humanidade não vai se prestar a isso”.

Tivesse feito esta declaração no Brasil, Watson já estaria processado por crime de racismo. No entanto… olhe para os países africanos… e olhe para os países europeus. Olhe para as cidades esplendorosas do Velho Continente… e para as cidades miseráveis do continente negro. Você jamais encontrará um Mozart ou um Cervantes nas culturas africanas. Mas encontrará às pampas os Idi Amin Dadas e Mobutus Sessos da vida. Na Europa há Estados constituídos. Na África há arremedos de Estado e tribos e guerras tribais. Democracia é flor que viceja na Europa. Não há democracia em países africanos.

A África - e particularmente a África muçulmana - vive ainda na era das teocracias, lapidações e ablação de clitóris. No Ocidente, há muito chegou-se à noção de direitos humanos. Teocracia é obsolescência do passado, lapidação não é admissível como pena e ablação do clitóris é crime. Compare a cultura e a tecnologia produzidas pela Europa, e a cultura e tecnologia produzidas pela África. O óbvio salta aos olhos. É claro que o branco europeu é mais inteligente que o negro africano.

Outra pergunta é se o branco, tout court, é mais inteligente que o negro. Watson não expõem dados que comprovem isto e, em artigo posterior, desautorizou qualquer interpretação genética de suas afirmações. Veio em seu socorro Bruce Lahn, estudioso da relação entre genes e inteligência. Segundo o geneticista da Universidade de Chicago, "não há dúvida" de que genes podem ser ligados à inteligência. Lahn ainda afirma que há estudos mostrando em grupos africanos um desempenho inferior em testes cognitivos como o QI. "É possível que cor de pele e inteligência estejam ligados, mas de maneira indireta e não-causal", disse. Em 2005, publicou artigos no periódico Science defendendo que africanos e leste-asiáticos têm incidência mais baixa de dois genes relacionados à inteligência, o ASPM e o MCPH1.

Em entrevista à Folha, comentando as declarações de Watson, disse:

- Não sei o quanto ele estudou esse assunto. Contudo, a questão sobre se há diferenças biológicas inatas (incluindo as cognitivas) entre grupos raciais e quão grandes elas são tem sido um tópico de estudo legítimo (apesar de sensível) por muitos anos. Há de fato muitos estudos mostrando desempenho inferior de certos grupos (incluindo pessoas de origem africana subsaariana) em relação a outros grupos em testes cognitivos, como o QI. A causa disso está sendo debatida, e algumas pessoas argumentam que há uma base genética nisso, em certa medida. Não estou muito atualizado com a literatura sobre isso, então não quero tomar uma posição sobre o assunto, sobretudo em razão da delicadeza do tema.

Em meus dias de Suécia, observei um caso interessante. Em Lidingö, ilha chique de Estocolmo, conheci dois negrinhos brasileiros, que haviam feito uma ponta em Orfeu Negro, filme de 1959, de Marcel Camus. Eram o que hoje chamaríamos de meninos de rua e o cineasta, sem querer, salvou-os da miséria e da violência. Um casal sueco viu o filme, se comoveu com os meninos e os adotou. Encontrei-os em 71, já com mais de 20 anos, cosmopolitas e poliglotas, falando sueco, inglês e português com aisance, jogando tênis e esquiando. Lembro que um deles cursava economia. O outro, vim reencontrar mais tarde, como alto funcionário da SAS no Rio de Janeiro.

Ou seja, tivessem ficado atirados nas ruas, é óbvio que teríamos prováveis trombadinhas, soldados do tráfico, futuros assassinos. Uma vez acolhidos por uma sociedade que lhes deu educação, oportunidades de trabalho e um futuro, diferiam dos suecos apenas na altura e cor da pele. Resgatados do ambiente miserável, demonstravam a mesma inteligência e cultura dos hiperbóreos Sveas. Pessoalmente, penso que um Mozart até pode ser negro. O que não pode é ser africano.

Volto à questão cultural. Não vemos europeus arriscando suas vidas na travessia do Mediterrâneo, em busca das excelências da cultura negra nem dos Estados construídos pelos africanos. Par contre, há centenas de milhares de negros arriscando suas peles, em precárias pateras, para chegar ao continente cuja cultura foi construída pelos brancos. Imigrante não se engana. Os africanos sabem o que é bem bom.

Mas o óbvio constitui crime para os adeptos do politicamente correto. A título de raciocínio, invertamos a afirmação de Watson. Suponhamos que ele tivesse afirmado, contra todas as evidências:

AFRICANO É MAIS INTELIGENTE

É claro que ninguém acusaria Watson de racismo, nem universidades e instituições estariam cancelando suas palestras. Nem a Folha estaria preocupada em alertar o leitor para o teor da notícia. Talvez lhe propusessem até mesmo um segundo prêmio Nobel.

Quarta, 17 Outubro 2007 21:00

O Antropólogo e os Sinos

Trocando os queijos de bolso, quando leio o antropólogo Roberto da Matta, sinto um certo cheiro de falsa erudição.

Nos sinos antigos - escreveu Pitigrilli - liam-se inscrições deste gênero: "Funera plango, fulgura frango, sabbata pango, excito lentos, dissipo ventos, placo cruentos". Traduzindo: choro os mortos, disperso as tormentas, anuncio as solenidades, estimulo os vagarosos, dissipo os ventos, aplaco os violentos. Ou ainda, em fórmula mais sintética: "Vivos voco, mortuos plango, fulgura frango". Convoco os vivos, choro os mortos, amaino os temporais.

Pitigrilli - não sei se alguém lembra dele - foi coqueluche em meus dias de jovem. Segundo o autor, acreditava-se outrora que, tocando os sinos, as ondas sonoras dispersariam as tempestades. Firmou-se entre as aldeias da Europa a convenção de não tocar os sinos durante os temporais e quando houvesse granizos. Era uma política de boa vizinhança. Quem tiver nuvens sobre seu vinhedo, guarde-as e não as empurre para a povoação vizinha.

Os sinos surgem com os grandes edifícios para o culto, a partir do século V. A primeira referência que temos a sinos ocorre em torno do ano 515, em carta de um diácono de Cartago. Três séculos mais tarde, o papa Estevão II fez edificar, na basílica de São Pedro, um campanário.

Trocando os queijos de bolso, quando leio o antropólogo Roberto da Matta, sinto um certo cheiro de falsa erudição. Em artigo para o Estadão, ela se torna evidente, na crônica intitulada "A cura por Schopenhauer". Escreve o cronista: "O amor é ponte porque, num sentido preciso, ele liga virtudes longínquas, como a esperança; com as próximas, como a caridade. Foi por isso que São Paulo apóstolo falou que de nada vale o sino do melhor metal, se no seu som não há amor. Do mesmo modo, de nada valem leis formalmente perfeitas e que resolvem tudo, se não há juízes, delegados, policiais, advogados e cidadãos para segui-las e honrá-las".

Se da Matta quer justificar a existência do aparelho de Estado, melhor não apelar a metáforas com sinos, pois na Bíblia toda não há referência alguma a sinos. Nem no Velho nem no Novo Testamento. A metalurgia da época não havia chegado a tanto. O mais parecido que encontramos a sinos na Bíblia, são campainhas de ouro, em Êxodo 28,33-35.

Quanto a metal, há apenas duas referências, mas não nas circunstâncias em que o antropólogo cita. A primeira está em Êxodo, 35,24: "Todo aquele que tinha prata ou metal para oferecer, o trazia por oferta alçada ao Senhor; e todo aquele que possuía madeira de acácia, a trazia para qualquer obra do serviço".

A segunda está no Primeiro Coríntios, 13,1: "Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine". Nada a ver portanto com sinos do melhor metal, nem de sons com ou sem amor".

O ilustre antropólogo deve andar lendo bíblias espúrias.

Segunda, 01 Outubro 2007 21:00

Assassino Engana Século

Guevara era o mártir da libertação da América Latina e de todos os oprimidos do mundo. No fundo, não passava de um assassino de gatilho fácil.

Na manhã do dia 09 de outubro de 1967, eu caminhava pela Rua da Praia em Porto Alegre, quando um advogado um tanto alucinado me abordou:

- É ele. Não há dúvidas. Viste os olhos?

Sem me dar tempo de falar, o amalucado seguiu em frente. Eu não havia visto olhos alguns, aliás não havia visto nada. Só entendi o que o angustiado rábula dizia quando vi as manchetes dos jornais. Che Guevara havia sido morto no dia anterior. De lá para cá, foram décadas de culto. A foto feita por Korda, que o assimilava a Cristo, foi certamente o ícone mais cultuado nestas últimas décadas. Em um passe de mágica, por obra de um fotógrafo, o celerado virou santo. E não falo por metáforas. Morto em odor de santidade, o guerrilheiro foi cultuado na Bolívia, como San Ernesto de la Higuera.

Em 18/06/99, escrevi:

"Se este foi o século do comunismo, pelas mesmas razões foi o século do culto aos fracassados. Particularmente nesta América Latina, onde a figura do herói coincide com a dos derrotados pela História. Você quer um manual do fracasso? Leia qualquer uma das dezenas de biografias de Che Guevara. Fracassou em todos os países onde lutou. Só venceu uma batalha: a da instauração em Cuba da mais longa ditadura do continente e do mundo contemporâneo. Teve sorte: morreu em odor de santidade. E até hoje sua efígie - xerox contemporâneo de um Cristo armado - permanece como bandeira e cartilha do subdesenvolvimento".

Leio na edição desta semana de Veja: "exceto na revolução cubana, sua vida foi uma seqüência de fracassos. Como guerrilheiro, foi derrotado no Congo e na Bolívia". Foi necessário transcorrer quatro décadas após a morte de Che, para que um órgão da grande imprensa brasileira titulasse em sua capa:

CHE, A FARSA DO HERÓI

Melhor que nada. Há dez anos, jornal algum no Brasil ousaria assim tratar o santo. Guevara era o mártir da libertação da América Latina e de todos os oprimidos do mundo. No fundo, não passava de um assassino de gatilho fácil. Que iludiu inclusive críticos ferrenhos do marxismo. Entre eles, Ernesto Sábato. Em novembro de 1967, em discurso proferido na Universidade de Paris, Sábato via no guerrilheiro o homem que encontrou a morte combatendo não somente pela elevação do nível de vida dos povos miseráveis, mas também por um ideal mais valioso, pelo ideal de um Homem Novo:

"Assim acabou a vida do comandante Guevara. Indefeso, após sofrer horas intermináveis com muitas balas em seu corpo enfermo, sem médico, com a asma que agravava de modo insuportável sua dor. Houve um latino-americano suficientemente covarde para aproximar-se daquele corpo dorido, com a suficiente coragem para sacar o revólver diante de seus olhos, dirigi-lo ao coração e disparar esse balaço miseravelmente histórico. Jamais saberemos o que disse Ernesto Guevara nesses momentos, mas podemos imaginar que seu olhar foi muito triste. Não por sua esperada morte, mas pelo fato de ter-lhe sido dada de tal forma e por um boliviano. Não por um ranger dos Estados Unidos, mas por alguém que de certa forma era seu próprio irmão".

Mais tarde, em Abadón, o Exterminador, o escritor argentino faz a hagiologia de seu conterrâneo, desenvolvendo a saga do Che, através do personagem Palito, suposto companheiro de armas do guerrilheiro. Sábato mescla história e ficção. Boa parte de seu relato está baseado no diário de campanha de Inti Peredo. Em carta de despedida a Fidel, diz Guevara:

"Outras terras do mundo reclamam o concurso de meus modestos esforços. Posso fazer o que te está negado por tua responsabilidade à frente de Cuba e chegou a hora de separarmo-nos. Deixo aqui o mais puro de minhas esperanças de construtor e o mais querido entre meus seres queridos. Libero Cuba de qualquer responsabilidade, salvo a que emana de seu exemplo. Se a hora definitiva me chegar sob outros céus, meu último pensamento será para ti, Fidel".

Comovente. Pelo menos para quem desconhece História. Abadon traz ainda a transcrição de um outro trecho de carta, esta endereçada a seus pais, que evidencia o caráter romântico e quixotesco do empreendimento do guerrilheiro:

"Queridos velhos: sinto outra vez sob meus talões o costilhar do Rocinante, volto à estrada com minha adarga no braço. Há coisa de dez anos, escrevi-lhes outra carta de despedida. Segundo recordo, lamentava-me de não ser melhor soldado e melhor médico. O segundo já não interessa, médico não sou dos piores... Pode ser que esta seja a definitiva. Não a busco, mas está dentro do cálculo lógico. Se é assim, vai um último abraço. Sempre os quis muito, só que não soube expressar meu carinho. Sou extremamente rígido em minhas ações e creio que às vezes não me entenderam. Por outro lado, não era fácil entender-me. Creiam-me, pelo menos hoje".

A evocação de Palito, no romance de Sábato, mostra um homem que acredita mais no moral e na disciplina que no poder das armas. Um guerrilheiro deve manter a decisão de combater seus ideais até a morte. Esta disciplina não é a dos quartéis, mas a de "homens que sabem pelo que lutam e que sabem que isso é grande e justo". À noite, segundo o relato de Palito, Che dava um curso de francês:

"Não é uma questão de dar tiros, dizia, só de dar tiros. Algum dia vocês terão de ser dirigentes, se triunfarmos nesta guerrilha. O dirigente, dizia, tem de ter não só coragem, tem que se desenvolver ideologicamente, tem de ser capaz de análises rápidas e de decisões justas, tem de ser capaz de fidelidade e disciplina. Mas, principalmente, dizia, tem de constituir o exemplo de homem que queremos em uma sociedade justa".

Palito confessa não compreender muito bem o que Che queria dizer "homem novo". Deduzia que deveria ser mais ou menos como o Che: "com espírito de sacrifício pelos outros, com coragem e ao mesmo com compaixão e..." O companheiro de armas de Guevara hesita. Mas acaba fazendo uma descrição quase evangélica do Che:

"Dizia que não se podia lutar por um mundo melhor sem isso, sem amor pelo homem e que isso era uma causa sagrada, não uma simples questão de palavras, que a cada dia, a cada hora, tinha-se de prová-lo. Muitas vezes o vimos tratar sem rancor soldados que pouco antes haviam atirado para matar, como curava suas feridas, mesmo gastando os medicamentos que para nós eram escassos".

Em suma, um santo. Hoje, sabemos que era um assassino frio. Sábato, ex-comunista que denunciou com vigor o comunismo e o stalinismo, tinha profunda admiração pelo assassino... comunista. Chegou inclusive a trocar afável correspondência com Guevara. Em entrevista que me concedeu em sua casa em Santos Lugares, disse Sábato:

- Devo esclarecer, no entanto, algo que para mim é importante: sempre respeitei os comunistas que, por sua candidez ou sólida fé acreditaram no regime soviético, os que sofreram prisão e torturas, os que lutaram com boa fé por seus ideais. Por isso - fato que enalteci em dois de meus livros - admiro e continuo admirando Che Guevara, que foi acima de tudo e de seu marxismo, um grande idealista, um personagem quixotesco que, como diria Rilke, teve sua morte pessoal na selva boliviana, após ter abandonado a burocracia cubana. Um herói, e sempre temos de nos erguermos ante um herói que morre por ideais.

Esta imagem difundida por Sábato difere um pouco do guerrilheiro que, em janeiro de 1957, escrevia à sua mulher: "Estou na selva cubana, vivo e sedento de sangue". Também difere do homem que, em 11 de dezembro de 1964, disse na assembléia-geral da ONU: "Fuzilamos e seguiremos fuzilando enquanto for necessário. Nossa luta é uma luta até a morte". Em maior de 1967, na revista cubana Tricontinental, Che escrevia: "O ódio intransigente ao inimigo converte o combatente em uma efetiva, seletiva e fria máquina de matar. Nossos soldados têm de ser assim".

Se o celerado argentino conseguiu enganar um escritor lúcido, não é de espantar que tenha enganado gerações e gerações de basbaques durante décadas. E ainda continuará enganando. O frio assassino não enganou apenas Sábato, mas o século todo. Foi preciso que o Muro fosse derrubado, que a União Soviética desmoronasse, que o socialismo fosse desmoralizado internacionalmente como regime, foi preciso que ainda decorressem quase duas décadas mais para que jornalistas e escritores ruminassem a idéia do fracasso rotundo do marxismo, para que Veja produzisse a capa desta semana.

Antes tarde do que nunca. A impressão que fica é que, quarenta anos após sua morte, Che acaba de morrer de novo. Pelo menos para os desavisados.

Segunda, 24 Setembro 2007 21:00

Stalin Vive

Temos dezenas de filmes sobre os campos de concentração nazistas, sobre as matanças de Hitler. Não tenho lembrança de filme algum sobre os gulags soviéticos ou demais massacres stanilistas.

Em abril de 1940, na floresta de Katyn, perto de Smolensk, 22 500 oficiais poloneses foram executados pela NKVD russa, por ordem de Beria - avalizada por Stalin - com uma bala na nuca, e enterrados em vala comum. A carnificina foi descoberta pelas tropas alemãs, por ocasião de sua incursão em território russo, após a ruptura do pacto Stalin-Von Ribbentrop, em 1941. Durante quarenta anos, o massacre de Katyn foi atribuído pela propaganda comunista às tropas alemãs. O Ocidente conhecia muito bem a autoria do massacre, mas se manteve silente para não envenenar suas relações com a União soviética.

Foi preciso esperar abril de 1990, meio ano após a queda do muro de Berlim, para que o presidente Mikhaïl Gorbatchev reconhecesse a responsabilidade da URSS. Mesmo assim, até hoje a Rússia não aceita esta responsabilidade. Em 2004, após 14 anos de investigações, os tribunais militares russos arquivaram o dossiê de Katyn, alegando que se tratava de um crime comum, e portanto prescrito.

Temos dezenas de filmes sobre os campos de concentração nazistas, sobre as matanças de Hitler. Não tenho lembrança de filme algum sobre os gulags soviéticos ou demais massacres stanilistas. Isso que roteiro é o que não falta. Já está inclusive escrito, é o Arquipélago Gulag, de Soljenítsin. E de 1940 para cá, nenhum Spielberg da vida pensou, por exemplo, em narrar o massacre de Katyn.

Esta missão coube ao cineasta polonês Andrzej Wajda, que já nos deu filmes como Cinzas e Diamantes e O Homem de Ferro, et pour cause: seu pai era capitão do Exército polonês e foi assassinado na mesma época pelos soviéticos, na floresta de Miednoïé, crime que foi associado ao massacre de Katyn. É o que leio no Libération. O filme foi exibido em pré-estréia na segunda-feira passada na Ópera de Varsóvia.

Curiosamente, o filme não deixa de trazer embutida uma acusação ao próprio Wajda. Segundo o jornal francês, adivinha-se o jovem Wajda no personagem do jovem resistente que, no final da Guerra, vem a Cracóvia para estudar Belas Artes. Como o pai de Wajda, o pai do jovem resistente foi morto em Katyn. Mas ele recusa-se a renegá-lo em seu currículo, como muitos outros fizeram para evitar aborrecimentos sob a ocupação soviética. O jovem morre.

Na estréia do filme, um espectador perguntou ao cineasta:

- Com Katyn, você deixa entender que se você não tivesse mentido sobre a morte de seu pai, você não teria podido cursar Belas Artes nem o curso de cinema e que a escola polonesa de cinema não teria surgido.

Wajda, que tem 82 anos, se defende:

- Eu confessarei meus próprios pecados diante de um outro auditório e certamente muito em breve. Cada um milita à sua maneira.

Os críticos brasileiros, que acorrem céleres aos Estados Unidos para promover abacaxis americanos, pelo jeito até agora não tomaram conhecimento do filme de Wajda.

Já que falei em Katyn...

Estou lendo a edição da revista francesa L’Express desta semana, que tem Joseph Vissarionovitch Djugatchivili como chamada de capa. Ocorre que a Rússia de Putin está ressuscitando Stalin, como era mais conhecido o ex-seminarista. Entendo que alguns velhotes caquéticos como Niemeyer e Ariano Suassuna ainda cultuem no Brasil o Paisinho dos Povos. São homens que fizeram suas carreiras montados no stalinismo e não podemos esperar que tais pessoas, ao final da vida, reneguem suas próprias biografias. Entende-se também que uma juventude desinformada – que nada conhece de História e é bombardeada por bibliografias marxistas – possa ter algum apreço pelo grande assassino. Afinal os gulags de Stalin não afetaram brasileiros, nem vivemos sob o tacão de suas botas.

Mais difícil é entender que os russos voltem a cultuar o tirano. O Livro Negro do Comunismo, de Stéphane Courtois et allia, credita a Stalin a morte de 20 milhões de pessoas, e a maioria destas vítimas eram russos. Só Mao conseguiu matar mais que Stalin: 65 milhões, segundo os autores. Os dois maiores matadores de comunistas da História foram... os líderes comunistas Mao e Stalin. Nem Hitler conseguiu matar tantos.

Vamos aos relatos de L’Express. Por encomenda do Kremlin, isto é, de Vladimir Putin, foi publicada em Moscou uma História Contemporânea da Rússia, 1945-2006, onde se pode ler afirmações das mais significativas. Diz o breviário que a União Soviética era “não uma democracia, mas um exemplo de sociedade justa”. Que Stalin foi o dirigente soviético cuja obra foi “a mais bem-sucedida”, por ter transformado a URSS em uma potência industrial e tê-la conduzido à vitória de 1945. Quanto à repressão política que fez milhares de vítimas, ela teria sido utilizada com o único objetivo de “mobilizar não só somente a base, mas a elite dirigente”.

Ano passado, um museu Stalin, financiado por um homem de negócios, abriu suas portas em meio ao complexo oficial que comemora a batalha de Stalingrado. Sem que o Kremlin dissesse qualquer coisa contra. Tampouco disse nada contra a reaparição de bustos e estátuas de Stalin em diversas regiões do país. A rede televisão NTV difundiu este ano uma série em 40 episódios, intitulada Stalin Live, mostrando o tirano em vias de arrepender-se nos últimos meses de sua vida. “Há uma demanda que vem de baixo, endereçada ao poder em favor de uma revisão da História” – diz Alexandr Daniel, filho do antigo dissidente Youli Daniel -. “O poder responde na medida em que isto serve seus próprios propósitos. Não sei onde isto vai parar”.

Nessa altura dos acontecimentos, já há ensaístas que se sentem à vontade para negar o que não pode mais ser negado. Um certo Youri Moukhine, por exemplo, afirma que o massacre de Katyn foi cometido pelos nazistas, e não pela União Soviética. Apesar de Boris Yeltsin ter confirmado, em 1992, ao presidente polonês Lech Walesa, que a ordem viera de Stalin.

L’Express entrevista o escritor e ex-diplomata Vladimir Fédorovski, autor de Le Fantôme de Staline. Fédorovski dá um novo enfoque às denúncias do stalinismo feitas por Kruschev em 1956:

- O objetivo do XX Congresso do PCUS, apresentado como o que desestalinou a União Soviética, em 1956, não era uma verdadeira desestalinização. Seus instigadores visavam desculpar Lênin e fazer perdurar o sistema, culpabilizando Stalin e sua sua alma danada, Beria. A astúcia de Kruschev consistiu em organizar um branqeamento do sistema, a instituir um novo culto, uma religião pagã onde os papéis eram distribuídos por antecipação. Lênin se tornava um deus eterno, Stalin o deus decaído, mas tudo permanecia no lugar: o KGB representava a Inquisição, o Partido era a ordem religiosa portadora das espadas, às quais se ajuntavam os ícones, as peregrinações ao mausoléu, etc.

Interrogado sobre o porquê da reabilitação de Stalin, diz Fédorovski:

- O personagem de Stalin é a chave do funcionamento da Rússia atual. Mais de 30 museus lhe foram consagrados, na Rússia, nos últimos três anos. Vladimir Putin o cita em seus discursos e mesmo os jovens são atraídos por sua imagem. Putin toma emprestado de Stalin o tema da Rússia, “citadela sitiada”, o governo pelo medo, a nomenklatura renovada e sobretudo o recurso a um passado inventado. A diferença entre eles é que Stalin evocava um personagem de Shakespeare, enquanto que Putin faz faz pensar no Spectre, dos filmes de James Bond.

Regozijem-se as esquerdas brasileiras, os PTs e PSOLs da vida, os Zés Dirceus e Tarsos Genros, os Niemeyers e Suassunas. Nem tudo está perdido. O Mestre ressuscita de entre os mortos. Hosanas a Putin, o anunciador da Boa Nova. Voltem-se os olhos dos crentes à antiga Nova Jerusalém. O Paisinho dos Povos vive. Aleluia! Aleluia! Aleluia!

Terça, 18 Setembro 2007 21:00

Voi Che Entrate

Ao que tudo indica, a decisão do STF de indiciar 40 quadrilheiros ligados ao PT andou insuflando esperanças em certos setores ingênuos do país, que acharam que agora sim era chegada a hora de moralizar o Brasil.

Ao que tudo indica, a decisão do STF de indiciar 40 quadrilheiros ligados ao PT andou insuflando esperanças em certos setores ingênuos do país, que acharam que agora sim era chegada a hora de moralizar o Brasil. Ora, a decisão do STF é inócua. Apenas indicia. Os insignes magistrados fizeram pose de machos, sabendo muito bem que todos os indiciados serão absolvidos. Alguns por prescrição dos crimes, outros por manobras protelatórias de direito adjetivo. Talvez recebam penas mínimas alguns bagrinhos, tipo gerentes de bancos, que poderão ser cumpridas com o pagamento de cestas básicas ou coisa parecida. Ninguém acredita, em sã consciência, que o mentor da quadrilha toda, José Dirceu, vá ver um dia o sol quadrado. Muito menos il capo di tutti capi.

Com a absolvição do presidente do Congresso Nacional, Renan Calheiros, houve um surto de mensagens na Web, falando da vergonha de ser brasileiro. Ora, tinha alguém alguma esperança na condenação do calhorda Calheiros? Se fosse condenado, o efeito seria pior: o Senado posaria de virtuoso enquanto continuaria abrigando uma outra boa metade de calhordas. Em meio a esse desalento de certas almas virtuosas, me sinto contente com o resultado do conclave. Sim, pois foi um conclave, no melhor estilo vaticano, com todo o sigilo e intrigas típicas das velhas raposas romanas. Só faltou a fumacinha branca. Me sinto contente porque assim o Senado mostra ao que vem. Não passa de uma máfia de corruptos, sempre disposta a absolver o capo flagrado com a boca na botija.

O que vigiu, nesta votação, foi a lei da omertà, típica da Máfia, da 'Ndrangheta e da Camorra. Em outras palavras, nunca colaborar com a lei, o voto de silêncio entre mafiosos. Caso a omertà seja violada, a punição, em geral, é a morte. No caso, a morte política. Renan fez ameaças explícitas às vestais Pedro Simon, Jefferson Peres e Heloísa Helena, tidas como de oposição. Suas ameaças não serão desprovidas de fundamentos e explicam em parte o veredito do Congresso. A outra parte deve ser atribuída aos covardes senadores do PT, que mesmo com voto secreto se abstiveram de votar, como se esta abstenção os redimisse da conivência com a corrupção.

Vergonha de ser brasileiro, não tenho e nunca tive. Brasil não é só esse bordel chamado Congresso Nacional. Deixei de votar há mais de vinte anos e não posso dizer que me sinto traído por meus representantes porque desde há muito não os tenho. Mas também não tenho orgulho algum de ser brasileiro. Não vejo maiores razões para orgulhar-me deste país. Assim sendo, não estou em nada decepcionado pela absolvição de Calheiros. Era bastante previsível.

É curioso observar que esta gente que hoje diz ter vergonha de ser brasileira, nunca manifestou sentir vergonha quando elegeu – e reelegeu – um analfabeto conivente com a corrupção para a Presidência do país.

Agora é tarde! Nas próximas semanas, será votada a prorrogação da CPMF. Se a absolvição do calhorda Calheiros tivesse o efeito de extinguir esta extorsão, bem-vinda seria. Mas não terá. As ditas oposições votarão de novo bonitinho com o governo. José Serra e Aécio Neves, potenciais candidatos da oposição ao governo, já se manifestaram a favor do imposto infame. Também, pudera! Quem criou a CPMF foi o PSDB. PSDB e PT, mesmo combate.

Você ainda tem esperanças com o Brasil? Eu as perdi desde há muito e há muito não me escandalizo. Remember Dante: lasciate ogni speranza, voi che entrate!

Quarta, 12 Setembro 2007 21:00

Bento XVI Se Pretende Senhor dos Domingos

Esta arrogância do Cristo parece ter contaminado todos os papas. Quando falam, não se dirigem apenas a seus seguidores. Falam urbi et orbi, isto é, à cidade (Roma) e ao mundo.

Quem me acompanha já terá ouvido falar de Celso, o nobre romano autor de A Verdadeira Natureza, obra que foi queimada pela Igreja e cujos fragmentos só chegaram até nós graças à contestação de Orígenes, em Contra Celso. Era costume, na época, ao se contestar uma obra, retomar os argumentos do autor. Não fosse o zelo de Orígenes, nada nos teria restado do primeiro adversário pagão do cristianismo. Uma entre as muitas coisas que os romanos da época não conseguiram entender no cristianismo é que o novo deus não pertencia a nenhum Estado. Roma tinha seus deuses, Atenas também. Israel tinha Jeová. Mas a que Estado pertencia o Cristo? Aparentemente, a nenhum. Não bastasse isso, queria impor-se a todos os demais deuses.

Esta arrogância do Cristo parece ter contaminado todos os papas. Quando falam, não se dirigem apenas a seus seguidores. Falam urbi et orbi, isto é, à cidade (Roma) e ao mundo. Este é o tom da homilia proferida hoje em Viena por Bento XVI, na qual o papa condena a sociedade ocidental por ter transformado o domingo, o dia do Senhor, em fim de semana. Segundo o pontífice, embora o tempo livre seja necessário, "se não tiver um centro, que é o encontro com Deus, acaba sendo um tempo perdido".

Claro que Bento fala de seu deus, o velho Jeová, que faz um só com o Cristo e o Paráclito. Isolado na torre de marfim do Vaticano, cercado por seus áulicos, Ratzinger parece ignorar - ou finge ignorar, pois certamente não ignora - que na Áustria existem milhares de judeus, que têm o sábado como dia santo. Mais milhares de muçulmanos, que celebram seu deus na sexta-feira. Isso sem falar em milhões de pessoas, que podem até crer vagamente em um deus, mas que não abrem mão do ócio aos domigos. Ao assim pronunciar-se, Ratzinger desrespeita uma sociedade laica, que faz do domingo o que bem entender.

O domingo como dia de repouso foi instituído no ano 321 por Constantino. Imperador pagão, teria se convertido ao cristianismo - segundo Paul Veyne - porque a um grande imperador era necessário uma grande religião. “Ora, face aos deuses pagãos, o cristianismo, embora seita minoritária, era a religião de vanguarda que não se parecia a nada conhecido”. Ao instituir o domingo como dia de repouso, conseguiu agradar os cristãos sem irritar os pagãos. A doutrina astrológica da época ensinava que cada dia estava sob o signo de um planeta. Como havia sete planetas (entre estes, o sol) chegou-se a um ritmo de sete dias. Domingo era o dies solis, dia do sol.

Por outro lado, sempre segundo Veyne - estou citando Quand notre monde est devenu chrétien - uma antiga instituição romana era o justitium: se, em determinado ano, ocorria qualquer acontecimento (declaração de guerra, morte de um membro da família imperial, funerais públicos de um notável), os poderes públicos decretavam um justitium, uma jornada durante a qual toda atividade estatal ou judiciária era suspendida. Constantino decidiu então que dali para a frente haveria um justitium perpétuo no dies solis, cujo nome era conhecido de todos, pagãos e cristãos. Em função deste decreto imperial do século IV, até hoje há restrições ao trabalho nos domingos nos países de predominância católica. Em Viena, boa parte das lojas não têm permissão para funcionar no domingo. Os grupos de negócios que lutam por esse direito são combatidos pelos católicos.

Como Cristo havia ressuscitado no sétimo dia do calendário judaico e os cristãos faziam suas assembléias no último dia da semana para celebrar a Eucaristia, o dia do sol se tornou então, para os cristãos, o dia do Senhor. Com o tempo, os domingos se tornaram tediosos. Para que a multidão fosse escutar os sermões, as corridas de carro e os espetáculos teatrais foram proibidos nos domingos.

As sociedades ocidentais, segundo o papa, transformaram o domingo em dia de atividades de lazer e ofuscaram o significado católico tradicional do dia, devotar tempo a Deus. Bento esquece - ou melhor, omite - que o dia do Sol foi roubado aos pagãos e transformado em dia do Senhor. A Igreja sempre foi useira e vezeira em cobrir festas pagãs com seus rituais.

Será certamente decorrência de viver numa torre de marfim o que leva o papa a dizer isto logo em Viena, cidade em que os católicos estão abandonando as igrejas, e quando as freqüentam vão mais para assistir a seus magníficos corais do que para prestar culto a deus.

Bento se pretende o senhor dos domingos. Ora, vivemos em sociedades laicas, onde fazemos dos domingos o que bem entendemos. Se alguns os dedicam a louvar um deus, a maioria os consagra à bonaxira, ao ócio, ao teatro e cinema, ao vinho, cerveja ou futebol. Que o papa fale a seu rebanho, entende-se. O que é insuportável no vice-deus é sua mania de achar que a humanidade toda deve render homenagens ao deus católico.

Segunda, 10 Setembro 2007 21:00

Hematófago Profissional Toma Posse no STF

No que a mim diz respeito, me inquieta a idéia de termos um hematófago profissional, que crê em mães virgens e em três deuses em um só, na suprema Corte do país.

Que o Supremo Apedeuta tenha afirmado sábado último, em discurso no 3º Congresso do PT, em São Paulo, que o PT é o mais ético de todos os partidos e que a legenda deve aprofundar o debate sobre uma candidatura própria em 2010, se entende. Mentiu toda sua vida, foi eleito em função de suas mentiras. Como em todo militante de esquerda, nele a mentira se tornou uma segunda natureza, e esta segunda natureza o reelegeu. "Ninguém tem mais ética e moral do que o PT", declarou com dedo em riste, sendo aplaudido pelos militantes. Se mentiu a vida toda e sempre deu certo, por que não continuar mentindo? De repente, rende até mesmo um terceiro mandato.

O Supremo Apedeuta falou também que houve "erros". O PT jamais comete crimes, apenas erros. Para Tarso Genro, atual ministro da Justiça, os marxistas não cometeram crimes, mas apenas desvios. "É verdade que podemos ter cometido erros" - disse o Apedeuta-Mór, mesmo após o STF ter aceito todas as denúncias por crimes de três de seus ministros, da cúpula do PT e de mais outros tantos bagrinhos - "e os erros cometidos estão sendo apurados como precisam ser apurados, mas ninguém nesse país tem mais autoridade moral, ética e política que o nosso partido".

Que um analfabeto que mente diga isto é perfeitamente previsível. Imprevisível é ver um letrado dizendo bobagens, só admissíveis em um Lula. Falo do celebrado novo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Alberto Direito. Em entrevista na Folha de São Paulo deste domingo, o novel ministro, que se define como católico, é interrogado sobre a utilização de células-tronco de embriões humanos em pesquisas e a interrupção da gravidez nos casos de anencefalia.

"Talvez não exista lei específica sobre esta matéria" - disse Direito -. "Então se está trabalhando com interpretações. Teria eu o direito de ter vergonha ou de pedir desculpas pela minha fé católica? Será que um país como o nosso, tão bonito, com gente tão alegre, será que eu não tenho o direito de ter a minha fé católica?"

Em primeiro lugar, um ministro do STF não pode dizer "talvez não exista lei específica sobre esta matéria". Ou ele sabe se tem lei específica, ou não sabe e não tem condições de ser ministro de uma suprema Corte. Em segundo lugar, "um país como o nosso, tão bonito, com gente tão alegre" não tem nada a ver com o direito de ser ou não ser católico. O país poderia ser feio e triste e o ministro continuaria a ter o sagrado direito de ser católico. A falácia capenga de Direito é uma ofensa a quem quer que entenda - já não digo lógica - mas pelo menos o português.

"Sou uma pessoa que tem muita fé" - diz Direito -. "Agora, nunca a minha interferiu nos meus julgamentos. Pelo contrário, ela sempre os iluminou, alguns extremamente inovadores, do ponto de vista humano". O ministro está competindo entusiasticamente com Lula na arte de dizer uma coisa e desdizê-la na frase seguinte. Se a fé iluminou seus julgamentos é porque neles interferiu, ora bolas.

Não sei se o ministro sabe, e se não souber não me espanta, porque não passa dia em que eu não encontre católicos que nada entendem de sua fé. Mas se o ministro é católico, terá de crer que um homem nasceu de uma virgem, que não só era virgem quando o concebeu, como continuou sendo virgem após o parto. Fenômeno que, pelo que me consta, costuma ocorrer em certos pulgões da lavoura. Não bastasse isso, ao final de sua vida, subiu aos céus em carne e osso e por lá ainda hoje estará, em lugar incerto e não sabido. Terá também de crer que o tal de deus é três em um. Isto é, existe o Pai, o Filho e o Paráclito, mas tanto o Pai como o Filho como o Paráclito são deus ao mesmo tempo. Terá de crer que o Filho, como a mãe, também subiu aos céus, deixando apenas o prepúcio na Terra, já que era judeu. Terá também de crer que, quando comunga, não come o pão como um símbolo do corpo do Filho. Mas come literalmente a carne do Filho. E que quando o sacerdote bebe o vinho consagrado, não está bebendo um símbolo do sangue de Cristo, mas o próprio sangue do Cristo.

Ou o ministro admite que é um hematófago profissional, ou não é católico. No que a mim diz respeito, me inquieta a idéia de termos um hematófago profissional, que crê em mães virgens e em três deuses em um só, na suprema Corte do país. Se esta é a fé que ilumina seus julgamentos, protegei-nos, Senhor!

Sábado, 01 Setembro 2007 21:00

Há 435 Anos, A Noite de São Bartolomeu

Embora os historiadores não tenham chegado a nenhuma conclusão sobre a autoria intelectual do crime, o fato é que o atentado desfechou um dos episódios mais sangrentos da história das guerras de religiões.

Neste 24 de agosto passado, uma leitora me pediu um comentário sobre a noite de São Bartolomeu, episódio sangrento desfechado nesta data, em Paris, em 1572, durante o reinado de Charles IX, quando os protestantes franceses, chamados huguenotes, começaram a ser massacrados pela realeza católica. Le voilà!

Os ânimos estavam envenenados na Paris daqueles dias. Os três últimos anos haviam sido marcados por guerras civis entre católicos e protestantes, que tiveram fim com o tratado de Saint-Germain. Os católicos mais intransigentes, no entanto, não aceitavam esta paz. O almirante Gaspard de Coligny, líder huguenote, foi admitido no Conselho Real. Os católicos ficaram chocados com o retorno dos protestantes à corte francesa. Para ratificar a paz entre as duas facções religiosas, Catherine de Médicis, a rainha-mãe, quer casar sua filha Marguerite de Vallois com o príncipe protestante Henri de Navarra, futuro Henri IV. O casamento foi marcado para o 18 de agosto e não foi aceito pelos católicos nem pelo papa Gregório XIII. O rei da Espanha, Felipe II, também condenava o casamento real.

Não tendo o acordo papal para o casamento, Catherine de Médicis teve de convencer o o cardeal de Bourbon para celebrar a união. Os parisienses, católicos ao extremo, não gostaram do grande afluxo de nobres protestantes que vieram para o casamento. A união de uma princesa francesa com um protestante lhes soava como blasfêmia. O Parlamento francês ignorou as bodas. A alta dos preços e o luxo das núpcias reais revoltaram os franceses.

Mas o estopim do massacre ocorreu no dia 22 de agosto, quando um atentado contra Coligny o deixou ferido no braço e na mão. Segundo o Histoire et Dictionnaire des Guerres de Religion (Arlette Jouanna et allia, Paris, Robert Laffont, 1998), o autor teria sido Charles de Louvier, sieur de Maurevert, que já tinha em sua folha corrida o assassinato, em 1569, de Artus de Mouy, um seguidor de Coligny. Até hoje não se sabe quem encomendou o crime. Alguns historiadores falam de Catherine de Médicis. Mas é pouco provável que ela tenha pretendido destruir a obra de reconciliação empreendida desde 1570 e selada pelo casamento de sua filha com o príncipe de Navarra. Há quem aponte o clã dos Guise, que suspeitavam ser Coligny o responsável pelo assassinato de François de Guise. Ou seja, seria uma questão de vendeta. Outros falam de uma pista espanhola. Felipe II e o duque de Alba jamais teriam escondido seu desejo de ver Coligny morto. Sua eliminação portaria um golpe fatal ao projeto de intervenção nos Países Baixos.

Embora os historiadores não tenham chegado a nenhuma conclusão sobre a autoria intelectual do crime, o fato é que o atentado desfechou um dos episódios mais sangrentos da história das guerras de religiões. O atentado contra Coligny lembra um outro atentado crucial, em 1936, quando o assassinato de Calvo Sotelo deu o sinal para o desfecho da Guerra Civil Espanhola, que deixou um saldo estimado em um milhão de cadáveres.

Charles IX tenta amenizar o clima de guerra civil, visitando Coligny em seu leito no dia seguinte ao atentado e lhe prometendo justiça. Diante do recuo do rei ante os protestantes, os Guise ameaçam abandonar a capital deixando o rei e a rainha-mãe ao desamparo. Durante o almoço da rainha, os protestantes vieram reclamar justiça. No mesmo dia, Catherine teria tido uma reunião nas Tuilleries com seus conselheiros, após o que foi ver o rei e comunicou-lhe a existência de um complô protestante.

Charles IX decidiu eliminar os chefes protestantes, sem que sua mãe lhe trouxesse maiores provas do complô. O rei teria sofrido pressões do papa Gregório XIII e se resignou “a comprar a paz com a Espanha e com Paris ao preço da vida de Coligny e de seus principais lugares-tenentes”. Poupou os príncipes de sangue, Henri de Navarra e o príncipe de Condé. Segundo alguns, teria explodido ante os conselhos de sua mãe: “Que assim seja. Que os matem. Mas que matem todos. Que não reste um só para que eu não seja acusado”.

Em verdade, o rei pretendia eliminar um número limitado de líderes huguenotes. O que não havia previsto, segundo os autores do Histoire et Dictionnaire des Guerres de Religion, é que a execução limitada dos chefes daria o sinal de um massacre em massa, que em Paris durou até o 29 de agosto, com um paroxismo de violência durante os primeiros três dias.

No dia 24 começaram as matanças em Paris. As portas da cidade foram fechadas. O sinal para o início dos massacres foi dado por um sino da igreja Saint-Germain-l’Auxerrois, próxima ao Louvre. Os nobres protestantes foram expulsos do palácio do Louvre e depois assassinados nas ruas. Na madrugada, o duque de Guise vai com uma tropa à residência do almirante Coligny. Alguns de seus companheiros são mortos ali mesmo, outros escapam pelo teto. Coligny foi atacado por um cigano ao serviço do duque. Olhando seu assassino, teria suspirado: “Se ao menos algum homem e não este bruto me fizesse morrer”. Seu cadáver foi então jogado pela janela e caiu aos pés de Henri de Guise e de Henri d’Angoulème, que o identificaram. O povo se encarniçou sobre o cadáver, que foi mutilado, castrado, arrastado pela lama, jogado no Sena e depois repescado e finalmente pendurado na forca de Montfaucon, sob a qual foi acendida uma fogueira. O massacre durou vários dias. Estudantes estrangeiros, livreiros e operadores de câmbio foram massacrados pelo povo, encorajado pelos padres. Os cadáveres foram jogados no Sena.

Os assassinatos de huguenotes se espalharam pelo interior da França, por uma quinzena de cidades ardentemente católicas, entre elas Toulouse, Bordeaux, Angers, Saumur, Lyon, Meaux, Bourges, Rouen e Orléans. Mil a mil e quinhentos protestantes foram degolados e jogados na Loire. Segundo o Dictionnaire, estas matanças provinciais revelam nos que as praticaram a convicção de cumprir uma obra de Deus, purificando suas cidades da heresia que as maculava. Mas particularmente no Sul, elas revelavam também lutas intestinas pelo controle do poder urbano. No total, na França, os São Bartolomeus fizeram talvez dez mil vítimas. A violência desfechada contra os huguenotes levou muitos, nas cidades mais hostis, a abjurar. Em Rouen, três mil se converteram à Igreja Católica. Em Orléans, as abjurações coletivas foram feitas ante as ridicularizações da multidão católica reunida. Outros preferiram exilar-se. No Oeste e Sul da França, a indignação estimulou a vontade de lutar. De sua tomada de armas, surgirá a Quarta Guerra Civil (outubro 1572 - julho 1573).

Há quem fale de 70 mil a cem mil mortos. Segundo relatos, os cadáveres boiaram nos rios durante meses, de modo que ninguém comia peixe. Quem ficou muito feliz com o massacre foi o papa Gregório XIII, que cunhou uma medalha comemorativa da data e encarregou Giorgio Vasari de pintar um mural celebrando o massacre.

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